quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Como recolher o leite derramado?



 

“Tinha a impressão de que todo mundo estava me vendo e, também, uma sensação esquisita de vergonha. De ser culpado, uma bosta, a quem faltava qualquer coisa, feito formiga mijada ou bala de metralhadora que não acerta o alvo.”

Pag 157 Bukowski, Fabulário geral do delírio cotidiano –ereções, ejaculações e exibicionismos – Parte II

 

Buk fala isso depois de uma situação em que estando bêbado, é levado por dois policiais  para a delegacia e seus vizinhos ficam olhando da janela.

 

Sempre que penso na “igreja” tenho essa mesma sensação. Não posso nunca negar o tanto que fizeram por mim. Se não fosse por eles hoje eu provavelmente não estaria aqui. É quase certo que minha vida teria tomado outro rumo. Estaria eu ainda lá na minha cidadezinha, casada, com dois filhos e talvez pensando em fazer faculdade agora, ou talvez já tivesse feito com muito esforço a alguns anos atrás. As coisas pra mim nunca acontecem de uma forma esperada e fácil. Sigo os mesmos caminhos que a maioria mas parece que chego a outros lugares. Quem poderia imaginar que vindo pro Rio fazer faculdade em um seminário pago por uma igreja, eu iria tomar outro rumo na vida e usar o que aprendi lá pra me distanciar da própria igreja? Me sinto como quem cospe no prato que comeu.

 

Não que alguém me cobre com palavras e na verdade nem com olhares, pois tenho me mantido tão covarde que não os tenho encarado ha tempos. Acho que isso que sinto é reflexo do que eu mesma pensaria de alguém que estudou uma faculdade paga por uma igreja e depois voou pra longe. Mas acho bom eu já estar numa fase de decisões, mesmo que elas possam mudar com o tempo e que elas não tenham sido as melhores possíveis. Fiquei anos tentando acreditar que eu ainda fazia parte, dando murro em ponta de faca, me forçando a acreditar nas velhas coisas. Mas tem coisa que não volta mais. Por mais que você se esforce e que tente, é em vão. O leite derramado, tá derramado. Peguei um pano enxuguei, espremi de volta dentro do balde, mas o leite não era mais o mesmo. Não dava nem pra beber. Ainda não joguei o leite fora. Tá lá. Mas o que fazer com ele eu ainda não sei. 

 

Engraçado e trágico é que o seminário me libertou de uma prisão que tinha sido criada pela própria igreja. Talvez se eu nunca tivesse ido pra igreja, nunca teria entrado nessa prisão. A igreja me fez muito bem, mas também me fez muito mal. Me trouxe amigos que amo até hoje e que se não fosse por ela talvez não os teria conhecido, provei amor, carinho, encontrei apoio em momentos de fraquezas. Mas essa mesma igreja também me privou de muitos amigos que poderia ter tido, me privou de muitas experiências que eu poderia ter vivido e delas sinto uma falta que não pode ser preenchida tardiamente. Mas o pior mesmo e mais triste é que sinto que ela me privou de pensar, perdi anos sem pensar. Várias questões internas, pensamentos, já poderiam estar resolvidos e não estão. Deixei de ler tanta coisa, deixei de provar tanta coisa. Espero que dê tempo ainda de recuperar algumas coisas.

 

Um comentário:

  1. Algumas coisas simplesmente são como são, acontece sem se quer percebemos, logico que temos nossa parcela de culpa...Mas o leite foi derramado e só percebemos quando saímos de nossa aconchegante zona de conforto...E nunca é tarde de mais...http://www.youtube.com/watch?v=8pQ4Bu700Bw

    Um bom texto o seu!

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