“É que o
sexo não é pra gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de
fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor,
micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea,
reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada.”
“Já estava
me acostumando a muitas coisas novas em minha vida. Estava me acostumando com a
miséria. A aceitar as coisas como viessem. Treinava para abandonar o rigor,
senão não sobreviveria. Sempre vivi carente de alguma coisa. Desassossegado,
querendo tudo de uma vez, lutando rigorosamente por algo mais. Estava
aprendendo a não ter tudo de uma vez. A viver quase sem nada. Do contrário
continuaria com minha visão trágica da vida. Por isso agora a miséria não me
fazia muito mal.”
“Pensava no
porquê de minha vida ser assim. Tentava entender algo. Gosto de me sobrevoar,
de observar de longe a Pedro Juan.”
"Se você tem ideias próprias - mesmo que sejam só
umas poucas ideias próprias- , tem de compreender que estará sempre encontrando
caras feias, gente que vai fazer questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo, de
'fazer você entender' que não tem nada a dizer, ou que você deve evitar aquele
sujeito porque é louco, ou efeminado, ou um verme, um vagabundo, outro porque é
punheteiro ou voyeur, outro porque é ladrão, outro, macumbeiro, espírita,
maconheiro, outra porque é canalha, indecente, puta, sapatona, mal-educada.
Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e
'perfeitas'. E assim querem transformar você num excluído e num merda. Jogam
você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os
outros."
“Só se deve
ter ciúme do que vale a pena. Do que é verdadeiramente importante. Não devemos
desgastar-nos sentindo ciúmes de tudo. Mas as mulheres não pensam assim. São
capazes de sentir ciúmes ao mesmo tempo e com igual intensidade e veemência do
marido, do amante e de dois namorados. Têm muita habilidade para a vida. Ou
muito sentido pragmático.”
“Nunca
entendi muito bem todos esses valores éticos com direitos e deveres. Sou um
cínico. Assim é mais fácil. Pelo menos para mim é mais fácil.”
“Passei
muitos anos tentando me desprender de tanta merda que havia se acumulado sobre
mim. Não era fácil. Se você passa os primeiros quarenta anos da sua vida sendo
um tipo dócil, bem domesticado, acreditando em tudo o que lhe dizem, depois é
quase impossível aprender a dizer “não”, “vão se foder”, “me deixem em paz.”
“Definitivamente,
só isso é que importa. Desejar alguma coisa. Quando você deseja alguma coisa
com força, já está se encaminhando.”
“Bom, quando
comecei a abandonar as “coisas importantes”, as “coisas importantes” dos
outros, e a pensar e a agir um pouco mais pra mim mesmo, entrei em uma fase
dura. E assim fiquei muitos anos: à margem de tudo. Me equilibrando. Sempre no
precipício. Me metia em outra etapa dessa aventura que é a vida. Aos quarenta
anos o sujeito ainda está em tempo de abandonar a rotina, o peso estéril e
aborrecido, e começar a viver de algum outro jeito. Só que quase ninguém se
atreve. É mais seguro continuar igual até o fim. Eu estava me endurecendo. Eu
tinha três opções: ou me endurecia, ou ficava louco, ou me suicidava. De forma
que foi fácil decidir: tinha de endurecer.”
“Desde então
prometi me reconciliar comigo mesmo e me pacificar: “Pedro, ou você se odeia ou
ama a si mesmo. Resolva isso e consequentemente ira solucionando sua guerrinha
particular com o resto do mundo”.”
“Desconfio
que valentia e ignorância andam de mãos dadas.”
“Acho que
andei muito autocomiserativo esses anos todos, e me recolhia. Isto foi o pior:
me recolher para estar comigo mesmo. Me fazer companhia. Conversar um pouco
comigo mesmo. E talvez tenha me feito muito mal, essa busca incessante de paz
interior. Não sei quem me enfiou essa porra de ideia na cabeça. Para viver com
paz interior tem de ser um imbecil. Ou não?”
“Não
aguentei mais e comecei a chorar como criança. Uma mulher se aproximou, tocou
meu ombro e disse: “Tem de ser forte, meu filho, você tem fé?”. Eu me virei e
olhei com fúria para ela. Acho que tinha um rosário e uma Bíblia na mão.
_Que forte,
porra nenhuma minha senhora! Vá à puta a pariu e me deixe em paz!”
“Em mais de
vinte anos como jornalista, nunca me deixaram escrever respeitando os leitores.
Ao menos um mínimo de respeito pela inteligência dos outros. Não. Sempre tive
de escrever como se quem me lesse fosse imbecil, gente que precisava que lhe
injetassem ideias sistematicamente no cérebro. E estava abandonando tudo
aquilo. Mandando à merda a prosa elegante, fugindo de tudo que pudesse parecer
ofensivo à moral e aos bons costumes. Não podia mais continuar respeitando. Nem
tendo compostura. Sorridente e agradável. Bem vestido, barba feita, água-de-colônia,
relógio com a hora exata. E pensando que tudo é imutável. Que tudo é pra
sempre. Não. Estava aprendendo que nada é para sempre.”
“Eu não
queria me apaixonar de novo. Já estava cheio do amor. O amor implica docilidade
e entrega. Eu não podia continuar sendo dócil, nem podia me entregar a nada,
nem a ninguém.”
“Desde então
me incomodam muito essas duas palavras: correto e sensato. São falsas e
pedantes. Servem para ocultar e mentir. Tudo é incorreto e insensato. Toda a
história, toda a vida, todas as épocas foram incorretas e insensatas. Nós
mesmos. Cada um de nós, por natureza, é incorreto e insensato, só que nos
reprimimos para voltar para o cercado como boas ovelhas, e aplicamos rédeas e
mordaças em nós mesmos.”
“Mas a carne
é fraca. Pelo menos a minha é fraca e pecadora. E acho que com todo mundo
acontece a mesma coisa com suas carnes, mas as pessoas não querem se dar conta
e até inventaram os conceitos de decência
e indecência. Só que ninguém sabe
definir onde estão as fronteiras que separam decentes de indecentes.”
“Eu
era então um sujeito perseguido pela saudade. Sempre fora. E não sabia como me
desligar da saudade e viver tranquilamente.
Ainda
não aprendi. E desconfio que não aprenderei nunca. Pelo menos já sei algo
valioso: é impossível me desligar da saudade porque é impossível me desligar da
memória. É impossível se desligar daquilo que se amou.
Tudo
isso estará sempre junto conosco. Sempre teremos tanto o desejo de refazer o
bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau. Apagar as
maldades que cometemos, desfazer a recordação das pessoas que nos prejudicaram,
remover as tristezas e as épocas de infelicidade.
É
totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a
conviver com a saudade. Talvez, para nossa sorte, a saudade possa
transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa que nos
dispare para o novo, para entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro
tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. E
isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa
vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de
nossa fatia da festa.”
“Tomara
eu chegue aos oitenta e três anos com alguma ilusão. Nem que seja a ilusão boba
de arranjar namorada e casar pensando que o amor é possível e que a miséria e a
fome vão passar.”
“Mas eu não
discuto com ninguém. Já estou cheio de discutir. No fim, de todo jeito, me dão
chutes na bunda. Me faço de retardado, de mongoloide, e me deixam em paz. Às
vezes penso que ao pobre mais convém ser imbecil do que inteligente.”
“Para mim
era trabalhoso aceitar a solidão. Era difícil aprender a me auto-abastecer. Eu
continuava achando que era impossível. Ou que era desumano. “O homem é um ser
social”, tinha me repetido muitas vezes. Isso, mais o calor do tropico, o
sangue latino, minha mestiçagem fabulosa, tudo conspirava ao meu redor, como
uma rede, me incapacitando para a solidão. Esse era o meu problema e o meu
desafio: aprender a viver e a desfrutar dentro de mim.”
“Fiquei
pensando nisso tudo, me pus de pé de um salto e ri. Gostosamente. Um bom
sorriso, desnecessário e absurdo, é um tônico. Sempre dá resultado comigo. E se
consigo aguentar alguns minutos e rir por dentro e por fora, melhor ainda.
“Vou”, pensei. E fui. Procurar um amigo.”
“Mas a
verdade é que é preciso saber. Se não se tem toda a informação não se pode
pensar, nem decidir, nem opinar. A gente se transforma num tonto, capaz de
acreditar em qualquer coisa.”

Pedrito, meu herói na literatura!
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