segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Citações- Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutierrez





“É que o sexo não é pra gente escrupulosa. O sexo é um intercâmbio de líquidos, de fluidos, de saliva, hálito e cheiros fortes, urina, sêmen, merda, suor, micróbios, bactérias. Ou não é. Se é só ternura e espiritualidade etérea, reduz-se a uma paródia estéril do que poderia ser. Nada.”

“Já estava me acostumando a muitas coisas novas em minha vida. Estava me acostumando com a miséria. A aceitar as coisas como viessem. Treinava para abandonar o rigor, senão não sobreviveria. Sempre vivi carente de alguma coisa. Desassossegado, querendo tudo de uma vez, lutando rigorosamente por algo mais. Estava aprendendo a não ter tudo de uma vez. A viver quase sem nada. Do contrário continuaria com minha visão trágica da vida. Por isso agora a miséria não me fazia muito mal.”

“Pensava no porquê de minha vida ser assim. Tentava entender algo. Gosto de me sobrevoar, de observar de longe a Pedro Juan.”

"Se você tem ideias próprias - mesmo que sejam só umas poucas ideias próprias- , tem de compreender que estará sempre encontrando caras feias, gente que vai fazer questão de lhe dar o contra, de diminuí-lo, de 'fazer você entender' que não tem nada a dizer, ou que você deve evitar aquele sujeito porque é louco, ou efeminado, ou um verme, um vagabundo, outro porque é punheteiro ou voyeur, outro porque é ladrão, outro, macumbeiro, espírita, maconheiro, outra porque é canalha, indecente, puta, sapatona, mal-educada. Eles reduzem o mundo a umas poucas pessoas híbridas, monótonas, aborrecidas e 'perfeitas'. E assim querem transformar você num excluído e num merda. Jogam você de cabeça na seita particular deles para ignorar e suprimir todos os outros."

“Só se deve ter ciúme do que vale a pena. Do que é verdadeiramente importante. Não devemos desgastar-nos sentindo ciúmes de tudo. Mas as mulheres não pensam assim. São capazes de sentir ciúmes ao mesmo tempo e com igual intensidade e veemência do marido, do amante e de dois namorados. Têm muita habilidade para a vida. Ou muito sentido pragmático.”

“Nunca entendi muito bem todos esses valores éticos com direitos e deveres. Sou um cínico. Assim é mais fácil. Pelo menos para mim é mais fácil.”

“Passei muitos anos tentando me desprender de tanta merda que havia se acumulado sobre mim. Não era fácil. Se você passa os primeiros quarenta anos da sua vida sendo um tipo dócil, bem domesticado, acreditando em tudo o que lhe dizem, depois é quase impossível aprender a dizer “não”, “vão se foder”, “me deixem em paz.”

“Definitivamente, só isso é que importa. Desejar alguma coisa. Quando você deseja alguma coisa com força, já está se encaminhando.”

“Bom, quando comecei a abandonar as “coisas importantes”, as “coisas importantes” dos outros, e a pensar e a agir um pouco mais pra mim mesmo, entrei em uma fase dura. E assim fiquei muitos anos: à margem de tudo. Me equilibrando. Sempre no precipício. Me metia em outra etapa dessa aventura que é a vida. Aos quarenta anos o sujeito ainda está em tempo de abandonar a rotina, o peso estéril e aborrecido, e começar a viver de algum outro jeito. Só que quase ninguém se atreve. É mais seguro continuar igual até o fim. Eu estava me endurecendo. Eu tinha três opções: ou me endurecia, ou ficava louco, ou me suicidava. De forma que foi fácil decidir: tinha de endurecer.”

“Desde então prometi me reconciliar comigo mesmo e me pacificar: “Pedro, ou você se odeia ou ama a si mesmo. Resolva isso e consequentemente ira solucionando sua guerrinha particular com o resto do mundo”.”

“Desconfio que valentia e ignorância andam de mãos dadas.”

“Acho que andei muito autocomiserativo esses anos todos, e me recolhia. Isto foi o pior: me recolher para estar comigo mesmo. Me fazer companhia. Conversar um pouco comigo mesmo. E talvez tenha me feito muito mal, essa busca incessante de paz interior. Não sei quem me enfiou essa porra de ideia na cabeça. Para viver com paz interior tem de ser um imbecil. Ou não?”

“Não aguentei mais e comecei a chorar como criança. Uma mulher se aproximou, tocou meu ombro e disse: “Tem de ser forte, meu filho, você tem fé?”. Eu me virei e olhei com fúria para ela. Acho que tinha um rosário e uma Bíblia na mão.
_Que forte, porra nenhuma minha senhora! Vá à puta a pariu e me deixe em paz!”

“Em mais de vinte anos como jornalista, nunca me deixaram escrever respeitando os leitores. Ao menos um mínimo de respeito pela inteligência dos outros. Não. Sempre tive de escrever como se quem me lesse fosse imbecil, gente que precisava que lhe injetassem ideias sistematicamente no cérebro. E estava abandonando tudo aquilo. Mandando à merda a prosa elegante, fugindo de tudo que pudesse parecer ofensivo à moral e aos bons costumes. Não podia mais continuar respeitando. Nem tendo compostura. Sorridente e agradável. Bem vestido, barba feita, água-de-colônia, relógio com a hora exata. E pensando que tudo é imutável. Que tudo é pra sempre. Não. Estava aprendendo que nada é para sempre.”

“Eu não queria me apaixonar de novo. Já estava cheio do amor. O amor implica docilidade e entrega. Eu não podia continuar sendo dócil, nem podia me entregar a nada, nem a ninguém.”

“Desde então me incomodam muito essas duas palavras: correto e sensato. São falsas e pedantes. Servem para ocultar e mentir. Tudo é incorreto e insensato. Toda a história, toda a vida, todas as épocas foram incorretas e insensatas. Nós mesmos. Cada um de nós, por natureza, é incorreto e insensato, só que nos reprimimos para voltar para o cercado como boas ovelhas, e aplicamos rédeas e mordaças em nós mesmos.”

“Mas a carne é fraca. Pelo menos a minha é fraca e pecadora. E acho que com todo mundo acontece a mesma coisa com suas carnes, mas as pessoas não querem se dar conta e até inventaram os conceitos de decência e indecência. Só que ninguém sabe definir onde estão as fronteiras que separam decentes de indecentes.”

“Eu era então um sujeito perseguido pela saudade. Sempre fora. E não sabia como me desligar da saudade e viver tranquilamente.
Ainda não aprendi. E desconfio que não aprenderei nunca. Pelo menos já sei algo valioso: é impossível me desligar da saudade porque é impossível me desligar da memória. É impossível se desligar daquilo que se amou.
Tudo isso estará sempre junto conosco. Sempre teremos tanto o desejo de refazer o bom da vida como o de esquecer e destruir a lembrança do mau. Apagar as maldades que cometemos, desfazer a recordação das pessoas que nos prejudicaram, remover as tristezas e as épocas de infelicidade.
É totalmente humano, então, ser um nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez, para nossa sorte, a saudade possa transformar-se, de algo depressivo e triste, numa pequena chispa que nos dispare para o novo, para entregar-nos a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas que será diferente. E isso é o que todos procuramos todo dia: não desperdiçar em solidão a nossa vida, encontrar alguém, nos entregar um pouco, evitar a rotina, desfrutar de nossa fatia da festa.”

“Tomara eu chegue aos oitenta e três anos com alguma ilusão. Nem que seja a ilusão boba de arranjar namorada e casar pensando que o amor é possível e que a miséria e a fome vão passar.”
“Mas eu não discuto com ninguém. Já estou cheio de discutir. No fim, de todo jeito, me dão chutes na bunda. Me faço de retardado, de mongoloide, e me deixam em paz. Às vezes penso que ao pobre mais convém ser imbecil do que inteligente.”

“Para mim era trabalhoso aceitar a solidão. Era difícil aprender a me auto-abastecer. Eu continuava achando que era impossível. Ou que era desumano. “O homem é um ser social”, tinha me repetido muitas vezes. Isso, mais o calor do tropico, o sangue latino, minha mestiçagem fabulosa, tudo conspirava ao meu redor, como uma rede, me incapacitando para a solidão. Esse era o meu problema e o meu desafio: aprender a viver e a desfrutar dentro de mim.”

“Fiquei pensando nisso tudo, me pus de pé de um salto e ri. Gostosamente. Um bom sorriso, desnecessário e absurdo, é um tônico. Sempre dá resultado comigo. E se consigo aguentar alguns minutos e rir por dentro e por fora, melhor ainda. “Vou”, pensei. E fui. Procurar um amigo.”

“Mas a verdade é que é preciso saber. Se não se tem toda a informação não se pode pensar, nem decidir, nem opinar. A gente se transforma num tonto, capaz de acreditar em qualquer coisa.”






Um comentário: