domingo, 10 de fevereiro de 2013

Partes do livro “ Bukowski, Fabulário geral do delírio cotidiano –ereções, ejaculações e exibicionismos – Parte II







“Quanto a mim, as corridas de cavalo revelam logo onde sou fraco e onde sou forte, como estou me sentindo naquele dia e como a gente muda, o tempo  TODO, e o pouco se sabe a respeito disso.” 
“... antes da existência irreal e estilizadora do sugador cerebral da televisão, eu trabalhava como empacotador numa fábrica gigantesca, que produzia milhares de luminárias para cegar o mundo e, sabendo como as bibliotecas são inúteis e os poetas eternos queixosos farsantes, fazia meus estudos nos bares e lutas de boxe.”

“... e ai nós rimos, rimos, mas rimos tanto, tanto, que puta merda, até pensei que tínhamos enlouquecido. E então tive que me levantar, me vestir, pentear o cabelo, escovar os dentes, nauseado demais para comer, senti ânsias de vômito quando escovei os dentes, sai pra rua e caminhei em direção da fábrica de luminárias; só o sol se sentia bem, mas a gente tinha que se conformar com o que tinha.”

“Puta merda, será que você não entende? – disse pro editor- não gosto de drogarias! não gosto de ficar esperando nessas sorveterias que tem nelas. A gente fica ali sentado olhando pro mármore daquele balcão circular esperando pra ser atendido, passa uma formiga, ou então um inseto qualquer tá morrendo ali, na frente da gente, com uma asa ainda mexendo e a outra parada. Ninguém te conhece. Duas ou três pessoas de cara obtusa e paciente ficam olhando pra cara da gente. Ai surge, enfim, a garçonete. Não seria capaz de deixar a gente cheirar o fedor da calcinha dela, e no entanto é medonha de feia e nem sabe. Anota, com a maior má vontade o pedido que se faz. Uma coca. A bebida vem num copo de papel morno e dobrado. Da pra perder o ânimo, mas a gente bebe. O inseto continua vivo. O ônibus não tem jeito de chegar. O mármore da sorveteria está coberto de pó pegajoso. É tudo uma farsa, será que não entende? Se você vai na cigarraria e tenta comprar um maço, passam cinco minutos antes de alguém aparecer. A gente se sente violentado nove vezes antes de sair de lá.”
“A gente começa a salvar a humanidade salvando uma pessoa de cada vez, todo o resto é delírio romântico ou político.”

“Quando já se está quase sem alma e se tem consciência disso, é porque ainda se existe.” 
“Tinha a impressão de que todo mundo estava me vendo e, também, uma sensação esquisita de vergonha. De ser culpado, uma bosta, a quem faltava qualquer coisa, feito formiga mijada ou bala de metralhadora que não acerta o alvo.”

“Quando a gente pensa que chegou ao fundo do poço sempre descobre que pode ir ainda mais fundo. Que escrotidão.”

“Estranho: volta e meia deixar de foder é melhor que foder. Apesar de que posso estar enganado.  Em geral dizem que estou”

“Só sei que há uma porção de revolucionários por ai que são umas verdadeiras bestas e, o que é pior, chatos, mas chatos a mais não poder, cara, não quero dizer que não se deve ajudar os pobres, educar quem nunca teve instrução, hospitalizar quem vive doente e por ai a fora. O que eu quero dizer é que a gente está tratando esses revolucionários como se fossem santos, quando têm muitos que não passam de pobres diabos, com problemas de espinha na pele abandonados pelas mulheres e com essa porra de simbolozinhos da Paz pendurados por uma corda no pescoço. Há vários que são meros oportunistas e que fariam melhor em ir trabalhar pra fabrica Ford. Se ali conseguiriam pistolão pra entrar lá. Não quero saber de mudar de governo e ir de mal a pior – que é o que se tem feito em cada eleição,”

“–ganhando ou perdendo, vai acabar mesmo. E como uma porção de coisas boas e ruins. A história da humanidade é muito lenta. Eu, por mim, prefiro assistir de camarote.”

“... os bolsões de miséria vivem cheios de desiludidos e rejeitados; os pobres morrem em enfermarias de indigentes, em meio a falta de médicos; as penitenciarias estão tão apinhadas de criminosos desequilibrados e irrecuperáveis que os beliches nem dão conta e os presidiários têm que dormir no chão. Obter alívio é um ato de misericórdia que nem sempre dura e os hospícios tem paredes acolchoadas por causa de uma sociedade que usa as pessoas como se fossem peões de uma partida de xadrez...”
            “É agradável pra caralho ser intelectual ou escritor e ficar observando essas amenidades, desde que não seja o nosso PROPRIO rabo que esteja em jogo. Esta é UMA das coisas erradas com os intelectuais e escritores – não sentem porra nenhuma, a não ser quando se trata da própria comodidade ou da própria dor. O que é perfeitamente normal mas não deixa de ser bandalheira.”

“Literatura é que nem mulher; quando não presta nem vale a pena perder tempo.”

“O mundo me roubou muitas horas e anos com suas ocupações chatas e rotineiras; se nota. Sinto vergonha do meu fracasso; não por causa do dinheiro dele, do meu fracasso. O melhor revolucionário é o pobre; não sou nem isso, estou apenas cansado. O balde de fezes que me coube! Espelho, espelho meu...”

“Saio pra caminhar um pouco. Dou duas voltas no quarteirão, encontro duzentas pessoas e não vejo nenhuma criatura humana.”

“Tinha capacidade de rir de si mesmo, o que as vezes é sinal de grandeza ou pelo menos de que se pode alimentar a esperança de que venha a ser algo mais que um simples e pretencioso cagalhão intelectual.”

“As pessoas insistem em se meter com o que não tem nada a ver. Quando se dá um passo, é preciso calcular as consequências.”

“O garoto me olha como se eu fosse uma espécie de covarde cagão. E sou” 

“O garoto acorda lá pelas nove e meia da manhã. Não entendo esses tipos de madrugadores. Sempre achei que só um imbecil irrecuperável se acorda antes do meio.”


“Estudante universitário até que é legal. Só faz questão de um troço – que não se minta deliberadamente para ele. Acho justo.”

“_Você aconselharia alguém a ser escritor?
_ Tá querendo me gozar? – retruquei.
_ Não, não, falo sério. Aconselharia, como carreira?
_ Escritor já nasce feito, não é conselho que vai resolver.”




“Sempre fui solitário. Você vai me desculpar, creio que não regulo bem da cabeça, mas a verdade é que, se não fosse por uma ou outra trepadinha legal, não me faria a mínima diferença se todas as pessoas do mundo morressem. É, sei que essa não é uma atitude muito simpática. Mas ficaria todo refestelado aqui dentro do meu caracol. Afinal de contas, foram essas pessoas que me tornaram infeliz.”

"Levantar da cama. Sempre tive ódio disso. Vivia afirmando: 'As duas maiores invenções da humanidade foram a cama e a bomba atômica; não saindo da primeira, a gente se salva, e, soltando a segunda, se acaba com tudo'."

“havia meia dúzia de ricos no bar. Não pareciam preocupados, mas tinham aquela expressão morta, característica dos ricos, quando não precisam mais lutar e não encontram nada para substituir - nenhum interesse, apenas continuando a ser ricos. Pobres-diabos. É, ha, hahaha, há.”

“... só o sol se sentia bem. Mas a gente tinha que se conformar com o que tinha.”

“dizem que não se deve confiar em ninguém com mais de trinta anos e, sob o ponto de vista percentual a recomendação se justifica - a maioria, nessa idade já se vendeu. De modo que, em certo sentido, como posso confiar em alguém com menos de trinta? Uma vez que é bem provável que termine se vendendo?”

“As pessoas embruteceram, ficaram irresponsáveis - uma gente de pedra.”

“O mundo tá cansado. O fim não deve tardar.”

“Senti as lágrimas escorrendo no rosto, arrastando-se feito coisas insensatas e pesadas, sem pernas. Estava louco. Devia estar realmente louco.”

“É muito raro encontrar almas livres, mas logo se vê quando são.”

“Todo pessoal de Los Angeles anda fazendo isto: correndo com o rabo feito doido, em busca de uma coisa que não existe. No fundo, não passa de medo de ficar sozinho. O medo que eu sinto é da multidão, dessa turma que anda correndo com o rabo feito doido; dessa gente que lê Norman Mailer, vai aos jogos de beisebol, corta e rega o gramado das casas e se curva no jardim, de pazinha na mão.”

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Partes 'Misto Quente' - Charles Bukowski



 "... não sabia se estava infeliz. Sentia-me miserável de mais para ser infeliz".
 
sobre o discurso do presidente que o personagem principal do livro finge ter assistido para escrever o texto que a professora pediu. "...então era isso que as pessoas queriam: Mentiras. Mentiras maravilhosas. Era disse que precisavam. As pessoas eram idiotas. Seria fácil pra mim". A professora diz pra ele que seu texto era maravilhoso, e que ele não ter estado no discurso tornava seu texto ainda mais bonito.

"... que tempos penosos foram aqueles anos - ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade".


"... eu também lera em algum lugar que se um homem não acreditasse piamente ou entendesse a causa que defendia, de certo modo, poderia fazer um trabalho mais convincente, o que me dava uma vantagem considerável sobre os professores"


“Fui de barril em barril. Era mágico. Por que ninguém havia me falado a respeito disso? Com a bebida, a vida era maravilhosa, um homem era perfeito, nada mais poderia feri-lo.”

“Apenas eles estavam no palco, e eu era a plateia de um homem só.”

“A maioria dos professores não gostava ou não confiava em mim, especialmente as professoras. Nunca disse nada fora do convencional, mas alegavam que se tratava da minha “atitude”. Era algo relacionado com o modo como eu sentava com desleixo na cadeira e também meu “tom de voz”. Eu era frequentemente acusado de estar “escarnecendo”, embora não tivesse consciência disso.”


“Podia ver a estrada a minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Eu queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada.”

“O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enjoado. Pensar em ser um advogado ou um professor, ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia da sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.”


 "Treinar era tudo o que era preciso. Tudo o que um cara precisava era de uma chance. Alguém estava sempre controlando que merecia ou não essa chance." 

"Eu bebia de minhas próprias palavras como se fosse um homem sedento. Comecei a acreditar que elas representassem a verdade."

"(...) era como o fim do mundo e o recomeço e o novo término, tudo era ao mesmo tempo realidade e fantasia: o sol, as coxas, e a seda, tão macia, tão quente, tão sedutora. A sala inteira vibrava."

"Eu havia rompido com a religião alguns anos atrás. Se houvesse alguma verdade por trás dela, era uma verdade que idiotizava as pessoas ou atraía as mais idiotas. E se por acaso a religião não contivesse em si verdade nenhuma, os tolos que nela acreditavam seriam então duplamente idiotas."

"Fazia-me bem escrever sobre ele. Um homem precisava de alguém. Não tinha ninguém por perto, assim você precisava inventar uma pessoa, criar um homem do modo como ele deveria ser. Isso não era faz-de-conta ou enganação. A outra alternativa sim é que era faz-de-conta ou enganação: viver sua vida sem um homem desses por perto."

"Turguêniev era um sujeito muito sério, mas ele podia me levar ao riso porque encontrar uma verdade pela primeira vez pode ser uma experiência muito divertida. Quando a verdade de outra pessoa fecha com a sua, e parece que aquilo foi escrito só para você, é maravilhoso."


"Fechei meus olhos e fiquei escutando as ondas. Milhares de peixes mar adentro, devorando uns aos outros. Infinitas bocas e infinitos cus, engolindo e cagando. A terra inteira não era nada além de bocas e cus engolindo e cagando e fodendo."

"Ele era a possibilidade e a promessa. Era um cara incrível. Sabia como fazer as coisas. Eu tinha lido muitos livros, mas ele lera um livro que eu nunca leria."

"Ainda assim, apesar de seus corpos e mentes suaves e intocados, continuava a lhes faltar algo, porque até então, basicamente, não tinham sido testados. Quando a adversidade finalmente chegasse em suas vidas, chegaria muito tarde ou seria por demais pesada. Eu estava preparado. Talvez."

"O problema era que você precisava ficar constantemente escolhendo entre uma opção horrível e outra pavorosa, e, independente da sua escolha, eles cortavam mais um pedaço da sua carne, até que não restasse mais nada para descarnar. Por volta dos 25 anos, a maioria das pessoas estava liquidada. Uma maldita nação inteira de desgraçados dirigindo carros, comendo, tendo bebês, fazendo todas as coisas da pior maneira possível, como votar em candidatos à presidência que os fizessem lembrar de si mesmos."

"Podia ver a estrada à minha frente. Eu era pobre e ficaria pobre. Mas eu não queria particularmente dinheiro. Eu sequer sabia o que desejava. Sim, eu sabia. Queria algum lugar para me esconder, um lugar em que ninguém tivesse que fazer nada. O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enjoado. Pensar em ser um advogado ou um professor ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível."

"A estrutura familiar. A vitória sobre a adversidade por meio da família. Ele acreditava nisso. Pegue a família, mistura com Deus e a Pátria, acrescente a jornada de trabalho de dez horas e você teria o necessário."

"Agora, pensei, empurrando meu carrinho, tenho esse emprego. É assim que as coisas devem ser? Não é de se espantar que homens assaltem bancos. Há muitos trabalhos por demais aviltantes. Por que, diabos, eu não era um juiz de uma corte superior ou um pianista de concerto? Porque isso exigia treinamento e treinamento custava dinheiro. Mas, de qualquer forma, eu não queria ser nada na vida. E nisso, certamente, eu estava sendo bem-sucedido."

"Nenhuma vida em nenhum lugar, nenhuma vida nesta cidade ou neste lugar ou nesta existência deprimente..."

"Eu tinha decidido que o campus era apenas um lugar para se esconder. Havia alguns malucos naquele campus que ficavam lá para sempre. O universo da faculdade era brando, um faz-de-conta. Jamais lhe diziam o que esperar do mundo real lá fora. Apenas entupiam você com teorias e nunca alertavam sobre a infinita dureza dos calçamentos. Uma educação universitária poderia destruir um indivíduo para sempre. Os livros podiam fazer de você um frouxo. Quando você os deixa de lado e vai ver como realmente são as cosias do lado de fora, então é preciso ter o conhecimento que não está naquelas páginas."

"As pessoas sempre falavam do cheiro limpo e gostoso de suor fresco. Deviam era pedir desculpas por dizerem tanta bobagem. Ninguém nunca falava do cheiro limpo e gostoso de merda fresca. Não havia nada mais glorioso que uma boa merda fruto da cerveja - digo, aquela merda que se caga depois de uma noite bebendo vinte ou 25 copos. O odor de um cocô de cerveja dessa categoria se espalha pelo ar e fica vivo por uma boa hora e meia. Faz com que você se dê conta de que realmente está vivo."

"Os pobres tinham o direito de foder como quisessem para vencer seus pesadelos. Sexo e bebida, e talvez amor, era tudo o que eles tinham." 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

?





Será que o poder que uma pessoa pode exercer sobre a gente tem a ver
com uma infancia mal resolvida, um passado mal vivido ou com um trauma
não percebido?
Que merda! uma pessoa com a vida aparentemente normal, tudo pra dar
certo (o que é dar certo nessa vida?) e ficar anos a fio baseando
atitudes e ações a depender desse outro?

Poema - Cazuza



Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei, nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás