domingo, 24 de março de 2013

Partes do Livro: Mulheres - Charles Bukowski


“Meu amigo tinha uma cara afável e inteligente. As vezes você acha bondade no meio do inferno. Ficamos nos passando a garrafa enquanto eu esperava o táxi”.

“Não queria saber de muito papo nem de ficar indo a lugares – fora as corridas de cavalo e as lutas de boxe. Não entendia tevê. Me sentia um idiota pagando pra entrar num cinema e ficar lá sentado com outras pessoas, partilhando suas emoções. Festas me davam ânsia de vomito. Me irritavam as boas maneiras, o jogo social, o flerte, os bêbados amadores, os pentelhos”.

“Eu transava com Lydia, depois voltava pra casa de manha e me masturbava. A ideia de sexo como algo proibido me excitava para além de qualquer entendimento. Sexo era um animal tentando se impor ao outro”.

“... o prazer delas era falar em trepada o tempo todo. Eu também gosto de trepar, mas não é a minha religião. Trepar tem muita coisa de ridículo e trágico. As pessoas parecem não saber direito como lidar com a coisa. Por isso, transformam sexo num brinquedo. Um brinquedo que destrói gente”.

“As relações humanas são estranhas. Quer dizer, você passa um tempo com uma pessoa, comendo, dormindo, vivendo e amando, conversando com ela, indo aos lugares – e um dia tudo acaba. Dai você passa um tempo sem ninguém, até que aparece outra mulher, e ai você come com ela, trepa com ela, e tudo parece tao normal, como se você estivesse o tempo todo esperando exatamente por ela, e ela por você. Nunca achei correto estar sozinho; as vezes era até bom, mas nunca achei correto”.

“Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, ideias, nem me preocupava com politíca. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão”.

“Paramos para comprar bebidas, gelo e cigarros e voltamos pro apartamento. Aquele único drinque deixou Cecília zonza e tagarela, e ela nos explicou que os animais tem alma também. Ninguém contestou suas opiniões. A gente sabia que era provável. O que a gente não tinha certeza era se nós tínhamos uma”.

“_ O amor é bom pros que aguentam a carga psíquica. É como tentar carregar uma lata de lixo abarrotada nas costas, nadando contra a correnteza num rio de mijo.
­_ Ah, não é assim tão mal.
_ O amor é só uma forma de preconceito. E eu já tenho muitos outros preconceitos.”

“Peguei uma garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando as cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismos, ervas, catolicismos, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por ai, , iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas a mão, voos a jato, Nova York, e ai tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas tem de achar o que fazer enquanto esperam pela morte. Acho legal ter uma escolha”.

“Cecília sentou e ficou vendo a gente beber. Sentia que eu lhe causava repulsa. Eu comia carne. Eu não tinha deus. Eu gostava de trepar. A  natureza não me interessava. Nunca votei. Gostava de guerras. O espaço sideral me entediava. Baseball me entediava. Zoológicos me entediavam”.

“As pessoas em geral são muito melhores por cartas que em carne e osso. Elas se parecem muito com os poetas”.

“Não que ele fosse má companhia, mas é que a maioria das pessoas simplesmente não me interessa”.

“Servi mais vinho. Não conseguia entender o que tinha acontecido com a minha vida. Tinha perdido a elegância. Tinha perdido a mundanidade. Tinha perdido a concha protetora. Tinha perdido o senso de humor diante dos problemas alheios. Queria tudo de volta. Queria que as coisas corressem mansas pra mim. De algum jeito, eu sabia que isso não ia mais acontecer, pelo menos não tão logo. Eu estava fadado a me sentir culpado e desprotegido”.

“_ Você não consegue encarar as coisas de um jeito sóbrio?
_ Posso, mas prefiro não.
_ Isso é escapismo.
_ Tudo é: jogar golfe, dormir, comer, andar, brigar, fazer cooper, respirar, trepar...”

“... uma vagabunda de rua desgastada, arruinada. Em geral as putas me davam tesão. Meu pau endurecia, mas minha alma voava longe”.

“Sara e eu começamos a beber e comemorar, mas é difícil ficar de porre quando metade do mundo se esforça para se embriagar junto com você”.

“Elogiar o talento de um cara só porque ele está sentado na sua frente é a mais imperdoável das mentiras, porque o estimula a ir em frente, a continuar; e isso prum sujeito sem talento genuíno, é a pior maneira de esperdiçar a vida”.






Mulheres - Charles Bukowski



O véio também sabia ser fofo
 
“Fiquei pensando como eram difíceis as separações. Mas era só mesmo rompendo com uma mulher que se podia encontrar outra. Eu precisava degustar as mulheres para conhecê-las bem, para entrar no amago delas. Eu conseguia inventar homens na minha cabeça, pois era um deles; mas, as mulheres, era quase impossível escrever sobre elas sem as conhecer de fato. Assim, eu as pesquisava intensamente e sempre descobria seres humanos lá dentro. Deixava a escrita de lado. A escrita representa muito menos que o episodio vivido em si, até que terminasse. A escrita era apenas o resíduo. Homem nenhum precisava de mulher para se sentir real de verdade, mas era bem legal conhecer algumas. Dai, quando o caso ia mal, o sujeito conhecia pra valer o que era solidão e a loucura, e assim ficava sabendo o que o esperava quando seu próprio fim chegasse...
Eu era sensível a muitas coisas: um sapato de mulher debaixo da cama; o jeito de elas dizerem ‘vou fazer xixi’; prendedores de cabelo; andar com elas pelos bulevares a uma e meia da tarde, só os dois, juntinhos; as longas noites bebendo, fumando, conversando; as brigas; pensar em suicídio; comer juntos e se sentir bem; as brincadeiras, as gargalhadas sem motivo; sentir milagres no ar, estar junto com elas num carro estacionado; lembrar amores passados as três da manha, ser avisado de que você ronca; ouvi-la roncando; mães, filhas, filhos, gatos, cachorros; às vezes morte, às vezes divórcio, mas sempre tocando em frente, sempre chegando ao ponto final; ler um jornal sozinho numa lanchonete, nauseado pelo falo dela estar casado com um dentista de QI 95; pistas de corrida, parques, piqueniques nos parques, até prisões, os amigos chatos dela, os meus amigos chatos; seus porres, a dança dela; seus flertes, os flertes dela, as suas trepadas fora do penico, ela fazendo o mesmo; dormir juntos...
Nada de julgamentos, se bem que por necessidade a gente acaba ficando seletivo. Pairar acima do bem e do mal fica bem na teoria, mas pra seguir vivendo é preciso selecionar: algumas são mais ternas que outras; talvez estejam apenas mais interessadas por você. Às vezes, as belas por fora e frias por dentro, são uteis só pra uma boa sacanagem, igual aos filmes de sacanagem. As mais carinhosas trepam melhor na verdade, e depois de um tempo ficam lindas só por estarem ali”.


Spartacus

Os feios me desculpem. Mas a beleza faz toda diferença.
Querem dizer por ai que mulher não se importa muito com a beleza, que não se excita pelo olhar. Que mentira!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Engrenagens de um sistema de merda





Às vezes me dá uma dor no peito, uma vontade de chorar diante de cenas que acho que não são cenas normais de se sentir isso. Ver um mendigo na rua na maioria das vezes não me comove. Uma mãe com um bebê no colo e outro na barriga em pé no ônibus não me dá vontade de chorar. Não acho isso bonito nem tenho orgulho disso, só estou falando.

 Hoje a tarde peguei um ônibus e o motorista estava com um pão com mortadela na mão, comendo um pedaço de forma meio que envergonhada cada vez que o transito parava. Às vezes me acontece isso. Comovo-me a ponto de demonstrar na minha cara, diante de coisas assim instantaneamente. Tive uma sensação horrível. A pessoa tá na luta, tá tentando. Que vida triste é essa que o sujeito leva que não pode parar pra comer um pão? Que porcaria de sistema é esse que desfavorece justo quem coloca a mão na massa? Dinheiro, casa são coisas que vão embora. Mas o pior é que a  gente também vai embora. Enquanto a gente esta aqui, o mundo, a vida tinha a obrigação de oferecer muito mais coisa boa que ruim pra gente, sem exceção. Faz todo sentido acreditar no céu.

sexta-feira, 15 de março de 2013

“Por uma educação romântica” - Rubem Alves




Rubem Alves, autor que mora em meu coração. Com ele aprendi muita coisa. Muito do que levo referente a educação e a religião, foi lendo os livros dele que aprendi. O tive por muitos anos em um altar dentro de mim. Gostava tanto de ler seus livros, suas crônicas, que tinha em minha mente a ilusão de que ele era mais que humano. Achava que que ele teria uma “áurea mágica”. Achava que estrelinhas iriam brilhar ao seu redor. Achava que ele era feito de outra substancia que não a mesma que a minha. Tive a oportunidade de conhece-lo pessoalmente, e quando o vi pensei “só isso?”. Parecia um velhinho comum, uma pessoa apenas. Não sei explicar bem o porquê, mas a magia se quebrou. Ele foi meu primeiro autor favorito, e ainda mora em meu coração e em minha estante.  
Agora, depois de anos de procura por um novo autor favorito, encontrei Charles Bukowski. Estou feliz que ele já esteja morto e eu não poderei conhece-lo pessoalmente.

Partes do livro “Por uma educação romântica” de Rubem Alves

“...O que permanece de um texto, não é o que está escrito, mas aquilo que ele faz pensar. Eu jamais pediria que um aluno repetisse o que um autor escreveu num texto. Jamais pediria que ele ‘interpretasse’ o autor. Pediria, ao contrário, que ele escrevesse os pensamentos que ele pensou, provocado pelo que leu...”

“...A educação se presta aos mais variados fins. Pessoas inteligentes, que vivem pensando e tendo ideias diferentes, são perigosas. Ao contrário, a ordem político-social, é mais bem servida por pessoas que pensam sempre os mesmos pensamentos, isto é, pessoas emburrecidas. Porque ser burro é precisamente isso, pensar os mesmos pensamentos, ainda que sejam pensamentos grandiosos”.

“Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, seu dono pode leva-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o voo.
Escolas que são assas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola. Ou violenta será a imóvel gaiola, que o prende? Violentos, os adolescentes da periferia? Ou serão as gaiolas que são violentas? As escolas serão gaiolas?”

“Nosso corpo não se alimenta só de pão. Ele tem fome de beleza”.

“Não há nada que tenha ocupado tanto meu pensamento quanto a educação. Não acredito que exista coisa mais importante para a vida dos indivíduos e do país, que a educação. A democracia só é possível se o povo for educado. Mas ser educado não significa ter diploma superior. Significa ter a capacidade de pensar”.

“Crescido, os jardins passaram a ter pra mim um sentido poético e espiritual. Percebi que a bíblia sagrada é um livro construído em torno de um jardim. Deus se cansou da imensidão do céu e sonhou... sonhou com um jardim... Se ele –ou ela- estivesse feliz lá no céu, ele ou ela não teria se dado ao trabalho de plantar um jardim. A gente só cria quando aquilo que se tem não corresponde ao sonho. Todo ato de criação tem por objetivo realizar um sonho. E quando o sonho se realiza, vem a experiência de alegria.”