domingo, 24 de março de 2013

Partes do livro: Ao Sul de Lugar Nenhum , Histórias da vida subterrânea Charles Bukowski




“... agora que eu não podia ir a guerra, eu quase queria ir a guerra. Ainda assim, ao mesmo tempo, eu estava contente por ficar de fora. Minha objeção a guerra não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha maneira, para o meu prazer.
Não queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados, amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com quem eu teria que fazer amizade, com quem eu teria que me embebedar nas folgas, que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes que dão coceiras bem na incomoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo lugar, nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me importava”

“Descobri que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. Fazíamos isso em toda a parte. Carteira de motorista: três ou quatro filas. Cinema: filas. Hipódromo: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes. Deixem os atendentes fazerem filas.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceita-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada pra fazer. E eu tinha que olhar pras suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
_ Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho que sofrer dessa forma só pra comprar um quilo de hambúrguer e um pedaço de pão de centeio?”



“_ Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.

_ Como assim?
_ Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
_ Isso é triste – disse Edna
_ Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.”



“Você sabe, algumas vezes, se um homem não acredita no que está fazendo, ele pode fazer um trabalho muito mais interessante, porque ele não está emocionalmente envolvido em sua causa.”

“Nunca gostei de jurar lealdade a bandeira. Era aborrecido e idiota demais. Sempre me senti mais confortável jurando lealdade a mim mesmo.”

“Cães tinham pulgas, homens tinham problemas.”

“_ Até mesmo alguns de nós, ficamos deprimidos às vezes. Somos humanos. Até eu fico deprimido. Às vezes sinto vontade de chorar à noite. Certamente senti vontade de chorar na note passada, quando você quebrou duas costelas de Welborn...”

“Sempre admirei o vilão, o fora da lei, o filho da puta. Não gosto dos garotos bem-barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.”

“Lembrei-me de uma história que eu tinha lido uma vez em ‘Programa de Corridas’ sobre um garanhão que ninguém conseguia fazer com que acasalasse com éguas. Trouxeram as éguas mais bonitas que puderam encontrar, mas o garanhão as refutava. Então alguém, que sabia das coisas teve uma ideia. Cobriu de lama uma das belas éguas, e o garanhão imediatamente a montou. A teoria era de que o garanhão se sentia inferior a toda aquela beleza, mas que, diante da fêmea enlameada, pôde ao menos se sentir em pé de igualdade, quando não superior a ela, e assim funcionar. A mente dos cavalos e dos homens pode ser muito parecida.”

“...Ainda assim um homem precisava de uma mulher de vez em quando, no pior dos casos, apenas para provar que conseguiria arranjar uma. O sexo era secundário.”

“O que pode um poeta sem o sofrimento? O poeta precisa de sofrimento tanto quanto de sua máquina de escrever.”

“Vicki era uma criança, uma romântica, mas eu a amava por isso. Eu tinha tantos demônios sombrios em mim que recebia com boas-vindas a inocência de Vicki.”
 
 

Partes do Livro: Mulheres - Charles Bukowski


“Meu amigo tinha uma cara afável e inteligente. As vezes você acha bondade no meio do inferno. Ficamos nos passando a garrafa enquanto eu esperava o táxi”.

“Não queria saber de muito papo nem de ficar indo a lugares – fora as corridas de cavalo e as lutas de boxe. Não entendia tevê. Me sentia um idiota pagando pra entrar num cinema e ficar lá sentado com outras pessoas, partilhando suas emoções. Festas me davam ânsia de vomito. Me irritavam as boas maneiras, o jogo social, o flerte, os bêbados amadores, os pentelhos”.

“Eu transava com Lydia, depois voltava pra casa de manha e me masturbava. A ideia de sexo como algo proibido me excitava para além de qualquer entendimento. Sexo era um animal tentando se impor ao outro”.

“... o prazer delas era falar em trepada o tempo todo. Eu também gosto de trepar, mas não é a minha religião. Trepar tem muita coisa de ridículo e trágico. As pessoas parecem não saber direito como lidar com a coisa. Por isso, transformam sexo num brinquedo. Um brinquedo que destrói gente”.

“As relações humanas são estranhas. Quer dizer, você passa um tempo com uma pessoa, comendo, dormindo, vivendo e amando, conversando com ela, indo aos lugares – e um dia tudo acaba. Dai você passa um tempo sem ninguém, até que aparece outra mulher, e ai você come com ela, trepa com ela, e tudo parece tao normal, como se você estivesse o tempo todo esperando exatamente por ela, e ela por você. Nunca achei correto estar sozinho; as vezes era até bom, mas nunca achei correto”.

“Eu era a soma de todos os erros: bebia, era preguiçoso, não tinha um deus, ideias, nem me preocupava com politíca. Eu estava ancorado no nada, uma espécie de não ser. E aceitava isso. Eu estava longe de ser uma pessoa interessante. Não queria ser uma pessoa interessante; dava muito trabalho. Eu queria mesmo era um espaço sossegado e obscuro para viver a minha solidão”.

“Paramos para comprar bebidas, gelo e cigarros e voltamos pro apartamento. Aquele único drinque deixou Cecília zonza e tagarela, e ela nos explicou que os animais tem alma também. Ninguém contestou suas opiniões. A gente sabia que era provável. O que a gente não tinha certeza era se nós tínhamos uma”.

“_ O amor é bom pros que aguentam a carga psíquica. É como tentar carregar uma lata de lixo abarrotada nas costas, nadando contra a correnteza num rio de mijo.
­_ Ah, não é assim tão mal.
_ O amor é só uma forma de preconceito. E eu já tenho muitos outros preconceitos.”

“Peguei uma garrafa e fui pro meu quarto. Fiquei só de cueca e deitei na cama. Nada estava em sintonia, nunca. As pessoas vão se agarrando as cegas a tudo que existe: comunismo, comida natural, zen, surf, balé, hipnotismo, encontros grupais, orgias, ciclismos, ervas, catolicismos, halterofilismo, viagens, retiros, vegetarianismo, Índia, pintura, literatura, escultura, música, carros, mochila, ioga, cópula, jogo, bebida, andar por ai, , iogurte congelado, Beethoven, Bach, Buda, Cristo, heroína, suco de cenoura, suicídio, roupas feitas a mão, voos a jato, Nova York, e ai tudo se evapora, se rompe em pedaços. As pessoas tem de achar o que fazer enquanto esperam pela morte. Acho legal ter uma escolha”.

“Cecília sentou e ficou vendo a gente beber. Sentia que eu lhe causava repulsa. Eu comia carne. Eu não tinha deus. Eu gostava de trepar. A  natureza não me interessava. Nunca votei. Gostava de guerras. O espaço sideral me entediava. Baseball me entediava. Zoológicos me entediavam”.

“As pessoas em geral são muito melhores por cartas que em carne e osso. Elas se parecem muito com os poetas”.

“Não que ele fosse má companhia, mas é que a maioria das pessoas simplesmente não me interessa”.

“Servi mais vinho. Não conseguia entender o que tinha acontecido com a minha vida. Tinha perdido a elegância. Tinha perdido a mundanidade. Tinha perdido a concha protetora. Tinha perdido o senso de humor diante dos problemas alheios. Queria tudo de volta. Queria que as coisas corressem mansas pra mim. De algum jeito, eu sabia que isso não ia mais acontecer, pelo menos não tão logo. Eu estava fadado a me sentir culpado e desprotegido”.

“_ Você não consegue encarar as coisas de um jeito sóbrio?
_ Posso, mas prefiro não.
_ Isso é escapismo.
_ Tudo é: jogar golfe, dormir, comer, andar, brigar, fazer cooper, respirar, trepar...”

“... uma vagabunda de rua desgastada, arruinada. Em geral as putas me davam tesão. Meu pau endurecia, mas minha alma voava longe”.

“Sara e eu começamos a beber e comemorar, mas é difícil ficar de porre quando metade do mundo se esforça para se embriagar junto com você”.

“Elogiar o talento de um cara só porque ele está sentado na sua frente é a mais imperdoável das mentiras, porque o estimula a ir em frente, a continuar; e isso prum sujeito sem talento genuíno, é a pior maneira de esperdiçar a vida”.






Mulheres - Charles Bukowski



O véio também sabia ser fofo
 
“Fiquei pensando como eram difíceis as separações. Mas era só mesmo rompendo com uma mulher que se podia encontrar outra. Eu precisava degustar as mulheres para conhecê-las bem, para entrar no amago delas. Eu conseguia inventar homens na minha cabeça, pois era um deles; mas, as mulheres, era quase impossível escrever sobre elas sem as conhecer de fato. Assim, eu as pesquisava intensamente e sempre descobria seres humanos lá dentro. Deixava a escrita de lado. A escrita representa muito menos que o episodio vivido em si, até que terminasse. A escrita era apenas o resíduo. Homem nenhum precisava de mulher para se sentir real de verdade, mas era bem legal conhecer algumas. Dai, quando o caso ia mal, o sujeito conhecia pra valer o que era solidão e a loucura, e assim ficava sabendo o que o esperava quando seu próprio fim chegasse...
Eu era sensível a muitas coisas: um sapato de mulher debaixo da cama; o jeito de elas dizerem ‘vou fazer xixi’; prendedores de cabelo; andar com elas pelos bulevares a uma e meia da tarde, só os dois, juntinhos; as longas noites bebendo, fumando, conversando; as brigas; pensar em suicídio; comer juntos e se sentir bem; as brincadeiras, as gargalhadas sem motivo; sentir milagres no ar, estar junto com elas num carro estacionado; lembrar amores passados as três da manha, ser avisado de que você ronca; ouvi-la roncando; mães, filhas, filhos, gatos, cachorros; às vezes morte, às vezes divórcio, mas sempre tocando em frente, sempre chegando ao ponto final; ler um jornal sozinho numa lanchonete, nauseado pelo falo dela estar casado com um dentista de QI 95; pistas de corrida, parques, piqueniques nos parques, até prisões, os amigos chatos dela, os meus amigos chatos; seus porres, a dança dela; seus flertes, os flertes dela, as suas trepadas fora do penico, ela fazendo o mesmo; dormir juntos...
Nada de julgamentos, se bem que por necessidade a gente acaba ficando seletivo. Pairar acima do bem e do mal fica bem na teoria, mas pra seguir vivendo é preciso selecionar: algumas são mais ternas que outras; talvez estejam apenas mais interessadas por você. Às vezes, as belas por fora e frias por dentro, são uteis só pra uma boa sacanagem, igual aos filmes de sacanagem. As mais carinhosas trepam melhor na verdade, e depois de um tempo ficam lindas só por estarem ali”.


Spartacus

Os feios me desculpem. Mas a beleza faz toda diferença.
Querem dizer por ai que mulher não se importa muito com a beleza, que não se excita pelo olhar. Que mentira!

quinta-feira, 21 de março de 2013

Engrenagens de um sistema de merda





Às vezes me dá uma dor no peito, uma vontade de chorar diante de cenas que acho que não são cenas normais de se sentir isso. Ver um mendigo na rua na maioria das vezes não me comove. Uma mãe com um bebê no colo e outro na barriga em pé no ônibus não me dá vontade de chorar. Não acho isso bonito nem tenho orgulho disso, só estou falando.

 Hoje a tarde peguei um ônibus e o motorista estava com um pão com mortadela na mão, comendo um pedaço de forma meio que envergonhada cada vez que o transito parava. Às vezes me acontece isso. Comovo-me a ponto de demonstrar na minha cara, diante de coisas assim instantaneamente. Tive uma sensação horrível. A pessoa tá na luta, tá tentando. Que vida triste é essa que o sujeito leva que não pode parar pra comer um pão? Que porcaria de sistema é esse que desfavorece justo quem coloca a mão na massa? Dinheiro, casa são coisas que vão embora. Mas o pior é que a  gente também vai embora. Enquanto a gente esta aqui, o mundo, a vida tinha a obrigação de oferecer muito mais coisa boa que ruim pra gente, sem exceção. Faz todo sentido acreditar no céu.