“...
agora que eu não podia ir a guerra, eu quase queria ir a guerra. Ainda assim,
ao mesmo tempo, eu estava contente por ficar de fora. Minha objeção a guerra
não era que eu tinha que matar alguém ou ser morto sem motivo, isso quase não
me importava. O que eu objetava era que me negassem o direito de sentar em uma
pequena sala e passar fome e beber vinho barato e ficar viajando, à minha
maneira, para o meu prazer.
Não
queria ser acordado por um sujeito com um clarim. Não queria dormir em barracas
com um bando de garotos americanos saudáveis, loucos por sexo, amantes de
futebol, bem-nutridos, metidos a espertos, punheteiros, assustados, rosados,
amáveis peidorreiros, filhinhos da mamãe, modestos, jogadores de basquete com
quem eu teria que fazer amizade, com quem eu teria que me embebedar nas folgas,
que me contariam dúzias de piadas sujas, previsíveis e sem graça quando eu
deitasse de costas. Não queria seus cobertores que pinicam ou seus uniformes
que dão coceiras bem na incomoda humanidade deles. Não queria cagar no mesmo
lugar, nem mijar no mesmo lugar ou compartilhar a mesma puta. Não queria ver as
unhas dos pés deles nem ler as cartas que receberiam de casa. Não queria
aquelas bundas balançando na minha frente com todos os rapazes ombro a ombro, não
queria fazer amigos, não queria fazer inimigos, eu apenas não os queria, não
queria isso nem aquilo nem coisa nenhuma. Matar ou ser morto quase não me
importava”
“Descobri
que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a
ficar na fila. Fazíamos isso em toda a parte. Carteira de motorista: três ou quatro
filas. Cinema: filas. Hipódromo: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que
devia haver uma maneira de evitar filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais
atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes.
Deixem os atendentes fazerem filas.
Sabia
que as filas estavam me matando. Não podia aceita-las, mas todo mundo aceitava.
Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir
dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila.
Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não
tinham mais nada pra fazer. E eu tinha que olhar pras suas orelhas e bocas e
pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte
emanando de seus corpos, como vapores e ouvindo suas conversas, eu sentia
vontade de gritar:
_ Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho
que sofrer dessa forma só pra comprar um quilo de hambúrguer e um pedaço de pão
de centeio?”
“_ Cada um de nós está, no final,
sozinho – disse Joe.
_ Como assim?
_ Quero dizer, não importa quão
bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo
acaba.
_ Isso é triste – disse Edna
_ Claro que é. Então chega o dia
em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma
trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é
melhor.”
“Você sabe, algumas vezes, se um homem não acredita no que está
fazendo, ele pode fazer um trabalho muito mais interessante, porque ele não está
emocionalmente envolvido em sua causa.”
“Nunca gostei de jurar lealdade a bandeira. Era aborrecido e
idiota demais. Sempre me senti mais confortável jurando lealdade a mim mesmo.”
“Cães tinham pulgas, homens tinham problemas.”
“_ Até mesmo alguns de nós, ficamos deprimidos às vezes. Somos
humanos. Até eu fico deprimido. Às vezes sinto vontade de chorar à noite. Certamente
senti vontade de chorar na note passada, quando você quebrou duas costelas de
Welborn...”
“Sempre admirei o vilão, o fora da lei, o filho da puta. Não gosto
dos garotos bem-barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens
desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São
os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de
mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças
grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do
que em santos. Posso relaxar com os imprestáveis, porque sou um imprestável. Não
gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela
sociedade.”
“Lembrei-me de uma história que eu tinha lido uma vez em ‘Programa
de Corridas’ sobre um garanhão que ninguém conseguia fazer com que acasalasse
com éguas. Trouxeram as éguas mais bonitas que puderam encontrar, mas o
garanhão as refutava. Então alguém, que sabia das coisas teve uma ideia. Cobriu
de lama uma das belas éguas, e o garanhão imediatamente a montou. A teoria era
de que o garanhão se sentia inferior a toda aquela beleza, mas que, diante da
fêmea enlameada, pôde ao menos se sentir em pé de igualdade, quando não superior
a ela, e assim funcionar. A mente dos cavalos e dos homens pode ser muito
parecida.”
“...Ainda assim um homem precisava de uma mulher de vez em
quando, no pior dos casos, apenas para provar que conseguiria arranjar uma. O sexo
era secundário.”
“O que pode um poeta sem o sofrimento? O poeta precisa de
sofrimento tanto quanto de sua máquina de escrever.”
“Vicki era uma criança, uma romântica, mas eu a amava por
isso. Eu tinha tantos demônios sombrios em mim que recebia com boas-vindas a inocência
de Vicki.”