sexta-feira, 26 de abril de 2013

Do livro - Factótum - Charles Bukowski



“_ Eu lhe dei meu tempo. É tudo o que tenho pra oferecer, é tudo o que um homem tem a oferecer. E pelo quê? Para ganhar um dolarzinho chorado e quinze centavos por hora.
_ Lembre-se que você implorou por esse emprego. Você disse que essa aqui era sua segunda casa.
_ ... meu tempo para que você possa viver na sua mansão lá no alto do morro e o pacote completo que vem com isso. Se alguém perdeu alguma coisa nesse negócio, nesse acordo... esse alguém foi eu. Está entendendo?”

“Como, diados, pode um homem gostar de ser acordado às 6:30 da manhã, por um despertador, sair da cama, vestir-se, alimentar-se a força, cagar, mijar, escovar os dentes e os cabelos, enfrentar o tráfego para chegar a um lugar onde essencialmente o que fará é encher de dinheiro os bolsos de outro sujeito e ainda por cima ser obrigado a mostrar gratidão por receber essa oportunidade?”



“Gertrude rebolou na minha frente; rebolou sobre os saltos altos. Avançou. Partes do seu corpo me tocavam, eu simplesmente não podia responder. Havia um espaço entre nós dois. A distância era grande demais. Era como se ela estivesse falando com uma pessoa que desaparecera, uma pessoa que não estava mais ali, uma pessoa que já não existia. Seus olhos pareciam me atravessar. Não conseguia me conectar a ela. Não sentia vergonha por isso, apenas embaraço e desamparo.”
  



“Mas passar fome, infelizmente, não melhora a arte. Apenas a obstruí. A alma de um homem está profundamente enraizada em seu estômago. Um homem pode escrever muito melhor após comer um belo pedaço de filé acompanhado de uma dose de uísque do que depois de uma barra de caramelo de um níquel. O mito do artista faminto é um embuste.” 



“As discussões eram sempre iguais. Eu entendia a questão perfeitamente – os grandes amantes eram sempre homens desocupados. Eu trepava melhor sendo um vagabundo do que tendo que bater ponto.”


“Sempre iniciava o trabalho com a sensação de que assim que eu terminasse, seria demitido, e isso me deu um ar tranquilo, que era facilmente confundido com inteligência e algum poder secreto.”

“A coisa funcionava como em qualquer jornal em boa parte das cidades. Você era contratado ou por ser famoso ou por ser amigo de alguém.”
 

 

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Uma coisa de cada vez



Não sei por que sou assim, mas só sei gostar de uma coisa de cada vez. Queria ser bem plural, gostar de várias coisas ao mesmo tempo, mas não sou. Mulher tem fama de fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Não me enquadro muito nisso, ou gosto disso ou gosto daquilo. Sou de temporadas, sendo que algumas temporadas podem até se repetir de tempos em tempos.
Assumo minha futilidade em algumas temporadas. Fazer o que? Sou o que dá pra ser.
Temporada de livros.
Temporada de esmaltes.
Temporada de livros.
Temporada de pornografia.
Temporada de blythes.
Temporada de livros.
Temporada de séries.
Temporada de livros.
Temporada de pornografia.
Temporada de feltros.
Temporada de livros.
Temporada de patchwork.
Temporada de livros.
Temporada de pornografia.
Temporada de olhar pela janela.
Temporada de livros e pornografia.