domingo, 5 de maio de 2013
Duas vidas - Mario Bortolotto
Tem
uma parte de mim que queria ficar. Sempre teve uma parte de mim que
quis ficar. Mas eu não nego que tinha uma parte que queria ir embora.
Tinha uma parte que tava cumprindo tabela. Que se arrastava de bar em
bar e que não queria voltar pra casa. Porque não
tinha mais nada lá. Então eu entendo guitarristas que tocam baladas à
beira do abismo. Entendo sujeitos que entregam os pontos, que blefam
porque sabem que vão perder. Tem uma parte de mim que não julga ninguém.
Mas tem uma parte de mim que me condena todas as noites quando repouso
os olhos numa gravura de Hopper, como se eu não fosse merecedor de tal
visão. A verdade é que eu não tava gostando da minha vida e do jeito que
eu a conduzia. Não tinha nenhum orgulho do sujeito que eu tinha me
transformado. E naquela noite eu só tava procurando um motivo. E ele
veio. Quatro caras entraram no bar e armados tocaram o terror. Todo
mundo tinha que deitar no chão. Eu tava com uma garrafa de Jack na
cabeça, quatro fantasmas suicidas ancorados no meu ombro e meia dúzia de
sentenças irrevogáveis que eu mesmo me havia impingido. Então eu não
era o cara que ia deitar no chão. O sujeito com a arma na mão não gostou
do fato de não ser prontamente obedecido e me desferiu uma violenta
coronhada na cabeça. Tem um lugar na minha cabeça que não nasce cabelo
nunca mais. Muitos me acusam de ser um puta miolo mole. Outros me acham
um tremendo cabeça dura. Depois dessa noite, creio que a segunda
acusação faz muito mais sentido. Levei a coronhada, assimilei, levantei e
parti pra cima do cara. Foi assim, simples. Então não quero e nem
mereço a fama de herói que alguns tentaram me imputar. E nem a fama de
irresponsável que outros resolveram me atribuir. Eu simplesmente reagi
humanamente e instintivamente à uma agressão. Nada além disso. Levei
três tiros e mesmo assim não apaguei. Eu tenho dificuldade pra dormir,
deve ser isso. Só durmo fácil em mesa de bar. Em vez dos caras me
agredirem, deviam ter me dado logo mais uma dose de Jack. Eu teria
capotado na mesa e nada disso teria acontecido. Passei três dias em coma
e só quando acordei, foi que percebi que Deus adiou minha passagem.
Acho que Ele acha que eu ainda tenho algumas contas a pagar por aqui. E
ali na cama do hospital, derrotado, sozinho e olhando pro teto do quarto
de madrugada, sem conseguir dormir, percebi que nada é tão importante
assim. Tem gente que escreve um livro e acha que fez algo muito
importante. Tem gente que faz um gol no final de um campeonato e acha
que fez algo muito importante. Tem gente que se elege presidente da
república e acha que conseguiu algo muito importante. Eu vou dizer, não
há nada muito importante. A vida é só uma vinheta, um haikai perto da
eternidade. Então talvez o que valha mesmo no fim das contas são os
segundos que você passa apreciando uma gravura do Hopper ou aquela gota
de suor que escorre pro umbigo da mulher que você ama. O que vale são os
pequenos detalhes. O que vale não é o poema, é o verso que resume todo o
poema. O que vale não é a peça de teatro que escrevi. É ficar esperando
a peça inteira pra dizer aquela fala. A fala exata, aquela que eu
sempre quis dizer, e por isso acabei escrevendo uma peça inteira só pra
poder dizer. O que vale ainda é a dose de whisky que eu vou beber
sozinho ouvindo Tom Waits. Quando todos já tiverem ido pra um bar mais
movimentado onde possam se socializar com mais e mais pessoas porque os
nosso semelhantes tem essa estranha necessidade de estarem sempre
juntos. Não me dou bem com alcatéias ou manadas. No fim, a certeza é de
que o cavalo branco vai avançar na pradaria e é providencial que você
esteja preparado com um bule de café, algumas canções do John Lee Hooker
e meia dúzia de cervejas no isopor. Não espere que ninguém esteja perto
de você. No fim, você sabe que vai sozinho. Então é melhor você se
acostumar a viver sozinho. Há um vagão vazio no trem de carga que vai te
levar. Seu nome está gravado nas paredes. Você só tem que pegar a vida
que ainda tem pela mão como se fosse uma criança desamparada e leva-la
pra um lugar com mais luminosidade. Se você teve uma vida, é bom que
tenha orgulho dela. E se teve duas, a responsabilidade é ainda maior. Já
pensou nisso?
Mário Bortolotto
Verão de 2.013.
Mário Bortolotto
Verão de 2.013.
sábado, 4 de maio de 2013
Mais do livro Mulheres de Charles Bukowski
Terceira vez que posto trechos desse livro. Tenho certeza de que quando eu o ler de novo, acharei mais coisas interessantes pra postar.
“_ O Problema é com minha infância, viu. Nunca soube o que era
amor...”
“Quando eu era jovem vivia deprimido. Mas, agora, o suicídio não
era mais uma saída pra mim. É o que parecia. Na minha idade já não sobrava
muito o que matar. Era bom envelhecer, a despeito do que os outros diziam. Era
razoável que um homem tivesse de esperar até os cinquenta para poder escrever
com alguma clareza. Quanto mais rios você atravessa, mais você aprende sobre
eles – quer dizer, se você consegue sobreviver à água translúcida e as rochas
ocultas. De vez em quando era um osso duro de roer, a vida.”
“Meu problema é que eu não conseguia sossegar a minha divindade
caralhal, do jeito que eu fazia com minha divindade datilografal. Isso por que
a oferta de mulheres era sazonal e você tinha de aproveitar e transar o maior
número possível, antes que a divindade de algum aventureiro entrasse no meio.
Acho que o fato de eu ter abandonado a escrita por dez anos foi a melhor coisa
que poderia ter acontecido. Alguns críticos, imagino, diriam que foi a melhor
coisa que poderia ter acontecido aos leitores também. Dez anos de descanso pros
dois lados. O que aconteceria se eu parasse de beber por dez anos?”
“... O sexo tinha sido legal, divertido. Não conseguia me lembrar
de outra história tão civilizada. Nenhum de nós ficou fazendo exigências; mesmo
assim, não faltou carinho nem sentimento. Não foi na base da carne morta se
acoplando a carne morta. Eu detestava esse tipo de swing sexual característico
de Los Angeles, Hollywood, Bel Air, Malibu, Laguna Beach. Estranhos no primeiro
encontro, estranhos na despedida – um verdadeiro ginásio olímpico de corpos
anônimos masturbando-se mutuamente. Gente sem moral normalmente se considera
mais livre, mas a maioria carece da capacidade de sentir, de amar. Então, viram
swingrs, num troca-troca incessante de parceiro. Morto fodendo morto. Nenhum
senso de humor, nada de brincadeira no jogo deles – cadáver fodendo cadáver. As
morais são restritivas, mas são fundadas na experiência humana através dos
séculos. Certas morais servem para encarcerar as pessoas nas fábricas, igrejas
e submetê-las ao Estado. Outras fazem sentido. É como um pomar repleto de
frutos envenenados e bons frutos. O negócio é saber qual apanhar pra comer,
qual evitar.”
“Um apresentador idiota de noticiário de tevê tinha acabado de me
desejar “feliz ano-novo”. Detesto que estranhos me desejem feliz ano-novo. Como
ele sabia quem eu sou? Eu poderia ser um monstro que acabara de pendurar uma
criança de cinco anos pelas canelas e começava a cortar ela lentamente em
fatias.”
“As relações humanas nunca funcionavam mesmo. Só as primeiras duas
semanas é que tinham alguns tchans; a partir daí, os parceiros perdiam o
interesse. Caiam as máscaras e as verdadeiras pessoas começavam a aflorar:
maníacas, imbecis, dementes, vingativas, sádicas, assassinas. A sociedade
moderna tinha criado seres a sua imagem e semelhança e eles se festejavam
mutuamente num duelo com a morte, dentro de uma cloaca. Eu já tinha notado que
a duração máxima de uma história entre duas pessoas era de dois anos e meio. O
rei Mongut do Sião tinha nove mil esposas e concubinas; o rei Salomão, do Velho
Testamento, tinha 700 esposas; Augusto, o Forte, da Saxônia, tinha 365
mulheres, uma para cada dia do ano. Segurança em números.”
“Umas três semanas se passaram. A manhã já ia alta, num sábado. Eu
não tinha dormido com Lydia na noite anterior. Tomei um banho e uma cerveja, me
vesti. Eu detestava fins de semana. Todo mundo nas ruas. Todo mundo jogando
pingue pongue ou cortando grama ou polindo o carro ou indo ao supermercado ou à
praia ou ao parque. Multidões em toda parte. Segunda-feira era o meu dia
preferido. Todo mundo de volta ao trabalho e fora de vista. Decidi ir às
corridas a despeito da multidão. Isso ia ajudar a matar o sábado. Comi um ovo
cozido, tomei outra cerveja, sai e tranquei a porta.”
“Dee Dee sabia umas coisas da vida. Ela sabia que o que acontece
pra um, acontece também pra maior parte da tribo. Nossas vidas não são tão
diferentes, embora a gente goste de achar que são”.
“A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de
carro, um incêndio... A dor chega, BANG, e ai está ela, instalada em você. É
real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de
repente. Não há cura pra dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender
seus sentimentos e saiba como ajudar.”
“Depois do jantar, Lydia e eu fomos pro quarto e nos esticamos na
cama. Lydia era vidrada em cravos e espinhas. Eu tinha uma pele horrível. Ela
focou a lâmpada na minha cara e começou. Eu gostava daquilo. Me dava um
formigamento e, às vezes tesão também. Bem íntimo. Vez em quando, entre duas
espremidas, Lydia me dava um beijo. Ela sempre começava pela minha cara,
passando em seguida às costas e ao peito.
_ Você me ama?
_ Amo.
_ Opa! Olha só esse aqui!
Era um cravo com uma longa cauda
amarela.
_ Simpático – eu disse.
Ela estava espichada em cima de mim.
Parou de espremer e me olhou.
_ Inda vou te botar na cova, seu
pangaré balofo!
Caí na risada. Lydia me beijou.
_ E eu vou te levar de volta pro
hospício – disse pra ela.”
“O telefone tocou um monte de vezes. Sempre Lydia. Berrando coisas
pra mim.
_ Vou sair pra DANÇAR! Eu é que não vou ficar enfurnada aqui
enquanto você bebe.
_ Você fala como se beber fosse o mesmo que sair com outra mulher.
_ É pior
Desligou.
Continuei a beber.”
“Me sentia bem em não participar dessas coisas. Me alegrava não
estar apaixonado e não estar de bem com o mundo. Gostava de me sentir estranho
a tudo. As pessoas apaixonadas, em geral, se tornam impacientes, perigosas.
Perdem o senso de perspectiva. Perdem o senso de humor. Ficam nervosas,
tornam-se chatas, psicóticas. Podem virar assassinas.”
“Lydia foi me esperar no aeroporto. Tarada, como sempre
_ Nossa mãe – ela me disse -, que tesão! Andei me bolinando esses
dias, mas não resolveu.
A gente seguia de carro pra minha casa.
_ Lydia, minha perna ainda está péssima. Não sei se vou dar conta,
com a perna assim.
_ Quê?!
_ É verdade. Não sei se vai dar pra trepar com a perna nesse
estado.
_ Pra que serve você, então?
_ Bom, eu posso fritar uns ovos, fazer mágicas...
_Engraçadinho. Eu tô perguntando pra que serve você?
_ A perna vai sarar. Se não eles cortam ela. Um pouco de
paciência.
_ Se você não estivesse bêbado, não teria caído e cortado a perna.
Sempre a garrafa!
_ Não é sempre a garrafa, Lydia. A gente trepa umas quatro vezes
por semana. Pra minha idade é uma boa média.
_ Às vezes, eu acho que você nem gosta muito disso.
_ Lydia, sexo não é tudo na vida! Você é obcecada. Pelo amor de
Deus, dá um tempo!
_ Um tempo? Até sua perna melhorar? Como é que eu vou me virar
enquanto isso?
_ Eu jogo mexe-mexe com você.
Lydia deu um berro. O carro começou a balançar na rua.
_ SEU FILHO DA PUTA! EU TE MATO!”
“Nossos beijos foram ficando mais e mais envolvente. Ela não bebia
tanto quanto eu. Fomos pra cama d’água, tiramos a roupa e começamos. Eu já
tinha ouvido falar desse negócio de trepar em cama d’água. Diziam que era
ótimo. Eu achei complicado. A água chacoalhava debaixo da gente. Enquanto eu
bimbava, a água dançava de um lado para o outro. Em vez de trazê-la para mim, a
cama parecia afastá-la de mim. Talvez me faltasse prática. Parti para a
selvageria costumeira, agarrando seus cabelos, e golpeando-a lá embaixo como se
fosse um estupro. Ela gostava, pelo menos é o que parecia. Dava gemidos de
delícia. Fiquei brutalizando ela um pouco mais, daí, de repente, pareceu que
ela gozou, com todos os sons apropriados. Isso me excitou, e eu gozei logo
depois dela.”
“Bebemos um pouco mais e fomos pra cama. Ela tinha um corpo incrível,
glorioso. Estilo Playboy. Só que eu estava desgraçadamente bêbado. Fiquei de
pau duro, porém. Bombei, bombei, agarrando seus longos cabelos; tirei de
dentro, esfreguei minhas mãos no bicho; estava excitado, mas não consegui
acabar. Rolei pro lado, disse boa noite para Cassie e dormi um sono culpado.”
- Faz tempo que
você saiu. Olha aí, ela arranhou sua cara!
- Juro que não aconteceu nada.
- Tire a camisa. Quero ver suas costas!
- Que merda, Lydia.
- Tire a camisa e a camiseta.
Tirei ambas. Ela ficou atrás de mim.
- O que é esse arranhão nas suas costas.
- Que arranhão?
- Tem um comprido aqui... de unha de mulher.
- Só se foi você...
- Tá bom. Só tem um jeito de descobrir..
- Qual?
- Vamos pra cama.
- Legal!
Passei no teste. Depois fiquei pensando, como é que um homem pode testar a fidelidade de uma mulher? Não era justo..."
- Juro que não aconteceu nada.
- Tire a camisa. Quero ver suas costas!
- Que merda, Lydia.
- Tire a camisa e a camiseta.
Tirei ambas. Ela ficou atrás de mim.
- O que é esse arranhão nas suas costas.
- Que arranhão?
- Tem um comprido aqui... de unha de mulher.
- Só se foi você...
- Tá bom. Só tem um jeito de descobrir..
- Qual?
- Vamos pra cama.
- Legal!
Passei no teste. Depois fiquei pensando, como é que um homem pode testar a fidelidade de uma mulher? Não era justo..."
“– Você se preocupou com aquele cara, né? – ela perguntou.
– É.
– Por quê?
– Parecia uma trepada, quase; talvez melhor.
– Aquilo não queria dizer nada; era só dança.
– Imagine se eu agarrasse uma mulher na rua daquele jeito. Com música ficaria tudo bem?
– Você não tá entendendo. Cada vez que eu parava de dançar eu voltava e sentava do seu lado.
– Tá legal, tá legal – eu disse. – Espere um minuto.
Vomitei outro jorro em cima das plantas agonizantes de alguém. Descemos a colina, saindo do bairro de Echo Park, e caminhamos até o Hollywood Boulevard.
Entramos no carro. Dei a partida e a gente rodou Hollywood, pro oeste, em direção a Vermont.
– Sabe como é que se chama um cara que nem você? – perguntou Lydia.
– Não.
– Se chama – disse ela – desmancha-prazeres.”
– É.
– Por quê?
– Parecia uma trepada, quase; talvez melhor.
– Aquilo não queria dizer nada; era só dança.
– Imagine se eu agarrasse uma mulher na rua daquele jeito. Com música ficaria tudo bem?
– Você não tá entendendo. Cada vez que eu parava de dançar eu voltava e sentava do seu lado.
– Tá legal, tá legal – eu disse. – Espere um minuto.
Vomitei outro jorro em cima das plantas agonizantes de alguém. Descemos a colina, saindo do bairro de Echo Park, e caminhamos até o Hollywood Boulevard.
Entramos no carro. Dei a partida e a gente rodou Hollywood, pro oeste, em direção a Vermont.
– Sabe como é que se chama um cara que nem você? – perguntou Lydia.
– Não.
– Se chama – disse ela – desmancha-prazeres.”
"Decidi que eu ia viver ate os oitenta. Imagine só ter oitenta anos
e trepar com uma garota de dezoito. Se tem algum jeito de roubar no jogo da
morte, o jeito é esse."
quinta-feira, 2 de maio de 2013
O dia D
Andorinhas não voam muito pra longe dentro do mar, quando os marinheiros veem andorinhas, sabem que já está perto de chegar em terra firme. Me identifico com isso... quero ir mais longe nos meus pensamentos, na minha vida, mas sempre volto pra terra firme, tanto no quesito religioso quanto no que se relaciona aos meus sentimentos de amor (amor?) por minha família e pelo meu marido.Não tenho capacidade nem saúde pra ter uma alma livre como Bukowski. Quando minha andorinha começa a voar, não vai muito longe, volta sempre pra terra firme. É também o pássaro azul do Bukowski, pois me sinto exatamente assim:
Há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
...
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
Assinar:
Postagens (Atom)

