Nasci
ilegítimo - isto é, fora de um laço
matrimonial – em Ademach, Alemanha, no dia 16 de agosto de 1920. Meu pai era um
soldado do exército de ocupação americano; minha mãe era uma camponesa alemã,
simples e ignorante. Trouxeram-me para os Estados Unidos com dois anos de idade
– primeiro Baltimore, depois Los Angeles, onde desperdicei a maior parte da
minha juventude e onde vivo hoje em dia.
Meu pai era
um homem brutal e covarde que me surrava continuamente com uma tira de couro de
afiar navalha, por qualquer motivo que fosse. Minha mãe estava de acordo com o
tratamento que me era dado. ‘Crianças devem ser vistas, mas não ouvidas’, era a
máxima preferida do meu pai.
Davam-me
infindáveis tarefas na casa e no jardim, e se eu não as cumprisse com cem por
cento de perfeição levava uma surra. As tarefas, aparentemente, nunca eram
cumpridas com perfeição. Eu levava uma surra por dia. Aos sábados era obrigado
a cortar a grama duas vezes – uma vez em cada direção – aparar e debruar as
áreas exteriores, depois tinha que molhar os dois gramados e regar todas as
flores. Enquanto isso, meus amigos estavam jogando futebol americano e beisebol
nas ruas, rindo e descobrindo uns aos outros.
Meu pai
inspecionava o gramado quando quando o serviço estava terminado. Ele se
ajoelhava, deitava a cabeça na grama e a examinava minunciosamente, a procura
do que chamava de ‘pelos’. Se encontrasse um ‘pelo’, uma folha de grama maior
do que as outras, eu receberia minha surra. Ele sempre encontrava um ‘pelo’.
Eu só abria
a boca para dizer sim ou não. Depois dos cinco ou seis anos de idade, deixei de
chorar quando apanhava. Odiava tanto aquele cara que meu único jeito de me
vingar dele era não chorar, o que fazia com que ele me batesse ainda mais
forte. As lágrimas corriam dos meus olhos, mas eram lágrimas silenciosas. As
surras sempre aconteciam no banheiro – talvez porque a tira estivesse lá. E
quando ele terminava, dizia “Vá para o seu quarto”.
Entrei cedo
no submundo.
Minha bunda
e a parte de trás das minhas coxas estavam sempre cobertas de hematomas. Quando
eu era chamado para o jantar – comer era sempre algo penoso pra mim -, eles me
deixavam sentar numa almofada, ou se a surra tivesse sido excepcionalmente
forte ás vezes me deixavam usar duas almofadas.
Eu tinha que
dormir de bruços por causa da dor. Embora tenha nocauteado meu pai com um soco,
uma bela noite, quando tinha dezessete anos, e o tenha enterrado vários anos
depois, o hábito de dormir de bruços permaneceu.
Não quero
fazer dessa confissão uma choradeira; gosto de rir como todo mundo – agora. Ou
quem sabe não seja engraçado, olhando para trás, me ver deitado de bruços na
cama, ouvindo os dois roncar ou foder, e pensando, ‘Que chance um cara de um
metro e vinte de altura pode ter?’ hoje eu tenho um metro e oitenta e três e
outros monstros tomaram o lugar do meu pai.
Na escola
não foi muito diferente. Como não tinha nenhuma prática em esportes de rua, mal
sabia a diferença entre uma bola de beisebol e uma bola de futebol americano.
Minha primeira tentativa foi a hora do recreio. Beisebol. Lançaram a bola e eu
não consegui acertar a tacada. Jogaram a bola de futebol e eu não consegui
pegar. Não entendia nem a metade do que eles falavam. Eu era um ‘veadinho’.
Eles me seguiam em bandos depois da aula e me insultavam durante todo o caminho
de casa. Não havia lugar para mim entre eles.
Até na sala
de aula eu era dos mais atrasados. Ainda estava lutando contra figura paterna e
também contra a figura materna. Aquilo me incomodava na sala de aula, eu
decidia não aprender. Às vezes era a cara do professor; às vezes era
simplesmente a monotonia do processo de aprendizagem. Me recusava a prender as
notas musicais, as regras da gramática. Me recusava a aprender álgebra. Apenas
mais tarefas estúpidas.
Na maioria
das vezes eu tirava ‘4’ ou ‘D’, mas às vezes tirava um ‘F’. Estava sempre
levando a culpa por alguma coisa – nunca me diziam exatamente o quê – e quase
sempre ficava de castigo depois da escola. Eu não tinha amigos, mas isso não
parecia me fazer falta.
Então em algum
ponto, a medida que os anos passaram, ocorreu uma mudança; começo em algum
momento entre o ensino médio e meus dois anos na La City College. Passei a ser
o cara mais durão do pedaço. Deve ter sido depois que sai do County Hospital.
Tive que ficar afastado por seis meses. Tinha espinhas do tamanho de maças
espalhadas por meu rosto e costas – ao redor dos olhos, no nariz, atrás das
orelhas, no couro cabeludo. Aquela vida intoxicante tinha finalmente explodido
para fora de mim. Lá estavam – todos os gritos contidos – irrompendo
transformados.
Os médicos
me furavam com uma enorme agulha. Foi a única coisa que lhes ocorreu fazer, me
furar com uma agulha. Eu podia sentir o cheiro do sebo queimando quando a
agulha esquentava. Eles picavam aquelas bolas imensas, fazendo jorrar sangue
para todos os lados.
_ Nunca vi
um caso assim – disse um dos médicos – Olha o tamanho desses troços! Uma super
acne vulgaris!
Então cinco
ou seis deles se amontoavam à minha volta para olhar o tamanho dos troços.
Idiotas. Foi
ai que coloquei a categoria médica na minha lista negra. Para falar a verdade,
nada escapava da minha lista negra. Eu não odiava os médicos como odiava meu
pai; simplesmente os achava um bando de idiotas.
_ Nunca vi
um cara aguentar isso no osso! Ele nem treme ou esboça qualquer reação. Não
consigo entender.
Quando
voltei pra escola, alguma coisa em mim tinha mudado. Eu tinha enfrentado chumbo
grosso. Nada mais importava. Em vez de ficar confuso e sentir medo da multidão,
eu tinha me transformado num “garoto durão”. Outros garotos durões tentaram
fazer amizade comigo. Eu os mandei cair fora.
Descobri que
podia dar ótimas tacadas no beisebol. E o futebol americano era uma beleza.
Especialmente quando jogávamos em meia-cancha nos estacionamentos vazios e nas
ruas asfaltadas – e a gente costumava mesmo jogar nas ruas nos anos 30.
Do dia para
a noite passei de veadinho para super homem, e então perdi o interesse.
Esportes eram tão estúpidos quanto qualquer outra coisa, talvez até mais.
Descobri uma
pequena biblioteca no cruzamento das avenidas La Cienega e West Adams. Comecei
a retirar livros nesta biblioteca sem nenhuma orientação. Para ver se um livro
era bom eu abria na primeira página e observava o aspecto da impressão no
papel. Se me parecesse bom, eu lia um parágrafo. Se o parágrafo fosse bom eu lia
o livro. Foi assim que descobri D. H. Lawrence, Thomas Wolfe, Turguêniev – não,
Wolfe foi um pouco mais tarde, na biblioteca grande que ficava no centro -, mas
na biblioteca pequena também descobri o velho Upton Sinclair, Sinclair Lewis,
Górki e o grande Fiódor Mikhailovitch Dostoievski. Tudo isso antes de alguém me
dizer que eles eram mais do que a ponta de estoque das porcarias que entulhavam
as bibliotecas públicas. É claro, apenas Dostoievski e alguns contos de
Turguêniev permaneceram gravados em mim.

Bem, se você
ainda estiver me acompanhando, deixei meus queridos pais e me mudei para um
apartamento na esquina da Third com a Flower, onde vivi as custas da minha
sorte – que na época consistia na capacidade de ganhar competições de copo e de
me dar bem nos jogos de dados. Também tinha sorte nas disputas com estranhos a
dez dólares a rodada.
Fui
despejado do apartamento da Third com a Flower por um velho que era dono do
lugar. Ele chegou para mim e disse:
_ Meu filho,
você está destruindo o meu apartamento.
Ele tinha
mau hálito e o lugar, ratos.
_ Você está
destruindo o meu apartamento e não está deixando o pessoal dormir à noite. Tem
um monte de camaradas velhos aqui que só querem um pouco de sossego. Você vai
ter que se mudar.
Merda. Eu
conhecia esses velhotes. Só havia dois tipos: os que adoravam Deus e os que
adoravam o vinho. E os que adoravam Deus eram os que reclamavam.
*
Encontrei um
apartamento na Temple Street, que na época ficava no bairro dos Filipinos,
bebia pesadamente, continuava tendo sorte com as apostas. Meu quarto mais uma
vez se tornou ponto de encontro de jogadores, mas a senhoria era durona, não
parecia se importar nenhum um pouco, era dona de uma parte do bar que ficava no
térreo e tenho quase certeza de que encaminhava alguns jogadores para o meu
quarto. Eu bebia enquanto jogava e isso me deixava relaxado o bastante para ter
sorte. Meu esquema era sempre o mesmo – eu dominava o jogo durante um certo
tempo todas as noites, e assim que conseguia a quantia que queria, começava a
cambalear para lá e para cá fingindo estar bêbado e furioso.
_ Muito bem,
todos pra fora! Pelo amor de Deus, vocês não têm nenhum lugar para dormir? Isso
aqui não é igreja nem bordel! Eu moro aqui!
Depois
vociferava mais uma série de xingamentos e dizia a eles, atirando um copo cheio
de uísque contra a parede:
_ Eu disse
“todos para fora”!
Eles se
enfileiravam e marchavam em direção à porta.
_ A próxima
rodada começa amanhã às seis da tarde. Não se atrasem.
Eles iam
embora. Eu ainda era o garoto durão. Ou o garoto bufão. Não sabia ao certo.
Fui ficando
cada vez melhor, até que numa noite acabei brigando com um cara que eu achava
que era meu amigo. Ele era fuzileiro naval, mas apesar disso tinha uma cabeça
boa, quase conseguia acompanhar meu ritmo com a bebida, mas tinha certo apreço
por Thomas Wolfe e Teddy Dreiser. O problema era que Wolfe era um bom homem que
escrevia mal e Dreiser era um homem inteligente quede fato não sabia escrever.
Uma noite,
depois que os jogadores foram embora, nos sentamos com uma garrafa de uísque e
tentamos discutir o assunto. Eu também disse a ele que Faulkner era para
criancinhas. Tchékhov, não – um joguete das massas abastadas. Steinbeck, um
técnico. Hemingway, apenas meia boca. Ele gostava de todos eles. Era um
imbecil. Então eu disse que Sherwood Anderson era melhor que todo esse maldito
bando. Isso mexeu com ele.
Foi uma boa
briga. No final, todos os espelhos e moveis do quarto estavam caídos no chão.
Você
consegue imaginar o sentido de uma briga ser o sentido da literatura e não uma
boceta qualquer? Somos tão loucos quanto os outros.
Não sei quem
venceu a luta. Provavelmente foi ele. Mas quando acordei na manhã seguinte e
olhei em volta, achei que não seria justo pagar sozinho a conta dos estragos.
Juntei meus trocados, sai e pequei um ônibus para New Orleans.
Achei o
bairro francês um embuste e fiquei no lado oeste do canal Street, dormindo com
os ratos. Por alguma razão, decidi me tornar um escritor. Comecei a escrever
contos, manuscritos à tinta, e a enviá-los para Harper’s, para The Atlantic ou
para New Yorker. Quando os mandavam de volts, eu rasgava as folhas.
Escrevia de
seis a dez contos por semana, bebia vinho e frequentava bares de quinta.
Ia de cidade
em cidade, trabalhando longas horas em trabalhos tediosos e miseráveis –
Houston, Los Angeles, St. Louis, Frisco duas vezes, Nova York, Miami, Savannah,
Atlanta, Fort Worth, Dallas, Kansas City, e provavelmente mais algumas que não
lembro mais.
Trabalhava
nos matadouros, nas equipes das ferrovias, despachando pequenos carregamentos,
recebendo pequenos carregamentos. Trabalhei até na Cruz vermelha (bravo), fui
gerente numa distribuidora de livros. Além disso, fui uma espécie de leva e
traz beberrão no ultimo banco de um bar na Fairmount Avenue, na Filadélfia,
saindo para buscar sanduiches para a moçada de peso. Uma cerveja ou um uísque
de gorjeta, geralmente uma cerveja.
Conheci
alguns vagabundos da pesada. A maior virtude desses caras, além do mau hálito,
era que no meio do seu bando errante de homens você as vezes encontrava uma
pérola. Mas decidi não me juntar a eles.
Tornei-me um
bêbado como outro qualquer, pensando em suicídio, me enfurnando por dias a fio
em quartinhos minúsculos com as venezianas fechadas, me perguntando o que
acontecia lá fora e o que havia de errado com aquilo – sem saber se culpava o meu
pai, a mim mesmo ou a eles.
Eu era
pacifista numa época belicista. Não sabia quais guerras eram benéficas e quais
eram nocivas – ainda não sei. Eu era hippie quando os hippies não existiam; eu
era beat antes de surgirem os beats.
Eu era um
movimento de protesto, sozinho.
Fazia parte
de uma espécie de submundo, como um espião clandestino, e sequer existiam
outros espiões.
É por isso
que eu não conseguia ver as coisas com clareza, entender o que estava
acontecendo. Eu já tinha feito de tudo. E quando Tim Leary disse “caia fora” 25
anos depois de eu já ter caído fora, não consegui sentir nada. O grande “caia
fora” de Leary significou ser demitido do seu cargo de professor de algum lugar
(Havard?).
Eu era a
contracultura quando não existia a contracultura. Eu era o jovem safado. Meu
corpo de 1 metro e 83 e 97 quilos de puro músculo passou a ser um esqueleto de
63 quilos. Fui preso, dividi a cela com Courtney Taylor, o grande vigarista e
inimigo público número um da época. Um injustiçado, é claro. Eu, não o Taylor.
E sai, fui
de novo para Filadélfia, voltei para aquelas pensões, era despejado uma vez por
semana.
Caminhando
pela rua às nove da manhã, ouvia as velhinhas cochicharem em suas cadeiras de
balanço:
_ Está vendo
aquele moço? Já está bêbado! Botei ele para fora do meu apartamento! Meu Deus,
Fiquei tão feliz de me livrar dele!
Aquelas
senhoras de antigamente, seus maridos morreram cedo de tanto trabalhar para que
elas pudessem usar calcinhas de renda. Aquelas senhoras de antigamente, que
hoje em dia ficam horrorosas de calcinhas de renda, me culpam por tudo que
acontece, porque não me entreguei de corpo e alma ao ofício medíocre qualquer.
_ Você
trabalha? – elas perguntavam toda vez que eu batia à porta.
_ É claro –
eu dizia, no sentido de que meu trabalho era sobreviver, e era um trabalho de
merda. Então elas deixavam você ficar ali a primeira noite e nas paredes havia
placas com dizeres como “JESUS TE AMA!”.
*
De repente
eu estava no Village, em Nova York – o antigo Village, um lugar ordinário,
cheio de impostores, como suponho que o novo Village seja agora. O artista deve
estar em constante movimento, um passo à frente do vulgo.
No Village,
passei por uma farmácia e na prateleira das revistas estava a então famosa
revista Story, editada por Whit Burnett e Martha Foley. Se você chegava a Story
isso significava que você era uma espécie de gênio legítimo e aprovado. Eu
havia tentado a Story algumas vezes, junto com as investidas na
Atlantic-Harper‘s-New Yorker. Apanhei a revista para dar uma olhada, então vi o
meu nome da capa! Eles haviam publicado um texto meu. Aos vinte e quatro. Eu
tinha mudado de endereço tantas vezes que a correspondência não chegou a tempo
ou se perdeu. Peguei a revista, fui em direção ao caixa e paguei.
Na mesma
época eu havia conseguido um emprego, muito a contragosto. Cuidava do estoque
de uma distribuidora de livros e revistas. Alguns dias depois meu chefe chegou
com uma cópia da Story. Ele disse:
_ Ei, veja
que coisa engraçada. Olha, tem um cara nessa revista com o mesmo sobrenome que
você!
_ Não – eu
disse -, sou eu mesmo.
_ Ah, corta
essa! Você escreveu essa história?
Alguns dias
depois fui chamado ao departamento pessoal. Eu tinha faltado dois ou três dias
por motivo de embriaguez. Fui recebido por uma vadiazinha jovem e bonita.
_ Você é
Charles Bukowski?
_ Sim.
_ Você
escreveu aquele conto na Story?
_ O que
importa?
_ Estamos
promovendo você a chefe da seção de remessa de livros.
_ Você é
quem sabe – eu disse a ela.
Eu sabia que
isso era uma manobra estúpida. Ser escritor não tinha nada a ver com ser
qualquer outra coisa.
Eu não era
um bom chefe de seção. Chegava bêbado e batia na bunda dos operários com o cabo
do martelo, enquanto eles pregavam as caixas de madeira. Mas eles gostavam de
mim. Isso não estava certo – um bom chefe deve ser temido. O mundo todo
funciona na base do medo.
Minha função
era contar o número total de livros enviados nas caixas, assinar a nota fiscal,
largar ali dentro e dizer: “pode pregar!”. Eu apenas fingia contar. Era tão
fácil e tão tedioso. E eles sabiam das coisas melhor do que eu. Eu simplesmente
fechava os olhos, fingia que estava contando, assinava a nota e dizia: “ok,
pode pregar!”.
Eu era
experiente o bastante para saber que logo todos perceberiam que eu estava
cagando para o trabalho, então pedi demissão antes que alguém me dedurasse.
Mas antes
que eu deixasse a cidade uma coisa muito estranha aconteceu. Conheci meu ídolo!
Eu conheci o grande Whit Burnett, o todo poderoso editor da Story. Mas ele não
me reconheceu. Porque não sabia como eu era fisicamente. Mas eu o reconheci por
conta das inúmeras fotografias dele que tinha visto. Eu caminhava na direção
norte, e ele, na direção sul. Estava passando pelo maior editor do mundo. Ele
tinha uma expressão de sofrimento superficial e reservado, ainda que seus olhos
fossem bonitos. Mas ficou claro para mim que nós erámos muito diferentes.
Encolhi a barriga e comecei a gargalhar na frente dele. Meu ídolo havia
desmoronado. Foi uma risada verdadeiramente idônea, sem malícia. Ele me encarou
por um instante, depois seguiu andando.
Bem, houve
mais um sucesso na Portfolio de Caresse Crosby. Eu estava lado a lado com Henry
Miller, Gene, Sartre, Lorca, muitos outros que já esqueci, porque meus dois
exemplares foram roubados por amigos.
Então
larguei tudo. Parei de escrever. Desisti. Enchi a cara durante dez anos. Me
estabeleci novamente em Los Angeles. Trabalhava o suficiente para sobreviver,
mal e porcamente. Bebia o suficiente para me destruir, ou quase. Tornei-me o
grande comedor das prostitutas da Alvarado Street.
Bem, como
quis a sorte, tive que conhecer a mulher mais bonita e mais feroz de todas –
Jane; o nome era indiano e irlandês. Era irritadiça e colérica, mas tinha
pernas lindas e uma bunda ótima, e havia algo diferente nela – uma presença de
espírito -, quero dizer, quase tudo que ela dizia era absolutamente relevante,
e nunca houve alguém que trepasse tão bem quanto ela.
Não sei
dizer o que fazia com o que fosse tão boa de cama. Acho que era a mistura
equilibrada entre amar e odiar, tudo ao mesmo tempo – ela nunca iludia você -,
e então finalmente se entregar a uma submissão total e definitiva. Além disso
tudo, ela tinha uma boceta muito gostosa.
Lembro-me da
noite em que a conheci, da primeira noite em que a levei pra minha casa. Big
Johnny, o figurão das vendas me disse:
_ Ninguém
consegue domar essa aí, Hank, mas se alguém for capaz, acho que é você.
Ela estava
bem vestida, roupas caras, especialmente os sapatos, e não parecia ser uma
pessoa difícil. Comprei duas garrafinhas de bourdon, vários maços de cigarro, e
pegamos um taxi em direção a minha casa, que estava bastante limpa, para
variar. Tudo correu bem por algum tempo. Ela sentou no sofá, cruzou aquelas
belas pernas e eu conversei com ela, pensei em como iria fodê-la, dei a ela uma
das garrafinhas de bourdon, peguei a outra para mim e disse:
_ Beba no
gargalo.
_ Você acha
que é o sr. Van Bilderass, não é mesmo?
_ Não, na
verdade não. A vida foi bastante dura para mim.
_ Corta
essa! Você acha que é o sr. Van Bilderass!
Os olhos de
Jane se arregalaram. Ela pegou sua garrafinha de bourdon, ergueu-a acima da
cabeça.
_ Espere! –
eu disse.
_ O que foi?
_ Jogue essa
porcaria em mim – e trate de acertar e me nocautear! Caso contrário, vou atirar
de volta na sua cara. E não vou errar! Agora, vamos, atire!
Ela me olhou
e pousou a garrafa.
Transamos
algumas vezes naquela noite. Foi muito bom.
No fim das
contas, moramos juntos de seis a oito anos no inferno.
Estou
tentando ser sucinto aqui, fazendo um apanhado de tudo o que aconteceu, mas
como você vai enfiar 49 anos em quatro ou cinco mil palavras? Então tenho que
contar coisas aleatórias sobre Jane – como na primeira noite em que a estava
comendo e parei no meio de uma estocada e disse:
_ Puxa, não
sei o seu nome. Qual o seu nome?
A reposta
dela:
_ Porra, que
diferença isso faz?
Certa noite,
com a minha Jane, estava tão bêbado que havia caído do sofá, ficando junto a
ela, olhando para seus tornozelos finos naqueles sapatos de salto alto, aquelas
panturrilhas, perfeitas, aqueles joelhos, perfeitos, e ela ali na minha frente.
Eu havia bebido duas vezes mais do que ela e acabara de cair do sofá. E,
deitado de barriga pra cima, olhando para aquelas pernas, proferi a mortal
sentença:
_ Doçura, eu
sou um gênio e ninguém além de mim sabe disso.
E ela respondeu
com a imortal sentença:
_ Ah,
levanta do chão e senta direito, seu imbecil!
Um dia,
também tive de enterrá-la. Como meu pai, como minha mãe. Enterrei-a dois anos
depois de nos separarmos.
Mas antes
disso, fui à ala beneficente do County Hospital (meu antigo lar) e me colocaram
num porão escuro, e meus documentos sumiram.
_Os
documentos – disse a enfermeira-chefe – foram para o térreo e eu estava no
andar de cima.
Então fiquei
perdido em algum lugar naquele aposento subterrâneo, um corpo sem documentos,
morrendo, sangrando sem parar pela boca e pelo cu. Todo aquele vinho barato e a
vida desregrada escoando para fora – rios de sangue. Então alguém achou meus documentos
e depois de três dias no porão fui conduzido a uma área mais iluminada. Mas ai
descobriram que eu não tinha crédito no banco de sangue.
_ Sr.
Bukowski – a enfermeira-chefe me disse -, se o senhor não puder comprovar que
tem crédito, não poderá receber sangue.
O que
significava que eu iria morrer.
Aparentemente
tudo que eles faziam pelos moribundos e enfermos era deixá-los ali deitados
para morrer. Eu os via retirando os mortos de todos os lados. Assim eles
liberavam espaço para os corpos novos que chegavam. O problema era a falta de
espaço. E não tinha enfermeiras nem médicos. Quando aparecia um médico
residente era praticamente um milagre.
Então
descobriram que meu pai possuía crédito no banco de sangue na época em que
trabalhava. Além disso, eu estava emporcalhando toda a ala com o meu sangue, e
estava demorando demais pra morrer. Uma enfermeira apareceu como um anjo caído
do céu e enfiou uma agulha na minha veia, pendurou a bolsa. Recebi sete litros
e meio de sangue e sete litros e meio de glicose de uma só sentada.
Achei um apartamento
de Kingsley Drive, arrumei um emprego como motorista de caminhão e comprei uma
velha máquina de escrever. E todas as noites depois do trabalho eu me
embebedava. Despejava rapidamente oito ou dez poemas. Não sei como deixei de
escrever contos. Estava escrevendo poemas, mas não sabia por quê. De algum modo
descobri J. B. May e sua revista Trace, que na época era a única força
concentrada no recente cenário emergente das revistas de pequeno porte. E os
‘pequenos’ naquela época eram um terreno muito mais agradável para a escassa
literatura autêntica e de qualidade que era produzida. Agora os pequenos
mudaram, materializaram-se em um bando de operários com aparelhos de mimeógrafo
baratos que se tornaram um depósito de literatura e poesia medíocres. Os
pequenos e os grandes agora operam da mesma forma: ambos publicam lixo e só
estão interessados em fama e grupos de influência e dinheiro, custe o que
custar. A boca do cavalo finalmente encontrou o cu e está comendo a própria
bosta.
Escrevi mais
poemas, troquei de trabalho e de mulher, enterrei Jane, e então eles começaram
a me perseguir. Pequenos livros surgiram no mercado: Flower, Fist and Bastial
Wail. Run With the Hunted. Longshot Poems For Broke Players. Meu estilo era muito
simples e eu dizia tudo o que tinha vontade. Os livros esgotavam-se
rapidamente. Eu era compreendido por prostitutas de Kansas City e professores
de Havard. Quem sabe mais do que eles?
As coisas
estavam mudando depressa. Whit Burnett havia se aposentado, A Story acabara. O
novo grande editor do nosso tempo era Jon Edgar Webb da Loujon Press Books,
organizador da revista The Outsider. Logo minha foto estava na capa da The
Outsider – a caneca lascada e gasta, e os poemas e cartas dentro. Eu era o novo
conceito poético – bem diferente da poesia culta e meticulosa – eu escrevia
visceralmente. Alguns odiavam, outros amavam. Eu não estava nem aí. Apenas
bebia mais e escrevia mais poemas. Minha máquina de escrever era uma
metralhadora e estava carregada.
O novo
grande editor, o velho Jon Webb, sempre lançava edições de qualidade. Meus dois
livros, It Catches My Heart in Its Hands e Crucifix in a Deathhand, foram
impressos num papel que deve durar 2.000 anos. Sabe, isso é assustador. Os
livros esgotaram-se rapidamente, comprados por colecionadores, que agora pedem
de 25 a 75 dólares por exemplar, enquanto Webb e eu estamos na maior merda,
aflitos para saber de onde virão nossos próximos tostões. Webb finalmente ficou
desesperado e esperto o suficiente e publicou uma série de cartas de Henry
Miller para um pintor, um pintor francês, se não me falha a memória. Miller
escreveu algumas coisas muito boas, mas as cartas não eram grande coisa, em
termo de literatura. De qualquer forma, Webb começou logo de saída a vender os
exemplares por 25 dólares cada. Os colecionadores que se virem com essa.
Mas voltando
um pouco no tempo. Você ainda está acordado? Saíram apenas quinhentos
exemplares assinados do livro It Catches. Webb queria imprimir 2.500 do
Crucifix. Eu não tinha nenhum poema pronto então fui escrevendo na máquina e
mandando direto para a prensa – todos os poemas do Crucifix, com exceção de um
, no foram enviados às revistas. Foram direto para o livro. Por um lado isso
era um inferno.
Webb dizia:
_ Preciso de
mais poemas, Bukowski.
_ Maldição!
Me dê um pouco mais de tempo!
Era um
inferno, mas também era emoção pura, e sempre gostei de coisas emocionantes.
Desta vez, a
parada era em New Orleans, e o ultimo poema estava pronto, e o livro estava
saindo da gráfica e então veio o golpe – eu tinha de assinar 2.500 malditas
folhas! As folhas eram roxas e formavam uma pilha de mais de dois metros de
altura. Parecia que eu nunca ia terminar. E Webb queria que todas as folhas
fossem assinadas com uma caneta especial, de ponta prateada, e cada página
levava cinco minutos pra secar. Enchi o saco de assinar meu nome e a data,
então passei a incluir desenhos, escrever umas coisas. Fiz isso para não
enlouquecer, mas os desenhos escritos apenas tornavam o processo mais lento e
eu só fazia beber e beber e beber e insultar a mulher que haviam arranjado para
ficar comigo.
Alguns dias
depois eu ainda estava enterrado lá, sempre bêbado, assinando aquelas 2.500
páginas com tinta prateada. Fiquei de saco cheio do nome Charles Bukowski.
Passei a odiar o filho da puta.
Enquanto
isso uma mulher e uma criança pequena, minha própria filha, esperavam por mim
em Los Angeles. Depois que todas as páginas haviam sido assinadas, resolvi
tirar cara ou coroa. A resposta foi: voltar pra mulher e filha. Obedeci.
Mas havia
Jon Webb, o grande editor, e se não era algum dos meus livros, era alguma outra
coisa. Ele gostava de me ter por perto. Gostava de discutir comigo. Eu não
gostava de discutir. Uma vez me arranjaram o cargo de poeta-residente no Chalé
da universidade do Arizona, o que não foi nada fácil, já que me recuso a ler
meus textos em público, pois sentia que aquilo não passava de babação de ovo e
adulação pública, que debilitava o que quer que houvesse sobrado da minha alma.
(Quando eu torrar meu último centavo vou querer ler e eles vão querer me
ouvir.)
O chalé não
era ruim. Tinha um ar-condicionado e fazia um calor de quase quarenta graus
todos os dias. Eu não sabia que Tucson era tão quente.
O chalé
ficava um pouco atrás do passeio do campus, mas mesmo assim alguns dos
estudantes sempre conseguiam avistar um tipo estranho, malvestido e de
aparência nada poética, perto do meio-dia, saindo pela porta com um enorme saco
de garrafas vazias, para depois jogar as garrafas dentro de uma lixeira com a
inscrição “Univ. of Ariz.” E após descartar as garrafas, pontualmente vomitar
dentro da lixeira. Me disseram que alguns grandes escritores haviam habitado
aquela cabana. Não vou citar nomes, mas havia alguns livros desses caras ali e
eu tentei lê-los e essa era uma das razões do vômito matinal. Também havia um
rádio, mas em Tucson eles não tocam músicas de orquestra à noite, então tinha
que ouvir os últimos hits de rock, e, somando isso aos livros “grandes
escritores” e as bebidas, acho que eu estava mais doente naquele chalé do que
estive em qualquer outro lugar. Corria a notícia de que tinha um louco morando
ali. Ninguém se aproximava, o que era maravilhoso. Contudo, o professor que
havia registrado minha residência me ligou do hospital (onde estava tratando de
uma úlcera)(isso parece inventado, mas é verdade), e disse:
_ Assim que
você for embora Bukowski, vamos arrebentar essa cabana com uma bola de
demolição.
_ Obrigado,
senhor – eu disse -, mas antes não se esqueça de salvar todas as grandes obras
que estão aqui.
_ Não
esqueceremos – ele disse.
O filho da
puta era maluco.
Bem, sai de
lá depois de uma discussão iniciada por Webb a respeito dos “hippies”. Porra,
eu não era muito chegado nos hippies. Eu era um solitário. E veja algumas das
coisas que eles estavam apenas começando a descobrir: a guerra, o efeito
imbecilizante de se trabalhar de quarenta a quarenta e oito horas por semana em
algo que não se gosta, a emboscada que era o casamento. Mas os hippies não me
diziam nada. Suas descobertas eram tardias, e eles gostavam de se amontoar em
grupos, andar de um lado para o outro e bazofiar. E as drogas? O que havia de
sagrado naquilo? Era apenas algo que me davam, normalmente de graça: metadona,
boletas vermelhas e amarelas, LSD. Não fazia diferença, eu mandava ver e saia
do mesmo jeito que havia entrado.
É certo, eu
estava insensível àquilo tudo. Não havia nenhuma sensação realmente excitante.
Apenas um brilho, ou, com LSD, um espetáculo controlado.
Cheire
cocaína, fume haxixe. Tudo passava e eu tinha que encarar o mundo de novo. O
mundo sempre estava lá quando você aterrissava. Essa era a grande descoberta.
Quanto mais você subia, maior era a queda, e você tinha que sobreviver de
alguma maneira, e isso era difícil, porque depois que passava o efeito você
ficava nas últimas e eram complicadas as atividades do ganha-pão: atendente de
loja, ajudante de garçom, lavador de pratos, ajudante de lava-carros. E se
tivesse ficha na polícia, era ainda pior.
O inferno
está sempre à espreita.
Havia armadilhas
por toda parte: mulheres, drogas, bourdon, vinho, uísque, cerveja – até mesmo a
cerveja -, charutos e cigarros. Armadilhas: trabalhar ou não trabalhar?
Armadilhas: ter ou não ter talento; tudo o levava a ser engolido por uma teia
de aranha. Desprezei o uso de agulhas pela mesma razão que desprezei algumas
mulheres supostamente bonitas – o custo era muito superior ao benefício. Eu não
queria pegar pesado.
Sendo assim
os hippies e seus brados de AMOR AMOR AMOR não me diziam muita coisa. Pereciam
mais uma ordem, e eu não gosto de ordens. Ignorei. Então Webb começou a meter o
pau nos hippies aquela noite na casa dele em Tucson. Seu cabelo que costumava
ser de um branco maravilhoso estava então pintado de vermelho. E o velho homem,
o grande editor, continuava clamando por suas pílulas.
_ Lou, eu já
tomei meu comprimido de hoje?
Uma porcaria
qualquer – um tipo de vitamina ou suplemento de ferro e então o velho começou a
meter o pau nos hippies.
_ Bukowski,
você sabe que os hippies não prestam!
_ Eles não
me agradam, Jon. São fracos. Eles tem instinto de rebanho. Se misturam com
gente de segunda linha. Não passam de um bando de insensíveis, fazem o que
dizem pra eles fazerem. Mas ai penso nos pequenos homens de negócios, com seus
ternos e gravatas, batalhando das oito da manhã às cinco da tarde, e os hippies
são contra isso, e acho que eles estão certos nesse ponto. Um hippie tem mais
vida do que um corretor da bolsa de valores.
_ Olha
Bukowski, quero que você escreva um artigo anti-hippie pra mim.
_ Bem, não sei.
_ Quero
dizer, esses jovens não assumem nenhuma responsabilidade, eles não se esforçam,
não fazem nada, não querem fazer nada: eles não dão apoio à sociedade!
O grande
editor Wedd soava como o pai que eu tinha enterrado. Veja. Os jovens de agora
nascem em um mundo em que a primeira coisa que se aprende é que existem coisas
chamadas bombas de hidrogênio sendo estocadas por diversas nações, em
quantidade suficiente a essa altura para matar o mundo todo trinta vezes - com exceção dos ricos que estão seguros em
seus abrigos subterrâneos e dos rapazes prontos para partir em suas
espaçonaves, a versão moderna da Arca de Noé. Haveria um segundo dilúvio,
conforme os velhos agitadores da Pershing Square costumavam nos alertar, mas
dessa vez seria fogo em vez de água.
Sendo assim,
quem, aos dezoito anos de idade, iria querer trabalhar para uma montadora de
automóveis, girando parafusos enquanto em menos de trinta segundos suas bolas
poderiam voar pelos ares para sempre? Há apenas um ser humano responsável por
cada detonador. E um dia desses, talvez amanhã, será que um imbecil não vai
aparecer e... pelo simples aspecto matemático da coisa, não será capaz de
apertar o botão?
Por que não
deixar seu cabelo crescer e fumar uns baseados? Relaxe. Viva cada momento como
uma dádiva milagrosa.
Eu era assim
antes da invenção da bomba. Eu era um hippie segundo a premissa anterior dos
próprios hippies – se você vai morrer, para que se apegar a inúteis posses
humanas?
E então Webb
disse:
_ Quero que
você faça um artigo anti-hippie.
Este era um
homem que havia transformado dois dos meus livros de poemas em itens de
colecionador; um homem que havia lido meus poemas incansavelmente e ainda assim
não sabia quem era eu.
_ Não posso
escrever um artigo contra os hippies, Jon. Eles nunca me fizeram nada. Nunca
sequer pensaram em fazer. Outros já fizeram. Por exemplo, eu já fui preso. Você
também.
Webb havia
sido um ladrão de diamantes antes de se tornar um editor respeitado. Tinha ido
para a cadeia. Ainda que ele tenha, muito tempo atrás, escrito um livro precoce
e em edição barata sobre o assunto, o caso não deveria ser trazido à tona.
Agora ele precisava manter o bom nome com as fábricas de papel, entre outras.
Se você mencionasse o fato de que Jon Webb estivera preso, estava na lista
negra da Loujon Press para o resto da vida. Um pobre sujeito, em uma resenha
sobre o crucifix, cometera certa vez o erro de mencionar que Webb havia
cumprido pena.
O grande
editor estalou os dedos olhando pra mim.
_ Basta!
Esse crítico já era. Pra sempre!
Webb também
liquidou Mike McClure porque ele apareceu na televisão vestido como uma
bichona, com sombra escura sob os olhos.
_ Agora
chega – disse Webb, virando-se para mim – McClure já era!
Bem, eu
voltei para Los Angeles sem ter escrito o artigo contra os hippies, antes que
Webb acabasse comigo também. Acho que se um dia ele ler isto aqui, uma bala,
noite dessas, entrará voando por minha janela.

Mais
livros meus foram lançados. A maioria das edições tinha poucos
exemplares e era conhecida apenas no cenário Underground. Mas os
professores universitários começaram a bater à minha porta, trazendo
seus copos frouxos e seus gentis rostos brancos e pequenas embalagens de
seis latas de cerveja. Eles ficavam
altos muito rápido, com umas duas latinhas, e eu ficava ouvindo o que
falavam. Nunca me dei bem com professores de inglês quando eles tentavam
me ensinar alguma coisa.
As pessoas seguem batendo à minha
porta, falando comigo; sem serem convidadas, elas chegam e eu ouço,
ofereço a elas o que tenho de bebida e elas vão embora. Mas essas horas
não são desperdiçadas – um homem aprende com outro homem – e se não
aprende, deixou de ouvir o som do primeiro trompetista e fodeu com toda a
parada!
Tanto os professores como os vagabundos eram sempre muito francos – descarregavam tudo o que tinham, o que não era o bastante.
Um dia John Bryan decidiu montar um jornal Underground intitulado Open
City. Fui convidado a escrever uma coluna semanal. Nomeei a coluna
“Notas de um velho Safado”. E escrevia contos sobre essa bandeira. Um
por semana, durante quase dois anos. Depois das corridas de cavalo,
ganhando ou perdendo, na sexta-feira ou no sábado eu comprava três ou
quatro embalagens de seis latas de cerveja e liquidava a coluna ouvindo
Mahler, que faz Beethoven e Bach parecerem uns veadinhos.
Bryan
publicava tudo o que eu estregava a ele. Foi um período muito curioso
da minha vida – todos me tratavam como se eu fosse um gênio, então eu
tinha que entrar na dança e escrever os troços. Não era algo difícil:
para ser gênio é preciso apenas sê-lo. “Vai comprar ou pagar para ver?”,
costumavam me perguntar naqueles bares escuros da Filadélfia. “Vou
comprar”, eu respondia.
Entretanto, eu era obrigado a
comparecer às reuniões do Underground. Em geral, ou eu chegava bêbado,
ou nem chegava. A equipe não parecia ser muito animada. Eram
estranhamente calmos e apáticos e bem-nutridos para a idade que tinham.
Ficavam lá sentados, fazendo piadinhas inteligentes contra a guerra, ou
piadas sobre maconha. Todos entendiam as piadas menos eu. Candidatem um
por à presidência. Que diabos era aquilo? Essas coisas os deixavam
excitados. E me deixavam morrendo de tédio.
Eu achava que se
fosse haver algum momento de COMBATE, tínhamos que estar devidamente
armados com equipamentos mais modernos, devidamente treinados, tínhamos
que matar as marionetes do governo, fazer o serviço bem-feito. Eu sequer
era revolucionário, mas sabia como um verdadeiro revolucionário deveria
pensar. No fim os garotos terminaram fazendo o papel de grandes
Românticos e masturbando uns aos outros.
Eles amarelavam. Não tinham colhões. Cederam quase de bom grado aos caprichos do Sistema.
Em uma das reuniões todos estavam animados com o lance de Chicago.
Todos falavam ao mesmo tempo. Chicago ainda não aconteceu. Levantei o
braço, bêbado, e finalmente me autorizaram a tomar a palavras:
- O Sistema é muito mais esperto do que vocês pensam. Eles usarão
apenas a força necessária para conter vocês. Não acredito que vá haver
tiros de metralhadora ou assassinato em massa em Chicago. É claro,
haverá sangue derramado, muito sangue, e vocês vão levar umas boas
palmadas. Mas vocês não percebem que eles estão preocupados com a
propaganda ao redor do mundo e que Chicago é, em última instância,
Washignton, D.C.? Não percebem que eles estão manipulando vocês e que os
veem como crianças malcriadas? Se você não for bonzinho, o Papai dá
umas palmadas. Se você fizer pior, o Papai bate mais forte! Vocês estão
sob o comando, o comando deles. Vocês subestimam a inteligência do
Sistema. Estão equivocados. Eles estão jogando com vocês, não se
esqueçam disso! Vocês mostraram todas as cartas e o que têm, logo de
cara, e eles esperam que o royal flush nas mãos, sorrindo. Vocês podem
vencê-los, mas terão que mudar de estratégia. Do contrário, farão
picadinho de vocês.
Eu ia continuar falando, mas um rapaz
mexicano, um jovem professor de matemática de uma escola secundária do
leste de LA, apoiou-se no balaústre e gritou:
- Você não sabe o
que está falando, Bukowski! Chicago será um EXTERMÍNIO em massa!
CENTENAS DE PESSOAS SERÃO ASSASSINADAS BEM NA SUA FRENTE! METRALHADAS,
SIM! VOCÊ VAI VER!
Obviamente, isso não aconteceu – a
revolução; e o porco não foi eleito presidente, foi posto na cadeira, e o
jornal Underground fechou, Deus desceu as escadas do paraíso jogando
flores ao vento.
O jornal fechou, Haight Ashburry tornou-se um
mito. “Quando for a São Francisco, use uma flor no cabelo.” O Berkeley
Bard tinha rixas internas. A notícia se espalhou: “O Underground está
morto”.
Mas eu me dei bem – a Essex House reuniu as colunas do
Open City e lançou em brochura Notas de Um Velho Safado. O trabalho que
eu havia feito por prazer e praticamente de graça estava sendo
recompensado com dinheiro vivo. Me senti como o jovem Hemingway. Deve
ser uma maravilha ser um escritor verdadeiramente bom, mesmo que isso
signifique um tiro de espingarda no fim da linha.
E talvez seja
por isso que eu, Bukowski, ainda estou aqui, não menos sagrado que
Gandhi, e, doçura, talvez um pouco menos morto, disparando histórias que
talvez só as pessoas interessadas em sexo possam entender. Eu bebo;
minha cabeça tomba sobre a máquina de escrever; ela é meu travesseiro.
Eu sou o Underground, sozinho. E não sei o que fazer.
Então escrevo essas palavras e me embebedo de novo.
Concisamente.