quarta-feira, 15 de maio de 2013

Confissões de um velho safado - Do livro Pedaços de um caderno manchado de vinho. - Charles Bukowki




Nasci ilegítimo -  isto é, fora de um laço matrimonial – em Ademach, Alemanha, no dia 16 de agosto de 1920. Meu pai era um soldado do exército de ocupação americano; minha mãe era uma camponesa alemã, simples e ignorante. Trouxeram-me para os Estados Unidos com dois anos de idade – primeiro Baltimore, depois Los Angeles, onde desperdicei a maior parte da minha juventude e onde vivo hoje em dia.
Meu pai era um homem brutal e covarde que me surrava continuamente com uma tira de couro de afiar navalha, por qualquer motivo que fosse. Minha mãe estava de acordo com o tratamento que me era dado. ‘Crianças devem ser vistas, mas não ouvidas’, era a máxima preferida do meu pai.
Davam-me infindáveis tarefas na casa e no jardim, e se eu não as cumprisse com cem por cento de perfeição levava uma surra. As tarefas, aparentemente, nunca eram cumpridas com perfeição. Eu levava uma surra por dia. Aos sábados era obrigado a cortar a grama duas vezes – uma vez em cada direção – aparar e debruar as áreas exteriores, depois tinha que molhar os dois gramados e regar todas as flores. Enquanto isso, meus amigos estavam jogando futebol americano e beisebol nas ruas, rindo e descobrindo uns aos outros.
Meu pai inspecionava o gramado quando quando o serviço estava terminado. Ele se ajoelhava, deitava a cabeça na grama e a examinava minunciosamente, a procura do que chamava de ‘pelos’. Se encontrasse um ‘pelo’, uma folha de grama maior do que as outras, eu receberia minha surra. Ele sempre encontrava um ‘pelo’.
Eu só abria a boca para dizer sim ou não. Depois dos cinco ou seis anos de idade, deixei de chorar quando apanhava. Odiava tanto aquele cara que meu único jeito de me vingar dele era não chorar, o que fazia com que ele me batesse ainda mais forte. As lágrimas corriam dos meus olhos, mas eram lágrimas silenciosas. As surras sempre aconteciam no banheiro – talvez porque a tira estivesse lá. E quando ele terminava, dizia “Vá para o seu quarto”.
Entrei cedo no submundo.
Minha bunda e a parte de trás das minhas coxas estavam sempre cobertas de hematomas. Quando eu era chamado para o jantar – comer era sempre algo penoso pra mim -, eles me deixavam sentar numa almofada, ou se a surra tivesse sido excepcionalmente forte ás vezes me deixavam usar duas almofadas.
Eu tinha que dormir de bruços por causa da dor. Embora tenha nocauteado meu pai com um soco, uma bela noite, quando tinha dezessete anos, e o tenha enterrado vários anos depois, o hábito de dormir de bruços permaneceu.
Não quero fazer dessa confissão uma choradeira; gosto de rir como todo mundo – agora. Ou quem sabe não seja engraçado, olhando para trás, me ver deitado de bruços na cama, ouvindo os dois roncar ou foder, e pensando, ‘Que chance um cara de um metro e vinte de altura pode ter?’ hoje eu tenho um metro e oitenta e três e outros monstros tomaram o lugar do meu pai.

Na escola não foi muito diferente. Como não tinha nenhuma prática em esportes de rua, mal sabia a diferença entre uma bola de beisebol e uma bola de futebol americano. Minha primeira tentativa foi a hora do recreio. Beisebol. Lançaram a bola e eu não consegui acertar a tacada. Jogaram a bola de futebol e eu não consegui pegar. Não entendia nem a metade do que eles falavam. Eu era um ‘veadinho’. Eles me seguiam em bandos depois da aula e me insultavam durante todo o caminho de casa. Não havia lugar para mim entre eles.
Até na sala de aula eu era dos mais atrasados. Ainda estava lutando contra figura paterna e também contra a figura materna. Aquilo me incomodava na sala de aula, eu decidia não aprender. Às vezes era a cara do professor; às vezes era simplesmente a monotonia do processo de aprendizagem. Me recusava a prender as notas musicais, as regras da gramática. Me recusava a aprender álgebra. Apenas mais tarefas estúpidas.
Na maioria das vezes eu tirava ‘4’ ou ‘D’, mas às vezes tirava um ‘F’. Estava sempre levando a culpa por alguma coisa – nunca me diziam exatamente o quê – e quase sempre ficava de castigo depois da escola. Eu não tinha amigos, mas isso não parecia me fazer falta.
Então em algum ponto, a medida que os anos passaram, ocorreu uma mudança; começo em algum momento entre o ensino médio e meus dois anos na La City College. Passei a ser o cara mais durão do pedaço. Deve ter sido depois que sai do County Hospital. Tive que ficar afastado por seis meses. Tinha espinhas do tamanho de maças espalhadas por meu rosto e costas – ao redor dos olhos, no nariz, atrás das orelhas, no couro cabeludo. Aquela vida intoxicante tinha finalmente explodido para fora de mim. Lá estavam – todos os gritos contidos – irrompendo transformados.
Os médicos me furavam com uma enorme agulha. Foi a única coisa que lhes ocorreu fazer, me furar com uma agulha. Eu podia sentir o cheiro do sebo queimando quando a agulha esquentava. Eles picavam aquelas bolas imensas, fazendo jorrar sangue para todos os lados.
_ Nunca vi um caso assim – disse um dos médicos – Olha o tamanho desses troços! Uma super acne vulgaris!
Então cinco ou seis deles se amontoavam à minha volta para olhar o tamanho dos troços.
Idiotas. Foi ai que coloquei a categoria médica na minha lista negra. Para falar a verdade, nada escapava da minha lista negra. Eu não odiava os médicos como odiava meu pai; simplesmente os achava um bando de idiotas.
_ Nunca vi um cara aguentar isso no osso! Ele nem treme ou esboça qualquer reação. Não consigo entender.
Quando voltei pra escola, alguma coisa em mim tinha mudado. Eu tinha enfrentado chumbo grosso. Nada mais importava. Em vez de ficar confuso e sentir medo da multidão, eu tinha me transformado num “garoto durão”. Outros garotos durões tentaram fazer amizade comigo. Eu os mandei cair fora.
Descobri que podia dar ótimas tacadas no beisebol. E o futebol americano era uma beleza. Especialmente quando jogávamos em meia-cancha nos estacionamentos vazios e nas ruas asfaltadas – e a gente costumava mesmo jogar nas ruas nos anos 30.
Do dia para a noite passei de veadinho para super homem, e então perdi o interesse. Esportes eram tão estúpidos quanto qualquer outra coisa, talvez até mais.
Descobri uma pequena biblioteca no cruzamento das avenidas La Cienega e West Adams. Comecei a retirar livros nesta biblioteca sem nenhuma orientação. Para ver se um livro era bom eu abria na primeira página e observava o aspecto da impressão no papel. Se me parecesse bom, eu lia um parágrafo. Se o parágrafo fosse bom eu lia o livro. Foi assim que descobri D. H. Lawrence, Thomas Wolfe, Turguêniev – não, Wolfe foi um pouco mais tarde, na biblioteca grande que ficava no centro -, mas na biblioteca pequena também descobri o velho Upton Sinclair, Sinclair Lewis, Górki e o grande Fiódor Mikhailovitch Dostoievski. Tudo isso antes de alguém me dizer que eles eram mais do que a ponta de estoque das porcarias que entulhavam as bibliotecas públicas. É claro, apenas Dostoievski e alguns contos de Turguêniev permaneceram gravados em mim.

Bem, se você ainda estiver me acompanhando, deixei meus queridos pais e me mudei para um apartamento na esquina da Third com a Flower, onde vivi as custas da minha sorte – que na época consistia na capacidade de ganhar competições de copo e de me dar bem nos jogos de dados. Também tinha sorte nas disputas com estranhos a dez dólares a rodada.
Fui despejado do apartamento da Third com a Flower por um velho que era dono do lugar. Ele chegou para mim e disse:
_ Meu filho, você está destruindo o meu apartamento.
Ele tinha mau hálito e o lugar, ratos.
_ Você está destruindo o meu apartamento e não está deixando o pessoal dormir à noite. Tem um monte de camaradas velhos aqui que só querem um pouco de sossego. Você vai ter que se mudar.
Merda. Eu conhecia esses velhotes. Só havia dois tipos: os que adoravam Deus e os que adoravam o vinho. E os que adoravam Deus eram os que reclamavam.
*
Encontrei um apartamento na Temple Street, que na época ficava no bairro dos Filipinos, bebia pesadamente, continuava tendo sorte com as apostas. Meu quarto mais uma vez se tornou ponto de encontro de jogadores, mas a senhoria era durona, não parecia se importar nenhum um pouco, era dona de uma parte do bar que ficava no térreo e tenho quase certeza de que encaminhava alguns jogadores para o meu quarto. Eu bebia enquanto jogava e isso me deixava relaxado o bastante para ter sorte. Meu esquema era sempre o mesmo – eu dominava o jogo durante um certo tempo todas as noites, e assim que conseguia a quantia que queria, começava a cambalear para lá e para cá fingindo estar bêbado e furioso.
_ Muito bem, todos pra fora! Pelo amor de Deus, vocês não têm nenhum lugar para dormir? Isso aqui não é igreja nem bordel! Eu moro aqui!
Depois vociferava mais uma série de xingamentos e dizia a eles, atirando um copo cheio de uísque contra a parede:
_ Eu disse “todos para fora”!
Eles se enfileiravam e marchavam em direção à porta.
_ A próxima rodada começa amanhã às seis da tarde. Não se atrasem.
Eles iam embora. Eu ainda era o garoto durão. Ou o garoto bufão. Não sabia ao certo.
Fui ficando cada vez melhor, até que numa noite acabei brigando com um cara que eu achava que era meu amigo. Ele era fuzileiro naval, mas apesar disso tinha uma cabeça boa, quase conseguia acompanhar meu ritmo com a bebida, mas tinha certo apreço por Thomas Wolfe e Teddy Dreiser. O problema era que Wolfe era um bom homem que escrevia mal e Dreiser era um homem inteligente quede fato não sabia escrever.
Uma noite, depois que os jogadores foram embora, nos sentamos com uma garrafa de uísque e tentamos discutir o assunto. Eu também disse a ele que Faulkner era para criancinhas. Tchékhov, não – um joguete das massas abastadas. Steinbeck, um técnico. Hemingway, apenas meia boca. Ele gostava de todos eles. Era um imbecil. Então eu disse que Sherwood Anderson era melhor que todo esse maldito bando. Isso mexeu com ele.
Foi uma boa briga. No final, todos os espelhos e moveis do quarto estavam caídos no chão.
Você consegue imaginar o sentido de uma briga ser o sentido da literatura e não uma boceta qualquer? Somos tão loucos quanto os outros.
Não sei quem venceu a luta. Provavelmente foi ele. Mas quando acordei na manhã seguinte e olhei em volta, achei que não seria justo pagar sozinho a conta dos estragos. Juntei meus trocados, sai e pequei um ônibus para New Orleans.
Achei o bairro francês um embuste e fiquei no lado oeste do canal Street, dormindo com os ratos. Por alguma razão, decidi me tornar um escritor. Comecei a escrever contos, manuscritos à tinta, e a enviá-los para Harper’s, para The Atlantic ou para New Yorker. Quando os mandavam de volts, eu rasgava as folhas.
Escrevia de seis a dez contos por semana, bebia vinho e frequentava bares de quinta.
Ia de cidade em cidade, trabalhando longas horas em trabalhos tediosos e miseráveis – Houston, Los Angeles, St. Louis, Frisco duas vezes, Nova York, Miami, Savannah, Atlanta, Fort Worth, Dallas, Kansas City, e provavelmente mais algumas que não lembro mais.
Trabalhava nos matadouros, nas equipes das ferrovias, despachando pequenos carregamentos, recebendo pequenos carregamentos. Trabalhei até na Cruz vermelha (bravo), fui gerente numa distribuidora de livros. Além disso, fui uma espécie de leva e traz beberrão no ultimo banco de um bar na Fairmount Avenue, na Filadélfia, saindo para buscar sanduiches para a moçada de peso. Uma cerveja ou um uísque de gorjeta, geralmente uma cerveja.
Conheci alguns vagabundos da pesada. A maior virtude desses caras, além do mau hálito, era que no meio do seu bando errante de homens você as vezes encontrava uma pérola. Mas decidi não me juntar a eles.

Tornei-me um bêbado como outro qualquer, pensando em suicídio, me enfurnando por dias a fio em quartinhos minúsculos com as venezianas fechadas, me perguntando o que acontecia lá fora e o que havia de errado com aquilo – sem saber se culpava o meu pai, a mim mesmo ou a eles.
Eu era pacifista numa época belicista. Não sabia quais guerras eram benéficas e quais eram nocivas – ainda não sei. Eu era hippie quando os hippies não existiam; eu era beat antes de surgirem os beats.
Eu era um movimento de protesto, sozinho.
Fazia parte de uma espécie de submundo, como um espião clandestino, e sequer existiam outros espiões.
É por isso que eu não conseguia ver as coisas com clareza, entender o que estava acontecendo. Eu já tinha feito de tudo. E quando Tim Leary disse “caia fora” 25 anos depois de eu já ter caído fora, não consegui sentir nada. O grande “caia fora” de Leary significou ser demitido do seu cargo de professor de algum lugar (Havard?).
Eu era a contracultura quando não existia a contracultura. Eu era o jovem safado. Meu corpo de 1 metro e 83 e 97 quilos de puro músculo passou a ser um esqueleto de 63 quilos. Fui preso, dividi a cela com Courtney Taylor, o grande vigarista e inimigo público número um da época. Um injustiçado, é claro. Eu, não o Taylor.
E sai, fui de novo para Filadélfia, voltei para aquelas pensões, era despejado uma vez por semana.
Caminhando pela rua às nove da manhã, ouvia as velhinhas cochicharem em suas cadeiras de balanço:
_ Está vendo aquele moço? Já está bêbado! Botei ele para fora do meu apartamento! Meu Deus, Fiquei tão feliz de me livrar dele!
Aquelas senhoras de antigamente, seus maridos morreram cedo de tanto trabalhar para que elas pudessem usar calcinhas de renda. Aquelas senhoras de antigamente, que hoje em dia ficam horrorosas de calcinhas de renda, me culpam por tudo que acontece, porque não me entreguei de corpo e alma ao ofício medíocre qualquer.
_ Você trabalha? – elas perguntavam toda vez que eu batia à porta.
_ É claro – eu dizia, no sentido de que meu trabalho era sobreviver, e era um trabalho de merda. Então elas deixavam você ficar ali a primeira noite e nas paredes havia placas com dizeres como “JESUS TE AMA!”.
*
De repente eu estava no Village, em Nova York – o antigo Village, um lugar ordinário, cheio de impostores, como suponho que o novo Village seja agora. O artista deve estar em constante movimento, um passo à frente do vulgo.
No Village, passei por uma farmácia e na prateleira das revistas estava a então famosa revista Story, editada por Whit Burnett e Martha Foley. Se você chegava a Story isso significava que você era uma espécie de gênio legítimo e aprovado. Eu havia tentado a Story algumas vezes, junto com as investidas na Atlantic-Harper‘s-New Yorker. Apanhei a revista para dar uma olhada, então vi o meu nome da capa! Eles haviam publicado um texto meu. Aos vinte e quatro. Eu tinha mudado de endereço tantas vezes que a correspondência não chegou a tempo ou se perdeu. Peguei a revista, fui em direção ao caixa e paguei.
Na mesma época eu havia conseguido um emprego, muito a contragosto. Cuidava do estoque de uma distribuidora de livros e revistas. Alguns dias depois meu chefe chegou com uma cópia da Story. Ele disse:
_ Ei, veja que coisa engraçada. Olha, tem um cara nessa revista com o mesmo sobrenome que você!
_ Não – eu disse -, sou eu mesmo.
_ Ah, corta essa! Você escreveu essa história?
Alguns dias depois fui chamado ao departamento pessoal. Eu tinha faltado dois ou três dias por motivo de embriaguez. Fui recebido por uma vadiazinha jovem e bonita.
_ Você é Charles Bukowski?
_ Sim.
_ Você escreveu aquele conto na Story?
_ O que importa?
_ Estamos promovendo você a chefe da seção de remessa de livros.
_ Você é quem sabe – eu disse a ela.
Eu sabia que isso era uma manobra estúpida. Ser escritor não tinha nada a ver com ser qualquer outra coisa.
Eu não era um bom chefe de seção. Chegava bêbado e batia na bunda dos operários com o cabo do martelo, enquanto eles pregavam as caixas de madeira. Mas eles gostavam de mim. Isso não estava certo – um bom chefe deve ser temido. O mundo todo funciona na base do medo.
Minha função era contar o número total de livros enviados nas caixas, assinar a nota fiscal, largar ali dentro e dizer: “pode pregar!”. Eu apenas fingia contar. Era tão fácil e tão tedioso. E eles sabiam das coisas melhor do que eu. Eu simplesmente fechava os olhos, fingia que estava contando, assinava a nota e dizia: “ok, pode pregar!”.
Eu era experiente o bastante para saber que logo todos perceberiam que eu estava cagando para o trabalho, então pedi demissão antes que alguém me dedurasse.
Mas antes que eu deixasse a cidade uma coisa muito estranha aconteceu. Conheci meu ídolo! Eu conheci o grande Whit Burnett, o todo poderoso editor da Story. Mas ele não me reconheceu. Porque não sabia como eu era fisicamente. Mas eu o reconheci por conta das inúmeras fotografias dele que tinha visto. Eu caminhava na direção norte, e ele, na direção sul. Estava passando pelo maior editor do mundo. Ele tinha uma expressão de sofrimento superficial e reservado, ainda que seus olhos fossem bonitos. Mas ficou claro para mim que nós erámos muito diferentes. Encolhi a barriga e comecei a gargalhar na frente dele. Meu ídolo havia desmoronado. Foi uma risada verdadeiramente idônea, sem malícia. Ele me encarou por um instante, depois seguiu andando.
Bem, houve mais um sucesso na Portfolio de Caresse Crosby. Eu estava lado a lado com Henry Miller, Gene, Sartre, Lorca, muitos outros que já esqueci, porque meus dois exemplares foram roubados por amigos.
Então larguei tudo. Parei de escrever. Desisti. Enchi a cara durante dez anos. Me estabeleci novamente em Los Angeles. Trabalhava o suficiente para sobreviver, mal e porcamente. Bebia o suficiente para me destruir, ou quase. Tornei-me o grande comedor das prostitutas da Alvarado Street.
Bem, como quis a sorte, tive que conhecer a mulher mais bonita e mais feroz de todas – Jane; o nome era indiano e irlandês. Era irritadiça e colérica, mas tinha pernas lindas e uma bunda ótima, e havia algo diferente nela – uma presença de espírito -, quero dizer, quase tudo que ela dizia era absolutamente relevante, e nunca houve alguém que trepasse tão bem quanto ela.
Não sei dizer o que fazia com o que fosse tão boa de cama. Acho que era a mistura equilibrada entre amar e odiar, tudo ao mesmo tempo – ela nunca iludia você -, e então finalmente se entregar a uma submissão total e definitiva. Além disso tudo, ela tinha uma boceta muito gostosa.

Lembro-me da noite em que a conheci, da primeira noite em que a levei pra minha casa. Big Johnny, o figurão das vendas me disse:
_ Ninguém consegue domar essa aí, Hank, mas se alguém for capaz, acho que é você.
Ela estava bem vestida, roupas caras, especialmente os sapatos, e não parecia ser uma pessoa difícil. Comprei duas garrafinhas de bourdon, vários maços de cigarro, e pegamos um taxi em direção a minha casa, que estava bastante limpa, para variar. Tudo correu bem por algum tempo. Ela sentou no sofá, cruzou aquelas belas pernas e eu conversei com ela, pensei em como iria fodê-la, dei a ela uma das garrafinhas de bourdon, peguei a outra para mim e disse:
_ Beba no gargalo.
_ Você acha que é o sr. Van Bilderass, não é mesmo?
_ Não, na verdade não. A vida foi bastante dura para mim.
_ Corta essa! Você acha que é o sr. Van Bilderass!
Os olhos de Jane se arregalaram. Ela pegou sua garrafinha de bourdon, ergueu-a acima da cabeça.
_ Espere! – eu disse.
_ O que foi?
_ Jogue essa porcaria em mim – e trate de acertar e me nocautear! Caso contrário, vou atirar de volta na sua cara. E não vou errar! Agora, vamos, atire!
Ela me olhou e pousou a garrafa.
Transamos algumas vezes naquela noite. Foi muito bom.
No fim das contas, moramos juntos de seis a oito anos no inferno.
Estou tentando ser sucinto aqui, fazendo um apanhado de tudo o que aconteceu, mas como você vai enfiar 49 anos em quatro ou cinco mil palavras? Então tenho que contar coisas aleatórias sobre Jane – como na primeira noite em que a estava comendo e parei no meio de uma estocada e disse:
_ Puxa, não sei o seu nome. Qual o seu nome?
A reposta dela:
_ Porra, que diferença isso faz?
Certa noite, com a minha Jane, estava tão bêbado que havia caído do sofá, ficando junto a ela, olhando para seus tornozelos finos naqueles sapatos de salto alto, aquelas panturrilhas, perfeitas, aqueles joelhos, perfeitos, e ela ali na minha frente. Eu havia bebido duas vezes mais do que ela e acabara de cair do sofá. E, deitado de barriga pra cima, olhando para aquelas pernas, proferi a mortal sentença:
_ Doçura, eu sou um gênio e ninguém além de mim sabe disso.
E ela respondeu com a imortal sentença:
­_ Ah, levanta do chão e senta direito, seu imbecil!
Um dia, também tive de enterrá-la. Como meu pai, como minha mãe. Enterrei-a dois anos depois de nos separarmos.
Mas antes disso, fui à ala beneficente do County Hospital (meu antigo lar) e me colocaram num porão escuro, e meus documentos sumiram.
_Os documentos – disse a enfermeira-chefe – foram para o térreo e eu estava no andar de cima.
Então fiquei perdido em algum lugar naquele aposento subterrâneo, um corpo sem documentos, morrendo, sangrando sem parar pela boca e pelo cu. Todo aquele vinho barato e a vida desregrada escoando para fora – rios de sangue. Então alguém achou meus documentos e depois de três dias no porão fui conduzido a uma área mais iluminada. Mas ai descobriram que eu não tinha crédito no banco de sangue.
_ Sr. Bukowski – a enfermeira-chefe me disse -, se o senhor não puder comprovar que tem crédito, não poderá receber sangue.
O que significava que eu iria morrer.
Aparentemente tudo que eles faziam pelos moribundos e enfermos era deixá-los ali deitados para morrer. Eu os via retirando os mortos de todos os lados. Assim eles liberavam espaço para os corpos novos que chegavam. O problema era a falta de espaço. E não tinha enfermeiras nem médicos. Quando aparecia um médico residente era praticamente um milagre.
Então descobriram que meu pai possuía crédito no banco de sangue na época em que trabalhava. Além disso, eu estava emporcalhando toda a ala com o meu sangue, e estava demorando demais pra morrer. Uma enfermeira apareceu como um anjo caído do céu e enfiou uma agulha na minha veia, pendurou a bolsa. Recebi sete litros e meio de sangue e sete litros e meio de glicose de uma só sentada.
Achei um apartamento de Kingsley Drive, arrumei um emprego como motorista de caminhão e comprei uma velha máquina de escrever. E todas as noites depois do trabalho eu me embebedava. Despejava rapidamente oito ou dez poemas. Não sei como deixei de escrever contos. Estava escrevendo poemas, mas não sabia por quê. De algum modo descobri J. B. May e sua revista Trace, que na época era a única força concentrada no recente cenário emergente das revistas de pequeno porte. E os ‘pequenos’ naquela época eram um terreno muito mais agradável para a escassa literatura autêntica e de qualidade que era produzida. Agora os pequenos mudaram, materializaram-se em um bando de operários com aparelhos de mimeógrafo baratos que se tornaram um depósito de literatura e poesia medíocres. Os pequenos e os grandes agora operam da mesma forma: ambos publicam lixo e só estão interessados em fama e grupos de influência e dinheiro, custe o que custar. A boca do cavalo finalmente encontrou o cu e está comendo a própria bosta.
Escrevi mais poemas, troquei de trabalho e de mulher, enterrei Jane, e então eles começaram a me perseguir. Pequenos livros surgiram no mercado: Flower, Fist and Bastial Wail. Run With the Hunted. Longshot Poems For Broke Players. Meu estilo era muito simples e eu dizia tudo o que tinha vontade. Os livros esgotavam-se rapidamente. Eu era compreendido por prostitutas de Kansas City e professores de Havard. Quem sabe mais do que eles?
As coisas estavam mudando depressa. Whit Burnett havia se aposentado, A Story acabara. O novo grande editor do nosso tempo era Jon Edgar Webb da Loujon Press Books, organizador da revista The Outsider. Logo minha foto estava na capa da The Outsider – a caneca lascada e gasta, e os poemas e cartas dentro. Eu era o novo conceito poético – bem diferente da poesia culta e meticulosa – eu escrevia visceralmente. Alguns odiavam, outros amavam. Eu não estava nem aí. Apenas bebia mais e escrevia mais poemas. Minha máquina de escrever era uma metralhadora e estava carregada.
O novo grande editor, o velho Jon Webb, sempre lançava edições de qualidade. Meus dois livros, It Catches My Heart in Its Hands e Crucifix in a Deathhand, foram impressos num papel que deve durar 2.000 anos. Sabe, isso é assustador. Os livros esgotaram-se rapidamente, comprados por colecionadores, que agora pedem de 25 a 75 dólares por exemplar, enquanto Webb e eu estamos na maior merda, aflitos para saber de onde virão nossos próximos tostões. Webb finalmente ficou desesperado e esperto o suficiente e publicou uma série de cartas de Henry Miller para um pintor, um pintor francês, se não me falha a memória. Miller escreveu algumas coisas muito boas, mas as cartas não eram grande coisa, em termo de literatura. De qualquer forma, Webb começou logo de saída a vender os exemplares por 25 dólares cada. Os colecionadores que se virem com essa.
Mas voltando um pouco no tempo. Você ainda está acordado? Saíram apenas quinhentos exemplares assinados do livro It Catches. Webb queria imprimir 2.500 do Crucifix. Eu não tinha nenhum poema pronto então fui escrevendo na máquina e mandando direto para a prensa – todos os poemas do Crucifix, com exceção de um , no foram enviados às revistas. Foram direto para o livro. Por um lado isso era um inferno.
Webb dizia:
_ Preciso de mais poemas, Bukowski.
_ Maldição! Me dê um pouco mais de tempo!
Era um inferno, mas também era emoção pura, e sempre gostei de coisas emocionantes.
Desta vez, a parada era em New Orleans, e o ultimo poema estava pronto, e o livro estava saindo da gráfica e então veio o golpe – eu tinha de assinar 2.500 malditas folhas! As folhas eram roxas e formavam uma pilha de mais de dois metros de altura. Parecia que eu nunca ia terminar. E Webb queria que todas as folhas fossem assinadas com uma caneta especial, de ponta prateada, e cada página levava cinco minutos pra secar. Enchi o saco de assinar meu nome e a data, então passei a incluir desenhos, escrever umas coisas. Fiz isso para não enlouquecer, mas os desenhos escritos apenas tornavam o processo mais lento e eu só fazia beber e beber e beber e insultar a mulher que haviam arranjado para ficar comigo.

Alguns dias depois eu ainda estava enterrado lá, sempre bêbado, assinando aquelas 2.500 páginas com tinta prateada. Fiquei de saco cheio do nome Charles Bukowski. Passei a odiar o filho da puta.
Enquanto isso uma mulher e uma criança pequena, minha própria filha, esperavam por mim em Los Angeles. Depois que todas as páginas haviam sido assinadas, resolvi tirar cara ou coroa. A resposta foi: voltar pra mulher e filha. Obedeci.
Mas havia Jon Webb, o grande editor, e se não era algum dos meus livros, era alguma outra coisa. Ele gostava de me ter por perto. Gostava de discutir comigo. Eu não gostava de discutir. Uma vez me arranjaram o cargo de poeta-residente no Chalé da universidade do Arizona, o que não foi nada fácil, já que me recuso a ler meus textos em público, pois sentia que aquilo não passava de babação de ovo e adulação pública, que debilitava o que quer que houvesse sobrado da minha alma. (Quando eu torrar meu último centavo vou querer ler e eles vão querer me ouvir.)
O chalé não era ruim. Tinha um ar-condicionado e fazia um calor de quase quarenta graus todos os dias. Eu não sabia que Tucson era tão quente.
O chalé ficava um pouco atrás do passeio do campus, mas mesmo assim alguns dos estudantes sempre conseguiam avistar um tipo estranho, malvestido e de aparência nada poética, perto do meio-dia, saindo pela porta com um enorme saco de garrafas vazias, para depois jogar as garrafas dentro de uma lixeira com a inscrição “Univ. of Ariz.” E após descartar as garrafas, pontualmente vomitar dentro da lixeira. Me disseram que alguns grandes escritores haviam habitado aquela cabana. Não vou citar nomes, mas havia alguns livros desses caras ali e eu tentei lê-los e essa era uma das razões do vômito matinal. Também havia um rádio, mas em Tucson eles não tocam músicas de orquestra à noite, então tinha que ouvir os últimos hits de rock, e, somando isso aos livros “grandes escritores” e as bebidas, acho que eu estava mais doente naquele chalé do que estive em qualquer outro lugar. Corria a notícia de que tinha um louco morando ali. Ninguém se aproximava, o que era maravilhoso. Contudo, o professor que havia registrado minha residência me ligou do hospital (onde estava tratando de uma úlcera)(isso parece inventado, mas é verdade), e disse:
_ Assim que você for embora Bukowski, vamos arrebentar essa cabana com uma bola de demolição.
_ Obrigado, senhor – eu disse -, mas antes não se esqueça de salvar todas as grandes obras que estão aqui.
_ Não esqueceremos – ele disse.
O filho da puta era maluco.
Bem, sai de lá depois de uma discussão iniciada por Webb a respeito dos “hippies”. Porra, eu não era muito chegado nos hippies. Eu era um solitário. E veja algumas das coisas que eles estavam apenas começando a descobrir: a guerra, o efeito imbecilizante de se trabalhar de quarenta a quarenta e oito horas por semana em algo que não se gosta, a emboscada que era o casamento. Mas os hippies não me diziam nada. Suas descobertas eram tardias, e eles gostavam de se amontoar em grupos, andar de um lado para o outro e bazofiar. E as drogas? O que havia de sagrado naquilo? Era apenas algo que me davam, normalmente de graça: metadona, boletas vermelhas e amarelas, LSD. Não fazia diferença, eu mandava ver e saia do mesmo jeito que havia entrado.
É certo, eu estava insensível àquilo tudo. Não havia nenhuma sensação realmente excitante. Apenas um brilho, ou, com LSD, um espetáculo controlado.
Cheire cocaína, fume haxixe. Tudo passava e eu tinha que encarar o mundo de novo. O mundo sempre estava lá quando você aterrissava. Essa era a grande descoberta. Quanto mais você subia, maior era a queda, e você tinha que sobreviver de alguma maneira, e isso era difícil, porque depois que passava o efeito você ficava nas últimas e eram complicadas as atividades do ganha-pão: atendente de loja, ajudante de garçom, lavador de pratos, ajudante de lava-carros. E se tivesse ficha na polícia, era ainda pior.
O inferno está sempre à espreita.
Havia armadilhas por toda parte: mulheres, drogas, bourdon, vinho, uísque, cerveja – até mesmo a cerveja -, charutos e cigarros. Armadilhas: trabalhar ou não trabalhar? Armadilhas: ter ou não ter talento; tudo o levava a ser engolido por uma teia de aranha. Desprezei o uso de agulhas pela mesma razão que desprezei algumas mulheres supostamente bonitas – o custo era muito superior ao benefício. Eu não queria pegar pesado.
Sendo assim os hippies e seus brados de AMOR AMOR AMOR não me diziam muita coisa. Pereciam mais uma ordem, e eu não gosto de ordens. Ignorei. Então Webb começou a meter o pau nos hippies aquela noite na casa dele em Tucson. Seu cabelo que costumava ser de um branco maravilhoso estava então pintado de vermelho. E o velho homem, o grande editor, continuava clamando por suas pílulas.
_ Lou, eu já tomei meu comprimido de hoje?
Uma porcaria qualquer – um tipo de vitamina ou suplemento de ferro e então o velho começou a meter o pau nos hippies.
_ Bukowski, você sabe que os hippies não prestam!
_ Eles não me agradam, Jon. São fracos. Eles tem instinto de rebanho. Se misturam com gente de segunda linha. Não passam de um bando de insensíveis, fazem o que dizem pra eles fazerem. Mas ai penso nos pequenos homens de negócios, com seus ternos e gravatas, batalhando das oito da manhã às cinco da tarde, e os hippies são contra isso, e acho que eles estão certos nesse ponto. Um hippie tem mais vida do que um corretor da bolsa de valores.
_ Olha Bukowski, quero que você escreva um artigo anti-hippie pra mim.
_ Bem, não sei.
_ Quero dizer, esses jovens não assumem nenhuma responsabilidade, eles não se esforçam, não fazem nada, não querem fazer nada: eles não dão apoio à sociedade!
O grande editor Wedd soava como o pai que eu tinha enterrado. Veja. Os jovens de agora nascem em um mundo em que a primeira coisa que se aprende é que existem coisas chamadas bombas de hidrogênio sendo estocadas por diversas nações, em quantidade suficiente a essa altura para matar o mundo todo trinta vezes -  com exceção dos ricos que estão seguros em seus abrigos subterrâneos e dos rapazes prontos para partir em suas espaçonaves, a versão moderna da Arca de Noé. Haveria um segundo dilúvio, conforme os velhos agitadores da Pershing Square costumavam nos alertar, mas dessa vez seria fogo em vez de água.
Sendo assim, quem, aos dezoito anos de idade, iria querer trabalhar para uma montadora de automóveis, girando parafusos enquanto em menos de trinta segundos suas bolas poderiam voar pelos ares para sempre? Há apenas um ser humano responsável por cada detonador. E um dia desses, talvez amanhã, será que um imbecil não vai aparecer e... pelo simples aspecto matemático da coisa, não será capaz de apertar o botão?
Por que não deixar seu cabelo crescer e fumar uns baseados? Relaxe. Viva cada momento como uma dádiva milagrosa.
Eu era assim antes da invenção da bomba. Eu era um hippie segundo a premissa anterior dos próprios hippies – se você vai morrer, para que se apegar a inúteis posses humanas?
E então Webb disse:
_ Quero que você faça um artigo anti-hippie.
Este era um homem que havia transformado dois dos meus livros de poemas em itens de colecionador; um homem que havia lido meus poemas incansavelmente e ainda assim não sabia quem era eu.
_ Não posso escrever um artigo contra os hippies, Jon. Eles nunca me fizeram nada. Nunca sequer pensaram em fazer. Outros já fizeram. Por exemplo, eu já fui preso. Você também.
Webb havia sido um ladrão de diamantes antes de se tornar um editor respeitado. Tinha ido para a cadeia. Ainda que ele tenha, muito tempo atrás, escrito um livro precoce e em edição barata sobre o assunto, o caso não deveria ser trazido à tona. Agora ele precisava manter o bom nome com as fábricas de papel, entre outras. Se você mencionasse o fato de que Jon Webb estivera preso, estava na lista negra da Loujon Press para o resto da vida. Um pobre sujeito, em uma resenha sobre o crucifix, cometera certa vez o erro de mencionar que Webb havia cumprido pena.
O grande editor estalou os dedos olhando pra mim.
_ Basta! Esse crítico já era. Pra sempre!
Webb também liquidou Mike McClure porque ele apareceu na televisão vestido como uma bichona, com sombra escura sob os olhos.
_ Agora chega – disse Webb, virando-se para mim – McClure já era!
Bem, eu voltei para Los Angeles sem ter escrito o artigo contra os hippies, antes que Webb acabasse comigo também. Acho que se um dia ele ler isto aqui, uma bala, noite dessas, entrará voando por minha janela.
Mais livros meus foram lançados. A maioria das edições tinha poucos exemplares e era conhecida apenas no cenário Underground. Mas os professores universitários começaram a bater à minha porta, trazendo seus copos frouxos e seus gentis rostos brancos e pequenas embalagens de seis latas de cerveja. Eles ficavam altos muito rápido, com umas duas latinhas, e eu ficava ouvindo o que falavam. Nunca me dei bem com professores de inglês quando eles tentavam me ensinar alguma coisa.
       
As pessoas seguem batendo à minha porta, falando comigo; sem serem convidadas, elas chegam e eu ouço, ofereço a elas o que tenho de bebida e elas vão embora. Mas essas horas não são desperdiçadas – um homem aprende com outro homem – e se não aprende, deixou de ouvir o som do primeiro trompetista e fodeu com toda a parada!
       Tanto os professores como os vagabundos eram sempre muito francos – descarregavam tudo o que tinham, o que não era o bastante.
         Um dia John Bryan decidiu montar um jornal Underground intitulado Open City. Fui convidado a escrever uma coluna semanal. Nomeei a coluna “Notas de um velho Safado”. E escrevia contos sobre essa bandeira. Um por semana, durante quase dois anos. Depois das corridas de cavalo, ganhando ou perdendo, na sexta-feira ou no sábado eu comprava três ou quatro embalagens de seis latas de cerveja e liquidava a coluna ouvindo Mahler, que faz Beethoven e Bach parecerem uns veadinhos.
          Bryan publicava tudo o que eu estregava a ele. Foi um período muito curioso da minha vida – todos me tratavam como se eu fosse um gênio, então eu tinha que entrar na dança e escrever os troços. Não era algo difícil: para ser gênio é preciso apenas sê-lo. “Vai comprar ou pagar para ver?”, costumavam me perguntar naqueles bares escuros da Filadélfia. “Vou comprar”, eu respondia.
         Entretanto, eu era obrigado a comparecer às reuniões do Underground. Em geral, ou eu chegava bêbado, ou nem chegava. A equipe não parecia ser muito animada. Eram estranhamente calmos e apáticos e bem-nutridos para a idade que tinham. Ficavam lá sentados, fazendo piadinhas inteligentes contra a guerra, ou piadas sobre maconha. Todos entendiam as piadas menos eu. Candidatem um por à presidência. Que diabos era aquilo? Essas coisas os deixavam excitados. E me deixavam morrendo de tédio.
           Eu achava que se fosse haver algum momento de COMBATE, tínhamos que estar devidamente armados com equipamentos mais modernos, devidamente treinados, tínhamos que matar as marionetes do governo, fazer o serviço bem-feito. Eu sequer era revolucionário, mas sabia como um verdadeiro revolucionário deveria pensar. No fim os garotos terminaram fazendo o papel de grandes     

Românticos e masturbando uns aos outros.
 Eles amarelavam. Não tinham colhões. Cederam quase de bom grado aos caprichos do Sistema.
        Em uma das reuniões todos estavam animados com o lance de Chicago. Todos falavam ao mesmo tempo. Chicago ainda não aconteceu. Levantei o braço, bêbado, e finalmente me autorizaram a tomar a palavras:
         - O Sistema é muito mais esperto do que vocês pensam. Eles usarão apenas a força necessária para conter vocês. Não acredito que vá haver tiros de metralhadora ou assassinato em massa em Chicago. É claro, haverá sangue derramado, muito sangue, e vocês vão levar umas boas palmadas. Mas vocês não percebem que eles estão preocupados com a propaganda ao redor do mundo e que Chicago é, em última instância, Washignton, D.C.? Não percebem que eles estão manipulando vocês e que os veem como crianças malcriadas? Se você não for bonzinho, o Papai dá umas palmadas. Se você fizer pior, o Papai bate mais forte! Vocês estão sob o comando, o comando deles. Vocês subestimam a inteligência do Sistema. Estão equivocados. Eles estão jogando com vocês, não se esqueçam disso! Vocês mostraram todas as cartas e o que têm, logo de cara, e eles esperam que o royal flush nas mãos, sorrindo. Vocês podem vencê-los, mas terão que mudar de estratégia. Do contrário, farão picadinho de vocês.
          Eu ia continuar falando, mas um rapaz mexicano, um jovem professor de matemática de uma escola secundária do leste de LA, apoiou-se no balaústre e gritou:
         - Você não sabe o que está falando, Bukowski! Chicago será um EXTERMÍNIO em massa! CENTENAS DE PESSOAS SERÃO ASSASSINADAS BEM NA SUA FRENTE! METRALHADAS, SIM! VOCÊ VAI VER!

Obviamente, isso não aconteceu – a revolução; e o porco não foi eleito presidente, foi posto na cadeira, e o jornal Underground fechou, Deus desceu as escadas do paraíso jogando flores ao vento.
         O jornal fechou, Haight Ashburry tornou-se um mito. “Quando for a São Francisco, use uma flor no cabelo.” O Berkeley Bard tinha rixas internas. A notícia se espalhou: “O Underground está morto”.
         Mas eu me dei bem – a Essex House reuniu as colunas do Open City e lançou em brochura Notas de Um Velho Safado. O trabalho que eu havia feito por prazer e praticamente de graça estava sendo recompensado com dinheiro vivo. Me senti como o jovem Hemingway. Deve ser uma maravilha ser um escritor verdadeiramente bom, mesmo que isso signifique um tiro de espingarda no fim da linha.
        E talvez seja por isso que eu, Bukowski, ainda estou aqui, não menos sagrado que Gandhi, e, doçura, talvez um pouco menos morto, disparando histórias que talvez só as pessoas interessadas em sexo possam entender. Eu bebo; minha cabeça tomba sobre a máquina de escrever; ela é meu travesseiro.
           Eu sou o Underground, sozinho. E não sei o que fazer.
           Então escrevo essas palavras e me embebedo de novo.
          Concisamente.