sábado, 1 de junho de 2013

Entre dois amores




O seu coração estava dividido entre dois amores. De um lado, um velho amor que se desfazia e do qual agora, se despedia. Tinha estado ligado àquela mulher por anos de afeto manso e tranquilo, de amizade real e sincera. Coisa alguma poderia negar esse fato. Durante esse tempo ele se sentira como alguém que caminha por uma planície colorida, sem montanhas e abismos, o ar claro sem brumas, sabendo exatamente o que o esperava. Seu amor havia alcançado aquela condição de certezas sem surpresas, livre do sofrimento do ciúme e das dúvidas que são o inferno dos apaixonados. E era isso que ele deixava pra trás. E por isso sofria.

Encontrara uma outra mulher cuja imagem, por razões que ele não podia compreender, despertara das cavernas da sua memória uma outra cena cheia de mistérios, de perfumes exóticos, de penumbras eróticas, onde crescia o fruto dourado da vida. E ali, nessa nova cena que se refletia nos olhos daquela mulher, ele se via como um homem diferente, de corpo jovem, dotado de asas, pronto a voar pelo desconhecido, em nada semelhante ao ser doméstico ruminante que morava na cena do seu primeiro amor.

Apaixonara-se por ela. Apaixonara-se pela cena que via como aura mágica em torno daquele rosto. Apaixonara-se pela sua própria imagem, refletida naquele olhar. Queria tê-la, para poder ter-se deste modo intenso que nunca antes experimentara.

Era preciso dizer adeus, deixar para trás a antiga companheira fiel, e a cena pálida, descolorida e monótona que aparecia em sua aura cansada. Assim são os antigos amores: fiéis e cansados...

Mas a ideia de magoa-la o horrorizava. Chegar para ela e simplesmente dizer: “estou apaixonado por outra mulher. Vou me embora...” – isto seria uma grosseria que ele nunca se perdoaria. Queria poupar-lhe a dor de ser deixada só, na plataforma da estação, enquanto ele partia.

A dor de quem fica é sempre muito maior. Parece-se com a dor após o sepultamento, quando se volta para casa e o espaço se enche com a presença de uma ausência. Na verdade a dor da partida é maior que a dor da morte. Pois o morto se foi contra a vontade. Partiu me amando. Partiu triste por me deixar. Nenhuma alegria o espera. Por isso os pensamentos de quem ficou descansam tranquilos, sem serem perturbados por fantasias dos novos amores e prazeres à espera do que morreu. Pois nada o aguarda.

A morte pode ser a eternização do amor. A morte fixa a bela cena, enquanto a partida destrói a bela cena. O apaixonado sofreria menos com a morte da pessoa amada que com a sua partida para um novo amor. Quem quiser entender as razões dos crimes de amor terá que levar isto em consideração. Quem mata por amor é como um fotógrafo que deseja eternizar a imagem amada na bela cena. Não era isto que Cassiano Ricardo sugeria no seu poema “você e seu retrato?” E ele pergunta:

Por que tenho saudade
De você, no retrato,
Ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
Mais que você, me comove,
Se você mesma está presente?

E depois de sugerir várias respostas ele faz a seguinte afirmação: “Talvez porque, no retrato, você está imóvel (sem respiração...)”.

Você, viva, ingrata é a permanente possibilidade da surpresa, do gesto que irá destruir a beleza. Mas, no retrato, você fica imóvel. Transforma-se em quadro. Quem mata por amor é um fotógrafo (cruel) que imobiliza a bela cena. E assim a coloca na parede, como objeto de saudade e devoção, para sempre. Bem dizia Roland Barthes que a única coisa que se encontra fixada na fotografia, qualquer fotografia, é a morte.

Sim, o que fazer? Como partir sem fazer sofrer de mais uma pessoa boa, por que se tinha um afeto sincero? Por vezes uma mentira é o melhor caminho. Há verdades cruéis e mentiras bondosas. Na encruzilhada ética entre a verdade e a bondade, que a bondade triunfe.

Imaginou então uma mentira. Iria dizer que estava em dúvida sobre se ela realmente o amava. Que por vezes ele a observava com olhar perdido, e que imagina seus pensamentos distantes, andando por outros amores. Que, inclusive, durante o sono ela dissera repetidas vezes o nome de um homem (pobrezinha! Não teria formas de contestá-lo. Pois estava dormindo...) assim, ele queria que os dois se dessem um tempo. Que ficassem longe, provisoriamente, afim de que os sentimentos pudessem ficar mais claros. A distância é um excelente remédio para as confusões do amor. E assim ele fez.

Ela ouviu suas alegações tranquilamente, sem sobressaltos aparentes. Terminada a sua fala, quando ele se preparava pra ouvir as contra argumentações que deveriam se seguir, o que le ouviu foi outra coisa:

_ Sabe? Cada vez mais me surpreende a sua sensibilidade. Como foi que você percebeu? Fiz tudo para esconder meus sentimentos de você! Eu não queria magoa-lo! Mas agora que você já sabe, é bom assumir a nossa verdade. De fato, há um outro. Chegou a hora de dizer adeus...

O que aconteceu naquele instante ele nunca pode compreender. Pois aquelas palavras eram tudo que precisava. Estava livre para se entregar sem culpas a sua nova paixão. Mas a única coisa que ele sentiu foi a dor imensa de uma paixão que repentinamente explodia por aquela mulher que lhe dizia adeus...

E ele se viu solitário e triste, na plataforma vazia da estação, enquanto ela partia. Só lhe restava voltar para a casa vazia, onde ninguém o esperava...

Como eu já disse: não é a pessoa que amamos, é a cena.

Rubem Alves - no livro Retratos de Amor

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Tempo de trégua - Mario Bortolotto




É tempo de resgatar o mau humor
De silenciar os despertadores
De contrair os músculos e se recusar a qualquer movimento
É tempo de afogar a felicidade no liquidificador com abacate e brócolis
É tempo de congelar as esperanças
De mostrar que autoconfiança não tem nada a ver com prepotência
É um novo tempo para as coisas claras
Para o futebol aos domingos
É tempo de voltar a acreditar em algo (pode ser Deus!)
De reorganizar a agenda
É tempo de não procurar ninguém
De chutar o são do bom senso
De bolar uma frase bacana pro nosso epitáfio
Convenhamos
Nosso tempo já era

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Texana - Charles Bukowski



“Mais tarde, dormimos. Quer dizer, ela dormiu. Eu fiquei abraçadinho com ela. Pela primeira vez eu pensava em casamento. Sabia que seus defeitos ainda não tinham vindo à tona. O começo de uma relação era sempre a parte mais fácil. Depois o lado oculto ia se revelando, sem cessar. Mesmo assim, eu pensava em casamento. Imaginava uma casa, um cachorro e um gato, compras no supermercado. Os bagos do Henry Chinaski estavam amolecendo. E eu nem ligava.”
(no livro Mulheres, página 107)



Texana

Ela é do Texas e pesa
47 quilos
e para em frente ao
espelho penteando oceanos
de cabelos ruivos
que descem ao longo de todas
suas costas até a bunda.
O cabelo é mágico e lança
faíscas quando me deito na cama
e a vejo penteá-los.
Ela parece uma criatura
saída de um filme mas está
aqui de fato. Fazemos amor
pelo menos uma vez por dia e
ela consegue me fazer rir
sempre que deseja.
As mulheres do Texas são sempre
saudáveis e, além disso, ela
limpa meu refrigerador, minha pia,
o banheiro, e faz comida e
me serve alimentos saudáveis
e lava os pratos
também.

‘‘Hank’’, ela me disse
segurando uma lata de suco
de uva, ‘’Este é o melhor de
Todos’’.
Dizia na lata: suco natural de uva
ROSA do Texas.

Ela se parece com Katherine Hepburn
na época
do ensino médio, e vejo esses
47 quilos
penteando um metro
de cabelo ruivo
diante do espelho
e a sinto dentro de meus
pulsos, e no fundo de meus olhos,
e os dedos e as pernas e a barriga
a sentem, assim como
aquela outra parte,
e toda Los Angeles se desfaz
e chora de contentamento,
as paredes das alcovas tremem –
O oceano invade tudo e ela se vira
e me diz, “maldito cabelo!”
e eu digo,
“sim”.
(no livro O amor é um cão dos diabos, página 39)