segunda-feira, 24 de junho de 2013
Manifestações
Não sou plena entendedora desse mundo político. Mas sempre tenho tentado estar ‘por dentro’ do assunto,principalmente nos últimos tempos diante de tudo que tem acontecido. Tenho gastado algum tempo lendo e me informando sobre, mas ainda assim não sou capaz de colocar em palavras o que tem acontecido no nosso país e muito menos de tentar prever as consequências disso tudo.
Uma coisa é certa. “Massa” não pensa. Onde está a maioria nem sempre está a verdade ou o que é certo. Na quinta feira me dispus a ir a rua e ver de perto a manifestação na Presidente Vargas,de perto tudo me pareceu meio tosco e sem objetivo. Pessoas de todos os tipos andando até determinado local e voltando... muitos adolescentes com roupa de escola e em grupo, muita gente saindo do trabalho e chegando por lá, alguns com crianças, gente do todo tipo, vi também um grupo de advogados segurando faixas e tirando foto, e logo depois das fotos se dispersando e indo cada um pro seu lado. Quando um ou dois passavam correndo, contagiosamente os outros corriam também, mostrando nesse pequeno gesto como as coisas tem acontecido. Um faz o outro faz também, uma cidade protesta e a outra protesta também. Toda hora alguém diz ‘minha cidade acordou’ ... acordou nada, mais um gesto de repetição na minha opinião.
Temos reclamações justas, temos motivos pra estarmos de saco cheio, temos motivos pra querer mudança política.Mas esse caminho não tem me parecido o certo. Parece que o brasileiro descobriu que ‘junto’ pode fazer várias coisas, como parar o transito, fazer flash mob, apagar e acender as luzes do prédio fazendo um ‘efeitinho especial’, baixar o preço da passagem. Mas e ai? O que se quer? As respostas que se ouve são as mais vagas possíveis... gente sem noção de nada, dizendo coisas mais sem noção ainda.
No momento, o que sei é que pra rua, pra esse tipo de manifestação não vou mais. Prefiro ficar de casa, ouvir o que os outros contam, ler e assistir sobre e tentar entender daqui...
Por enquanto, valho-me das palavras do meu mais novo velho preferido:
“Portanto caros leitores, se me derem licença, vou voltar pras putas, pros cavalos e pra garrafa enquanto há tempo. Se isso contribui pra gente morrer, então, pra mim,parece bem menos repugnante ser responsável pela nossa própria morte do que qualquer outra modalidade que ande por ai, disfarçada com rótulos sobre Liberdade, Democracia, Humanidade e/ou qualquer outra espécie de Papo Furado.”(Bukowski)
Fique claro que no meu caso, substituo as putas, cavalos e garrafas por livros,internet e meus alunos rs.
sábado, 15 de junho de 2013
Coisas que dão alegria - Coisas do amor - Coisas da alma , Rubem Alves
Coisas que dão alegria
“_ Eu acho que há muitos céus, um céu para cada um. O meu céu
não é igual ao seu. Porque céu é o lugar de reencontro com as coisas que a
gente ama e o tempo nos roubou. No céu está guardado tudo aquilo que a memória amou...”
“Os olhos das crianças gozam da capacidade de ter o “pasmo
essencial” do recém-nascido que abre seus olhos pela primeira vez. A cada
momento eles se sentem nascidos de novo para a eterna novidade do mundo.”
“Quando vier a primavera e eu já estiver morto, as flores
florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na primavera
passada. Sinto uma alegria enorme ao pensar que a minha morte não tem
importância nenhuma.” (Alberto Caeiro)
“O essencial é saber ver. Mas isso exige um estudo profundo,
uma aprendizagem de desaprender. Procuro despir-me do que aprendi, procuro
esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me
pintaram os sentidos...” (Alberto Caeiro)
“Nós só vemos aquilo que somos. Ingênuos, pensamos que os
olhos são puros, dignos de confiança, que eles realmente veem as coisas tais
como elas são. Puro engano. Os olhos são pintores: eles pintam o mundo de fora
com as cores que moram dentro dele. Olho luminoso vê mundo colorido; olho de
trevas trevoso vê mundo escuro.” (Bernardo Soares)
“É preciso estar meio distraído para ver a verdade. Porque
ela, a verdade, diferente dos santos, aparece sempre no lugar onde estamos, mas
não no lugar onde a atenção está concentrada. Ela é sempre vista pelos cantos
dos olhos, com olhar distraído, nas sombras, nos silêncios, nas indecisões
gaguejantes.”
Coisas do amor
“Alegria nem sempre é marca de saúde mental. Há uma alegria
que é marca de loucura.”
“Me acusam de haver quebrado o meu casamento. Poucos se dão
conta de que primeiro o casamento me quebrou.” (Nietzsche)
“Pare de se lamuriar. Você já gastou uma parte muito grande
da sua vida com lamentações. Sua queixa de que a vida não faz sentido se deve
ao fato de que você fica esperando coisas grandiosas.
(...)
Olhando para coisas grandiosas você não percebe o morango que
cresce ao alcance de sua mão, à beira do abismo. Cuide-se. Você tem o direito
de estar nesse mundo. Esforce-se por ser feliz.”
Coisas da Alma
“... em nome de Deus os que se julgavam possuidores das ideias
certas fizeram morrer nas fogueiras milhares de pessoas.”
“Deus faz o seu sol nascer sobre maus e bons, e a sua chuva
descer sobre justos e injustos. Assim não fiquem aflitos com as minhas ideias. Se
eu canto não é para fazer o sol nascer. É porque sei que o sol vai nascer,
independentemente do meu canto. E nem se preocupem com as suas ideias. Nossas
ideias sobre Deus não fazem a mínima diferença para Ele. Fazem sim, diferenças
para nós.”
“Pessoas que têm ideias terríveis sobre Deus não conseguem
dormir direito, são mais suscetíveis de ter infartos e são intolerantes. Pessoas
que têm ideias mansas sobre Deus dormem melhor, o coração bate tranquilo e são
tolerantes.”
“Quem acredita que Deus tem uma câmara de torturas eterna não
pode amá-lo. Só pode temê-lo. Mas como Deus é amor, aquilo que é temido não
pode ser Deus. Só pode ser o Diabo.”
“Uma pessoa é feliz quando faz o que lhe dá prazer e quando
vive uma relação de amor-amizade com alguém. Essa definição que considero
verdadeira, nunca se realiza. A gente não está nunca fazendo só o que gosta. A vida
nos obriga a fazer muitas coisas desagradáveis, a engolir sapos. Eu mesmo,
tenho em meu estômago, vários sapos vivos não digeridos, que continuam a mexer
e a coaxar. Além disso, essa relação de amor-amizade só acontece em momentos e períodos
curtos. Ela é logo interrompida por uma série de fatores indesejáveis que nos
tornam intolerantes, irritadiços, rabugentos, distantes. Essa transformação
aparece na mudança da música da fala.”
“Amar e ser amado é isso: pensar numa pessoa ausente e
sorrir. Ficar feliz sabendo que ela vai voltar. Ter alguém que escute e dê
colo, sem dar conselhos. Andar de mãos dadas conversando abobrinhas. Olhar nos
olhos da pessoa e sentir que eles estão dizendo: “como é bom que você existe” ...
ser, simplesmente, sem pensar que há um par de olhos nos vigiando para cobrar
algo. Conversar madrugada afora, sem pensar em sexo.”
“A felicidade não acontece no final, depois da transa, depois
do casamento, depois do filho, depois da formatura, depois de construída a
casa, depois da riqueza, depois da viagem. A felicidade acontece no dia a dia. Felicidade
é fruto na beira do abismo. É preciso colhê-lo e degusta-lo agora. Amanhã, ou
ele já caiu, ou você já caiu...”
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Faz muito tempo que estamos tristes assim (sobre ontem à noite. Mas não começou ontem à noite) Mario Bortolotto
Existe um
santo que é o São Wolfgang que tenta convencer o diabo com palavras desafiando
o capeta a construir uma igreja. Este é o santo que ainda acredita no poder do
convencimento a partir de argumentos. Ontem eu tava em casa escrevendo. Como
sempre, com todas as cortinas fechadas, completamente isolado do
mundo. É preciso ficar fora do mundo, pra tentar entender com clareza o que tá
acontecendo, assim como você tem que dirigir uma peça de teatro de fora, pra
poder entender a cena e ver o que realmente está acontecendo. Então essa
atitude de isolamento não é como muitos podem pensar uma atitude alienada. E
não é preciso estar sempre no olho do furacão pra sacar o tamanho da encrenca.
Então eu tava escrevendo em casa e ouvi o barulho lá fora. E abri a janela e
olhei. Tinham jogado um monte de lixo na rua dificultando o tráfego. Algumas
pessoas corriam com medo, outras mais curiosas paravam pra olhar. Aí liguei a
tv e vi as notícias. Li o que meus amigos estavam escrevendo. O Batata me ligou
do teatro e disse que a coisa tava feia. Que teve que fechar o teatro e tiveram
que cancelar a peça da Michelle pq uma rapaziada passou tocando o terror e
inclusive quebraram os vidros do carro do Batata. Como eu fiz na noite do PCC
(e inclusive escrevi um texto pra Folha de São Paulo), simplesmente vesti minha
roupa e fui pra rua ver na real o que tava acontecendo. Subi a Frei Caneca
quase deserta e totalmente atulhada de lixo. O único bar que ficou aberto foi o
da esquina da Paim (ninguém ia ter a manha de tentar depredar aquele bar com a
rapaziada que frequenta ali, sabe como é que é). Cheguei no teatro, bati na
porta, o Batata abriu e eu entrei. Mó clima de funeral. As pessoas discursavam
a favor e contra a manifestação. E também a favor e contra a repressão. Fico
imaginando se é assim mesmo, tão simples. Ou se como em 64, vamos todos marchar
com as senhoras na luta com a família com Deus pela Liberdade acreditando que
estamos mesmo do lado certo e rezando pelo Deus verdadeiro. A história é
simples. É um direito do cidadão se manifestar. O que eu pergunto é se esse
cidadão bem intencionado não está sendo apenas e tão somente usado por um
interesse politico muito maior e que ele não está se dando conta. Sempre há
interesses políticos por trás de tudo. E são esses interesses é que valem no
final. O cara morrendo no Vietnã com o retrato da namorada e acreditando que
estava morrendo pelo seu país, ou no Iraque ou em qualquer merda de guerra que
for. Marighela costumava doar 94% de seu salário para o partido e viver com
míseros 6%. Ele acreditava na causa. E acreditava também quando roubava bancos
na época da ditadura. Marighela morreu acreditando na sua causa. Isso o
transforma num herói? Se ele matou pessoas por isso, eu acredito que não. Nunca
vou transformar em herói alguém que em nome do que quer que seja se acha no
direito de tirar a vida de outro. Mas Marighela tinha convicções, e isso eu
admiro. As pessoas que foram pra rua (a maioria delas) também acreditam que tem
convicções, e isso é bacana. Acreditar é o primeiro passo. Se não fosse o
aumento de 20 centavos (é claro que esses 20 centavos são só um pretexto. É
absurdo alguém ficar indignado pq pessoas estão lutando contra um aumento de 20
centavos. Acho que todo mundo já entendeu que não são pelos 20 centavos. Se eu
tivesse um cachorro aqui em casa, ele estaria mordendo o meu pé por eu perder
tempo explicando isso) seria outro motivo qualquer. Alguém com interesses muito
maiores chegou a conclusão que esse é o momento de fazer uma manifestação
contra atitudes do governo. E essas pessoas apenas querem estar no governo num
futuro próximo e nada vai mudar. E vamos ficar nos lamentando pq em algum
momento nós acreditamos nela. E a idéia é essa mesma. Jogar a população contra
o governo. E o governo tá mais sujo que banheiro de rodoviária, né? Então é
alvo fácil. Os caras fazem por merecer. Bom, eu não votei no Haddad. Eu não
votei em ninguém. Podem me chamar de alienado, mas enquanto não aparecer alguém
que eu confie, eu não vou mais votar. Eu não voto em partidos. Voto em pessoas.
E há muito tempo nenhum político consegue me convencer. É até muito simplista
falar isso, mas o que eu posso fazer? Glauber Rocha já dizia que “política e
poesia é muito pra uma pessoa só”. Eu fico com a poesia, é claro. Eu acredito
em poetas, mesmo quando eles mentem. Eu não acredito em políticos, mesmo quando
eles falam a “verdade”. Então não tem nada a ver com polícia. A polícia é só um
instrumento muito mal utilizado pelas forças repressoras, é só isso. Mas de
qualquer maneira, sou sempre a favor de qualquer manifestação. Mas é claro que
mandaram fechar justamente a Paulista e assim prejudicar a vida de muita gente
que não tinha nada a ver com isso. Foder o transito de uma cidade como São
Paulo na hora do rush, vai atrair atenção internacional. Não é pouco. Mas é o
preço que se paga, né? E não é pelos 20 centavos. Alguém tá ganhando muito mais
com isso e com as boas intenções de quem estava participando da manifestação e
podem ter certeza que não é o estudante ou o trabalhador que vai pagar 20
centavos a menos na sua passagem de ônibus. No fim, nós estamos sempre
trabalhando pra eles. Seja se manifestando ou indo contra a manifestação. No
final, não somos nós que vamos sair ganhando. Lembram das manifestações pelas
eleições diretas? Foi bacana. Aparentemente o povo conseguiu o que queria. E aí
o Collor foi eleito. E foi o povo que colocou ele lá. Mas será que foi o povo
mesmo? Que eu saiba, a máquina é bem mais poderosa que a vontade popular (que
não tem muita noção de qual é o alvo real) e atira sempre armado de boas
intenções. Aí a manifestação acontece, muito legítima, é claro. E o tumulto
está armado. A reação estúpida da polícia agredindo pessoas. As imagens são
chocantes. Alguns policiais mais sádicos devem ter se divertido com aquilo.
Outros que estavam apenas trabalhando, deviam estar bem constrangidos por fazer
parte disso. Mas agora a população toda vai odiar a polícia. E quem é que pode
tirar a razão da população quando vc sabe que um filho seu foi agredido
covardemente? E no meio disso tudo, pessoas se ferrando de ambos os lados.
Enquanto os verdadeiros responsáveis por tudo estão muito longe daqui. E podem
ter certeza que eles não vão dar a cara pra bater. Nós nem sabemos com exatidão
quem são os nossos verdadeiros inimigos. Então saímos atirando apenas. Seja
bolas de borracha, vinagre ou quebrando carros. Nos sentimos bem fazendo parte
de algo, estando do lado que nós achamos certo. Aquelas senhoras da marcha com
a família em 64 achavam que estavam certas. Os caras pintadas também achavam
que estavam certo. E na verdade eles estavam apoiados em suas convicções. E um
homem sem convicções não é porra nenhuma. Muitos aproveitam esse tipo de
situação pra provocar baderna e sair depredando tudo como aconteceu ontem. Mas
esses “baderneiros” não são teletransportados da Enterprise. Eles não aparecem
por acaso, eles fazem parte do elenco contratado, não se iludam. E isso, é
claro, só tira a legitimidade de quem estava apenas (e coberto de boas
intenções, repito) querendo se manifestar contra algo muito maior do que os
benditos 20 centavos a mais. Talvez já não seja mais o tempo de São Wolfgang,
infelizmente. Ninguém mais presta atenção em argumentos e no poder da palavra.
As pessoas querem ação e agem indiscriminadamente e quem age
indiscriminadamente costuma “errar no alvo”. Voltei pra casa com essa imagem
triste na minha cabeça. De uma sombra enorme pairando sobre a Avenida Paulista.
E essa sombra enorme tinha uma imagem disforme, mas era possível ver os dentes
brancos aparecendo no rosto dela. Eu sei que ela tava sorrindo. Nós aqui
embaixo, estamos todos muito tristes. Mas já faz muito tempo que estamos assim.
Mas alguém tá rindo disso tudo. Eles sempre ganham. E no final eles vão se
abraçar e sorrir pras fotos. Eles sabiam que iam vencer.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Pistoleiros, Putas e Dementes - Efraim Medina Reyes
“As pessoas
falavam e ele parecia ouvir, mas na realidade estava absorto, ouvindo a música
do seu sangue. Tinha uma forma de responder que causava espanto, nunca levava a
sério as coisas pelas quais os outros vivem e morrem, tinha uma visão muito
clara e portanto pessimista sobre a existência e a razão de ser do divino e do
humano, e no entanto jamais mudava de atitude: seu humor negro era resistente a
qualquer lance da adversidade.”
“A gente
pode partilhar tempo e espaço com uma mulher por sexo, dinheiro ou, no pior dos
casos, amor. O amor por uma mulher é, de alguma forma, humilhante, é um
sentimento que debilita nossa autoridade e controle, um estranho e grave mal
estar dos sentidos, uma coisa que mais cedo ou mais tarde fará com que sintamos
nojo de nós mesmos.”
“O pior
crime não é ir embora, o pior crime é fingir.”
“Tinha
muitas mulheres mas não deixava se impregnar por elas, não precisava ser brusco
para se manter distante.”
“Mas a vida
é mais o silêncio que nos engole como um enorme peixe do que as repetidas e
profundas palavras daqueles que dizem nos amar.”
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