quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Povo – No Livro ‘Quarto de Badulaques’ – Por Rubem Alves




O povo unido jamais será vencido.

É disso que eu tenho medo, com a democracia o “povo” expulsou Deus da ordem política: Vox Populi, vox dei – a voz do povo é a voz de Deus. Não sei se foi bom negócio, porque o fato é que a vontade do povo é de uma imensa mediocridade. Na bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés se distraísse no alto de uma montanha, para o povo, na planície se entregar a um carnaval idólatra desenfreado. Voltando das alturas e vendo aquela farra, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas onde os mandamentos estavam escritos.

E há a linda estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. No fundo, era uma prostituta. Pulava de amante a amante, enquanto o amor de Oséias pulava de perdão em perdão. Até que ela o abandonou... passado muito tempo. Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... o que foi que ele viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse:

_ Agora você será sempre minha, para sempre...

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era assim, como ele. Amava um povo de todo o seu coração. Mas o povo que ele amava era uma prostituta, prostituta mesmo e não prostituta arrependida            eu virou santa de mãos postas e olhos revirados para o céu. Que Deus ama o povo-prostituta é fato. Mas que este povo-prostituta seja signo de confiança está errado. Veja o caso dos profetas: foram homens solitários. O povo não gostava deles. Em nada se pareciam com esses pastores e padres que agitam as massas, fazem reuniões espetaculares para milhares de pessoas e tem programas de televisão. Quem fazia isso eram os falsos profetas. O povo sempre segue os falsos profetas porque gosta de mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que era fácil enrola o povo. Basta dar-lhe pão e circo. O povo se vende a preço barato. No tempo dos romanos, o circo era os cristãos sendo devorados por leões. E como o povo gostava do sangue e dos gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O espetáculo cristão era diferente, mais perfumado: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. Para a edificação da fé. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro do churrasco e os gritos. Aconselho a leitura do livro de Noah Gordon, O último judeu. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, escreveu um livro fascinante com o título Homem moral e sociedade imoral. Ele chama a nossa atenção para o fato de que os indivíduos, quando isolados, são seres morais. Eles são “perturbados” pela voz da consciência que lhes diz: “Isso não deve ser feito” ou “Isso deve ser feito”. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando eles passam a pertencer a um grupo, a consciência individual é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos, que isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes de linchar um indivíduo. Ou de pôr fogo num índio adormecido. Ou de matar friamente um homem sequestrado indefeso. Ou de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Precisei fazer força para ler o livro de Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Fracassei na primeira tentativa. O livro me revolveu as vísceras. Foi demais. Não aguentei. Um ano depois, retomei a leitura, aguentei o terror e fui até o fim. Saramago descreve uma cidade onde todos ficam cegos, os indivíduos perdem a condição de seres morais. E o que acontece é inimaginável. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado estava comprando votos a troco de franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com votos do povo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele se deixa enganar. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Na verdade, quem decide as eleições são os produtores de imagens. Os partidos tratam de comprar, a preço de ouro, os melhores produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o melhor produtor de imagens... o povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos, isto é, aqueles que, em meio a irracionalidade coletiva, continuam a pensar.  Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de enganar pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus cristo confiavam no povo... Durante a Revolução Cultural da China de Mao-Tse-Tung o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O povo alemão amava o Führer. O Führer também amava o povo alemão. O nazismo era um governo para o povo. Tanto assim que ele fez criar, para o povo alemão, o mais famoso de todos os automóveis: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo”... O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Saramago, de silencio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos, a engolir sapos e a repetir slogans, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Quando isso acontece, surge a esperança. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo a escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...”

           

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Partes - Notas de um velho safado - Charles Bukowski





“Me canso fácil dos preciosos intelectos que precisam cuspir diamantes toda vez que abrem as suas bocas. Eu me canso de ficar batalhando por cada espaço de ar para o espirito. É por isso que me afasto das pessoas por tanto tempo, e agora que estou encontrando as pessoas, descubro que preciso voltar para a minha caverna.”

“O povo ira te trair.
Jamais confie no povo.”

“os livros dos famosos são muito chatos, inclusive Shakespeare.”

“alguns homens nunca se dão bem com as mulheres. eu nunca me dei bem com as mulheres. a coisa toda me parece um tremendo saco. e quando termina você se sente como se tivesse realmente se fodido.”

“A liberdade está sob fogo cruzado. O ‘direito’ de assassinar é o mais definitivo dos direitos nesse pais. A indolência é uma virtude. O patriotismo é um pecado. A conservação é um anacronismo. Deus está com mais de trinta anos de idade. Ser jovem é a única religião – como se fosse uma virtude duramente conseguida. A ‘decência’ são os pés sujos, um escarnio pelo trabalho. O ‘amor’ é algo para o qual você precisa de penicilina. ‘Amar’ é dar uma flor para um jovem nu com piolhos no cabelo enquanto sua mãe está sentada em casa com o coração partido. Você ‘ama’ os estranhos, não os pais.”

“Mas eu tenho um velho ditado (invento velhos ditados enquanto passeio por ai em meus farrapos) que diz que o conhecimento que não se realiza é pior do que a ausência de conhecimento.”

“Essa noite o corpo derrota a alma, é geralmente assim.”

“As cidades são construídas para matar as pessoas, e há as cidades de sorte e há as de outro tipo. A maioria do outro tipo.”

“alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que seu novo governo é ainda o velho paipai de sempre, tendo apenas colocado uma nova máscara de papelão.”

“não estou dizendo desistam. sou pelo verdadeiro espírito humano onde quer que ele esteja, onde quer que ele tenha se escondido, o que quer que ele seja. mas cuidado com os caubóis que fazem a coisa soar tão boa e deixam você num platô com 4 tiras da pesada e oito ou nove rapazes da guarda nacional e apenas o seu umbigo como última prece. os rapazes berrando pelo seu sacrifício nos parques públicos são geralmente os que estão mais longe quando o tiroteio começa. eles querem viver pra escrever suas memórias.”


“ ‘Baby’, eles começam a me dizer, ‘você está bêbado.’
E eu estou. E eu estou. E eu estou.
Não há mais nada que eu possa fazer além de incomodar ou dormir.”

“quando eu acordei estava escuro ... e eu decidi colocar o meu traje novo e sair e encontrar uma mulher, bonita, é claro, para sustentar um homem de talentos ainda escondidos como eu.”

“23 de março, 8 horas da noite, Los Angeles, a mesma e maldita tristeza de sempre e nenhum lugar para onde ir.”