domingo, 4 de agosto de 2013

Sou boa fingidora.




Sei ir a aniversários de crianças e sorrir junto com todo mundo. Sei acordar cedo todo dia e sair pra trabalhar. Sei fazer compras no supermercado e escolher os melhores tomates. Sei lavar roupa e fazer as bainhas das calças do meu marido. Sei assistir televisão e as vezes até solto um sorriso desnecessário. Mas o que tenho dentro... ah, o que tenho dentro. Ainda bem que tá dentro, se não andaria por ai assustando a todos pelo caminho. E a cada um já basta se assustar com os próprios horrores que carrega.

Acho bom que ninguém saiba o que a gente tem por dentro. As pessoas acreditam no que tem diante de seus olhos, até eu me enquadro nisso. Talvez aja uma pequena diferença na minha forma de ver hoje, pois quando olho pro outro sempre penso em quanta coisa pode se ter abrigada em baixo de um doce sorriso. Claro que não sou a única a pensar nisso, mas até pouco tempo atrás eu só via ou só ‘admitia ver’ o que estava diante de mim e sei que muita gente vive assim.

Acho que a gente anda por ai se achando único e diferente, mas no fundo, somos todos bem parecidos. Pateticamente parecidos. E o que acontece pra um, acontece pra maioria do bando. Talvez existam alguns subgrupos, mas nada muito particular.

(imagem do livro 'O mundo de Sofia', de Jostein Gaarder)

domingo, 28 de julho de 2013

A menina e o pássaro encantado – Rubem Alves

Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.

Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…

 Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…

E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.

 Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.

E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.

Mas chegava a hora da tristeza.
 Tenho de ir  dizia.

 Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar…— E a menina fazia beicinho…

 Eu também terei saudades  dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera do regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.

Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”

Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.

Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
 Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor ir-se-á embora…

A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.

Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo… Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.

 Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…

 Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade, eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E enfeitar-te-ás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.

 Que bom  pensava ela  o meu pássaro está a ficar encantado de novo…

E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
 Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah! Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…


E foi assim que ela, cada noite, ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Partes Numa Fria - Charles Bukowski


"Um sábio, talvez, mas Henry preferia alguém que gritasse quando se queimasse."

"Não se pode viver da própria alma."

"Talvez conseguisse dormir. o sono parecia a morte. então adormeceu."

"Escritores são as prostitutas do universo."

"Estendeu-se na cama, pleno em sua inglória."

"É, é um mundo sujo."

"Todo mundo é tão gracioso e decadente, a decomposição realmente começou."

"-Kevin, só tem um coisa que a gente gostaria de saber. Somos seus amigos. Por que você bebe tanto?
-Diabos, não sei. Acho que o principal é que simplesmente fico de saco cheio."

"-A turma que vai ao recital de poesia é bem falsa.
-A maioria das turmas é."

"oh, eu tenho esquadrões de dor
batalhões, exércitos
de dor
continentes de dor
ha, ha, ha
e
tenho você."

"Via tudo ali: bondade, ódio, medo, loucura, amor, humor, mas via, sobretudo amor e humor."

"Curvou-se e deu-lhe um beijinho. Recuou. Ele sorria, sorria o seu sorriso delicioso. ela tornou a pôr a boca na dele e deu-lhe um beijo lento, apaixonado."

"O dia era idêntico ao anterior. Só que melhor. Parecia melhor."

"esse diviníssimo acidente
nos reuniu
juntou
mesmo que seja barro
e eu carne
nós nos tocamos
de algum modo nos tocamos."

"As pessoas corriam de um lado para o outro, fazendo perguntas óbvias e recebendo respostas óbvias."

"É. Quando você entra num táxi, isso é guerra. Quando compra um pão, é guerra. quando compra uma puta, é guerra. Às vezes preciso de um pão, táxi e puta."

"Ann, eu te amo. Espero que meu carro pegue. Espero que a pia não esteja entupida. Estou feliz por não ter comido uma fanzoca. Estou muito feliz por não ser muito bom em me meter na cama com estranhas. Estou feliz por ser um idiota. Estou feliz por não saber nada. Estou feliz por não ter sido assassinado. Quando olho para minhas mãos e elas ainda estão nos pulsos, penso comigo mesmo: sou um cara de sorte."

"Meu corpo me rói de um lado e meu espírito do outro."

"Não era preciso ser bêbado para se machucar, para cair sob a mira de uma mulher; mas a gente podia se machucar e se tornar um bêbado."

"O que homens e mulheres faziam uns aos outros estava além da compreensão."

"Tem razão. Eu sou um completo babaca e um ser humano horrível."

"É tão feio e demente que me fascina."

"A morte era tão chata. Isso era o pior sobre a morte. Era chata. Assim que acontecia, não se podia fazer nada. Não se podia jogar tênis com ela nem transforma-la numa caixa de bombons. Estava ali com um pneu furado."

"Eu dou a alma a elas. Isso não pode ser medido em centímetros."

"As únicas pessoas que sabem de piedade são as que precisam dela."

"Tem muita coisa nova e sensacional. e também tem muita coisa horrível."

"Eu começo a sentir um poema de muito longe. Ele se aproxima de mim, como um gato, atravessando o tapete. Suavemente, mas não com desprezo. Leva sete ou oito dias. Eu sinto uma agitação deliciosa, uma excitação, é uma sensação muito especial. Sei que ele está ali, e depois se precipita, e é fácil. A glória que é criar um poema, é tão nobre, tão sublime!"

"A gente pegava o que conseguia e tentava satisfazer-se."

"Tudo é um saco. Não há como escapar."

"A cortina de ferro, a mente de ferro, a vida de ferro."

"A vida é tão boa quando a gente permite."

"Está linda. Tem tudo por dentro e por fora."

"Toni estava em seu sangue. Precisava tirá-la de lá."

"As mulheres eram mais fortes que os homens, elas conheciam todas as jogadas. Ele não conhecia nenhuma."

"A calcinha e o sutiã eram cor-de-rosa, e o corpo cor-de-rosa e branco e lindo. Era espantoso como de vez em quando se criava uma mulher daquelas, quando todas as outras, não tinham nada, ou quase nada. Era de enlouquecer. Victoria era um sonho lindo, enlouquecedor."

"Victoria era uma coisa meio desagradável, de certa forma."

"Marie era legal, era bondosa, na verdade meio chata."

"Claro, as mulheres eram todas loucas. Não entendiam que vencer não era um experiência gloriosa, só necessária."



“Desci do avião arrastando o casaco de meu pai e minha pilha de poemas. Ann veio ao meu encontro. Olhei o rosto dela e pensei: merda, eu a amo. Que vou fazer? O melhor que podia fazer era bancar o indiferente, depois seguir com ela para o estacionamento. A gente nunca deve deixa-las saber que está ligando, se não elas nos matam. Curvei-me, dei-lhe um beijinho na bochecha.
_ Foi bom pra caralho você ter vindo. 
_ Tudo bem - ela disse. 
[...] 
_ Garota - eu disse a ela -, senti falta do seu rabo mesmo. 
_ Estou com fome - disse Ann.”

quarta-feira, 3 de julho de 2013

por Adriana Brunstein

a gente pensa que se escrever um puta verso ele vai se abalar
mas ele tá com outra
a gente pensa que se apelar pra foto daquela coelhinha da playboy 86 ele vai ceder
mas ele tá com outra
a gente pensa que com uma citação de alguém do século V ele vai ficar nostálgico
mas ele tá com outra
a gente pensa que se tiver uma fratura exposta e uma pá de pinos na perna ele vai se comover (eles costumam ser fãs do robocop)
mas ele tá com outra
a gente esgota as possibilidades as ideias as unhas os comprimidos
e ele
ele continua com outra
- amor é uma coisa besta -


quinta-feira, 27 de junho de 2013

O Povo – No Livro ‘Quarto de Badulaques’ – Por Rubem Alves




O povo unido jamais será vencido.

É disso que eu tenho medo, com a democracia o “povo” expulsou Deus da ordem política: Vox Populi, vox dei – a voz do povo é a voz de Deus. Não sei se foi bom negócio, porque o fato é que a vontade do povo é de uma imensa mediocridade. Na bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés se distraísse no alto de uma montanha, para o povo, na planície se entregar a um carnaval idólatra desenfreado. Voltando das alturas e vendo aquela farra, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas onde os mandamentos estavam escritos.

E há a linda estória do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. No fundo, era uma prostituta. Pulava de amante a amante, enquanto o amor de Oséias pulava de perdão em perdão. Até que ela o abandonou... passado muito tempo. Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... o que foi que ele viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse:

_ Agora você será sempre minha, para sempre...

Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era assim, como ele. Amava um povo de todo o seu coração. Mas o povo que ele amava era uma prostituta, prostituta mesmo e não prostituta arrependida            eu virou santa de mãos postas e olhos revirados para o céu. Que Deus ama o povo-prostituta é fato. Mas que este povo-prostituta seja signo de confiança está errado. Veja o caso dos profetas: foram homens solitários. O povo não gostava deles. Em nada se pareciam com esses pastores e padres que agitam as massas, fazem reuniões espetaculares para milhares de pessoas e tem programas de televisão. Quem fazia isso eram os falsos profetas. O povo sempre segue os falsos profetas porque gosta de mentiras. As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que era fácil enrola o povo. Basta dar-lhe pão e circo. O povo se vende a preço barato. No tempo dos romanos, o circo era os cristãos sendo devorados por leões. E como o povo gostava do sangue e dos gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O espetáculo cristão era diferente, mais perfumado: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. Para a edificação da fé. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro do churrasco e os gritos. Aconselho a leitura do livro de Noah Gordon, O último judeu. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, escreveu um livro fascinante com o título Homem moral e sociedade imoral. Ele chama a nossa atenção para o fato de que os indivíduos, quando isolados, são seres morais. Eles são “perturbados” pela voz da consciência que lhes diz: “Isso não deve ser feito” ou “Isso deve ser feito”. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando eles passam a pertencer a um grupo, a consciência individual é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos, que isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes de linchar um indivíduo. Ou de pôr fogo num índio adormecido. Ou de matar friamente um homem sequestrado indefeso. Ou de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Precisei fazer força para ler o livro de Saramago, Ensaio sobre a cegueira. Fracassei na primeira tentativa. O livro me revolveu as vísceras. Foi demais. Não aguentei. Um ano depois, retomei a leitura, aguentei o terror e fui até o fim. Saramago descreve uma cidade onde todos ficam cegos, os indivíduos perdem a condição de seres morais. E o que acontece é inimaginável. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo. Meu amigo Lisâneas Maciel, no meio de uma campanha eleitoral, me dizia que estava difícil porque o outro candidato a deputado estava comprando votos a troco de franguinhos da Sadia. E a democracia se faz com votos do povo. Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele se deixa enganar. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Na verdade, quem decide as eleições são os produtores de imagens. Os partidos tratam de comprar, a preço de ouro, os melhores produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o melhor produtor de imagens... o povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos, isto é, aqueles que, em meio a irracionalidade coletiva, continuam a pensar.  Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de enganar pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus cristo confiavam no povo... Durante a Revolução Cultural da China de Mao-Tse-Tung o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar. O povo alemão amava o Führer. O Führer também amava o povo alemão. O nazismo era um governo para o povo. Tanto assim que ele fez criar, para o povo alemão, o mais famoso de todos os automóveis: o Volkswagen. Volk, em alemão, quer dizer “povo”... O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Saramago, de silencio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos, a engolir sapos e a repetir slogans, à semelhança do que aconteceu na China. De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Quando isso acontece, surge a esperança. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo a escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção...”