Eu sei que pessoas normais e cultas fazem resumos e resenhas de seus livros favoritos. Eu prefiro assim, ir lendo, grafando as partes com que me identifico ou gosto e depois então digita-las para posta-las aqui ou não. Acho que assim quando alguém quiser saber de tal livro, vai procurar por ele na internet, vai achar algumas citações aqui no meu blog e ai decide se quer ler ou não o tal livro. Acho mais justo e fiel assim.
Sempre leio sobre a Adélia nos textos do Rubem Alves quando ele faz menção as suas poesias ou textos. Nunca tinha lido um livro inteira dela. Estou quase acabando este e gostando bastante. Talvez eu até gostaria mais ainda há uns dois ou três anos atrás, pois ela sempre faz referências religiosas e hoje já não ando mais tão religiosa assim... Mas achei uma leitura bem envolvente e gostosa, com crises bem humanas de alguém que as vive e as enxerga sem fugir delas. Uma leitura bem gostosa pra um domingo frio e chuvoso como hoje.
Comprei essa belezura na estante virtual por apenas cinco reais :) .
“Só na escola achei isso bonito,
autores tuberculosos, aleijados, irados, intratáveis. Grande bobagem! Somos todos
insuportáveis por causa do medo.”
“Quero a verdade, mas não muito, não
toda, por partes, se puder, em pequenos torrões. Com chá, por causa do medo que
voltou, o deus terrível que me quer escrava e a quem temo deixar, como medo de
morrer afogada pelo excesso de ar, viciada que estou em pequeninos gritos,
suspiros abafados, lágrimas prestes a cair.”
“Minha viagem é em minha própria casa,
grande demais para o meu gosto. Quero um quarto, preciso de um cômodo só, quero
uma cela, estou entrópica.”
“Queres levar a minha alma? Não levaras.
Estou em meio a uma tentação, reconheço-a porque não tive coragem de escrever o
que pensei. Sou um soldado ferido, carregando companheiro morto as costas. Peço
ao meu general que me deixe por um momento descansar à sombra.”
“Preciso descobrir se é errado falar
palavrões. É tão bom! Se for certo, nas horas de necessidade, é claro, posso
dispensar o travesseiro que já está furado de tanto eu dar murro nele.”
“O fato de ser segunda-feira ajuda
muito. A roda gigante recomeça, o parque se movimenta, carrocinha de pipoca,
churrasquinho, bilheteira que só pensa em sexo, enfim, a delícia da vida em
porções fartas e batatas para todo mundo.”
“É muito difícil dar o mais bonito.”
“Palavra é sentido.”
“Beleza interior, consolo dado a
mulheres feias e bondosas.”
“Vou aproveitar que estou sozinha,
fechar a porta do quarto e num volume maior que o habitual vou dançar Menina veneno até a roupa me grudar no
corpo. É melhor que ficar dizendo graças a Deus, graças a Deus, com escrúpulos de
não estar bastante agradecida. O demônio adora me pegar por esta fraqueza, me
fazer cismar que não estou bastante agradecida. Mas eu estou, seu filho de uma
égua – ao demônio se pode xingar, não é? – porque eu continuo querendo xingar.”
“Não pago mais tributo a tristeza
herdada de minha mãe.”
“... e eu sem coragem de bater um
bolo se quer, de tão cansada, um cansaço que só parece aliviar-se num choro de
horas sem interrupção.”
“Isto me resume, cansaço. Estou cansado
de excessos, parece. Odiar excessos me faz cometê-los em série.”
“Um rabino ficou furioso e fez um
discurso sobre o genocídio do grande povo judeu. Já começo a achar esses
discursos antinazistas parecidos com os discursos do PT em favor dos oprimidos,
os oradores não parecem mais crer no que falam. Sou nazista, sou opressor, sou
oprimido também. Confesso e alguém acredita?”
“Alba ainda acredita que há pessoas
santinhas. Santinho é o demônio em férias.”
“Vida, o que és? Cadeia de alto luxo
com só uma porta sem trincos.”
“Concede-me chorar, Deus de Ana e
meu. Não estou mais nostálgica.”
“... tenho sempre a ideia de que
engano as pessoas que me julgam letrada. Pois sim, ou pois não, que na mesma
confusão. Não disse? Pego as palavras no palpite, nunca deu errado, porque só
falo o que dói e grito todo mundo entende.”
“No céu te conversa? Eu preciso
falar, é minha necessidade mais primeira, porque amo silêncios e o mistério,
que me derrota e me salva.”
“Livrai-nos do mal e a mim desta
mania de economizar onde não devo.”
“Gemidos de amor dizemos e não
erramos, dói o amor em quem ama.”
“Só um coração de pedra não ama recém-nascidos.”
“Tudo me é oferecido menos isto,
entender.”
“Tristão de Ataíde era ‘escritor católico’,
deve ser ruim ter um rotulo assim, escritor católico, artista operário, cantor
cego, porta bancário. Artista é artista e pronto, católico, cego ou bancário vale
tanto para arte como ter dente encavalado, lábio leporino, ou ser bonito de
doer. Artista tem que ser artista, tem que fazer coisas que as pessoas vejam e
digam: Meu deus, como que eu não vi isto! E é só.”
“É porque eu gosto ao mesmo tempo de
tudo, e tudo na mesma hora me dá enfado, saudade e vontade de chorar. Tenho dificuldade
em ser histórica.”
“Isto eu não aguento, ser obedecida
pelo homem a quem preciso e quero obedecer. Teodoro ainda não entendeu que
tenho necessidade do veneno e do travo dele.”