sábado, 24 de agosto de 2013

No livro - Notas de um velho safado - Charles Bukowski


 
Sempre me identifico com essas histórias tristes do Bukowski, não que eu tenha tido uma infância e juventude tão dura quanto as dele. Mas alguma coisa dentro de mim me diz que faço parte desse mundo dos ‘excluídos’ que o Bukowski tinha como seu. Acho que está mais relacionado a uma forma de ver o mundo, e não necessariamente as experiências pelas quais a pessoa tenha passado.



“A melhor coisa em relação a um moderno secador a gás, naturalmente, é a maneira como ele trata as roupas, o Rei tinha me chutado a bunda cinco vezes, uma duas três quatro cinco, e lá estava eu em Atlanta, bem pior que em Nova Iorque, mais quebrado, mais louco,, mais doente, mais magro; com chances iguais a uma puta de 53 anos ou uma aranha numa floresta em chamas, de qualquer forma, sai caminhando  a baixo, era noite e fazia frio, e Deus não se importava, as mulheres não se importavam, e o imbecil do editor não se importava. As aranhas não se importavam, não podiam cantar, não sabiam o meu nome, mas o frio sabia, sim, e as ruas lambiam a minha barriga fria e vazia, haha, as ruas sabiam muito, e eu seguia perambulando numa camisa branca californiana velha e fazia um frio do caralho e eu bati numa porta, era umas nove da noite, quase dois mil anos que Cristo desistira, e a porta se abriu e um homem sem rosto se postou na soleira da porta, eu disse, eu preciso de um quarto, vi que você tem um avido de Quarto Para Alugar. E ele disse, você não me saca, portanto eu não quero ser incomodado.
Tudo que quero é um quarto, eu disse. Tá muito frio. Eu vou lhe pagar. Pode ser que eu não tenha o suficiente para uma semana mas eu só quero sair do frio. Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim.
Vá se foder, disse ele. A porta se fechou.
Perambulei por ruas cujo nome eu não conhecia. Não sabia para que lado andar. A tristeza era que alguma coisa estava errada. E eu não podia formulá-la. Suspensa na minha cabeça como uma bíblia. Que merda sem sentido. Que jeito de se estrepar. Nenhum mapa. Nenhuma pessoa. Nenhum ruído, apenas vespas. Pedras. Muros. Vento, meu pau e minhas bolas balançando sem sentimento. Eu podia berrar qualquer coisa nas ruas e ninguém ouviria, ninguém daria a mínima. Não que eles devessem. Eu não estava pedindo por amor. Mas tinha alguma coisa muito estranha. Os livros nunca falaram sobre isso. Mas as aranhas sabiam. Foda-se.
Percebi pela primeira vez que qualquer coisa POSSUÍDA POR QUALQUER PESSOA tinha uma TRANCA. Tudo era trancado, uma lição para ladrões, vagabundos e loucos. América, a maravilhosa.
Ai eu enxerguei uma igreja, eu particularmente não gostava de igrejas, especialmente quando elas estavam cheias de gente. Mas eu não imaginava que ela estaria desse jeito às nove da noite. Subi os degraus.
Ei, ei, mulher, vem ver o que restou do teu homem.
Eu podia sentar por um tempo e respirar o fedor, talvez fazendo alguma coisa a partir de Deus, talvez dando uma chance para ele, puxei a porta.
A filha da puta tava trancada.
Desci de volta os degraus.
Continuei caminhando pelas ruas, virando esquinas sem razão, continuei caminhando. Agora tava em cima de mim. O muro. Era isso que os homens temiam. Não apenas serem barrados para sempre. Mas também não ter um amigo. Portanto, não se surpreendam, pensei, isso PODE afugentar a merda pra longe de você. Pode MATAR você. O seu truque barato é entrar e prender. Tenha todo o tipo de documentos na sua carteira. Dinheiro. Seguro. Automóvel. Cama. Janela. Toalete. Gato. Cachorro. Planta. Instrumento musical. Certidão de nascimento. Coisas para se irritar. Inimigos, financiadores. Sacos de aveia, palitos. Cus saudáveis. Banheira, câmera. Desinfetante bucal. Oh meu Deus, ooooh. Trancas (mergulhe nelas, nade nelas, esfregue as suas costas) (tudo o que você  tem – enfie dentro de você como um par de nadadeiras, asas de borracha, um pau sobressalente num consultório médico.)
Passei por cima de uma pontezinha e então enxerguei um outro aviso: QUARTO PARA ALUGAR.  Caminhei até a casa. Bati. É claro que bati. O que é que você acha que eu deveria fazer? Sapatear com aquela minha camisa branca californiana e com minha bunda fria gelada??
Sim, a porta abriu. Uma velha, estava frio demais pra perceber se ela tinha um rosto ou não. Acho que não tinha, trabalhei nas percentagens. Que puta matemático de bunda gelada. Esfreguei os meus lábios por alguns instantes e então falei.
Vejo que a sra. tem um quarto para alugar.
Tudo bem, e daí?
Eu tenho tudo para acreditar que eu posso precisar de um quarto.
Vai precisar de um dólar e meio.
Pela noite?
Pela semana.
Pela semana?
Isso.
Jesus.
Busquei o dólar e meio. Aquilo me deixou com dois ou três paus. Olhei para dentro da casa. Jesus, eles tinham um puta fogo lá dentro. Metro e meio de largura por um de altura. Não estou querendo dizer que a casa estava em chamas, quero dizer que eles o mantinham aceso onde devia. Uma lareira fantástica. Você podia recuperar sua vida de volta só olhando pra aquele fogo. Pude vê-lo banhado na gloria escarlate da sombra irradiada pelo fogo. Mae do céu. Sua boca pendia aberta. Ele não parecia saber onde estava. Ele tremia todo. Não conseguia parar de tremer. O pobre-diabo. Dei um passo pra dentro da sala.
Vá se foder, disse a velha.
O que há? Eu paguei o aluguel. Uma SEMANA inteira.
Certo. O seu quarto é lá fora. Siga-me.
A velha fechou a porta naquele pobre diabo lá dentro, e eu a segui pelo caminho em direção à frente. Caminhei um caralho. Todo o jardim da frente tava que era só lixo. Lixo duro e gelado. Eu não tinha notado mas tinha um barraco de papelão no pátio da frente. Meu poder de observação sempre foi fodido. Ela deu um empurrão e abriu a porta de papelão que estava pendurada numa dobradiça.
Não tem tranca. Mas ninguém irá te incomodar ai dentro.
Tenho todo motivo do mundo pra acreditar que a sra. está certa.
Ela partiu. Eu estava com a razão. Tinha visto o rosto dela, ela não tinha um rosto. Apenas pele pendurada no osso como carne enrugada nas costas de uma galinha.
Não havia nenhuma luz. Apenas uma corda dependurada lá em cima no teto. O chão estava sujo. Mas havia jornais no chão. Algo semelhante a um tapete, uma cama, sem lençóis. Um cobertor fino. Um, cobertor fino. ai eu encontrei um lampião a querosene! Uma dadiva dos deuses! Que sorte! Maravilha!! Eu tinha um fósforo e acendi a coisa. UMA CHAMA APARECEU!
Era um belo fogo, tinha alma, as encostas de montanhas ensolaradas, córregos escaldantes de peixes sorridentes, meias quentes com um cheirinho parecido com torrada. Sustentei minha mão sobre aquela pequena chama. Eu tinha lindas mãos. Ao menos isso eu tinha. Eu tinha lindas mãos.
A pequena chama se apagou.
Eu mexi no lampião de querosene mas, tendo nascido no século 20, eu não sabia muito a seu respeito. Custou toda uma vida para descobrir que eu precisava de mais líquido, combustível, querosene, seja lá como você chame aquilo.
Empurrei para abrir a minha porta de papelão e sai pra dentro da noite iluminada pelas estrelas de Deus. Bati na porta da casa com minhas lindas mãos.
A porta abriu. A velha se postou parada. Quem mais poderia ser? Mickey Rooney? Aproveitei pra dar uma outra espiada no pobre-diabo do velho tremendo junto do glorioso fogo. Maldito imbecil.
Que que é? A velha perguntou da sua cabeça de dorso de galinha.
Bem, eu não queria incomodar a senhora, mas a sra. sabe aquele lampiãozinho a querosene?
Sei.
Bem, ele apagou.
É?
É. Fiquei pensando se a sra. podia me emprestar um pouquinho de combustível?
Tá maluco, rapaz, essa merda custa DINHEIRO!
Ela não fechou a porta com violência. Ela tinha a tranquilidade dos antigos. Ela fechou-a com uma certa finesse irrefletidamente descuidada. Treinamento de séculos. Bons ancestrais. Todos com cara de pele enrugada de galinha. As caras de pele enrugada de galinha de galinha serão as herdeiras da terra.
Voltei pro meu quarto (?) e me sentei na cama. Ai uma coisa muito embaraçosa aconteceu: apesar de fazer um bom tempo desde a última vez que comera, de repente eu tinha que cagar. Tive que me levantar e caminhar pra dentro do mundo de deus de novo e bater naquela porta de novo. Também não era Mickey Rooney dessa vez.
Que?
Desculpe incomodar a senhora de novo. Mas não tem toalete no meu quarto. Será que tem um toalete em algum lugar?
Bem ali! Ela apontou.
Ali??
ALI! E ouça...
Quê?
Vá se foder, rapaz. Todos vocês vêm bater aqui com suas cabeças de louco. Você deixou todo esse AR FRIO aí FORA entrar aqui DENTRO!
Desculpa.
Dessa vez ela estatelou a porta. Pude sentir o ar quente passar por minha orelhas, entre as bolas por um instante. Foi doce. Ai eu me fui em direção à estrutura que servia como cagador.
O toalete não tinha teto.
Olhei pra baixo pra dentro da privada. Parecia ir quilômetros pra dentro da terra. E fedia como nenhuma privada jamais fedeu, e isso já era uma afirmação. A luz do luar pude ver uma aranha sentada no meio da sua teia. Uma aranha negra, gorda. Muito sabida. A teia fora tecida ao longo da boca da privada. Subitamente toda vontade de cagar desapareceu.
Caminhei de volta por meu quarto. Me sentei na cama e balancei minha linda mão o mais próximo que pude daquele fio elétrico dependurado. Eu podia chegar mais perto. Fiquei lá sentado meio biruta, cheio de merda seca, me balançando pra pegar aquele fio. Ai me levantei e caminhei pra fora. Caminhei mais ou menos um quarteirão e parei debaixo de uma árvore gelada. Uma grande árvore gelada. Com toda aquela merda seca dentro de mim. Parei do lado de fora de uma mercearia. Tinha uma mulher gorda parada lá dentro falando com o balconista, eles só estavam ali debaixo daquela luz amarela, falando, e toda aquela COMIDA lá dentro, eles não davam a mínima pras artes, ou pra histórias sutis, pra Platão, ou mesmo pro capitão Kidd, que se interessava por Mickey Rooney. Eles estavam mortos mas de uma maneira que tinha mais sentido do que eu. O insensível sentido dos insetos e dos cães ferozes. Eu não era merda. Eu não podia. Mesmo se quisesse.
Caminhei de volta pro meu quarto de manhã escrevi uma longa carta pro meu pai nas beiradas dos jornais. Comprei um envelope e um selo e botei a coisa no correio. Eu disse a ele que estava morrendo de fome e gostaria de uma passagem de ônibus para L. A., e pelo menos no que me dizia respeito o conto que fosse pro inferno. Veja o De Mass, escrevi, pegou sífilis e enlouqueceu remando um barco a remo. Manda dinheiro.
Não me lembro se cheguei a cagar alguma vez enquanto esperava. Mas a resposta veio. Estraçalhei o envelope todo para abri-lo. Sacudi as páginas. Havia dez ou doze páginas escritas, dos dois lados, mas nenhum dinheiro. As primeiras palavras diziam: ACABOU A ROUBALHEIRA!
...você me deve DEZ DÓLARES os quais você ainda não ME PAGOU. Eu trabalho duro pelo meu dinheiro. Eu não tenho como sustentar você enquanto você escreve seus contos estúpidos. Se você tivesse pelo menos UMA VEZ vendido algum conto ou tivesse algum TREINAMENTO seria diferente, mas eu li os seus contos, eles são um HORROR. As pessoas não gostam de ler coisas horrorosas. Você devia escrever como Mark Twain. Ele foi um grande homem. Podia fazer as pessoas rirem. Em todos os seus contos as pessoas se matam ou ficam loucas, ou assassinam alguém. A maior parte da vida não é do modo como você a imagina. Arranje um bom emprego, FAÇA alguma coisa de você mesmo...
E a carta continuava e continuava. Não pude termina-la. Tudo que eu queria era dinheiro. Sacudi as páginas de novo. Eu estava doente de mais para sentir o frio. Mais tarde naquele dia enquanto caminhava enxerguei um aviso – precisa-se de ajuda. E de fato, eles precisavam de um homem para uma turma para trabalhar na linha férrea em algum lugar a oeste de Sacramento. Assinei o contrato. Tive alguns problemas lá e com a turma da ferrovia. Eu não era popular entre os rapazes, o trem tinha cem anos de idade e cheio de pó. Um deles se meteu debaixo do meu banco enquanto os outros davam risada. MERDAS: bom, era melhor que Atlanta. Finalmente me aborreci e me levantei. O sujeito saiu de baixo e caminhou até onde estava sua turma e ficou ali parado.
Aquele sujeito é biruta, disse ele. Se ele vier até aqui quero que vocês rapazes me deem uma mão.
Não fui até lá. Mark Twain poderia ter espremido algumas risadas da coisa, ele provavelmente estaria de pé lá com eles bebendo de uma garrafa com os merdas cantarolando canções. Um homem de verdade. Sam Clem. Eu não era muito, mas estava fora de Atlanta, não totalmente morto ainda, tinha lindas mãos e um caminho a percorrer.
O trem continuava sem parar.”

Pagina 151 à 158 – No livro Notas de um velho safado.

Meu Jardim - Vander Lee



Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores                              
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores                               
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores       
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho                                 
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho       
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho                             
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

2 - In Textos Autobiográficos - Charles Bukowski





quinta-feira, 22 de agosto de 2013

In Textos Autobiográficos - Bukowski





“Harry olhou para os motoristas dos carros. Pareciam infelizes. O mundo parecia infeliz. As pessoas estavam no escuro. As pessoas estavam apavoradas e decepcionadas. As pessoas estavam presas em armadilhas. As pessoas estavam na defensiva, nervosas. Sentiam que suas vidas estavam sendo desperdiçadas. E elas estavam certas.

Harry seguiu seu caminho, parou no semáforo. E, naquele momento, teve um sentimento muito estranho. Teve a impressão de que era a única pessoa viva no mundo.”

Charles Bukowski – Textos autobiográficos

Onde Deus possa me ouvir - Vander Lee


Sabe o que eu queria agora, meu bem...?
Sair chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém.
Sabe o que eu mais quero agora, meu amor?
Morar no interior do meu interior
Pra entender porque se agridem
Se empurram pro abismo
Se debatem, se combatem sem saber
Meu amor...
Deixa eu chorar até cansar
Me leve pra qualquer lugar
Aonde Deus possa me ouvir
Minha dor...
Eu não consigo compreender
Eu quero algo pra beber
Me deixe aqui pode sair.
Adeus...

domingo, 18 de agosto de 2013

Adélia Prado

"Escreve-se para dizer sou mais que meu pobre corpo."


Partes - Manuscritos de Felipa - Adélia Prado



 Eu sei que pessoas normais e cultas fazem resumos e resenhas de seus livros favoritos. Eu prefiro assim, ir lendo, grafando as partes com que me identifico ou gosto e depois então digita-las para posta-las aqui ou não. Acho que assim quando alguém quiser saber de tal livro, vai procurar por ele na internet, vai achar algumas citações aqui no meu blog e ai decide se quer ler ou não o tal livro. Acho mais justo e fiel assim.
Sempre leio sobre a Adélia nos textos do Rubem Alves quando ele faz menção as suas poesias ou textos. Nunca tinha lido um livro inteira dela. Estou quase acabando este e gostando bastante. Talvez eu até gostaria mais ainda há uns dois ou três anos atrás, pois ela sempre faz referências religiosas e hoje já não ando mais tão religiosa assim...  Mas achei uma leitura bem envolvente e gostosa, com crises bem humanas de alguém que as vive e as enxerga sem fugir delas. Uma leitura bem gostosa pra um domingo frio e chuvoso como hoje.
Comprei essa belezura na estante virtual por apenas cinco reais :) .



“Só na escola achei isso bonito, autores tuberculosos, aleijados, irados, intratáveis. Grande bobagem! Somos todos insuportáveis por causa do medo.”

“Quero a verdade, mas não muito, não toda, por partes, se puder, em pequenos torrões. Com chá, por causa do medo que voltou, o deus terrível que me quer escrava e a quem temo deixar, como medo de morrer afogada pelo excesso de ar, viciada que estou em pequeninos gritos, suspiros abafados, lágrimas prestes a cair.”

“Minha viagem é em minha própria casa, grande demais para o meu gosto. Quero um quarto, preciso de um cômodo só, quero uma cela, estou entrópica.”

“Queres levar a minha alma? Não levaras. Estou em meio a uma tentação, reconheço-a porque não tive coragem de escrever o que pensei. Sou um soldado ferido, carregando companheiro morto as costas. Peço ao meu general que me deixe por um momento descansar à sombra.”

“Preciso descobrir se é errado falar palavrões. É tão bom! Se for certo, nas horas de necessidade, é claro, posso dispensar o travesseiro que já está furado de tanto eu dar murro nele.”

“O fato de ser segunda-feira ajuda muito. A roda gigante recomeça, o parque se movimenta, carrocinha de pipoca, churrasquinho, bilheteira que só pensa em sexo, enfim, a delícia da vida em porções fartas e batatas para todo mundo.”

“É muito difícil dar o mais bonito.”

“Palavra é sentido.”

“Beleza interior, consolo dado a mulheres feias e bondosas.”

“Vou aproveitar que estou sozinha, fechar a porta do quarto e num volume maior que o habitual vou dançar Menina veneno até a roupa me grudar no corpo. É melhor que ficar dizendo graças a Deus, graças a Deus, com escrúpulos de não estar bastante agradecida. O demônio adora me pegar por esta fraqueza, me fazer cismar que não estou bastante agradecida. Mas eu estou, seu filho de uma égua – ao demônio se pode xingar, não é? – porque eu continuo querendo xingar.”

“Não pago mais tributo a tristeza herdada de minha mãe.”

“... e eu sem coragem de bater um bolo se quer, de tão cansada, um cansaço que só parece aliviar-se num choro de horas sem interrupção.”

“Isto me resume, cansaço. Estou cansado de excessos, parece. Odiar excessos me faz cometê-los em série.”

“Um rabino ficou furioso e fez um discurso sobre o genocídio do grande povo judeu. Já começo a achar esses discursos antinazistas parecidos com os discursos do PT em favor dos oprimidos, os oradores não parecem mais crer no que falam. Sou nazista, sou opressor, sou oprimido também. Confesso e alguém acredita?”

“Alba ainda acredita que há pessoas santinhas. Santinho é o demônio em férias.”

“Vida, o que és? Cadeia de alto luxo com só uma porta sem trincos.”

“Concede-me chorar, Deus de Ana e meu. Não estou mais nostálgica.”

“... tenho sempre a ideia de que engano as pessoas que me julgam letrada. Pois sim, ou pois não, que na mesma confusão. Não disse? Pego as palavras no palpite, nunca deu errado, porque só falo o que dói e grito todo mundo entende.”

“No céu te conversa? Eu preciso falar, é minha necessidade mais primeira, porque amo silêncios e o mistério, que me derrota e me salva.”


“Livrai-nos do mal e a mim desta mania de economizar onde não devo.”

“Gemidos de amor dizemos e não erramos, dói o amor em quem ama.”

“Só um coração de pedra não ama recém-nascidos.”

“Tudo me é oferecido menos isto, entender.”

“Tristão de Ataíde era ‘escritor católico’, deve ser ruim ter um rotulo assim, escritor católico, artista operário, cantor cego, porta bancário. Artista é artista e pronto, católico, cego ou bancário vale tanto para arte como ter dente encavalado, lábio leporino, ou ser bonito de doer. Artista tem que ser artista, tem que fazer coisas que as pessoas vejam e digam: Meu deus, como que eu não vi isto! E é só.”

“É porque eu gosto ao mesmo tempo de tudo, e tudo na mesma hora me dá enfado, saudade e vontade de chorar. Tenho dificuldade em ser histórica.”

“Isto eu não aguento, ser obedecida pelo homem a quem preciso e quero obedecer. Teodoro ainda não entendeu que tenho necessidade do veneno e do travo dele.”