Sempre me identifico com essas histórias
tristes do Bukowski, não que eu tenha tido uma infância e juventude tão dura
quanto as dele. Mas alguma coisa dentro de mim me diz que faço parte desse
mundo dos ‘excluídos’ que o Bukowski tinha como seu. Acho que está mais
relacionado a uma forma de ver o mundo, e não necessariamente as experiências pelas
quais a pessoa tenha passado.
“A melhor
coisa em relação a um moderno secador a gás, naturalmente, é a maneira como ele
trata as roupas, o Rei tinha me chutado a bunda cinco vezes, uma duas três
quatro cinco, e lá estava eu em Atlanta, bem pior que em Nova Iorque, mais
quebrado, mais louco,, mais doente, mais magro; com chances iguais a uma puta
de 53 anos ou uma aranha numa floresta em chamas, de qualquer forma, sai
caminhando a baixo, era noite e fazia
frio, e Deus não se importava, as mulheres não se importavam, e o imbecil do
editor não se importava. As aranhas não se importavam, não podiam cantar, não
sabiam o meu nome, mas o frio sabia, sim, e as ruas lambiam a minha barriga
fria e vazia, haha, as ruas sabiam muito, e eu seguia perambulando numa camisa
branca californiana velha e fazia um frio do caralho e eu bati numa porta, era
umas nove da noite, quase dois mil anos que Cristo desistira, e a porta se
abriu e um homem sem rosto se postou na soleira da porta, eu disse, eu preciso
de um quarto, vi que você tem um avido de Quarto Para Alugar. E ele disse, você
não me saca, portanto eu não quero ser incomodado.
Tudo que
quero é um quarto, eu disse. Tá muito frio. Eu vou lhe pagar. Pode ser que eu
não tenha o suficiente para uma semana mas eu só quero sair do frio. Não é
morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim.
Vá se foder,
disse ele. A porta se fechou.
Perambulei
por ruas cujo nome eu não conhecia. Não sabia para que lado andar. A tristeza
era que alguma coisa estava errada. E eu não podia formulá-la. Suspensa na
minha cabeça como uma bíblia. Que merda sem sentido. Que jeito de se estrepar.
Nenhum mapa. Nenhuma pessoa. Nenhum ruído, apenas vespas. Pedras. Muros. Vento,
meu pau e minhas bolas balançando sem sentimento. Eu podia berrar qualquer
coisa nas ruas e ninguém ouviria, ninguém daria a mínima. Não que eles
devessem. Eu não estava pedindo por amor. Mas tinha alguma coisa muito
estranha. Os livros nunca falaram sobre isso. Mas as aranhas sabiam. Foda-se.
Percebi pela
primeira vez que qualquer coisa POSSUÍDA POR QUALQUER PESSOA tinha uma TRANCA.
Tudo era trancado, uma lição para ladrões, vagabundos e loucos. América, a
maravilhosa.
Ai eu
enxerguei uma igreja, eu particularmente não gostava de igrejas, especialmente
quando elas estavam cheias de gente. Mas eu não imaginava que ela estaria desse
jeito às nove da noite. Subi os degraus.
Ei, ei,
mulher, vem ver o que restou do teu homem.
Eu podia
sentar por um tempo e respirar o fedor, talvez fazendo alguma coisa a partir de
Deus, talvez dando uma chance para ele, puxei a porta.
A filha da
puta tava trancada.
Desci de
volta os degraus.
Continuei
caminhando pelas ruas, virando esquinas sem razão, continuei caminhando. Agora
tava em cima de mim. O muro. Era isso que os homens temiam. Não apenas serem
barrados para sempre. Mas também não ter um amigo. Portanto, não se
surpreendam, pensei, isso PODE afugentar a merda pra longe de você. Pode MATAR
você. O seu truque barato é entrar e prender. Tenha todo o tipo de documentos
na sua carteira. Dinheiro. Seguro. Automóvel. Cama. Janela. Toalete. Gato.
Cachorro. Planta. Instrumento musical. Certidão de nascimento. Coisas para se
irritar. Inimigos, financiadores. Sacos de aveia, palitos. Cus saudáveis.
Banheira, câmera. Desinfetante bucal. Oh meu Deus, ooooh. Trancas (mergulhe
nelas, nade nelas, esfregue as suas costas) (tudo o que você tem – enfie dentro de você como um par de
nadadeiras, asas de borracha, um pau sobressalente num consultório médico.)
Passei por
cima de uma pontezinha e então enxerguei um outro aviso: QUARTO PARA ALUGAR. Caminhei até a casa. Bati. É claro que bati.
O que é que você acha que eu deveria fazer? Sapatear com aquela minha camisa
branca californiana e com minha bunda fria gelada??
Sim, a porta
abriu. Uma velha, estava frio demais pra perceber se ela tinha um rosto ou não.
Acho que não tinha, trabalhei nas percentagens. Que puta matemático de bunda
gelada. Esfreguei os meus lábios por alguns instantes e então falei.
Vejo que a
sra. tem um quarto para alugar.
Tudo bem, e daí?
Eu tenho
tudo para acreditar que eu posso precisar de um quarto.
Vai precisar
de um dólar e meio.
Pela noite?
Pela semana.
Pela semana?
Isso.
Jesus.
Busquei o
dólar e meio. Aquilo me deixou com dois ou três paus. Olhei para dentro da
casa. Jesus, eles tinham um puta fogo lá dentro. Metro e meio de largura por um
de altura. Não estou querendo dizer que a casa estava em chamas, quero dizer
que eles o mantinham aceso onde devia. Uma lareira fantástica. Você podia
recuperar sua vida de volta só olhando pra aquele fogo. Pude vê-lo banhado na
gloria escarlate da sombra irradiada pelo fogo. Mae do céu. Sua boca pendia
aberta. Ele não parecia saber onde estava. Ele tremia todo. Não conseguia parar
de tremer. O pobre-diabo. Dei um passo pra dentro da sala.
Vá se foder,
disse a velha.
O que há? Eu
paguei o aluguel. Uma SEMANA inteira.
Certo. O seu
quarto é lá fora. Siga-me.
A velha
fechou a porta naquele pobre diabo lá dentro, e eu a segui pelo caminho em
direção à frente. Caminhei um caralho. Todo o jardim da frente tava que era só
lixo. Lixo duro e gelado. Eu não tinha notado mas tinha um barraco de papelão
no pátio da frente. Meu poder de observação sempre foi fodido. Ela deu um
empurrão e abriu a porta de papelão que estava pendurada numa dobradiça.
Não tem
tranca. Mas ninguém irá te incomodar ai dentro.
Tenho todo
motivo do mundo pra acreditar que a sra. está certa.
Ela partiu. Eu
estava com a razão. Tinha visto o rosto dela, ela não tinha um rosto. Apenas pele
pendurada no osso como carne enrugada nas costas de uma galinha.
Não havia
nenhuma luz. Apenas uma corda dependurada lá em cima no teto. O chão estava
sujo. Mas havia jornais no chão. Algo semelhante a um tapete, uma cama, sem lençóis.
Um cobertor fino. Um, cobertor fino. ai eu encontrei um lampião a querosene! Uma
dadiva dos deuses! Que sorte! Maravilha!! Eu tinha um fósforo e acendi a coisa.
UMA CHAMA APARECEU!
Era um belo
fogo, tinha alma, as encostas de montanhas ensolaradas, córregos escaldantes de
peixes sorridentes, meias quentes com um cheirinho parecido com torrada. Sustentei
minha mão sobre aquela pequena chama. Eu tinha lindas mãos. Ao menos isso eu
tinha. Eu tinha lindas mãos.
A pequena
chama se apagou.
Eu mexi no
lampião de querosene mas, tendo nascido no século 20, eu não sabia muito a seu
respeito. Custou toda uma vida para descobrir que eu precisava de mais líquido,
combustível, querosene, seja lá como você chame aquilo.
Empurrei para
abrir a minha porta de papelão e sai pra dentro da noite iluminada pelas
estrelas de Deus. Bati na porta da casa com minhas lindas mãos.
A porta
abriu. A velha se postou parada. Quem mais poderia ser? Mickey Rooney? Aproveitei
pra dar uma outra espiada no pobre-diabo do velho tremendo junto do glorioso
fogo. Maldito imbecil.
Que que é? A
velha perguntou da sua cabeça de dorso de galinha.
Bem, eu não queria
incomodar a senhora, mas a sra. sabe aquele lampiãozinho a querosene?
Sei.
Bem, ele
apagou.
É?
É. Fiquei pensando
se a sra. podia me emprestar um pouquinho de combustível?
Tá maluco,
rapaz, essa merda custa DINHEIRO!
Ela não fechou
a porta com violência. Ela tinha a tranquilidade dos antigos. Ela fechou-a com
uma certa finesse irrefletidamente descuidada. Treinamento de séculos. Bons ancestrais.
Todos com cara de pele enrugada de galinha. As caras de pele enrugada de
galinha de galinha serão as herdeiras da terra.
Voltei pro
meu quarto (?) e me sentei na cama. Ai uma coisa muito embaraçosa aconteceu:
apesar de fazer um bom tempo desde a última vez que comera, de repente eu tinha
que cagar. Tive que me levantar e caminhar pra dentro do mundo de deus de novo
e bater naquela porta de novo. Também não era Mickey Rooney dessa vez.
Que?
Desculpe incomodar
a senhora de novo. Mas não tem toalete no meu quarto. Será que tem um toalete
em algum lugar?
Bem ali! Ela
apontou.
Ali??
ALI! E ouça...
Quê?
Vá se foder,
rapaz. Todos vocês vêm bater aqui com suas cabeças de louco. Você deixou todo
esse AR FRIO aí FORA entrar aqui DENTRO!
Desculpa.
Dessa vez
ela estatelou a porta. Pude sentir o ar quente passar por minha orelhas, entre
as bolas por um instante. Foi doce. Ai eu me fui em direção à estrutura que
servia como cagador.
O toalete não
tinha teto.
Olhei pra
baixo pra dentro da privada. Parecia ir quilômetros pra dentro da terra. E fedia
como nenhuma privada jamais fedeu, e isso já era uma afirmação. A luz do luar
pude ver uma aranha sentada no meio da sua teia. Uma aranha negra, gorda. Muito
sabida. A teia fora tecida ao longo da boca da privada. Subitamente toda
vontade de cagar desapareceu.
Caminhei de
volta por meu quarto. Me sentei na cama e balancei minha linda mão o mais próximo
que pude daquele fio elétrico dependurado. Eu podia chegar mais perto. Fiquei lá
sentado meio biruta, cheio de merda seca, me balançando pra pegar aquele fio. Ai
me levantei e caminhei pra fora. Caminhei mais ou menos um quarteirão e parei
debaixo de uma árvore gelada. Uma grande árvore gelada. Com toda aquela merda
seca dentro de mim. Parei do lado de fora de uma mercearia. Tinha uma mulher
gorda parada lá dentro falando com o balconista, eles só estavam ali debaixo
daquela luz amarela, falando, e toda aquela COMIDA lá dentro, eles não davam a mínima
pras artes, ou pra histórias sutis, pra Platão, ou mesmo pro capitão Kidd, que
se interessava por Mickey Rooney. Eles estavam mortos mas de uma maneira que
tinha mais sentido do que eu. O insensível sentido dos insetos e dos cães ferozes.
Eu não era merda. Eu não podia. Mesmo se quisesse.
Caminhei de
volta pro meu quarto de manhã escrevi uma longa carta pro meu pai nas beiradas
dos jornais. Comprei um envelope e um selo e botei a coisa no correio. Eu disse
a ele que estava morrendo de fome e gostaria de uma passagem de ônibus para L.
A., e pelo menos no que me dizia respeito o conto que fosse pro inferno. Veja o
De Mass, escrevi, pegou sífilis e enlouqueceu remando um barco a remo. Manda dinheiro.
Não me
lembro se cheguei a cagar alguma vez enquanto esperava. Mas a resposta veio. Estraçalhei
o envelope todo para abri-lo. Sacudi as páginas. Havia dez ou doze páginas
escritas, dos dois lados, mas nenhum dinheiro. As primeiras palavras diziam:
ACABOU A ROUBALHEIRA!
...você me
deve DEZ DÓLARES os quais você ainda não ME PAGOU. Eu trabalho duro pelo meu
dinheiro. Eu não tenho como sustentar você enquanto você escreve seus contos estúpidos.
Se você tivesse pelo menos UMA VEZ vendido algum conto ou tivesse algum
TREINAMENTO seria diferente, mas eu li os seus contos, eles são um HORROR. As
pessoas não gostam de ler coisas horrorosas. Você devia escrever como Mark Twain.
Ele foi um grande homem. Podia fazer as pessoas rirem. Em todos os seus contos
as pessoas se matam ou ficam loucas, ou assassinam alguém. A maior parte da
vida não é do modo como você a imagina. Arranje um bom emprego, FAÇA alguma
coisa de você mesmo...
E a carta
continuava e continuava. Não pude termina-la. Tudo que eu queria era dinheiro. Sacudi
as páginas de novo. Eu estava doente de mais para sentir o frio. Mais tarde
naquele dia enquanto caminhava enxerguei um aviso – precisa-se de ajuda. E de
fato, eles precisavam de um homem para uma turma para trabalhar na linha férrea
em algum lugar a oeste de Sacramento. Assinei o contrato. Tive alguns problemas
lá e com a turma da ferrovia. Eu não era popular entre os rapazes, o trem tinha
cem anos de idade e cheio de pó. Um deles se meteu debaixo do meu banco
enquanto os outros davam risada. MERDAS: bom, era melhor que Atlanta. Finalmente
me aborreci e me levantei. O sujeito saiu de baixo e caminhou até onde estava
sua turma e ficou ali parado.
Aquele sujeito
é biruta, disse ele. Se ele vier até aqui quero que vocês rapazes me deem uma
mão.
Não fui até
lá. Mark Twain poderia ter espremido algumas risadas da coisa, ele
provavelmente estaria de pé lá com eles bebendo de uma garrafa com os merdas
cantarolando canções. Um homem de verdade. Sam Clem. Eu não era muito, mas
estava fora de Atlanta, não totalmente morto ainda, tinha lindas mãos e um
caminho a percorrer.
O trem
continuava sem parar.”
Pagina 151 à
158 – No livro Notas de um velho safado.







