quinta-feira, 29 de agosto de 2013

No livro Um bom lugar pra morrer - Mario Brtolotto








“O que restou do sagrado

Vai ter uma hora que eu vou achar necessário. Que eu vou querer uma satisfação. Eu sei o quanto vou ser ignorado. Todo mundo é. E mesmo assim, as pessoas entregam suas vidas e suas almas. É claro que tudo tem um preço. Ninguém faz nada de graça. Então o problema é comigo? Eu que não sou chegado em negociações. Que só me refugio num canto de balcão e às vezes me deixo surpreender emocionado. Eu, que aguardo instruções e nunca as cumpro. Eu, que vivo de pequenas lamentações. Eu que não mereço nenhuma satisfação. Eu que sei o quanto posso estar sendo indelicado. Mas eu não nasci afeito a gentilezas, por isso não há porque estranhar meu comportamento pouco cordato. Minha negação de felicidade. Minha queixazinha monótona. Ainda tem humanidade de sobra nessa carcaça renitente. Sei o tamanho de minha insignificância. Mas ainda assim, vai ter uma hora que eu vou ter que sair desse canto seguro do balcão. Vou ter que tomar uma atitude. Vou ter que exigir uma satisfação. E tenho plena consciência do quanto não serei querido por isso. Ouvi dizer que existem maneiras mais agradáveis de ganhar a vida. Mas eu não me mantenho informado.”

“Morte nenhuma me redime
Viver tem sido meu único crime.”

domingo, 25 de agosto de 2013

Rubem Alves



'... a coisa mais terrível nos namorados jovens é a tentativa de controlar, de engaiolar. E não há amor que resista à perda da liberdade. Ela é mais importante que o amor. A liberdade é o ar que o amor respira. Se não houver liberdade, não existe a possibilidade de que o amor dure.'

'As pessoas que não sabem viver sozinhas estão o tempo todo mendigando aprovação das outras. É preciso aprender a viver só, aprender a fazer silêncio, para poder conviver com o outro, porque dentro de cada um mora uma grande solidão. Há um lugar dentro da gente que ninguém vai, somente nós. E nem nós mesmos sabemos como é esse lugar. Então temos que aprender a respeitar a solidão do outro e a nossa própria solidão. Há pessoas que não suportam a solidão do outro, acham que, quando o outro quer ficar sozinho, é uma indicação de que ele não está amando. Não é nada disso.'

'É preciso estar meio distraído para ver a verdade. Porque ela, a verdade, diferente dos santos, aparece sempre no lugar onde estamos, mas não no lugar onde a atenção está concentrada. Ela é sempre vista pelos cantos dos olhos, com olhar distraído, nas sombras, nos silêncios, nas indecisões gaguejantes.' 

"Um Deus que se compreende não pode ser grande coisa. Um mar que se compreende não passa de um aquário."

'Se o maior fosse o melhor, o elefante seria o dono do circo.'

'... o povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos, isto é, aqueles que, em meio a irracionalidade coletiva, continuam a pensar. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de enganar pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham. Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo...'

'O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranqüila. Em silêncio. Sem dar conselhos. Sem que digam: Se eu fosse você...'

“Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.”

“Já disse que, na experiência artística, fazemos amor com coisas que não existem. ‘As coisas que não existem são mais bonitas’: delas, a alma se alimenta. A própria existência da arte é uma evidencia de que ‘as coisas que não existem tem o poder de nos socorrer’.”

“Toda separação é triste. Ela guarda memória de tempos felizes (ou de tempos que poderiam ter sido felizes...) e nela mora a saudade.”

'As caminhadas pelo deserto me fizeram forte. Aprendi a cuidar de mim mesmo. E aprendi a buscar as coisas que, para mim, solitário, faziam sentido.' 

“A tragédia aconteceu porque os homens tentaram evitá-la. Tolos! Pensamos que nossos planos são capazes de garantir o futuro. Ignoramos que há forças mais profundas. Não estou dizendo teoria. Eu vivi isso. Só estou onde estou porque tudo que planejei deu errado. (…)Não sabia que era precisamente esse fracasso que me levaria ao lugar que desejava. As correntes do rio profundo foram mais generosas que o meu remar contra elas. Não cheguei aonde planejei ir. Cheguei, sem querer, aonde meu coração queria chegar, sem que eu o soubesse”.
 

“… Mas é preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo. Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de “abrir mão” – a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.”

'Somos assim. Sonhamos o vôo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. Às gaiolas são o lugar onde as certezas moram.'

'Um amigo é uma pessoa com quem se tem prazer em compartilhar idéias de forma tranquila e mansa. Não é preciso estar de acordo...' 

“Hoje não há razões para otimismo. Hoje só é possível ter esperança. Esperança é o oposto do otimismo. “Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração.” Camus sabia o que era esperança. Suas palavras: “E no meio do inverno eu descobri que dentro de mim havia um verão invencível...” Otimismo é alegria “por causa de”: coisa humana, natural. Esperança é alegria “a despeito de”: coisa divina. O otimismo tem suas raízes no tempo. A esperança tem suas raízes na eternidade. O otimismo se alimenta de grandes coisas. Sem elas, ele morre. A esperança se alimenta de pequenas coisas. Nas pequenas coisas ela floresce. Basta-lhe um morango à beira do abismo. Hoje, é tudo o que temos ao nos aproximarmos do século XXI: morangos à beira do abismo, alegria sem razões. A possibilidade da esperança ...”

“Não sei se deve perdoar sempre. Como perdoar o torturador? Como perdoar o adulto que espanca uma criança? Como perdoar a inquisição, os campos de concentração, a bomba atômica, os homens públicos que se enriquecem às custas do dinheiro do povo que sofre e morre? Quem perdoa tudo é porque não se importa com nada.”

“Eles não entendem. Pensam que ser pobre é gostar de pobreza. Ser solidário com pobre é sofrer a pobreza deles e sonhar sonhos de prazer e riqueza. Os sonhos são sempre a subversão da realidade. Trabalhador não sonha com angu e feijão – não é preciso sonhar, para isso basta abrir os olhos. Trabalhador sonha é com coisas bonitas e gostosas.”

“Amar e ser amado é isso: pensar numa pessoa ausente e sorrir. Ficar feliz sabendo que ela vai voltar. Ter alguém que escute e dê colo, sem dar conselhos. Andar de mãos dadas conversando abobrinhas. Olhar nos olhos da pessoa e sentir que eles estão dizendo: “como é bom que você existe” ... ser, simplesmente, sem pensar que há um par de olhos nos vigiando para cobrar algo. Conversar madrugada afora, sem pensar em sexo.”
(No livro 'Coisas da Alma')


                 

sábado, 24 de agosto de 2013

No livro - Notas de um velho safado - Charles Bukowski


 
Sempre me identifico com essas histórias tristes do Bukowski, não que eu tenha tido uma infância e juventude tão dura quanto as dele. Mas alguma coisa dentro de mim me diz que faço parte desse mundo dos ‘excluídos’ que o Bukowski tinha como seu. Acho que está mais relacionado a uma forma de ver o mundo, e não necessariamente as experiências pelas quais a pessoa tenha passado.



“A melhor coisa em relação a um moderno secador a gás, naturalmente, é a maneira como ele trata as roupas, o Rei tinha me chutado a bunda cinco vezes, uma duas três quatro cinco, e lá estava eu em Atlanta, bem pior que em Nova Iorque, mais quebrado, mais louco,, mais doente, mais magro; com chances iguais a uma puta de 53 anos ou uma aranha numa floresta em chamas, de qualquer forma, sai caminhando  a baixo, era noite e fazia frio, e Deus não se importava, as mulheres não se importavam, e o imbecil do editor não se importava. As aranhas não se importavam, não podiam cantar, não sabiam o meu nome, mas o frio sabia, sim, e as ruas lambiam a minha barriga fria e vazia, haha, as ruas sabiam muito, e eu seguia perambulando numa camisa branca californiana velha e fazia um frio do caralho e eu bati numa porta, era umas nove da noite, quase dois mil anos que Cristo desistira, e a porta se abriu e um homem sem rosto se postou na soleira da porta, eu disse, eu preciso de um quarto, vi que você tem um avido de Quarto Para Alugar. E ele disse, você não me saca, portanto eu não quero ser incomodado.
Tudo que quero é um quarto, eu disse. Tá muito frio. Eu vou lhe pagar. Pode ser que eu não tenha o suficiente para uma semana mas eu só quero sair do frio. Não é morrer que é ruim, é estar perdido que é ruim.
Vá se foder, disse ele. A porta se fechou.
Perambulei por ruas cujo nome eu não conhecia. Não sabia para que lado andar. A tristeza era que alguma coisa estava errada. E eu não podia formulá-la. Suspensa na minha cabeça como uma bíblia. Que merda sem sentido. Que jeito de se estrepar. Nenhum mapa. Nenhuma pessoa. Nenhum ruído, apenas vespas. Pedras. Muros. Vento, meu pau e minhas bolas balançando sem sentimento. Eu podia berrar qualquer coisa nas ruas e ninguém ouviria, ninguém daria a mínima. Não que eles devessem. Eu não estava pedindo por amor. Mas tinha alguma coisa muito estranha. Os livros nunca falaram sobre isso. Mas as aranhas sabiam. Foda-se.
Percebi pela primeira vez que qualquer coisa POSSUÍDA POR QUALQUER PESSOA tinha uma TRANCA. Tudo era trancado, uma lição para ladrões, vagabundos e loucos. América, a maravilhosa.
Ai eu enxerguei uma igreja, eu particularmente não gostava de igrejas, especialmente quando elas estavam cheias de gente. Mas eu não imaginava que ela estaria desse jeito às nove da noite. Subi os degraus.
Ei, ei, mulher, vem ver o que restou do teu homem.
Eu podia sentar por um tempo e respirar o fedor, talvez fazendo alguma coisa a partir de Deus, talvez dando uma chance para ele, puxei a porta.
A filha da puta tava trancada.
Desci de volta os degraus.
Continuei caminhando pelas ruas, virando esquinas sem razão, continuei caminhando. Agora tava em cima de mim. O muro. Era isso que os homens temiam. Não apenas serem barrados para sempre. Mas também não ter um amigo. Portanto, não se surpreendam, pensei, isso PODE afugentar a merda pra longe de você. Pode MATAR você. O seu truque barato é entrar e prender. Tenha todo o tipo de documentos na sua carteira. Dinheiro. Seguro. Automóvel. Cama. Janela. Toalete. Gato. Cachorro. Planta. Instrumento musical. Certidão de nascimento. Coisas para se irritar. Inimigos, financiadores. Sacos de aveia, palitos. Cus saudáveis. Banheira, câmera. Desinfetante bucal. Oh meu Deus, ooooh. Trancas (mergulhe nelas, nade nelas, esfregue as suas costas) (tudo o que você  tem – enfie dentro de você como um par de nadadeiras, asas de borracha, um pau sobressalente num consultório médico.)
Passei por cima de uma pontezinha e então enxerguei um outro aviso: QUARTO PARA ALUGAR.  Caminhei até a casa. Bati. É claro que bati. O que é que você acha que eu deveria fazer? Sapatear com aquela minha camisa branca californiana e com minha bunda fria gelada??
Sim, a porta abriu. Uma velha, estava frio demais pra perceber se ela tinha um rosto ou não. Acho que não tinha, trabalhei nas percentagens. Que puta matemático de bunda gelada. Esfreguei os meus lábios por alguns instantes e então falei.
Vejo que a sra. tem um quarto para alugar.
Tudo bem, e daí?
Eu tenho tudo para acreditar que eu posso precisar de um quarto.
Vai precisar de um dólar e meio.
Pela noite?
Pela semana.
Pela semana?
Isso.
Jesus.
Busquei o dólar e meio. Aquilo me deixou com dois ou três paus. Olhei para dentro da casa. Jesus, eles tinham um puta fogo lá dentro. Metro e meio de largura por um de altura. Não estou querendo dizer que a casa estava em chamas, quero dizer que eles o mantinham aceso onde devia. Uma lareira fantástica. Você podia recuperar sua vida de volta só olhando pra aquele fogo. Pude vê-lo banhado na gloria escarlate da sombra irradiada pelo fogo. Mae do céu. Sua boca pendia aberta. Ele não parecia saber onde estava. Ele tremia todo. Não conseguia parar de tremer. O pobre-diabo. Dei um passo pra dentro da sala.
Vá se foder, disse a velha.
O que há? Eu paguei o aluguel. Uma SEMANA inteira.
Certo. O seu quarto é lá fora. Siga-me.
A velha fechou a porta naquele pobre diabo lá dentro, e eu a segui pelo caminho em direção à frente. Caminhei um caralho. Todo o jardim da frente tava que era só lixo. Lixo duro e gelado. Eu não tinha notado mas tinha um barraco de papelão no pátio da frente. Meu poder de observação sempre foi fodido. Ela deu um empurrão e abriu a porta de papelão que estava pendurada numa dobradiça.
Não tem tranca. Mas ninguém irá te incomodar ai dentro.
Tenho todo motivo do mundo pra acreditar que a sra. está certa.
Ela partiu. Eu estava com a razão. Tinha visto o rosto dela, ela não tinha um rosto. Apenas pele pendurada no osso como carne enrugada nas costas de uma galinha.
Não havia nenhuma luz. Apenas uma corda dependurada lá em cima no teto. O chão estava sujo. Mas havia jornais no chão. Algo semelhante a um tapete, uma cama, sem lençóis. Um cobertor fino. Um, cobertor fino. ai eu encontrei um lampião a querosene! Uma dadiva dos deuses! Que sorte! Maravilha!! Eu tinha um fósforo e acendi a coisa. UMA CHAMA APARECEU!
Era um belo fogo, tinha alma, as encostas de montanhas ensolaradas, córregos escaldantes de peixes sorridentes, meias quentes com um cheirinho parecido com torrada. Sustentei minha mão sobre aquela pequena chama. Eu tinha lindas mãos. Ao menos isso eu tinha. Eu tinha lindas mãos.
A pequena chama se apagou.
Eu mexi no lampião de querosene mas, tendo nascido no século 20, eu não sabia muito a seu respeito. Custou toda uma vida para descobrir que eu precisava de mais líquido, combustível, querosene, seja lá como você chame aquilo.
Empurrei para abrir a minha porta de papelão e sai pra dentro da noite iluminada pelas estrelas de Deus. Bati na porta da casa com minhas lindas mãos.
A porta abriu. A velha se postou parada. Quem mais poderia ser? Mickey Rooney? Aproveitei pra dar uma outra espiada no pobre-diabo do velho tremendo junto do glorioso fogo. Maldito imbecil.
Que que é? A velha perguntou da sua cabeça de dorso de galinha.
Bem, eu não queria incomodar a senhora, mas a sra. sabe aquele lampiãozinho a querosene?
Sei.
Bem, ele apagou.
É?
É. Fiquei pensando se a sra. podia me emprestar um pouquinho de combustível?
Tá maluco, rapaz, essa merda custa DINHEIRO!
Ela não fechou a porta com violência. Ela tinha a tranquilidade dos antigos. Ela fechou-a com uma certa finesse irrefletidamente descuidada. Treinamento de séculos. Bons ancestrais. Todos com cara de pele enrugada de galinha. As caras de pele enrugada de galinha de galinha serão as herdeiras da terra.
Voltei pro meu quarto (?) e me sentei na cama. Ai uma coisa muito embaraçosa aconteceu: apesar de fazer um bom tempo desde a última vez que comera, de repente eu tinha que cagar. Tive que me levantar e caminhar pra dentro do mundo de deus de novo e bater naquela porta de novo. Também não era Mickey Rooney dessa vez.
Que?
Desculpe incomodar a senhora de novo. Mas não tem toalete no meu quarto. Será que tem um toalete em algum lugar?
Bem ali! Ela apontou.
Ali??
ALI! E ouça...
Quê?
Vá se foder, rapaz. Todos vocês vêm bater aqui com suas cabeças de louco. Você deixou todo esse AR FRIO aí FORA entrar aqui DENTRO!
Desculpa.
Dessa vez ela estatelou a porta. Pude sentir o ar quente passar por minha orelhas, entre as bolas por um instante. Foi doce. Ai eu me fui em direção à estrutura que servia como cagador.
O toalete não tinha teto.
Olhei pra baixo pra dentro da privada. Parecia ir quilômetros pra dentro da terra. E fedia como nenhuma privada jamais fedeu, e isso já era uma afirmação. A luz do luar pude ver uma aranha sentada no meio da sua teia. Uma aranha negra, gorda. Muito sabida. A teia fora tecida ao longo da boca da privada. Subitamente toda vontade de cagar desapareceu.
Caminhei de volta por meu quarto. Me sentei na cama e balancei minha linda mão o mais próximo que pude daquele fio elétrico dependurado. Eu podia chegar mais perto. Fiquei lá sentado meio biruta, cheio de merda seca, me balançando pra pegar aquele fio. Ai me levantei e caminhei pra fora. Caminhei mais ou menos um quarteirão e parei debaixo de uma árvore gelada. Uma grande árvore gelada. Com toda aquela merda seca dentro de mim. Parei do lado de fora de uma mercearia. Tinha uma mulher gorda parada lá dentro falando com o balconista, eles só estavam ali debaixo daquela luz amarela, falando, e toda aquela COMIDA lá dentro, eles não davam a mínima pras artes, ou pra histórias sutis, pra Platão, ou mesmo pro capitão Kidd, que se interessava por Mickey Rooney. Eles estavam mortos mas de uma maneira que tinha mais sentido do que eu. O insensível sentido dos insetos e dos cães ferozes. Eu não era merda. Eu não podia. Mesmo se quisesse.
Caminhei de volta pro meu quarto de manhã escrevi uma longa carta pro meu pai nas beiradas dos jornais. Comprei um envelope e um selo e botei a coisa no correio. Eu disse a ele que estava morrendo de fome e gostaria de uma passagem de ônibus para L. A., e pelo menos no que me dizia respeito o conto que fosse pro inferno. Veja o De Mass, escrevi, pegou sífilis e enlouqueceu remando um barco a remo. Manda dinheiro.
Não me lembro se cheguei a cagar alguma vez enquanto esperava. Mas a resposta veio. Estraçalhei o envelope todo para abri-lo. Sacudi as páginas. Havia dez ou doze páginas escritas, dos dois lados, mas nenhum dinheiro. As primeiras palavras diziam: ACABOU A ROUBALHEIRA!
...você me deve DEZ DÓLARES os quais você ainda não ME PAGOU. Eu trabalho duro pelo meu dinheiro. Eu não tenho como sustentar você enquanto você escreve seus contos estúpidos. Se você tivesse pelo menos UMA VEZ vendido algum conto ou tivesse algum TREINAMENTO seria diferente, mas eu li os seus contos, eles são um HORROR. As pessoas não gostam de ler coisas horrorosas. Você devia escrever como Mark Twain. Ele foi um grande homem. Podia fazer as pessoas rirem. Em todos os seus contos as pessoas se matam ou ficam loucas, ou assassinam alguém. A maior parte da vida não é do modo como você a imagina. Arranje um bom emprego, FAÇA alguma coisa de você mesmo...
E a carta continuava e continuava. Não pude termina-la. Tudo que eu queria era dinheiro. Sacudi as páginas de novo. Eu estava doente de mais para sentir o frio. Mais tarde naquele dia enquanto caminhava enxerguei um aviso – precisa-se de ajuda. E de fato, eles precisavam de um homem para uma turma para trabalhar na linha férrea em algum lugar a oeste de Sacramento. Assinei o contrato. Tive alguns problemas lá e com a turma da ferrovia. Eu não era popular entre os rapazes, o trem tinha cem anos de idade e cheio de pó. Um deles se meteu debaixo do meu banco enquanto os outros davam risada. MERDAS: bom, era melhor que Atlanta. Finalmente me aborreci e me levantei. O sujeito saiu de baixo e caminhou até onde estava sua turma e ficou ali parado.
Aquele sujeito é biruta, disse ele. Se ele vier até aqui quero que vocês rapazes me deem uma mão.
Não fui até lá. Mark Twain poderia ter espremido algumas risadas da coisa, ele provavelmente estaria de pé lá com eles bebendo de uma garrafa com os merdas cantarolando canções. Um homem de verdade. Sam Clem. Eu não era muito, mas estava fora de Atlanta, não totalmente morto ainda, tinha lindas mãos e um caminho a percorrer.
O trem continuava sem parar.”

Pagina 151 à 158 – No livro Notas de um velho safado.

Meu Jardim - Vander Lee



Tô relendo minha lida, minha alma, meus amores                              
Tô revendo minha vida, minha luta, meus valores                               
Refazendo minhas forças, minhas fontes, meus favores       
Tô regando minhas folhas, minhas faces, minhas flores
Tô limpando minha casa, minha cama, meu quartinho                                 
Tô soprando minha brasa, minha brisa, meu anjinho
Tô bebendo minhas culpas, meu veneno, meu vinho       
Escrevendo minhas cartas, meu começo, meu caminho                             
Estou podando meu jardim
Estou cuidando bem de mim

2 - In Textos Autobiográficos - Charles Bukowski