" Você já pensou na semelhança que há entre os
cientistas e os pescadores? O pescador está diante das águas do rio. E
ele sabe que nas funduras daquelas águas nadam peixes que não são
vistos. Mas ele quer pegar esses peixes. O que é que ele
faz? Ele tece redes, lança-as no rio e pesca os peixes. Se as malhas
forem largas, peixes grandes. Se forem apertadas, vêm também os peixes
pequenos... O cientista está diante do mar chamado "realidade". Ele
também quer pescar peixes. Prepara então suas redes chamadas !teorias!,
lança-as no mar e pesca seus peixes. O laboratório de um cientista são
as redes que ele lança no mar da realidade para pescar conhecimento."
Rubem Alves in O QUE É CIENTÍFICO?
" Sabia que a religião é uma linguagem?
" O amor é a vida acontecendo no momento: sem passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão."
Rubem Alves in O AMOR QUE ASCENDE A LUA Um jeito de falar sobre o mundo...
Em tudo, a presença da esperança e do sentido..
Religião é tapeçaria que a esperança constrói com palavras.
E sobre estas redes as pessoas se deitam.
É. Deitam-se sobre palavras amarradas umas nas outras.
Como é que as palavras se amarram?
É simples.
Com o desejo.
Só que, as vezes, as redes de amor viram mortalhas de medo.
Redes que podem falar de vida e podem falar de morte.
E tudo se faz com as palavras e o desejo.
Por isso, para se entender a religião, é necessário entender o caminho da linguagem."
Rubem Alves in O SUSPIRO DOS OPRIMIDOS
" No Paraíso não havia templos porque Deus morava no jardim.
No Paraíso ninguém rezava porque a Beleza era uma oração."
Rubem Alves in PAISAGENS DA ALMA
É Primavera - Rubem Alves
É Primavera
Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras... O vento
que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e
vermelhas. É, está chegando o inverno. Deveria nevar. Viriam então
a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais
quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele
longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o
passar do tempo... Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se
preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as
silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se
aproximava. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se
fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe
faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo.
Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo,
como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando
de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele.
Perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus
botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei
sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria
diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto...E ele me falou,
naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não
lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que
havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro
dele, e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se
compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer.
[...]
E me lembrei de uma velha tradição de Natal, ligada à
árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas. E ali,
neve por todas as partes, elas o faziam florescer, regando-os com água
aquecida. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a
primavera continua escondida em alguma parte.
"Tudo que a gente faz começa na imaginação."
"Conchas, teias de aranha, iglus, ninhos, colmeias, prédios,
formigueiros - há uma infinidade de tipos de lugar em que os seres vivos
moram. Ao observar essas "casas", a gente descobre um monte de
coisas sobre cada uma e sobre os bichos que vivem nelas. Descobre
também que as ciências fazem parte do mundo, desse imenso laboratório a
céu aberto em que vivemos.
Imagine agora que vamos construir uma casa."
Rubem Alves in Vamos construir uma casa?
"As pessoas que me procuraram nos anos em que
exerci a psicanálise era todas diferentes e tinham queixas diferentes.
Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande
queixa: queriam ter alegria. Essa é a busca comum de tudo o que vive.
Acho que até as plantas querem ser felizes (...)"
" Trapaceie com a palavra, mas cuidado para
não se deixar trapacear. O mundo, encantado pela palavra, fala da gente e
de nossas gentes. Se cada língua tem um jeito único de se falar, é na
palavra que nos fazemos humanos, com identidade, cheiro, cor e tantos
outros traços."
Rubem Alves in Encantar o Mundo pela Palavra
"Era uma vez um bando de ratos que vivia no
buraco do assoalho de uma velha casa. Havia ratos de todos os tipos,
grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos,
do campo e da cidade. Mas ninguém ligava às diferenças, porque
todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: Um Queijo Enorme,
amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo era a
suprema felicidade. Bem pertinho é modo de dizer. Na verdade, o queijo
estava muito longe, porque entre ele e os ratos estava um gato. O gato
era malvado, tinha os dentes afiados se não dormia nunca. Por vezes,
fingia dormir, mas bastava que um ratinho, mais corajoso, se aventurasse
para fora do buraco, para que o gato desse um pulo e… era uma vez um
ratinho!
Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam mais irmãos
se sentiam. O ódio a um inimigo comum tornava-os cúmplices de um mesmo
desejo: A Morte do Gato!
Como nada podiam fazer, reuniam-se para
conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se
sabe bem para quem…), e chegaram mesmo a escrever livros com crítica
filosófica sobre gatos. Diziam que, um dia chegaria em que os gatos
seriam abolidos e todos seriam iguais.”Quando se estabelecer a ditadura
dos ratos”, diziam, “então todos seriam felizes”…
- O queijo é grande o bastante para todos, diziam uns.
- Socializaremos o queijo, diziam outros.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente ver
tanta fraternidade. Como seria bom quando o gato morresse, sonhavam
eles. Nos seus sonhos, comiam o queijo e quanto mais o comiam, mais ele
crescia, porque essa era a principal característica dos queijos
imaginados… Não diminuem…crescem sempre! E marchavam juntos, rabos
entrelaçados, gritando: "Ao queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse
explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha
desaparecido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria
dar apenas uns passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao
redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era! O gato tinha
desaparecido mesmo.
Chegara o dia glorioso! E dos ratos surgira um
brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa
fome comum. E foi então que a transformação aconteceu! Bastou a
primeira mordidela. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de
verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de
crescer, diminuem. Assim, quanto maior for o número de ratos a comer o
queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para
os outros, como se de inimigos se tratassem. Olharam, cada um para a
boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se
enfureceram…Arreganharam os dentes…Esqueceram-se do gato. Passaram a ser
os seus próprios inimigos.
A luta começou! Os mais fortes
expulsaram os mais fracos, à dentada. E, ato contínuo, começaram a lutar
entre si. Alguns ameaçaram chamar o gato, alegando que só assim se
restabeleceria a Ordem. O Projeto de Socialização do queijo foi aprovado
nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado
dos seus proprietários, para ser dado aos ratos magros, desde que este
pedaço tenha sido abandonado pelo dono”. Mas, como jamais rato algum
abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar à espera…
Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o
que tinha acontecido. O mais inexplicável era a transformação que se
operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o
estilo do gato, o olhar malvado, os dentes à mostra…
Os ratos
magros não conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os
ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma.
Pois todo o Rato que fica Dono de Queijo torna-se Gato! Não é por acaso
que os nomes são tão parecidos."
“Eu nunca imaginei que seria escritor. Não me preparei para isso.
Conheço pouco da tradição literária. A literatura me chegou sem que eu
esperasse, sem que eu preparasse o seu caminho. Chegou-me por meio de
experiências de solidão e sofrimento. A
solidão e o do sofrimento me fizeram sensível à voz dos poetas. A
decisão foi tomada depois de completar 40 anos: não mais escreveria para
os meus pares do mundo acadêmico, filósofos ou teólogos. Escreveria
para as pessoas comuns. E que outra maneira existe de se comunicar com
as pessoas comuns que simplesmente dizer as palavras que o amor
escolhe?”
“Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver
naqueles cujos olhos aprenderam a ver
o mundo pela magia da nossa palavra.
O professor assim, não morre jamais.”
“O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro…
Tudo adormecido. O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar…
As palavras são entidades mágicas, potências feiticeiras, poderes
bruxos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num
estado de hibernação, como sonhos…
A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta mundos adormecidos se dá o nome de educação."
Livro "A alegria de ensinar"
"A
ostra para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia
que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: "Preciso
envolver essa areia pontuda que me machuca com esfera lisa que lhe tire
as pontas ..." Ostras Felizes não fazem pérolas ... Pessoas felizes não
sentem a necessidade de criar."
Rubem Alves in " Ostra feliz não faz pérola"
"A alegria é um pássaro que só vem quando
quer. Ela é livre”. A gente nunca é feliz pra sempre, temos nossos
momentos de tristezas também, e por falar em pássaros... Os pássaros são
felizes quando estão livres, há quem diga que tem um pássaro
em casa preso em uma gaiola e ele é “feliz”, pois canta e se alegra
quando vê ou recebe um carinho de seu dono... (também tive um) mas é
diferente, quando os pássaros estão em seu ambiente natural podemos ver a
diferença entre eles e o nosso pequeno mascote preso por “nosso amor”.
Assim também é com quem a gente ama, não podemos prender senão ele vai
“perder o brilho das penas”.
"Os
que têm medo sonham. Porque tenho medo da cidade grande onde me perco eu
sonho com cidade grande que posso amar. É uma utopia. Não existe. Mas
não tem importância. Valéry perguntou: “Que seria de nós sem o socorro
das coisas que não existem?” O que não existe socorre. Oscar Wilde, que
sabia do socorro das coisas que não existem, escreveu: “Um mapa do mundo
que não inclua o país da Utopia não merece nem mesmo um olhar, pois
ignora o único país ao qual a Humanidade constantemente chega. E quando a
Humanidade lá atraca, fica alerta, e levanta novamente as âncoras ao
vislumbrar terra melhor…”."
"Plantar
um jardim é coisa fácil. Basta que uma pessoa queira. Pode-se plantar
um pequeno jardim na varanda de um apartamento. Mas para plantar um
jardim-cidade, para isso é preciso que muitos sonhem com um jardim. É
preciso um povo sonhador. Porque um povo, como disse santo Agostinho, é
um bando de pessoas racionais unidas por um mesmo sonho."
"NOTEI,
NUMA mesa ao lado, uma menina que escrevia e consultava um dicionário.
Agachei-me para conversar com ela. “Você está procurando no dicionário
uma palavra que você não sabe?”, perguntei.
“Não”, ela me respondeu.
“Eu sei o sentido da palavra, mas estou a escrever um texto para os
miúdos e usei uma palavra que, penso, eles não conhecem. Como eles ainda
não sabem a ordem alfabética e não podem consultar o dicionário, estou a escrever um pequeno dicionário ao pé da página do meu texto para que eles o compreendam.”
“Estou a escrever um texto para os miúdos” foi o que ela disse. Os que
já sabem tornam-se naturalmente professores dos que ainda não sabem.
Essa é a pedagogia natural das crianças quando elas querem ensinar as
outras crianças a brincar. As que sabem ensinam as que não sabem, sem
que para isso tenham de saber teorias."
domingo, 6 de outubro de 2013
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Assim falou Zaratustra – Friederich Nietzsche
“Ninguém é tão odiado como o que
voa.”
“Como quereria renovar-te sem
primeiro reduzir-te a cinzas?”
“Uma pequena vingança é mais
humana do que nenhuma.”
“Nuns envelhece primeiro o
coração, noutros a inteligência.”
“Ai! Onde se fizeram mais
loucuras na terra do que entre os compassivos, e que foi que mais prejuízo causou
a terra do que a loucura dos compassivos?”
Gente Humilde - Chico Buarque
Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar
Frases - Manoel de Barros
“Me procurei a vida inteira e não
me encontrei. – pelo que fui salvo.”
“Nossa maça come Eva.”
“Eu falo e escrevo absurdez.”
“Ontem choveu no futuro.”
“A palavra oral não dá rascunho.”
“De dentro de mim não saio nem
pra pescar.”
“A poesia é a virtude do inútil.”
“Eu sou procurado pelas palavras.”
“Poesia é voar fora da asa.”
“Imagens são palavras que nos
faltaram.”
“As coisas não querem ser vistas
por pessoas razoáveis.”
“90% do que escrevo é inventado,
Só 10% é mentira.”
“Tudo o que não invento é falso.”
“Invenção é uma coisa que serve
pra aumentar o mundo.”
quinta-feira, 26 de setembro de 2013
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