segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Animal tropical, Pedro Juan Gutierrez

Muito melhor que cinquenta tons de cinza.
Leitura forte, real, envolvente. Pra quem tem sangue nas veias.
Já que viver aventuras tá difícil, então vamos ler né? isso ainda é permitido.

"A única coisa que posso fazer sempre, em Estolcomo, Havana, onde for, é construir meu próprio espaço. Não posso esperar nunca que alguém me dê a liberdade. A liberdade tem que ser construída por nós mesmos. Como? cada qual tem de descobrir por si só. Minha liberdade eu construo pintando, escrevendo, mantendo a minha visão simples do mundo, espreitando na selva como um animal, impedindo as intromissões na minha vida privada. O essencial para o homem é a liberdade. Interior e exterior. Atrever-se a ser você mesmo em qualquer circunstância e lugar. a liberdade é como a felicidade: não chega nunca. Nunca se tem completa. É só um caminho. A gente caminha atrás da liberdade e da felicidade. E assim se vive. É só isso que se pode aspirar. Faz alguns anos, e durante muito tempo, minha vida andou presa a sistemas, a conceitos, a preconceitos, a ideias preconcebidas, a decisões alheias. Aquilo era autoritário e vertical demais. Não conseguia amadurecer assim. Vivia numa jaula, como um bebê que protegem e isolam para que jamais amadureça seus músculos e desenvolva seu cérebro. Tudo desmoronou diante de mim. Dentro de mim. Com muito estrondo. E fiquei a beira do suicídio. Ou da loucura. Tinha que mudar alguma coisa no meu interior. Do contrário podia acabar louco ou cadáver. E eu queria viver. Simplesmente viver. Sem pressões. Talvez com algum dia feliz. E reduzir as angústias. Isso é imprescindível: reduzir as angústias. Quem sabe seja só uma questão de mudar de ponto de vista. É preciso estar plenamente presente onde a gente se encontra, e não escapar sempre."

"Depois pinto um pouco. Há tranquilidade e silencio nesses dias e aproveito que estou podendo me concentrar. A solidão. Quem sabe a gente escreva ou pinte não apenas para criar um espaço de liberdade em torno, mas também para se sentir acompanhado. Não exatamente para romper a solidão. Não é disso que se trata. A solidão está sempre ali. Eu a sinto, a toco, converso com ela. Faz parte da minha vida. A solidão é inevitável. E ajuda. me concentro mais. Sou mais eu quando convivemos bem apertadinhos: a solidão e eu. Nos adoramos. Não poderia viver sem a solidão."

"Por que nos comportamos como animais selvagens quando trepamos? como se não fossemos pessoas civilizadas. Comentei com um amigo, um sujeito culto e me respondeu: 'claro que tem que se sentir como animal. Impossível se sentir como uma macieira ou como uma pedra. Nós somos animais. O que acontece é que atualmente não é mais de bom gosto lembrar que somos isso, simples animais. Mamíferos, para ser preciso'. "


domingo, 6 de outubro de 2013

Mais de Rubem Alves

" Você já pensou na semelhança que há entre os cientistas e os pescadores? O pescador está diante das águas do rio. E ele sabe que nas funduras daquelas águas nadam peixes que não são vistos. Mas ele quer pegar esses peixes. O que é que ele faz? Ele tece redes, lança-as no rio e pesca os peixes. Se as malhas forem largas, peixes grandes. Se forem apertadas, vêm também os peixes pequenos... O cientista está diante do mar chamado "realidade". Ele também quer pescar peixes. Prepara então suas redes chamadas !teorias!, lança-as no mar e pesca seus peixes. O laboratório de um cientista são as redes que ele lança no mar da realidade para pescar conhecimento."
Rubem Alves in O QUE É CIENTÍFICO?


" Sabia que a religião é uma linguagem?
" O amor é a vida acontecendo no momento: sem passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão."

Rubem Alves in O AMOR QUE ASCENDE A LUA
Um jeito de falar sobre o mundo...
Em tudo, a presença da esperança e do sentido..
Religião é tapeçaria que a esperança constrói com palavras.
E sobre estas redes as pessoas se deitam.
É. Deitam-se sobre palavras amarradas umas nas outras.
Como é que as palavras se amarram?
É simples.
Com o desejo.
Só que, as vezes, as redes de amor viram mortalhas de medo.
Redes que podem falar de vida e podem falar de morte.
E tudo se faz com as palavras e o desejo.
Por isso, para se entender a religião, é necessário entender o caminho da linguagem."
Rubem Alves in O SUSPIRO DOS OPRIMIDOS


" No Paraíso não havia templos porque Deus morava no jardim.
No Paraíso ninguém rezava porque a Beleza era uma oração."
Rubem Alves in PAISAGENS DA ALMA
 


É Primavera - Rubem Alves
É Primavera
Os sinais eram inequívocos. Aquelas nuvens baixas, escuras... O vento que soprava desde a véspera, arrancando das árvores folhas amarelas e vermelhas. É, está chegando o inverno. Deveria nevar. Viriam então a tristeza, as árvores peladas, a vida recolhida para funduras mais quentes, os pássaros já ausentes, fugidos para outro clima, e aquele longo sono da natureza, bonito quando cai a primeira nevada, triste com o passar do tempo... Resolvi passear, para dizer adeus às plantas que se preparavam para dormir, e fui, assim, andando, encontrando-as silenciosas e conformadas diante do inevitável, o inverno que se aproximava. E foi então que me espantei ao ver um arbusto estranho. Se fosse um ser humano, certamente o internariam num hospício, pois lhe faltava o senso da realidade, não sabia reconhecer os sinais do tempo. Lá estava ele, ignorando tudo, cheio de botões, alguns deles já abrindo, como se a primavera estivesse chegando. Não resisti e, me aproveitando de que não houvesse ninguém por perto, comecei a conversar com ele. Perguntei se não percebia que o inverno estava chegando, que os seus botões seriam queimados pela neve naquela mesma tarde.
Argumentei sobre a inutilidade daquilo tudo, um gesto tão fraco que não faria diferença alguma. Dentro em breve tudo estaria morto...E ele me falou, naquela linguagem que só as plantas entendem, que o inverno de fora não lhe importava, o seu era um ritmo diferente, o ritmo das estações que havia dentro. Se era inverno do lado de fora, era primavera lá dentro dele, e seus botões eram um testemunho da teimosia da vida que se compraz mesmo em fazer o gesto inútil. As razões para isso? Puro prazer. [...]
E me lembrei de uma velha tradição de Natal, ligada à árvore. As famílias levavam arbustos para dentro de suas casas. E ali, neve por todas as partes, elas o faziam florescer, regando-os com água aquecida. Para que não se esquecessem de que, em meio ao inverno, a primavera continua escondida em alguma parte.





"Tudo que a gente faz começa na imaginação."
"Conchas, teias de aranha, iglus, ninhos, colmeias, prédios, formigueiros - há uma infinidade de tipos de lugar em que os seres vivos moram. Ao observar essas "casas", a gente descobre um monte de coisas sobre cada uma e sobre os bichos que vivem nelas. Descobre também que as ciências fazem parte do mundo, desse imenso laboratório a céu aberto em que vivemos.
Imagine agora que vamos construir uma casa."
Rubem Alves in Vamos construir uma casa?
  


"As pessoas que me procuraram nos anos em que exerci a psicanálise era todas diferentes e tinham queixas diferentes. Mas debaixo das múltiplas pequenas queixas havia uma única grande queixa: queriam ter alegria. Essa é a busca comum de tudo o que vive. Acho que até as plantas querem ser felizes (...)"

" Trapaceie com a palavra, mas cuidado para não se deixar trapacear. O mundo, encantado pela palavra, fala da gente e de nossas gentes. Se cada língua tem um jeito único de se falar, é na palavra que nos fazemos humanos, com identidade, cheiro, cor e tantos outros traços."
Rubem Alves in Encantar o Mundo pela Palavra
 
 


"Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma velha casa. Havia ratos de todos os tipos, grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, do campo e da cidade. Mas ninguém ligava às diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: Um Queijo Enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo era a suprema felicidade. Bem pertinho é modo de dizer. Na verdade, o queijo estava muito longe, porque entre ele e os ratos estava um gato. O gato era malvado, tinha os dentes afiados se não dormia nunca. Por vezes, fingia dormir, mas bastava que um ratinho, mais corajoso, se aventurasse para fora do buraco, para que o gato desse um pulo e… era uma vez um ratinho!
Os ratos odiavam o gato. Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum tornava-os cúmplices de um mesmo desejo: A Morte do Gato!
Como nada podiam fazer, reuniam-se para conversar. Faziam discursos, denunciavam o comportamento do gato (não se sabe bem para quem…), e chegaram mesmo a escrever livros com crítica filosófica sobre gatos. Diziam que, um dia chegaria em que os gatos seriam abolidos e todos seriam iguais.”Quando se estabelecer a ditadura dos ratos”, diziam, “então todos seriam felizes”…
- O queijo é grande o bastante para todos, diziam uns.
- Socializaremos o queijo, diziam outros.
Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções. Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bom quando o gato morresse, sonhavam eles. Nos seus sonhos, comiam o queijo e quanto mais o comiam, mais ele crescia, porque essa era a principal característica dos queijos imaginados… Não diminuem…crescem sempre! E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: "Ao queijo, já!”…
Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha desaparecido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar apenas uns passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era! O gato tinha desaparecido mesmo.
Chegara o dia glorioso! E dos ratos surgira um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu! Bastou a primeira mordidela. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem. Assim, quanto maior for o número de ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros, como se de inimigos se tratassem. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram…Arreganharam os dentes…Esqueceram-se do gato. Passaram a ser os seus próprios inimigos.
A luta começou! Os mais fortes expulsaram os mais fracos, à dentada. E, ato contínuo, começaram a lutar entre si. Alguns ameaçaram chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a Ordem. O Projeto de Socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:
“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários, para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”. Mas, como jamais rato algum abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar à espera…
Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que tinha acontecido. O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o estilo do gato, o olhar malvado, os dentes à mostra…
Os ratos magros não conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo o Rato que fica Dono de Queijo torna-se Gato! Não é por acaso que os nomes são tão parecidos."


“Eu nunca imaginei que seria escritor. Não me preparei para isso. Conheço pouco da tradição literária. A literatura me chegou sem que eu esperasse, sem que eu preparasse o seu caminho. Chegou-me por meio de experiências de solidão e sofrimento. A solidão e o do sofrimento me fizeram sensível à voz dos poetas. A decisão foi tomada depois de completar 40 anos: não mais escreveria para os meus pares do mundo acadêmico, filósofos ou teólogos. Escreveria para as pessoas comuns. E que outra maneira existe de se comunicar com as pessoas comuns que simplesmente dizer as palavras que o amor escolhe?”

“Ensinar é um exercício de imortalidade.
De alguma forma continuamos a viver
naqueles cujos olhos aprenderam a ver
o mundo pela magia da nossa palavra.
O professor assim, não morre jamais.”
“O corpo é o lugar fantástico onde mora, adormecido, um universo inteiro…
Tudo adormecido. O que vai acordar é aquilo que a Palavra vai chamar…
As palavras são entidades mágicas, potências feiticeiras, poderes bruxos que despertam os mundos que jazem dentro dos nossos corpos, num estado de hibernação, como sonhos…
A este processo mágico pelo qual a Palavra desperta mundos adormecidos se dá o nome de educação."
Livro "A alegria de ensinar"
 
 


"A ostra para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: "Preciso envolver essa areia pontuda que me machuca com esfera lisa que lhe tire as pontas ..." Ostras Felizes não fazem pérolas ... Pessoas felizes não sentem a necessidade de criar."
Rubem Alves in " Ostra feliz não faz pérola"
 


"A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre”. A gente nunca é feliz pra sempre, temos nossos momentos de tristezas também, e por falar em pássaros... Os pássaros são felizes quando estão livres, há quem diga que tem um pássaro em casa preso em uma gaiola e ele é “feliz”, pois canta e se alegra quando vê ou recebe um carinho de seu dono... (também tive um) mas é diferente, quando os pássaros estão em seu ambiente natural podemos ver a diferença entre eles e o nosso pequeno mascote preso por “nosso amor”. Assim também é com quem a gente ama, não podemos prender senão ele vai “perder o brilho das penas”.

  
"Os que têm medo sonham. Porque tenho medo da cidade grande onde me perco eu sonho com cidade grande que posso amar. É uma utopia. Não existe. Mas não tem importância. Valéry perguntou: “Que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?” O que não existe socorre. Oscar Wilde, que sabia do socorro das coisas que não existem, escreveu: “Um mapa do mundo que não inclua o país da Utopia não merece nem mesmo um olhar, pois ignora o único país ao qual a Humanidade constantemente chega. E quando a Humanidade lá atraca, fica alerta, e levanta novamente as âncoras ao vislumbrar terra melhor…”."

"Plantar um jardim é coisa fácil. Basta que uma pessoa queira. Pode-se plantar um pequeno jardim na varanda de um apartamento. Mas para plantar um jardim-cidade, para isso é preciso que muitos sonhem com um jardim. É preciso um povo sonhador. Porque um povo, como disse santo Agostinho, é um bando de pessoas racionais unidas por um mesmo sonho."

"NOTEI, NUMA mesa ao lado, uma menina que escrevia e consultava um dicionário. Agachei-me para conversar com ela. “Você está procurando no dicionário uma palavra que você não sabe?”, perguntei.
“Não”, ela me respondeu. “Eu sei o sentido da palavra, mas estou a escrever um texto para os miúdos e usei uma palavra que, penso, eles não conhecem. Como eles ainda não sabem a ordem alfabética e não podem consultar o dicionário, estou a escrever um pequeno dicionário ao pé da página do meu texto para que eles o compreendam.”
“Estou a escrever um texto para os miúdos” foi o que ela disse. Os que já sabem tornam-se naturalmente professores dos que ainda não sabem. Essa é a pedagogia natural das crianças quando elas querem ensinar as outras crianças a brincar. As que sabem ensinam as que não sabem, sem que para isso tenham de saber teorias."
 
 
 


 

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Assim falou Zaratustra – Friederich Nietzsche




“Ninguém é tão odiado como o que voa.”

“Como quereria renovar-te sem primeiro reduzir-te a cinzas?”

“Uma pequena vingança é mais humana do que nenhuma.”

“Nuns envelhece primeiro o coração, noutros a inteligência.”

“Ai! Onde se fizeram mais loucuras na terra do que entre os compassivos, e que foi que mais prejuízo causou a terra do que a loucura dos compassivos?”

Gente Humilde - Chico Buarque


Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

Frases - Manoel de Barros




“Me procurei a vida inteira e não me encontrei. – pelo que fui salvo.”

“Nossa maça come Eva.”

“Eu falo e escrevo absurdez.”

“Ontem choveu no futuro.”

“A palavra oral não dá rascunho.”

“De dentro de mim não saio nem pra pescar.”

“A poesia é a virtude do inútil.”

“Eu sou procurado pelas palavras.”

“Poesia é voar fora da asa.”

“Imagens são palavras que nos faltaram.”

“As coisas não querem ser vistas por pessoas razoáveis.”

“90% do que escrevo é inventado,
Só 10% é mentira.”

“Tudo o que não invento é falso.”

“Invenção é uma coisa que serve pra aumentar o mundo.”