quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Melhor de Lenine





“Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.”

“Se você quer me seguir
N
ão é seguro.”

“Se um dia me surgisse uma moça
dessas que, com seus dotes e seus dons,
inspira parte dos compositores
na arte das palavras e dos sons,
tal como Madallene, de Jacques Brel
ou como Madalena, de Martinho
ou Mabellene e a sixteen de Chuck Berry
ou a manequim do tímido Paulinho

ou como, de Caymmi,a moça prosa
e a musa inspiradora Doralice;
se me surgisse uma mo
ça dessas,
confesso que eu talvez n
ão resistisse;
mas, veja bem, meu bem, minha querida,
isso seria s
ó por uma vez.
Uma vez s
ó em toda a minha vida,
ou talvez duas, mas n
ão mais que três!”

“A onda ainda quebra na praia,
Espumas se misturam com o vento.
No dia em que ocê foi embora,
Eu fiquei sentindo saudades do que n
ão foi
Lembrando at
é do que eu não vivi
pensando n
ós dois.”

“E assim, repetindo os mesmos erros, dói em mim
Ver que toda essa procura n
ão tem fim
E o que
é que eu procuro afinal?”

“O medo é uma linha que separa o mundo
O medo é uma casa aonde ninguém vai
O medo é como um la
ço que se aperta em nós
O medo
é uma força que não me deixa andar”

“Aquilo bate, ilumina
Invade a retina
Retém no olhar
O lance que la
ça na hora
Aqui e agora,
Futuro n
ão há
Aquilo se pega de jeito
Te d
á um sacode
Pra l
á de além
O mundo muda, estremece
O caos acontece
N
ão poupa ninguém”

“Nenhuma taça me mata a sede
Mas o sarrabulho me embriaga
Mergulho na onda vaga
Eu caio na rede
N
ão tem quem não caia
Eu caio na rede
N
ão tem quem não caia
Eu caio na rede.”


“Tanto choro e pranto
A vida dando na cara
N
ão ofereço a face nem sorriso amarelo
Dentro do meu peito uma vontade bigorna
Um desejo martelo

Tanto desencanto
A vida n
ão te perdoa
Tendo tudo contra e nada me transtorna
Dentro do meu peito um desejo martelo
Uma vontade bigorna”


“Tá cansada, senta
Se acredita, tenta
Se tá frio, esquenta
Se tá fora, entra
Se pediu, agüenta
Se pediu, agüenta...

Se sujou, cai fora
Se dá pé, namora
Tá doendo, chora
Tá caindo, escora
N
ão tá bom, melhora
N
ão tá bom, melhora...
Se aperta, grite
Se tá chato, agite
Se n
ão tem, credite
Se foi falta, apite
Se n
ão é, imite...
Se é do mato, amanse
Trabalhou, descanse
Se tem festa, dance
Se tá longe, alcance
Use sua chance
Use sua chance...

Hê Hô, Hum! Nanananã!
H
ê Hô, Hum! Nanananã!
H
ê Hô, Hum! Nanananã!
H
ê Hô!, Hum!...
Se tá puto, quebre
Ta feliz, requebre
Se venceu, celebre
Se tá velho, alquebre
Corra atrás da lebre
Corra atrás da lebre...

Se perdeu, procure
Se é seu, segure
Se tá mal, se cure
Se é verdade, jure
Quer saber, apure
Quer saber, apure...

Se sobrou, congele
Se n
ão vai, cancele
Se
é inocente, apele
Escravo, se rebele
Nunca se atropele...

Se escreveu, remeta
Engrossou, se meta
E quer dever, prometa
Prá moldar, derreta
N
ão se submeta
N
ão se submeta...”

terça-feira, 22 de outubro de 2013

ar e luz e tempo e espaço - Charles Bukowski





“...você sabe já tive uma família, um emprego, mas alguma coisa
sempre se interpôs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estúdio, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”

não, baby, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.

baby, ar e luz e tempo e espaço
não tem nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.

 (In textos autobiográficos, página 401)

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Trilogia suja de Havana - Pedro Juan Gutierrez (2)

“Assim é. Como um pêndulo. Vai e volta. Às vezes releio papeis de anos atrás e sinto que esse tempo repercutiu em mim: fiquei mais sozinho. Todos ficamos mais sozinhos pouco a pouco. No caminho ficam as mulheres que amei. Os lugares onde fui feliz. Os filhos que se afastam. Os amigos. Tudo o que se tem e se perde. E que eu quis conservar e mesmo assim joguei pela janela. E me surpreendo escrevendo como se já tivesse chegado ao fim. E Deus não me ajuda a esclarecer totalmente o meu espírito para aceitar tudo do jeito que é.”

“A crise era violenta e penetrava até o ultimo cantinho da alma da gente. A fome e a miséria são como um iceberg: a parte mais importante não se vê a olho nu.”

“Eu sempre digo: um homem sem mulher é um desastre total.”

“Às vezes, quase sempre, é bom se deixar levar pela intuição e não pensar. Os preconceitos fodem com muita coisa na vida.”

“Às vezes o que se precisa é muito pouco: sexo, rum e uma mulher que fale umas bobagens pra você. Nada inteligente. Estou cansado de gente inteligente e astuta. Depois ela vai embora e você fica sozinho e tranquilo. Bebe mais rum. Ou toma uma ducha e deita pra dormir. E no outro dia amanhece fresco e descansado. Pronto para sorrir e responder que está muito bem e contente com a vida. E as pessoas dizem: ‘Ah, que bom. Afinal encontro alguém que está contente com a vida’.”

“Então estou aqui. Sem nada a fazer. Tranquilo em minha cobertura. Tomando rum nos crepúsculos. Não quis mais procurar relações intimas com ninguém. Tinham me ferido a tal ponto que não conseguia resistir a repetições. E decidi viver solitário, minha vida normal, mas sozinho. Lógico: a cada determinado tempo alguém me fascina. Alguém consegue brilhar. Gosto assim. Nada para a eternidade.”

“Bom, promiscuidades à parte, tive de continuar. Me endurecendo, claro. As pessoas achavam que eu estava madurecendo. Mas não. Só tentava ficar mais e mais duro e não permitir que me manipulassem. Cada um que se fodesse sozinho. Eu tinha que dosar muito bem o pouquinho de amor que restava dentro de mim para evitar que o tanque ficasse a zero e o motor parasse. Não perdia as esperanças de recarregar em algum lugar. Utópico de merda. Fodido, mas sonhando encontrar algo bonito dentro de mim que de novo enchesse o tanque até a boca para repetir tudo e para ser outra vez aquele sujeito generoso e bom amante. Será que você é um imbecil?, eu me perguntava às vezes. Em outras ocasiões, mais relaxado, me dizia: É, é possível.”

“Portanto eu continuava sozinho. Com meus quarenta e cinco anos. E cada dia era melhor e mais fácil. As primeiras queimaduras são as que mais doem, depois aparecem calos, como diz meu amigo Hank. Dos quarenta em diante tudo é mais simples. Ou pelo menos se vê com mais clareza.”

“Hoje estou de ressaca. O rum era asquerosamente ruim e estou com dor de cabeça. Mas mesmo assim continuo tentando ordenar minha vida interior. Na exterior não tenho problemas. Todos acreditam que existe só um Pedro Juan, muito sólido, muito eficaz e muito alegre. Não imaginam que no interior estão todos os Pedritos brigando a pescoções, passando rasteiras uns nos outros. Todos tentando botar a cabeça pra fora ao mesmo tempo.”

“Não tenho tempo nem forças pra pensar. E isso era bom. A vida precipitada, ao léu, sempre me conduziu a becos sem saída. Muitos amores loucos e absurdos, por exemplo. Sempre atormentado, correndo, entrando e saindo precipitadamente de muitos lugares. Como quem procura e não acha.
E ao mesmo tempo, vou envelhecendo. E constato que estou perdendo a capacidade de cinismo. Estou perdendo a energia e a alegria e o poder da multiplicação. Já não consigo levar as coisas com o cinismo da juventude, e queria me dar sempre bem, custasse o que custasse.”