domingo, 17 de novembro de 2013

O segredo



Não se preocupe, ninguém tem
a linda mulher, não mesmo, e
ninguém tem o estranho e
escondido poder, ninguém é
excepcional ou maravilhoso ou
mágico, eles apenas parecem ser.

É tudo um truque, uma vigarice,
não compre isso, não acredite nisso.
O mundo está cheio de bilhões de pessoas
cujas vidas e mortes são inúteis e quando
um deles se sobressai e a luz da história
brilha sobre eles, esqueça, não é o que
parece, é apenas outro número para enganar
os tolos novamente.

Não há homens fortes, não há
mulheres lindas.
No mínimo, você pode morrer sabendo
disso,
e você terá
a única vitória
possível.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

"Docência - mar de rosas." (entre aspas mesmo)



Muitas vezes a melhor saída e não pensar em nada. Ir levando e bastando a cada dia o seu mal. Fazendo os relatórios aqui acabo sendo obrigada a pensar e a analisar minha rotina diária.
 
Empreguinho de merda esse de professora. Escolhi educação infantil por um simples motivo: as crianças pequenas ainda não foram contaminados por completo com as coisas próprias de adultos. Pensando assim, era como se eu tivesse em mente que o ser humano em seu 'estado natural' seria necessariamente bom. Talvez essa até fosse uma ilusão que eu tivesse quando aderi ao magistério em minha adolescência. O tempo passou, adquiri algumas experiências, aprendi algumas coisas e sinceramente se eu pudesse voltar atrás hoje provavelmente escolheria outra profissão. Trabalhar com o ser humano 'inatura', não é tarefa nada fácil. A criança por si só não é boa. Sem o adulto pra interferir sabe o que acontece? a barbárie. Volta a idade da pedra. Perde-se tudo que já tem conquistado em matéria de evolução humana, seja isso bom ou ruim. É claro que existe diferença entre uns e outros. Tem aqueles que aparentam uma essência incapaz de 'mordida', de 'puxão de cabelo'. Mas tem aqueles que nada lhes freia, tudo é motivo pra violência, tudo é motivo pra pancada.
Ai, eu aqui com todo meu magistério, toda minha faculdade de pedagogia e pós graduação em psicopedagogia, todas as teorias de Freud, Piaget, Montessori, Vygotsky, Lacan, Gardner, Freinet, Emilia Ferreiro, Paulo Freire, Rubem Alves, não consigo achar teoria que dê conta dessa realidade.

Eu com trinta e um anos e ainda mais firme do que nunca de que não terei filhos. A sociedade não é justa. O sistema educacional ao qual somos obrigados a nos submeter não é justo. Essa história de cada um  ter quantos filhos quiser não é justa. Nada é justo aqui.  Eu não tenho filhos ainda porque penso em todos os pormenores. Mas ai essas mulheres toscas, têm filhos a rodo e nós damos vagas e mais vagas pra elas nas creches. Muitas vezes esses filhos são filhos das drogas, filhos da inconsequência e da falta de planejamento. Nós que do lado de cá estamos (digo do lado de cá, separando-me do grupo que tem filho sem pensar), alimentamos pra que esse quadro continue e cresça. Tenho exemplos disso muito claros no meu dia-dia. Uma mãe tem uma criança insuportável, com apenas dois anos quer bater no adulto e nas outras crianças, nada lhe agrada, não se submete a nada. Não tem o mínimo de educação. Cospe na cara dos colegas e bate e morde sem fim. Quando está doente e ligamos para a mãe ou o pai virem buscá-lo, fazem de conta que não viram a ligação ou se atendem dizem que estão presos no transito. Quando lhes perguntamos em que horas a criança dorme quando está em casa, dizem que dorme as dezenove e trinta, perguntamos porque tão cedo e a mãe nos responde 'porque senão não consigo fazer minhas coisas em casa. Obrigo ele a dormir essa hora', ou seja, a criança fica na creche de sete e meia da manhã até às dezessete horas, convive com a família por cerca de duas horas e a mãe o obriga a dormir, porque ela própria não aguenta o filho que pariu. Sabe a novidade? a mãe está grávida. Sabe por quê ela faz isso? porque ela não usa anticoncepcional/remédio ou camisinha? por que sempre vai ter uma burra/oprimida/parte do sistema que vende a alma ao diado pra cuidar dessa criança, uma burra que troca seu precioso tempo por um salário de merda que não dá nem pro aluguel. São esses casais/mães/pais que tiram fotos dos seus filhos e postam no facebook dizendo ‘adoro o oficio de ser mãe’, ‘ser mãe é padecer no paraíso’. Besta é quem acredita e curte esse tipo de foto. Depois serão esses mesmos pais que no futuro vão reclamar por que seus filhos lhes colocaram no asilo, e vão dizer ‘cuidei de você enquanto você era criança e agora que eu preciso você me coloca aqui’. E ai a sociedade doente continua, pois vai ter um morto a fome que vai vender suas preciosas horas de vida a troco de banana pra limpar a bunda desses velhos que foram abandonados pelos filhos que eles abandonaram primeiro.

Desconfio das pessoas que fazem a docência parecer um mar de rosas. Desacredito das pessoas que pintam essa profissão como um quadro de artes delicado. Sempre se fala do lado positivo. Sempre. Como se a parte ruim não existisse. Há alguns anos atrás você só ouvia casos de alunos batendo em professores do quinto ano pra lá. Hoje a coisa já começa na educação infantil, muito mais cedo. Já tive pais perguntando ‘por que a creche não funciona em janeiro?’, ‘vocês bem que podiam funcionar fim de semana também, né?’. Já estive com a pergunta na pontinha da língua pra lhes fazer: ‘quer vir buscar seu filho só quando ele tiver quinze anos? Ai dá tempo de você fazer suas coisas com calma e tranquilidade.’

Gosto muito do Rubem Alves, mas hoje estou amarga. Vem ele me dizer “será que os alunos são violentos, ou será que a escola que é violenta? será que é o passarinho que tenta sair da gaiola que é violento, ou será a gaiola que o prende que é violenta?”. Hoje digo mais que isso: o que não é violento nessa vida, amigo Rubem? A sociedade é violenta, as pessoas são violentas, o mercado de trabalho é violento, as pessoas são violentas, o relógio é violento, as pessoas são violentas, as revistas de moda são violentas, as pessoas são violentas, a televisão é violenta, as pessoas são violentas, nosso salário é violento e os preços das coisas mais violentos ainda e tudo é violento. Tudo, nada escapa.

Me sinto melhor. Desabafei. Amanhã mais uma vez levanto as cinco e quinze da manhã pra enfrentar mais um dia.
Amanhã não, amanhã é feriado e como mais uma coxinha qualquer que anda por ai,  ficarei feliz porque é feriado, embora ainda me falte fazer cinco relatórios.


(anônimo)