quinta-feira, 21 de novembro de 2013

O ciúme - Rubem Alves




O apaixonado que desconfia quer manter sob controle até o pensamento do ser amado. Diante de tamanha impossibilidade, ele se tortura e quer o outro cerceado. É a antítese do amor.
...
Ela tinha a beleza tranquila da maturidade. Bastava vê-la para adivinhar como ela teria sido. Ah! Com certeza provocara muitos suspiros de amor. De hábitos domésticos e simples, um dos seus prazeres era assentar-se numa poltrona e entrar na bolha que a leitura cria. Quem lê está num outro mundo, muito longe.

O seu marido a observava de longe. Olhos que observam são olhos que olham quando o outro não está olhando. Olhos que observam são olhos de felino que seguem a presa. Seu olhar era olhar de apaixonado que desconfia, olhar de ciúme. Os olhos do ciumento vigiam. Vigiam gestos, movimentos, horas. Vigiam porque as modulações silenciosas e distraídas no rosto da pessoa amada podem conter revelações sobre aquilo que ela está pensando. O ciumento suspeita que a mulher amada lhe esconde algo. Ele olha na esperança de ver o escondido, de entrar dentro do segredo do outro. O ciumento detesta os pensamentos. Por mais que os vigie, eles estão além da sua vigilância.

Tem aquela modinha de Carlos Gomes, Quem Sabe? É um monólogo de um apaixonado. Ele sofre. Sofre porque a amada está longe e ele não sabe o que ela está pensando. “Tão longe de mim distante, onde irá, onde irá teu pensamento?” O seu desejo era saber se os pensamentos da amada pensavam nele. Ele pergunta porque não sabe e tem medo de saber o que ela estará pensando. Pergunta porque não confia. Minha amada, por favor, me diga “se ainda é meu teu pensamento…”.

Há os ciúmes mansos que todos sentem e só doem um pouquinho. E há os ciúmes que são um tormento e que frequentemente terminam em tragédia. Todo ciúme, manso ou atormentado, gostaria de ser dono da mulher amada, inclusive dos seus pensamentos. Ele quer conhecê-la por dentro e por fora para certificar-se da sua posse. Nos momentos de êxtase amoroso, esse tormento se resolve e o ciumento se acalma. Mas a sua calma é efêmera. Dura o mesmo tempo do ato sexual. Termina com o orgasmo. Passado o êxtase a dúvida volta. E, com ela, o tormento.

Ele a vigiava, silenciosamente o felino a vigiava. E a sua vigilância se exacerbava quando ela sorria ou ria. Como explicar esse sorriso se ele, o seu marido, não estava dentro do livro? Ela não precisava dele para ser feliz. Mergulhada no seu livro, o seu marido não existia. E isso não é o anúncio de uma infidelidade possível? Ter prazer com algo que não era ele, o seu marido… O prazer acontecia na ausência dele. A infidelidade com o livro anunciava a possibilidade de grandes infidelidades. E isso o torturava. Tortura que não o abandonava nem nos momentos de intimidade prazerosa.

Um ciumento não tolera a liberdade.

Mas aí algo aconteceu que o tranquilizou. Sua esposa adoeceu. Uma mulher adoentada é um pássaro de asas quebradas que não sonha e nem poderia jamais voar. Um pássaro de asas quebradas não planeja voos proibidos. Pássaros de asas quebradas são confiáveis.
Isso o acalmou. Ele ficou doce. Até os momentos de intimidade ficaram leves: seu efêmero sentimento de posse se transformou num tranquilo sentimento de eternidade. Agora ela era sua, para sempre.

Suspeito que os crimes por ciúme não têm o propósito primeiro de matar a mulher amada. O seu propósito, ao contrário, é garantir que ela não será de nenhum outro.
Mas há também um ciúme que dói de mansinho, sofrimento no coração de todos os apaixonados.

A cena: o marido e a mulher chegam a uma festa. Muita gente conhecida e desconhecida, música, risos, olhares… Marido e mulher se separam para se socializarem com outras pessoas. Numa roda, o marido conversa e ri, distraído. De repente, ele vira o seu rosto e vê a sua mulher em outro grupo. Ela está de costas, vestido branco, costas nuas. Como ela é bonita! Ele a ama e pensa que outros homens já olharam para ela com olhares de admiração e desejo. Ela se tornou o centro das atenções da sua roda. Todos os homens se esforçam por lançar o seu charme. Ela ri. De costas para o marido é como se ele não existisse. Como aconteceu com a mulher que lia o livro. Ri por causa dos outros que a cercam, grupo do qual o marido está ausente. E ele pensa que, naquele momento, a felicidade da sua mulher acontece sem que ele dela participe. E lhe dói saber que ela pode ser feliz sem ele, ainda que num breve momento.

Sofre em silêncio, sem demonstrar. E nem fará cobranças quando voltarem para a casa. Afinal de contas, ele é um homem educado que compreende os movimentos da alma.
O ciúme nasce quando se toma consciência de que a pessoa amada é livre. Ela é como um pássaro pousado no ombro. Nada o prende. Poderá voar para longe quando quiser.
Alguns ciumentos tolos acham que o casamento é gaiola que garantirá a posse plena do pássaro. Mas nada garante a posse do pássaro. O pássaro voa, o pássaro volta… Mas pode ser mesmo que ele voe e não volte…

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Efraim Medina Reyes





“Eu não tenho ciúmes de nenhum amante /
não me faz infeliz imaginar que te sacudam ou arrombem a sua bunda /
Meu amor não é um limite entre o seu corpo e a sua ansiedade/
Eu estou em você além de suas ações /
 minha perversão é que você goze /
minha arte é apagar com um beijo todos os outros beijos /
 e afundar a minha verga e as minhas palavras de fogo até roçar a sua alma /
sua merda /
sua origem ... /
Eu só tenho ciúmes da morte /
 de seus dedos longos e frios como raízes /
dela que me roubará a sua carne /
e terá para si o orgasmo infinito de seu último suspiro.

“Odeio as pessoas que confiam em mim: quando se confia em alguém se traça um limite, essa confiança é uma grossa parede que se imagina não se deve derrubar mas nada é mais tentador; é como um bolo de domingo na mesa de um orfanato, como uma garota nua no vestiário de um boxeador, como uma nota de cem dólares na saída do cinema. Quando você confia em alguém desperta seu diabinho transgressor. Confiar é sujo, é dizer ao outro: não pode me trair senão eu morro. Isso não cabe entre pessoas autênticas, como posso jurar lealdade inferno, se isso já seria trair minha própria natureza? Depositar sua confiança em uma pessoa é obrigá-la a respeitar um código, e se você confia nela para que precisa que jure, para que a põe contra a parede e lhe exige promessas. Impor condições me enoja, sobretudo aquela de sem condições.”

“Era uma menina tão doce. O que eu sempre gostei nela era o seu silêncio, não era um silêncio qualquer, estava cheio de contrastes e de pequenos silêncios dentro de outros, como ondulações em uma lagoa. Ela não tentava me entender, sabia que era estúpido pretender isso. Eu odeio as pessoas que entendem, nada é mais sujo e miserável, o entendimento é o pior insulto, uma ficção embrulhada em papel dourado. Entre os dois não havia necessidade de entendimento: Eu tinha a minha dor com palavras e ela com o silêncio.”

Tudo isto para te dizer que eu sinto a sua falta e não buscarei um antídoto. Tudo isto para te dizer que a sua ausência não me mata nem me cura. Tudo isto para te dizer que pensar em você é uma dor abstrata, mas essa dor é o único modo em que ainda eu consigo existir.



“Dos jogos de sedução me resta a gentileza, da ânsia o desdém, e das estratégias o tédio. Não posso mentir nem sequer enganar-me, sou o reflexo invisível de minha sombra e não renuncio às minhas fugas secretas nem aos meus incessantes suicídios. Meu ofício é ser Eu e, nesse exercício perigoso, aprendi alguns truques que jamais usarei. Minha solidão é sobre humana, está além do medo ou da dor previsível e por isso amo e por isso eu danço, baby. Por isso eu danço.”