“Eu não tenho ciúmes de nenhum amante
/
não me faz infeliz imaginar que te
sacudam ou arrombem a sua bunda /
Meu amor não é um limite entre o seu
corpo e a sua ansiedade/
Eu estou em você além de suas ações /
minha perversão é que você goze /
minha arte é apagar com um beijo
todos os outros beijos /
e afundar a minha verga e as minhas palavras
de fogo até roçar a sua alma /
sua merda /
sua origem ... /
Eu só tenho ciúmes da morte /
de seus dedos longos e frios como raízes /
dela que me roubará a sua carne /
e terá para si o orgasmo infinito de
seu último suspiro.”
“Odeio as pessoas que confiam em mim:
quando se confia em alguém se traça um limite, essa confiança é uma grossa
parede que se imagina não se deve derrubar mas nada é mais tentador; é como um
bolo de domingo na mesa de um orfanato, como uma garota nua no vestiário de um
boxeador, como uma nota de cem dólares na saída do cinema. Quando você confia
em alguém desperta seu diabinho transgressor.
Confiar é sujo, é dizer ao outro: não pode me trair senão eu morro. Isso não
cabe entre pessoas autênticas, como posso jurar lealdade inferno, se isso já
seria trair minha própria natureza? Depositar sua confiança em uma pessoa é
obrigá-la a respeitar um código, e se você confia nela para que precisa que
jure, para que a põe contra a parede e lhe exige promessas. Impor condições me
enoja, sobretudo aquela de sem condições.”
“Era uma menina tão doce. O que eu
sempre gostei nela era o seu silêncio, não era um silêncio qualquer, estava
cheio de contrastes e de pequenos silêncios dentro de outros, como ondulações
em uma lagoa. Ela não tentava me entender, sabia que era
estúpido pretender isso. Eu odeio as pessoas que entendem, nada é mais sujo e
miserável, o entendimento é o pior insulto, uma ficção embrulhada em papel
dourado. Entre os dois não havia necessidade de entendimento: Eu tinha a minha
dor com palavras e ela com o silêncio.”
“Tudo isto
para te dizer que eu sinto a sua falta e não buscarei um antídoto. Tudo isto
para te dizer que a sua ausência não me mata nem me cura. Tudo isto para te
dizer que pensar em você é uma dor abstrata, mas essa dor é o único modo em que
ainda eu consigo existir.”
“Dos jogos de sedução me resta a
gentileza, da ânsia o desdém, e das estratégias o tédio. Não posso mentir nem
sequer enganar-me, sou o reflexo invisível de minha sombra e não renuncio às
minhas fugas secretas nem aos meus incessantes suicídios. Meu ofício é ser Eu
e, nesse exercício perigoso, aprendi alguns truques que jamais usarei. Minha
solidão é sobre humana, está além do medo ou da dor previsível e por isso amo e
por isso eu danço, baby. Por isso eu danço.”

