quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Efraim Medina Reyes





“Eu não tenho ciúmes de nenhum amante /
não me faz infeliz imaginar que te sacudam ou arrombem a sua bunda /
Meu amor não é um limite entre o seu corpo e a sua ansiedade/
Eu estou em você além de suas ações /
 minha perversão é que você goze /
minha arte é apagar com um beijo todos os outros beijos /
 e afundar a minha verga e as minhas palavras de fogo até roçar a sua alma /
sua merda /
sua origem ... /
Eu só tenho ciúmes da morte /
 de seus dedos longos e frios como raízes /
dela que me roubará a sua carne /
e terá para si o orgasmo infinito de seu último suspiro.

“Odeio as pessoas que confiam em mim: quando se confia em alguém se traça um limite, essa confiança é uma grossa parede que se imagina não se deve derrubar mas nada é mais tentador; é como um bolo de domingo na mesa de um orfanato, como uma garota nua no vestiário de um boxeador, como uma nota de cem dólares na saída do cinema. Quando você confia em alguém desperta seu diabinho transgressor. Confiar é sujo, é dizer ao outro: não pode me trair senão eu morro. Isso não cabe entre pessoas autênticas, como posso jurar lealdade inferno, se isso já seria trair minha própria natureza? Depositar sua confiança em uma pessoa é obrigá-la a respeitar um código, e se você confia nela para que precisa que jure, para que a põe contra a parede e lhe exige promessas. Impor condições me enoja, sobretudo aquela de sem condições.”

“Era uma menina tão doce. O que eu sempre gostei nela era o seu silêncio, não era um silêncio qualquer, estava cheio de contrastes e de pequenos silêncios dentro de outros, como ondulações em uma lagoa. Ela não tentava me entender, sabia que era estúpido pretender isso. Eu odeio as pessoas que entendem, nada é mais sujo e miserável, o entendimento é o pior insulto, uma ficção embrulhada em papel dourado. Entre os dois não havia necessidade de entendimento: Eu tinha a minha dor com palavras e ela com o silêncio.”

Tudo isto para te dizer que eu sinto a sua falta e não buscarei um antídoto. Tudo isto para te dizer que a sua ausência não me mata nem me cura. Tudo isto para te dizer que pensar em você é uma dor abstrata, mas essa dor é o único modo em que ainda eu consigo existir.



“Dos jogos de sedução me resta a gentileza, da ânsia o desdém, e das estratégias o tédio. Não posso mentir nem sequer enganar-me, sou o reflexo invisível de minha sombra e não renuncio às minhas fugas secretas nem aos meus incessantes suicídios. Meu ofício é ser Eu e, nesse exercício perigoso, aprendi alguns truques que jamais usarei. Minha solidão é sobre humana, está além do medo ou da dor previsível e por isso amo e por isso eu danço, baby. Por isso eu danço.”

terça-feira, 19 de novembro de 2013

no livro O ninho da Serpente de Pedro Juan Gutiérrez




“O trem permaneceu imóvel na plataforma durante duas ou três horas. Eu olhava pela janela. Índios e mulatos. Mulheres bundudas e peitudas. Gente apressada. Alguns alegres e serenos durante um breve momento. Depois ansiedade e medo. Adrenalina e ácidos corrosivos no sangue. Não sabem o que vai acontecer e isso apavora. O subconsciente coletivo funcionando a todo vapor: que porra sou eu?, de onde sai?, pra onde vou?, o que está acontecendo? Câncer inesperado, infarto do coração, paralisia cerebral, mal de Parkinson, suicídio, depressão, cirrose hepática.

Sempre acreditei que era possível viver com ordem, equilíbrio e medida. Todos me enfiavam isso na cabeça: escola, pais, igreja, imprensa. Pátria, Ordem e Liberdade. Egalité, fraternité, leberté. A vida é pura, bela e perfeita. Como numa revista de decoração de interiores. Tudo se encaixa milimetricamente e não há sujeira à vista. Nem uma simples teia de aranha pequenininha num canto. Depois saí para a rua. Sozinho. E essas ideias se atrapalharam. Tudo confuso. À minha volta só via desordem e desequilíbrio. Nenhuma peça se encaixava na outra. Descobrir isso aos quinze anos é aterrador. Loucura, pânico, caos e vertigem.”