quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Ilusión (part. Julieta Venegas) Marisa Monte


Uma vez eu tive uma ilusão
E não soube o que fazer
Não soube o que fazer
Com ela
Não soube o que fazer
E ela se foi
Porque eu a deixei
Por que eu a deixei?
Não sei
Eu só sei que ela se foi
Mi corazón desde entonces
La llora diario
No portão
Por ella
No supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
É a ilusão de que volte
O que me faça feliz
Faça viver
Por ella no supe que hacer
Y se me fue
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque não me deixei tentar
Vivê-la feliz
Sei que tudo o que eu queria
Deixei tudo o que eu queria
Porque no me dejo
Tratar de hacerla feliz
Porque la dejé
¿Por que la dejé?
No sé
Sólo sé que se me fue


Vontade de chorar quando escuto essa música e estou na tpm.

domingo, 1 de dezembro de 2013

O medo - Rubem Alves, no livro O sapo que queria ser príncipe.




José Castello, nos livros que escreveu sobre o Vinicius, referiu-se “a religião daqueles padres cinzentos, jesuítas, que só se impõe pela intimidação”. Intimidar é provocar medo. Essa tem sido a técnica favorita da igreja para ganhar conversos: ou a intimidação do Inferno ou a intimidação da fogueira.
            Dos meses que passou na prisão aguardando ser enforcado, Dietrich Bonhoeffer, um protestante que participou de um atentado frustrado para assassinar Hitler, pensou sobre o assunto. Ele observou que o cristianismo não tem mensagens para as pessoas saudáveis, fortes e felizes. Gente forte e feliz não se converte. É preciso primeiro destruir a sua força e felicidade por meio da intimidação. É somente então que as igrejas tem o que dizer.
            O poeta inglês William Blake detestava padres e pastores e lhes dedicou esse aforismo: “A lagarta escolhe as folhas mais bonitas para nelas botar os seus ovos; como o sacerdote que bota a sua maldição nas alegrias mais bonitas.”
            A imagem é grosseira mas não é minha, é do apostolo Paulo: as coisas que somos e que julgamos boas não passam de excrementos. Na igreja Presbiteriana, os adultos que se candidatam ao batismo devem responder de forma afirmativa à seguinte pergunta que o pastor lhes faz diante da congregação: “confessais que sois nascidos em pecado e incapazes de fazer o bem?”. O candidato responde: “sim, confesso.” Cá entre nós, eu não acredito que eles acreditem no que confessam...
            Pesquisas empíricas já demonstraram que igrejas liberais, sem casuísmos e ameaças, não crescem. Crescem aquelas que pregam o medo do inferno. Hobbes observou que há um único poder que comanda o comportamento das pessoas: o medo. É o medo, e não o amor, que torna a sociedade possível. As igrejas que mais crescem não são aquelas que pregam o amor, são aquelas que ameaçam com o medo. Os evangelistas que se tornaram famosos pelo seu poder de converter eram aqueles que pregavam horrores. Finney foi um famoso pregador avivalista norte-americano que arrastava multidões. Relata-se que as descrições que do Inferno eram tão vívidas que os ouvintes se agarravam aos bancos da igreja para não cair dentro dele.
            Hoje as coisas mudaram. Parece que as pessoas não se preocupam muito com a vida futura, Céu e Inferno. Essa vida futura é coisa tão incerta... As igrejas “evangélicas” descobriram que não é mais o medo que impulsiona as conversões: é a esperança do milagre. E milagre não é coisa do outro mundo. No outro mundo não há milagres. Milagres são coisas desse mundo. Dostoievski já observava que não é Deus que os homens procuram. São os milagres que ele pode fazer. Um Deus que não faz milagres está condenado à solidão.
            Todo o edifício do pensamento cristão é construído sobre a ideia do Inferno. Retire-se a ideia do Inferno do cristianismo e o cristianismo acaba. Sem o inferno, todas as doutrinas e dogmas perdem o seu sentido: a encarnação, a morte de Cristo na cruz, a Igreja, os sacramentos. Sem o perigo do Inferno por que haveria alguém de se converter? Converter-se ao cristianismo é colocar o Inferno no centro da alma e no centro do universo.

3Notas de um velho safado - Charles Bukowski




“Ai então meio que olho ao redor e ali está um tipo triste e bonito de menina (por volta dos dezessete anos) sentada perto de mim. ela tem esses longos cabelos loiros (sempre fui sensível a esses tipos de cabelos compridos, quer dizer, onde o cabelo desce até a bunda e você continua agarrando cabelos, fios e mais fios enquanto você trabalha e faz a coisa ficar muito sinfônica ao invés da mesma chatice de sempre).”

“Não sou esnobe; simplesmente não estou interessado no que a maioria das pessoas tem pra dizer, ou no que elas desejam fazer.”

“Qualquer um que pudesse me aguentar tinha muito perdão em sua alma. Eu simplesmente tinha que RECOPENSAR essa doce, pequena e querida gazela por possuir o culhão o discernimento e a coragem de ficar comigo.”

“Não existe nada tão chato quanto a verdade.”

“o indivíduo bem equilibrado é insano.”

“quase todo mundo nasce gênio e é enterrado imbecil.”

“prefiro ouvir sobre um vagabundo americano vivo, do que sobre um deus grego morto.”

“Nenhuma dor significa o fim da sensibilidade; cada uma de nossas alegrias é uma barganha com o diabo.”

“relação sexual é chutar a morte no cu e cantar ao mesmo tempo.”

“a diferença entre a arte e a vida é que a arte é mais suportável.”

“você se dá conta que o seu desejo ardente de justiça e de um mundo melhor é apenas uma fachada para ocultar a decadência e a vergonha e o fracasso que residem dentro de você?”

“o que mais pode ser o amor?
O senso comum de querer muito alguma coisa muito boa. Não precisa estar relacionado por laços de sangue. Pode ser uma bola de praia vermelha ou uma fatia de torrada com manteiga.
Você esta querendo me dizer que pode AMAR uma fatia d torrada com manteiga?
Somente algumas, senhor. Em determinadas manhãs. Sob determinados raios de sol. O amor chega e vai embora sem avisar.”

“o amor chega e vai embora sem avisar.”

“é possível amar um ser humano?
é claro, especialmente se você não os conhece muito bem, eu gosto de olhar para eles através da minha janela, caminhando na rua.”

“você diz que frequentemente sente essa loucura. O que é que você faz quando ela se apodera de você?
Escrevo poesia.
A poesia é loucura?
A não poesia é loucura.”

“bom, classe é algo que você vê, sente, a invés  de definir, você pode percebê-la nos homens também, em animais. você a enxerga em alguns artistas do trapézio enquanto caminham sobre o picadeiro. alguma coisa no andar, nos gestos. eles tem alguma coisa dentro e fora, mas é principalmente dentro e faz o exterior trabalhar.”

“eu sabia que tinha alguma coisa de errado comigo, mas eu não me considerava insano. Era simplesmente que eu não conseguia compreender como é que outras pessoas tornavam-se tão facilmente irritadas, para em seguida com a mesma facilidade esquecer a sua ira e se tornarem alegres, e como é que eles podiam ser tão interessados por tudo, quando tudo era tão chato.”

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A águia que quase virou galinha - Rubem Alves





Era uma vez uma águia que foi criada num galinheiro. Cresceu pensando que era galinha.
Era uma galinha estranha (o que a fazia sofrer).
Que tristeza quando se via refletida nos espelhos das poças d’água tão diferente!
O bico era grande demais, adunco, impróprio para catar milho, como todas as outras faziam.
Seus olhos tinham um olhar feroz, diferente do olhar amedrontado das galinhas, tão ao sabor do amor do galo.
Era muito grande em relação às outras, era atlética.
Com certeza sofria de alguma doença.
E ela queria uma coisa só: ser uma galinha comum, como todas as outras.
Fazia um esforço enorme para isso.
Treinava ciscar com bamboleio próprio.
Andava meio agachada, para não se destacar pela altura.
Tomava lições de cacarejo.
O que mais queria: que seu cocô tivesse o mesmo cheiro familiar e acolhedor do cocô das galinhas.
O seu era diferente, inconfundível. Todos sabiam onde ela tinha estado e riam.
Sua luta para ser igual a levava a extremos de dedicação política. Participava de todas as causas. Quando havia greve por rações de milho mais abundantes, ela estava sempre na frente. Fazia discursos inflamados contra as péssimas condições de segurança do galinheiro, pois a tela precisava ser arrumada, estava cheia de buracos (nunca lhe passava pela cabeça aproveitar-se dos furos para fugir, porque o que ela queria não era a liberdade, era ser igual às outras, mesmo dentro do galinheiro).
Pregava a necessidade de uma revolução no galinheiro. Acabar com o dono que se apossava do trabalho das galinhas. O galinheiro precisava de nova administração galinácea. (Acabar com o galinheiro, derrubar as cercas, isso era coisa impensável. O que se desejava era um galinheiro que fosse bom, protegido, onde ninguém pudesse entrar – muito embora o reverso fosse “de onde ninguém pudesse sair”).
Aconteceu que, um dia, um alpinista que se dirigia para o cume das montanhas passou por ali. Alpinistas são pessoas que gostam de ser águias. Não podendo, fazem aquilo que chega mais perto. Sobem a pés e mãos, até as alturas onde elas vivem e voam. E ficam lá olhando para baixo, imaginando que seria muito bom se fossem águias e pudessem voar.
O alpinista viu a águia no galinheiro e se assustou.
- O que você, águia, está fazendo no meio das galinhas? Ele perguntou.
Ela pensou que estivesse sendo caçoada e ficou brava.
- Não me goza. Águia é a vovozinha. Sou galinha de corpo e alma, embora não pareça.
- Galinha coisa nenhuma, replicou o alpinista. Você tem bico de água, olhar de águia, rabo de águia, cocô de águia. É ÁGUIA. Deveria estar voando… E apontou para minúsculos pontos negros no céu, muito longe, águias que voam perto dos picos da montanha.
- Deus me livre! Tenho vertigem das alturas. Me dá tonteira. O máximo, para mim, é o segundo degrau do poleiro, ela respondeu.
O alpinista percebeu que a discussão não iria a lugar nenhum. Suspeitou que a águia até gostava de ser galinha. Coisa que acontece frequentemente. Voar é excitante, mas dá calafrios. O galinheiro pode ser chato, mas é tranquilo. A segurança atrai mais que a liberdade.
Assim, fim de papo. Agarrou a águia e enfiou dentro de um saco. E continuou sua marcha para o alto das montanhas.
Chegando lá, escolheu o abismo mais fundo, abriu o saco e sacudiu a águia no vazio.
Ela caiu. Aterrorizada, debateu-se furiosamente procurando algo a que se agarrar. Mas não havia nada. Só lhe sobravam as asas.
E foi então que algo novo aconteceu. Do fundo de seu corpo galináceo, uma águia, há muito tempo adormecida e esquecida, acordou, se apossou das asas e, de repente, ela voou.
Lá de cima olhou o vale onde viera. Visto das alturas ele era muito mais bonito. Que pena que há tantos animais que só podem ver os limites do galinheiro!