José Castello, nos livros
que escreveu sobre o Vinicius, referiu-se “a
religião daqueles padres cinzentos, jesuítas, que só se impõe pela intimidação”.
Intimidar é provocar medo. Essa tem sido a técnica favorita da igreja para
ganhar conversos: ou a intimidação do Inferno ou a intimidação da fogueira.
Dos
meses que passou na prisão aguardando ser enforcado, Dietrich Bonhoeffer, um
protestante que participou de um atentado frustrado para assassinar Hitler,
pensou sobre o assunto. Ele observou que o cristianismo não tem mensagens para
as pessoas saudáveis, fortes e felizes. Gente forte e feliz não se converte. É preciso
primeiro destruir a sua força e felicidade por meio da intimidação. É somente
então que as igrejas tem o que dizer.
O
poeta inglês William Blake detestava padres e pastores e lhes dedicou esse
aforismo: “A lagarta escolhe as folhas
mais bonitas para nelas botar os seus ovos; como o sacerdote que bota a sua
maldição nas alegrias mais bonitas.”
A
imagem é grosseira mas não é minha, é do apostolo Paulo: as coisas que somos e
que julgamos boas não passam de excrementos. Na igreja Presbiteriana, os
adultos que se candidatam ao batismo devem responder de forma afirmativa à
seguinte pergunta que o pastor lhes faz diante da congregação: “confessais que
sois nascidos em pecado e incapazes de fazer o bem?”. O candidato responde: “sim,
confesso.” Cá entre nós, eu não acredito que eles acreditem no que confessam...
Pesquisas
empíricas já demonstraram que igrejas liberais, sem casuísmos e ameaças, não crescem.
Crescem aquelas que pregam o medo do inferno. Hobbes observou que há um único
poder que comanda o comportamento das pessoas: o medo. É o medo, e não o amor,
que torna a sociedade possível. As igrejas que mais crescem não são aquelas que
pregam o amor, são aquelas que ameaçam com o medo. Os evangelistas que se
tornaram famosos pelo seu poder de converter eram aqueles que pregavam
horrores. Finney foi um famoso pregador avivalista norte-americano que
arrastava multidões. Relata-se que as descrições que do Inferno eram tão
vívidas que os ouvintes se agarravam aos bancos da igreja para não cair dentro
dele.
Hoje
as coisas mudaram. Parece que as pessoas não se preocupam muito com a vida
futura, Céu e Inferno. Essa vida futura é coisa tão incerta... As igrejas “evangélicas”
descobriram que não é mais o medo que impulsiona as conversões: é a esperança
do milagre. E milagre não é coisa do outro mundo. No outro mundo não há
milagres. Milagres são coisas desse mundo. Dostoievski já observava que não é
Deus que os homens procuram. São os milagres que ele pode fazer. Um Deus que
não faz milagres está condenado à solidão.
Todo
o edifício do pensamento cristão é construído sobre a ideia do Inferno. Retire-se
a ideia do Inferno do cristianismo e o cristianismo acaba. Sem o inferno, todas
as doutrinas e dogmas perdem o seu sentido: a encarnação, a morte de Cristo na
cruz, a Igreja, os sacramentos. Sem o perigo do Inferno por que haveria alguém
de se converter? Converter-se ao cristianismo é colocar o Inferno no centro da
alma e no centro do universo.


