“_ Nós éramos um mistério
para elas. A melhor coisa para conquistar uma mulher é a intriga, o mistério. As
mulheres gostam dos homens desconhecidos.
_ Você acha?
_ Está comprovado
cientificamente. As mulheres amadurecem antes de nós e são mais espertas. Além disso,
são muito pragmáticas e não amam. Se apaixonam um pouquinho. O único truque
para controlar as mulheres é inventar um mistério. Para elas ficarem ocupadas
com a investigação. Quem é esse sujeito? De onde ele saiu? O que quer comigo? E
por ai vai. Elas que se perguntem muitas coisas. A mulher é curiosa por
natureza. E se além disso você come ela, pronto, está feito. Você é o ídolo preferido.
_ E depois? Quando o tempo
passa?
_ Ah, você se fode. Ela já tem
todas as respostas para o mistério e
sabe que você é só mais um homenzinho. Comum e normal. Cheio de problemas e
defeitos. O encanto se rompe.
_É fácil.
_ Por isso o casamento não
funciona. É um negócio. Quem inventou o casamento foi um comerciante. O que
funciona é o mistério, Pedrito, o mistério. Viver novelão romântico. Um descobrir
o outro. E depois acaba, porque nenhuma novela é eterna. Depois do mistério tem
um grande deserto. Rotina, tédio. Carga pesada.
_ Mas mulher gosta de
casamento.
_ Não gosta mas aguenta
porque lhe convém. Elas são sedentárias. Nós somos caçadores. Temos de ir de um
vale para o outro atrás dos mamutes.
Bebemos em silêncio um
momento. Assimilei o que ele havia dito.
_ Por isso você é
marinheiro, Gustavo. Não acredita no casamento.
_ Não acredito em nada. Nós,
seres humanos, somos canibais. A dor nasce com a pessoa e fica com ela pra
sempre.
Para mim era abstrato de
mais.
_ Que dor, Gustavo?
_ Você ainda é jovem. Vai saber
quando passarem os anos. O que quero lhe dizer é que somos seres individuais. Não
acredito nunca em nenhum tipo de organização e de grupo. Nem mesmo na família. É
tudo mentira. Sempre tem alguém pra controlar em causa própria.
_ Você aparece um lobo.
_ Dentro de mim vive um
tigre. E o difícil é manter esse tigre sobre controle.
Depois daquela não voltamos
a nos ver. Ele foi embora sem se despedir. Já estava com quarenta e poucos
anos. Acho que morreu em Nova York, em algum asilo, ou talvez na rua, em algum
pardieiro miserável. Sujo, bêbado, sozinho. Absolutamente sozinho e sorridente.”





