As religiões, todas elas, na medida em que as conheço, possuem respostas para a pergunta por quê. A resposta que todas dão é a mesma. Diferenças? Nada mais que variações sobre um mesmo tema. E o que todas dizem é que Deus é a causa da dor (não importa como elas pensam que Deus é). É Deus que nos faz sofrer. Sofremos porque Deus quer. Se ele não quisesse, não sofreríamos. Lembro-me de um hino que eu cantava (ainda canto, de vez em quando, a música é bonita. Na beleza da música, freqüentemente navegam palavras absurdas!) e que dizia: “Não há dor que seja sem divino fim”. Se assim é, a dor é meio para os propósitos divinos. A dor é ferramenta de Deus. Artífice terrível ele é! E se a dor é dada por Deus, temos de ser gratos por ela. Deveria haver celebrações litúrgicas em seu louvor. O sofrimento é o avesso horrendo de uma tapeçaria cujo lado direito, maravilhoso, só Deus conhece.
Tem de ser assim? Tem de ser assim. É uma exigência da lógica. Os teólogos todos concordam em que Deus tem de ser onipotente. Se não for onipotente, ele não é Deus. Um Deus fraco é impensável. Assim, tudo o que acontece no universo acontece pela sua vontade. Se coisa houvesse que acontecesse à revelia da vontade de Deus, ele não seria onipotente. A lógica exige que para que Deus continue a ser Deus, a dor seja produzida por ele.
Por que Deus nos faz sofrer? A resposta mais comum é que a dor é um castigo divino por nossa desobediência. Deus é como Papai Noel: dá presentes para os meninos bonzinhos. Fosse verdadeira essa explicação os maus deveriam viver em desertos tórridos e os bons, em oásis verdejantes. E seria uma vantagem enorme fazer o que Deus manda: garantia de que o nenezinho jamais nasceria com Síndrome de Down, nossos filhos pequenos jamais teriam câncer, nossos filhos adolescentes jamais morreriam em acidentes, os negócios sempre iriam bem, o casamento seria feliz, a velhice seria tranqüila. E o sofrimento, além da dor, seria motivo de vergonha. Pois somente são castigados os pecadores pelos seus pecados. E assim, o mundo se dividiria entre os que não sofrem, evidência da sua inocência, e os que sofrem, evidência da sua culpa. Pobres viúvas desamparadas, pobres enfermos nos leitos de dor, pobres crianças famintas: todos sofrendo pelo justo dedo de Deus que dá prêmios aos justos e castigos aos injustos. Pascal fez uma curta anotação num dos seus cadernos: “Deus de Jesus Cristo, não o Deus dos filósofos”. Esse Deus que dá prêmios aos bons e castigos aos maus é, com certeza, o Deus dos filósofos, nascido das exigências lógicas. Deus de Jesus Cristo – é certo que ele não é. Pois ele, absurdamente, faz o seu sol nascer sobre bons e maus, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. O Pai não soma créditos. O Pai não soma débitos. Está lá dito, na parábola chamada O filho pródigo.
Por que Deus nos faz sofrer? Respondem outros que é por razões pedagógicas. O sofrimento nos torna melhores. O sofrimento nos faz evoluir. É a pedagogia da palmatória: as crianças aprendendo não pelo amor ao saber mas pela dor. É a filosofia das penitenciárias: pelo sofrimento os homens maus ficam bons. E assim poderíamos contemplar o maravilhoso espetáculo: pela porta de entrada das prisões, entrando, os criminosos de rosto duro e cruel. E muitos anos depois, após sofrimentos sem medida, pela porta de saída, saindo, os rostos angelicais dos que haviam entrado como criminosos, transformados pelo poder da dor.
Não, não é verdade que o sofrimento torna melhores as pessoas. O sofrimento freqüentemente embrutece, tira a sensibilidade, tira a esperança, torna cruéis as pessoas. Um Deus – ou força cósmica – que usasse o sofrimento para a evolução seria muito curto de inteligência – não saberia aquilo que os homens aprenderam: que a única força capaz de fazer as pessoas ficarem melhores é o amor. E que sentido haveria em falar de evolução em relação à criancinha que sofre e morre sem ter tempo de viver? E chegaríamos então à ridícula conclusão de que os que não estão sofrendo são espíritos evoluídos, que não precisam da pedagogia da tortura, enquanto os que estão sofrendo são espíritos atrasados.
E aí eu me horrorizo com um universo assim, que seja movido pela dor dos homens. Me horrorizo com um Deus – ou força cósmica – onipotente. É impossível amá-lo! Somente um demônio seria capaz de imaginar um universo movido a dor! (Prefiro imaginar que o universo seja movido pelo poder do amor e da alegria!).
Estou olhando um pôster, pendurado na minha parede, de um vitral da catedral gótica de Chartres: a Nossa Senhora Azul, com o Menino Jesus. É de grande beleza! Na minha fantasia, de repente, uma pedra vinda do vazio parte o vitral. Os cacos coloridos se espalham pelo chão. Foi-se a beleza! Foram-se o rosto da Madona e o da criança. Gritam as pessoas: “Por quê?” Respondem as explicações religiosas: “Foi Deus que jogou a pedra.” Seria possível amar um Deus assim?
Mas, do vazio – voz de herege – se ouve outra resposta:
Mas, do vazio – voz de herege – se ouve outra resposta:
Não há resposta. Não há um “porque” que responda ao “por quê?” Não há razões. Ninguém lançou a pedra. Deus não lançou. Deus não queria. Ele amava o vitral. Está triste. Foi acidente. Um meteoro. Nem tudo é Deus que faz. Poderia ter caído em outro lugar. A dor é simplesmente dor, sem sentido, sem um divino fim.
E aí, olhando para os cacos do vitral espalhados pelo chão, sem sentido, vê-se um vulto, catando os cacos, um a um, e pacientemente os arranjando de novo, como um quebra-cabeça.
Num Deus assim eu gostaria de acreditar. Um Deus assim eu poderia
amar. E até me juntaria a ele, ajudando-o a catar os cacos.
Num Deus assim eu gostaria de acreditar. Um Deus assim eu poderia
amar. E até me juntaria a ele, ajudando-o a catar os cacos.






