domingo, 9 de fevereiro de 2014

Citações- On The Road - Jack Kerouac



“No fim, o que Neal era, simplesmente, era tremendamente apaixonado pela vida, e mesmo sendo um vigarista só trapaceava porque tinha uma vontade enorme de viver e também de se envolver com pessoas que de outra forma não lhe dariam a mínima atenção.”

“mas nessa época eles dançavam pelas ruas como piões e eu me arrastava atrás como sempre tenho feito toda minha vida atrás de pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos pra viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões ... mas queimam, queimam, queimam como fogos de artificio pela noite.”

“Até que gostei dele, não que fosse um cara legal, como provaria mais tarde, mas se entusiasmava com tudo.”

“ ‘simplesmente não dormirei’, decidi. Havia tantas outras coisas interessantes para fazer.”

“ficamos deitados de costas olhando para o forro e refletindo sobre o que Deus deveria estar pensando quando fez a vida ser tão triste e desanimadora.”


“Garotas e rapazes da América tem tido momentos realmente tristes juntos; a artificialidade os força a se submeterem imediatamente ao sexo sem os devidos diálogos preliminares. Não me refiro a galanteios – mas sim um diálogo direto de almas, porque a vida é sagrada e cada momento precioso.”

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Sobre urubus e beija-flores – Rubem Alves


Eu estava terminando a leitura de um artigo científico. De vez em quando é bom ler ciência. A gente fica mais sabido. Tudo explicadinho. No final das contas, tudo se deve a esse gigantesco infinitamente pequeno disquete que existe dentro das células do corpo chamado DNA. Nele está gravado o nosso destino. Antes de existir, eu já estava “programado” inteiro: a cor dos meus olhos, as linhas do meu rosto, a minha altura, os cabelos brancos precoces, o seu adeus que nada consegue evitar, o sexo. Dizem alguns que lá está até um relógio que marca quantos anos eu vou viver. E é implacável: o que a natureza põe, não há homem que disponha.

Programa mais complicado que o DNA não existe. Tudo tem de acontecer direitinho, na ordem certa. E quase sempre acontece. Quase sempre… Vez por outra uma coisinha não acontece segundo o programado. E o resultado é uma coisa diferente. Assim aparecem os daltônicos, que não vêem as cores do jeito como a maioria vê. Ou o canhoto, que tem de tocar violão ao contrário. De vez em quando, uma criança com síndrome de Down. E quem não me garante que Mozart não foi também um equívoco do DNA? Pelo que sei, a receita não se repetiu até hoje…

O artigo prosseguia para mostrar que é assim que, vez por outra, aparecem pessoas com uma sensibilidade sexual diferente: os homossexuais. Tudo aconteceu lá no DNA: um relezinho que funcionou de maneira não programada. Primeiro, caiu o relê que determina o sexo, se vai ser homem ou mulher. Depois, o relê que determina os caracteres secundários, que fazem a “imagem” do homem e da mulher. Por fim, o relê que determina o objeto que vai disparar as reações químicas e hidráulicas necessárias para o ato sexual. Esse objeto é uma imagem. Nos heterossexuais, é a imagem de uma mulher. Nas mulheres heterossexuais, é a imagem de um homem que faz o seu corpo estremecer.

Acontece, entretanto, que por vezes esse último relê não funciona e a pessoa fica ligada à imagem do seu próprio sexo. A imagem que vai como­ver seu corpo é uma imagem semelhante à sua. E isso que é ser homossexual. O homossexualismo é uma condição estética.
Tudo por obra do DNA. Nada tem a ver com educação, com a mãe ou com o pai. Ninguém é culpado, pois culpa só pode existir quando existe uma escolha. Mas ninguém escolheu. Foi o DNA que fez. E nem pode ser pecado. Pois pecado só existe onde existe culpa. E nem pode ser curado, pois o que a natureza fez não pode ser desfeito.

E foi nesse momento eu estava meditando sobre essas coisas que fogem à compreensão dos homens, como a origem do DNA, o processo pelo qual ele foi estabelecido, se por acidente, se por tentativa e erro, se por obra de algum programador invisível — que uma coisa estranha aconteceu: um barulho como eu nunca ouvira, no meu jardim. Tirei os olhos do artigo, olhei através do vidro da janela e o que vi — inacreditável — um urubu, sim um urubu, batendo furiosamente as asas como s fosse um beija-flor, diante de uma flor de alamanda sugando o melzinho. Achei que estava tendo alucinação, mas não. Era verdade. O urubu, ao ver meu espanto, pousou no galho de uma árvore de sândalo e começou a se explicar, do jeito mesmo que acontecia.
“Sofro muito. Nasci diferente. Urubu, todo mundo sabe, gosta de carniça. Basta que se anuncie carcaça de algum cavalo morto, os olhos dos urubus ficam brilhando, a saliva escorre pelos cantos do bicos, a língua fica de fora — e lá vão eles churrasquear. Urubu acha carniça coisa fina, manjar divino! Eles não a trocariam por uma flor de alamanda por nada nesse mundo! Mas eu nasci diferente. Meus pais, coitados, morreram de vergonha quando ficaram sabendo que eu, às escondidas, sugava o mel das flores. Compreensível. O sonho de todo pai é ter um filho normal, isto é, igual a todos. Urubu normal gosta de carniça. Eu não gostava. Era anormal. Fiquei sendo objeto de zombaria. Na escola, logo descobriram minhas preferências alimentares. E impossível esconder. Se todo o mundo está comendo carniça e você não come, que explicação você pode dar?

Aí meus pais começaram a sofrer, pensando que eu era assim por causa de alguma coisa errada que tinham feito na minha educação.
Me mandaram para o padre. Severo, ele abriu um livro sagrado e disse que Deus, o Grande Urubu, estabelecera que carniça é o manjar divino. Urubu, por natureza e por vontade divina, tem de comer carniça. Chupar mel é contra a natureza. Urubu que chupa mel de flor está em pecado mortal. Ter­minou dizendo que eu iria para o inferno se não mudasse meus hábitos alimentares. E me deu, como penitência, participar de cinco churrascos.

Saí de lá me sentindo o mais miserável dos pecadores. Mas o medo não foi capaz de mudar o meu amor pelas flores. Não cumpri a penitência. Meus pais me mandaram, então, para um psicanalista que cobrava R$120,00 por sessão. Todos os sacrifícios são válidos para fazer o filho ficar normal. A análise durou vários anos. Ao final, fui informado que eu gostava de mel porque odiava meu pai, a quem eu queria matar, para ficar sozinho com a minha mãe. Aí, além de pecador, passei a sofrer a maldição de Édipo. Continuei a gostar do mel da flores. Por isso estou aqui, no seu jardim”.

Houve um momento de silêncio e eu vi o que nunca havia visto: um urubu chorando. Notei que suas lágrimas não eram diferentes das minhas.

Aí ele continuou:
“Gosto das flores. Não quero gostar de carniça. Não quero ficar igual aos outros. Só tenho um desejo: gostaria de não ter vergonha, gostaria que não zombassem de mim, chamando-me de ‘beija flor’, eu não sou beija-flor. Sou um urubu. Eu gostaria de ter amigos…

O que me dói não é a minha preferência alimentar, pois não fui eu quem me fiz assim. O que me dói é minha solidão. Gosto de flores por culpa do DNA. Mas a minha solidão é por culpa dos outros urubus, que poderiam ser meus amigos”. Ditas essas palavras, ele se despediu e voou par uma alamanda do jardim vizinho.


E eu fiquei a pensar que o mundo seria mais feliz se todos pudessem se alimentar do que gostam, sem ter de se esconder ou se explicar. Afinal ninguém é culpado por aquilo que a natureza faz ou deixou de fazer.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Não deixe - Charles Bukowski (Tradução Jao)


Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
nem as garotas jovens
nem as garotas velhas
nem os homens jovens
nem os homens velhos
nem aqueles no meio-termo
nenhum deles,
não deixe as pessoas serem
seu alicerce.

Ao invés disso
construa na areia
construa no lixão
construa na fossa
construa nos túmulos
construa na água,
mas não construa nas
pessoas.

Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.

Construa em outro lugar,
qualquer outro,
qualquer
mas não nas pessoas,
massas
sem cabeça, sem coração
emporcalhando os
séculos,
os dias,
as noites,
as cidades, os municípios,
as nações,
a Terra,
a estratosfera,
emporcalhando a
luz,
emporcalhando todas
as chances,
aqui,
emporcalhando completamente
tudo
agora
e amanhã.

Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.

Qualquer coisa.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Onde enfiar - Charles Bukowski

Não me culpe se seu carro quebra na rodovia.
Não me culpe se sua mulher vai embora.
Não me culpe se você foi pra guerra e descobriu que pessoas matam.

Não me cupê por você ter assassinado 4 anos votando no cara errado.
Não me culpe por a transa às vezes falhar.

Não me culpe se eu não atendo o telefone e não consigo assistir tv.

Não me culpe pelo seu pai.
Não me culpe pela igreja da esquina.
Não me culpe pela bomba de hidrogênio.

Me culpe se você estiver lendo isso.
Não me culpe se você não entender.

Não me culpe pelo mundo fervilhando de assassinos.
Não me culpe se você é um deles.
Culpe seu pai.
Culpe a igreja da esquina.

Não me culpe pelo natal ou o feriado da independência.
Culpe qualquer fudido que você quiser mas não me culpe.

Não me culpe pelos sem-teto.
Não me culpe por 162 jogos de beisebol todo ano.
Não me culpe pelo basquete.

Não me culpe por não querer entrar em elevadores cheios de gente.
Não me culpe por não ter um herói.
Não me culpe por não criar um.

Não me culpe por ficar aturdido com a risada das massas.
Não me culpe por rir sozinho.

Não me culpe pelo enjaulamento do tigre.
Não me culpe por que minha morte não será temível,


Mas não culpe a si mesmo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por quê? - Rubem Alves

As religiões, todas elas, na medida em que as conheço, possuem respostas para a pergunta por quê. A resposta que todas dão é a mesma. Diferenças? Nada mais que variações sobre um mesmo tema. E o que todas dizem é que Deus é a causa da dor (não importa como elas pensam que Deus é). É Deus que nos faz sofrer. Sofremos porque Deus quer. Se ele não quisesse, não sofreríamos. Lembro-me de um hino que eu cantava (ainda canto, de vez em quando, a música é bonita. Na beleza da música, freqüentemente navegam palavras absurdas!) e que dizia: “Não há dor que seja sem divino fim”. Se assim é, a dor é meio para os propósitos divinos. A dor é ferramenta de Deus. Artífice terrível ele é! E se a dor é dada por Deus, temos de ser gratos por ela. Deveria haver celebrações litúrgicas em seu louvor. O sofrimento é o avesso horrendo de uma tapeçaria cujo lado direito, maravilhoso, só Deus conhece.
Tem de ser assim? Tem de ser assim. É uma exigência da lógica. Os teólogos todos concordam em que Deus tem de ser onipotente. Se não for onipotente, ele não é Deus. Um Deus fraco é impensável. Assim, tudo o que acontece no universo acontece pela sua vontade. Se coisa houvesse que acontecesse à revelia da vontade de Deus, ele não seria onipotente. A lógica exige que para que Deus continue a ser Deus, a dor seja produzida por ele.
Por que Deus nos faz sofrer? A resposta mais comum é que a dor é um castigo divino por nossa desobediência. Deus é como Papai Noel: dá presentes para os meninos bonzinhos. Fosse verdadeira essa explicação os maus deveriam viver em desertos tórridos e os bons, em oásis verdejantes. E seria uma vantagem enorme fazer o que Deus manda: garantia de que o nenezinho jamais nasceria com Síndrome de Down, nossos filhos pequenos jamais teriam câncer, nossos filhos adolescentes jamais morreriam em acidentes, os negócios sempre iriam bem, o casamento seria feliz, a velhice seria tranqüila. E o sofrimento, além da dor, seria motivo de vergonha. Pois somente são castigados os pecadores pelos seus pecados. E assim, o mundo se dividiria entre os que não sofrem, evidência da sua inocência, e os que sofrem, evidência da sua culpa. Pobres viúvas desamparadas, pobres enfermos nos leitos de dor, pobres crianças famintas: todos sofrendo pelo justo dedo de Deus que dá prêmios aos justos e castigos aos injustos. Pascal fez uma curta anotação num dos seus cadernos: “Deus de Jesus Cristo, não o Deus dos filósofos”. Esse Deus que dá prêmios aos bons e castigos aos maus é, com certeza, o Deus dos filósofos, nascido das exigências lógicas. Deus de Jesus Cristo – é certo que ele não é. Pois ele, absurdamente, faz o seu sol nascer sobre bons e maus, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. O Pai não soma créditos. O Pai não soma débitos. Está lá dito, na parábola chamada O filho pródigo.
Por que Deus nos faz sofrer? Respondem outros que é por razões pedagógicas. O sofrimento nos torna melhores. O sofrimento nos faz evoluir. É a pedagogia da palmatória: as crianças aprendendo não pelo amor ao saber mas pela dor. É a filosofia das penitenciárias: pelo sofrimento os homens maus ficam bons. E assim poderíamos contemplar o maravilhoso espetáculo: pela porta de entrada das prisões, entrando, os criminosos de rosto duro e cruel. E muitos anos depois, após sofrimentos sem medida, pela porta de saída, saindo, os rostos angelicais dos que haviam entrado como criminosos, transformados pelo poder da dor.
Não, não é verdade que o sofrimento torna melhores as pessoas. O sofrimento freqüentemente embrutece, tira a sensibilidade, tira a esperança, torna cruéis as pessoas. Um Deus – ou força cósmica – que usasse o sofrimento para a evolução seria muito curto de inteligência – não saberia aquilo que os homens aprenderam: que a única força capaz de fazer as pessoas ficarem melhores é o amor. E que sentido haveria em falar de evolução em relação à criancinha que sofre e morre sem ter tempo de viver? E chegaríamos então à ridícula conclusão de que os que não estão sofrendo são espíritos evoluídos, que não precisam da pedagogia da tortura, enquanto os que estão sofrendo são espíritos atrasados.
E aí eu me horrorizo com um universo assim, que seja movido pela dor dos homens. Me horrorizo com um Deus – ou força cósmica – onipotente. É impossível amá-lo! Somente um demônio seria capaz de imaginar um universo movido a dor! (Prefiro imaginar que o universo seja movido pelo poder do amor e da alegria!).
Estou olhando um pôster, pendurado na minha parede, de um vitral da catedral gótica de Chartres: a Nossa Senhora Azul, com o Menino Jesus. É de grande beleza! Na minha fantasia, de repente, uma pedra vinda do vazio parte o vitral. Os cacos coloridos se espalham pelo chão. Foi-se a beleza! Foram-se o rosto da Madona e o da criança. Gritam as pessoas: “Por quê?” Respondem as explicações religiosas: “Foi Deus que jogou a pedra.” Seria possível amar um Deus assim?
Mas, do vazio – voz de herege – se ouve outra resposta:
Não há resposta. Não há um “porque” que responda ao “por quê?” Não há razões. Ninguém lançou a pedra. Deus não lançou. Deus não queria. Ele amava o vitral. Está triste. Foi acidente. Um meteoro. Nem tudo é Deus que faz. Poderia ter caído em outro lugar. A dor é simplesmente dor, sem sentido, sem um divino fim.
E aí, olhando para os cacos do vitral espalhados pelo chão, sem sentido, vê-se um vulto, catando os cacos, um a um, e pacientemente os arranjando de novo, como um quebra-cabeça.
Num Deus assim eu gostaria de acreditar. Um Deus assim eu poderia
amar. E até me juntaria a ele, ajudando-o a catar os cacos.