quarta-feira, 16 de abril de 2014

Bagana na chuva - Mario Bortolotto



Entre minhas ambições até então inconfessáveis figurava a de possuir em todos os sentidos imagináveis uma namoradinha do tipo intelectual dessas com os óculos deslizando graciosamente sobre o nariz. Angela era exatamente assim, só não tinha os óculos deslizando sobre o nariz. Citava Goethe com intimidade e me olhava demoradamente antes de me detonar com nova citação clássica. Eu, por outro lado, sempre bocejei pavorosamente  perante a grande maioria dos clássicos, jamais esperei me catedrar intelectual. Eu sou uma espécie de enciclopédia pop, mas cago solenemente para qualquer teórico posudo. Não que eu tenha orgulho disso. Na verdade eu acho esse negócio de mundinho pop uma canastrice sem limite e refúgio de idiotas sem talento e panacas moderninhos em geral. Mas fazer o quê, se eu, curtidor inveterado de cartoon, cresci vendo tv e cheguei a fatídica conclusão de que a vida seria insuportável se não tivessem inventado o controle remoto? Culpa de uma educação ordinária em bancos de escola estadual. Apesar de que também acho que a grande maioria desses teóricos punheteiros cagaregra tinham mais eram que levar uns tecos no saco pra deixarem de ser tão chatos. Na adolescência escolar o único poeta que me despertou foi o grande Augusto dos Anjos com seus poemas tétricos e nojentões. 90% do que se lê nas escolas é de uma chatice sem tamanho. Eu não quero dizer que seja exatamente um lixo. Eu reconheço o valor de um José de Alencar, de um Gonçalves Dias ou mesmo de um Aloísio de Azevedo, o que eu tô querendo dizer é que a literatura dos caras é de uma malice sem tamanho, então não é de se admirar que a molecada se torne avessa a qualquer tipo de literatura, se os parâmetros que eles tem são tão pouco sedutores. O que me salvou foram os gibis. Meu tio era surdo e por isso não podia ver tv. Naquele tempo ainda não existiam legendas na televisão, por isso ele comprava muitos gibis, tinha um guarda roupa cheio. Eu me esbaldava. Ele morava nos fundos de casa e lá foi onde eu passei a maior parte de minha infância. Lendo, lendo sem parar. Histórias em quadrinhos. Era muito legal. Então eu sabia que ler não era exatamente algo chato. Ler por obrigação livros como A moreninha é que era. Dos gibis, eu passei para os clássicos de aventura, tipo Os três mosqueteiros, Moby Dick ou Robin Hood até finalmente descobrir Homero que era tudo isso e mais um pouco. Homero era aventura, era história em quadrinhos, era poesia, Homero era Rock in roll. A Ilíada foi uma porrada. O que eu to querendo dizer é que com um pouquinho mais de persuasão e sedução da parte de nossos heroicos educadores a molecada bem que podia chapar num Homero, num Dostoiévski ou até num Céline. Entrei num delírio maluco que um dia ainda conheceria uma garota que por vias mais facilmente trafegáveis teria chegado à Ilíada. Alguém que cresceu num ambiente sofisticado, ouvindo música clássica, tocando piano e lendo Shakespeare. Não que eu ache Shakespeare grande coisa. Olha só a heresia. Eu até acho ele meio pentelho também, mas é que eu sempre achei charmoso uma mulher que gostasse de Shakespeare, ou Flaubert, ou Oscar Wilde. Sei lá, eu era mais Dylan Thomas e achei que um encontro desses podia gerar um incêndio. Angela era assim. Eu estava feliz por encontrá-la.


Mario Bortolotto, do livro Bagana na Chuva

sexta-feira, 11 de abril de 2014

No corpo

Tudo que a gente tem pra viver se encontra no corpo. Sei bem que sou mais que só ele, mas digamos que cem por cento do que sou, sei e sinto através dele, então não venha me dizer que é ser ‘minimalista’ reduzir as experiências que posso ter ou viver, ao corpo.
Odeio essa desvalorização do corpo que vem da igreja crista. Lá querem te ensinar que o ‘espirito’ é o que vale, que o corpo é balela, que ele passa. Muito tosco isso, mesmo pra quem acredita e está dentro da igreja cristã/protestante. Seguindo a lógica deles pensemos então em um Deus que te cria de carne e osso mas que faz questão de que você viva em ‘espirito.’ Se esse Deus te queria vivendo em espirito, por que será que ele não te fez só espirito?
Gosto de mais de tudo que é humano,
Das sensações, das experiências, das coisas que posso ver e sentir,
Gosto de observar e tentar entender as relações,
As coisas que acontecem nas diferentes famílias e amizades,
Gosto de ouvir as conversas, de observar as reações,
Gosto das diferenças entre os iguais,
Gosto de tentar entender a forma que as pessoas usam pra se organizar,
Amo minha carne, meu corpo, o lugar em que eu existo!
Não quero saber de vida além dessa,

Não quero saber de negação do que me é próprio, do que mora em mim.
O que eu tenho é pouco, mas é o que tenho. Isso é o que vale!

sexta-feira, 4 de abril de 2014

2 Misto quente - Charles Bukowski



"Como os homens podiam viver com mulheres? O que isso significava? O que eu queria era uma caverna no Colorado com um estoque de comida e bebida para três anos. Limparia minha bunda com areia. Qualquer coisa, qualquer coisa que me salvasse do afogamento desta existência trivial, covarde e estúpida."

"A consciência de que me faltava coragem para fazer o que era necessário fez com que me sentisse péssimo."

"Continuava com a sensação de estar cercado por um grande espaço em branco, um vazio. Havia sempre uma sombra de náusea em meu estômago."

"Para o mundo inteiro lá fora era indiferente o que se passava aqui dentro, e pensar nisso também não me ajudava."

"Jamais confie num homem com um bigode perfeitamente aparado..."

"Ainda assim, apesar de seus corpos e mentes suaves e intocados, continuava a lhes faltar algo, porque até então, basicamente, não tinham sido testados. Quando a adversidade finalmente chegasse em suas vidas, chegaria muito tarde ou seria por demais pesada. Eu estava preparado. Talvez."


“Éramos como éramos, e não queríamos ser nada além disso”

"Não sabia qual era o nosso segredo, mas éramos diferentes e podíamos sentir isso. Dava pra ver pelo modo como caminhávamos e andávamos. Não falávamos muito e deixávamos tudo subentendido, e isso deixava as outras pessoas malucas, o modo como aceitávamos as coisas tacitamente."

“Eu não queria ser como meu pai. Ele apenas fingia ser mau. Quando se é mau de verdade não é preciso fingir, o sujeito apenas é. Eu gostava de ser mau. Tentar ser bonzinho me embrulhava o estômago.” 



"Não surpreende que homens tenham se voltado para os deuses.
 Era bem difícil encarar tudo de frente."
 Bukowski



Ainda tô me adaptando a essa nova realidade. Tem muita coisa nessa vida que você sabe que existe, mas enquanto você não vê com os próprios olhos, parecem estar bem distantes. Digo com os próprios olhos, mesmo que pareça redundante pois estou querendo enfatizar a diferença de se ver uma foto na internet e se ver a cena de verdade diante do seus olhos com temperatura elevada e odores a se sentir juntamente com a imagem. 

Inadmissível que hoje em dia, pessoas vivam sem um minimo de dignidade possível. Que lugar é esse, que vida é essa que essas pessoas levam a ponto de não ter o direito  de ter um banheiro pra fazer suas necessidades? eu ate sei que por ai por esse mundão tem muita gente passando necessidade e vivendo de maneira precária, mas o que mais choca é você ver que o mundo da 'fartura' e do 'asfalto' está a poucos metros de distancia. Tudo muito perto. Ai você sobe uma escadaria e em questão de cinco minutos a realidade que se tem diante dos seus olhos é outra totalmente diferente. Um mundo a parte que até então você só sabia que existia por que alguém te contou ou por que você viu algo no jornal.

Mas quando você sobe aqueles degraus e sente seu próprio peso te cansando a ponto de você se perguntar: 'será que eu vou conseguir?', e você olha praquela moça que vem subindo com um bebê no colo, ou pro idoso com dificuldade de andar que vai subindo e parando degrau por degrau... a única conclusão que a gente chega é a de que tem alguma coisa muito, muito errada. É fácil dizer que não se pode ter tantos filhos, que essas terras foram invadidas, que essas pessoas não deveriam estar morando lá. Mas que se dizer das pessoas que já nasceram lá (o que é grande maioria) e que não tem diante dos seus olhos outra opção a não ser permanecer por ali?. Tem um pessoal bem idiota por ai que adora citar exemplo de um ou outro 'que saiu da favela e virou médico, virou juiz'. Não se dão conta de que a ponta do funil é bem fina e que a água que tem pra descer por ali é bem abundante. Não percebem que a rede tem uma malha larga e tudo o que for menor passa direto por ela, ela só retem o que for 'compatível' com o tamanho do buraco. As pessoas se acostumam a viver com o minimo do minimo possível. Coleta de lixo só as vezes, fezes em vala aberta bem pertinho de você, falta de água constante, muito lixo e sujeira em toda parte.

sábado, 22 de março de 2014

Socorro - Arnaldo Antunes

Socorro!
Não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir...
Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...
Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena, qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...
Socorro!
Alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento, encruzilhada
Socorro! Eu já não sinto nada...
Socorro!
Não estou sentindo nada [nada]
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir...
Socorro!
Alguma alma mesmo que penada
Me empreste suas penas
Eu Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada...
Socorro!
Alguém me dê um coração
Que esse já não bate
Nem apanha
Por favor!
Uma emoção pequena qualquer coisa!
Qualquer coisa que se sinta...
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva...

terça-feira, 11 de março de 2014

O pastor, as ovelhas, os lobos e os tigres - Rubem Alves





Era uma vez um pastor que gostava muito de suas ovelhas. Gostava delas porque eram mansas e indefesas: não tinham garras, não tinham presas, não tinham chifres.

Eram incapazes de atacar e incapazes de se defender. Mansamente, elas se deixavam tosquiar. O pastor gostava tanto delas que prometeu defendê-las sempre de qualquer perigo. Como prova do seu amor, tornou-se vegetariano. Jamais mataria uma ovelha para comer. Como resultado de sua dieta de frutas e vegetais, o pastor era muito magro.

Havia, nas matas vizinhas, lobos que também gostavam das ovelhas. Gostavam delas porque eram mansas e indefesas: não tinham garras, não tinham presas, não tinham chifres. Eram incapazes de atacar e incapazes de se defender. Mansamente, se deixavam devorar. É: o gostar frequentemente produz resultados diferentes. O gostar do pastor produzia cobertores de lã. O gostar dos lobos produzia churrascos.

O pastor estava sempre atento para proteger suas ovelhas contra os ataques dos lobos. Levava um longo cajado nas mãos, para golpear os lobos atrevidos que chegavam perto, e arco e flechas para ferir os prudentes que ficavam longe.

Viviam, assim, pastor, ovelhas e lobos, num delicado equilíbrio.

A notícia das ovelhas chegou aos ouvidos de uns cães famintos e de umas hienas magras que moravam nas cercanias. Resolveram mudar-se para a floresta dos lobos para melhorar de vida. Parentes que eram, falavam a mesma língua e logo se entenderam. Organizaram-se, então, de forma racional, a fim de terem churrascos mais frequentes.

O cajado e as flechas do pastor se mostraram impotentes diante das novas táticas. Enquanto ele espantava os lobos que se aproximavam pelo sul, os cães e as hienas matavam as ovelhas que pastavam ao norte.

O pastor concluiu que providências urgentes tinham de ser tomadas para a segurança das ovelhas. Pensou: “Os lobos, os cães e as hienas atacam porque as ovelhas são indefesas. Se elas tiverem meios de se defender, eles não se atreverão. Preciso armar minhas ovelhas”. Mandou então fazer dentaduras com dentes afiados, chifres pontudos e garras de ferro, com que dotou suas mansas ovelhas. Os lobos e seus aliados, vendo as ovelhas assim armadas, riram-se da ingenuidade do pastor. O fato é que as ovelhas ficaram ainda mais indefesas do que eram, pois não sabiam usar as armas com que o pastor as dotara. Os churrascos ficaram ainda mais frequentes. Com isso, lobos, hienas e cães engordaram.

O pastor teve, então, outra ideia: “vou contratar guardas de segurança profissionais para proteger minhas ovelhas”. Os guardas teriam de ser mais fortes do que cães, hienas e lobos. “Tigres” pensou o pastor. Mas logo teve medo. “Tigres são carnívoros. É possível que gostem de carne de ovelha.” Só se houvesse tigres vegetarianos.

Soube, então, que um criador de tigres, com o uso de técnicas psicológicas pavlovianas, havia conseguido transformar tigres carnívoros em tigres vegetarianos. Seus hábitos alimentares eram iguais aos das ovelhas. Nesse caso, não ofereciam perigo. O pastor, então, contratou os tigres vegetarianos como guardas de suas ovelhas. Os tigres, obedientes, começaram a guardar as ovelhas e diariamente recebiam, como pagamento, uma farta ração de abóboras, nabos e cenouras.

Os lobos, as hienas e os cães, vendo os tigres, ficaram com medo. Como medida de segurança, passaram a caçar as ovelhas durante a noite.
Os tigres, patrulhando a floresta, vez por outra encontravam os restos dos churrascos com que lobos, hienas e cães haviam se banqueteado. Sentiram, pela primeira vez, o cheiro delicioso de carne de ovelha. Lambendo os restos, sentiram pela primeira vez o gosto bom do seu sangue. E perceberam que carne de ovelha era muito mais gostosa que sua ração de abóboras, nabos e cenouras.

Pensaram então: “Melhor que ser empregados do pastor seria ser aliados dos lobos, das hienas e dos cães”. E foi o que aconteceu. Tigres, lobos, hienas e cães tornaram-se sócios.
Os lobos, as hienas e os cães tornaram-se atrevidos. Não atacavam mais durante a noite. Atacavam em pleno dia. Ouvindo os balidos das ovelhas, o pastor gritava pelos tigres. Mas eles não se mexiam. Faziam de conta que nada estava acontecendo. Mal sabia ele que os tigres, durante as noites, comiam churrasco com os lobos, as hienas e os cães. O pastor resolveu pôr ordem na casa. Chamou os tigres. Repreendeu-os. Ameaçou cortar sua ração, ameaçou despedi-los.

Foi então, em meio ao sermão do pastor, que os tigres começaram a se perguntar uns aos outros: “Qual será o gosto da carne de um pastor?”. E responderam: “É preciso experimentar!”. Dada essa resposta, o mais forte deles abriu uma boca enorme e emitiu um rugido horrendo, mostrando os dentes afiados. O pastor, olhando para a boca do tigre, viu então o que nunca imaginara ver: chumaços de lã entre os dentes do tigre.

Num relance, ele percebeu o destino que o aguardava: ser churrasco de tigre. E seu pensamento voou depressa. O pastor já notara que os lobos, as hienas, os cães e os tigres estavam gordos e felizes. Ele, vegetariano, defensor das ovelhas, estava cada vez mais magro. E assim, numa fração de segundo, ele compreendeu a realidade da vida. E, antes que o tigre o devorasse, ele propôs: “Façamos uma aliança…”.

E, desde esse dia, a fazenda, que se chamava “Ovelha Feliz”, passou a se chamar “Ovelha Saborosa”. E o pastor, os tigres, os lobos, as hienas e os cães viveram felizes pelo resto dos seus dias, cada vez mais gordos, as bocas sempre lambuzadas com gordura de ovelha.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Sempre seremos bichos. - Osvaldo Luis Ribeiro


Sempre seremos bichos.
Sob a capa de sede e pele de ovos, bichos.
Sob as convenções sociais, bichos.
Sob o altar, bichos.
Sob os olhos de ninguém, bichos.
Somos o que somos, bichos.

Se há um reducionismo tentador, é o biológico.

Não, ele não responde por tudo.
Mas qualquer coisa que se faça ou pense sem que se considere essa constante insuperável - somos bichos - é platonismo.