Entre minhas
ambições até então inconfessáveis figurava a de possuir em todos os sentidos
imagináveis uma namoradinha do tipo intelectual dessas com os óculos deslizando
graciosamente sobre o nariz. Angela era exatamente assim, só não tinha os
óculos deslizando sobre o nariz. Citava Goethe com intimidade e me olhava
demoradamente antes de me detonar com nova citação clássica. Eu, por outro
lado, sempre bocejei pavorosamente
perante a grande maioria dos clássicos, jamais esperei me catedrar
intelectual. Eu sou uma espécie de enciclopédia pop, mas cago solenemente para
qualquer teórico posudo. Não que eu tenha orgulho disso. Na verdade eu acho
esse negócio de mundinho pop uma canastrice sem limite e refúgio de idiotas sem
talento e panacas moderninhos em geral. Mas fazer o quê, se eu, curtidor
inveterado de cartoon, cresci vendo tv e cheguei a fatídica conclusão de que a
vida seria insuportável se não tivessem inventado o controle remoto? Culpa de
uma educação ordinária em bancos de escola estadual. Apesar de que também acho
que a grande maioria desses teóricos punheteiros cagaregra tinham mais eram que
levar uns tecos no saco pra deixarem de ser tão chatos. Na adolescência escolar
o único poeta que me despertou foi o grande Augusto dos Anjos com seus poemas tétricos
e nojentões. 90% do que se lê nas escolas é de uma chatice sem tamanho. Eu não
quero dizer que seja exatamente um lixo. Eu reconheço o valor de um José de
Alencar, de um Gonçalves Dias ou mesmo de um Aloísio de Azevedo, o que eu tô
querendo dizer é que a literatura dos caras é de uma malice sem tamanho, então
não é de se admirar que a molecada se torne avessa a qualquer tipo de
literatura, se os parâmetros que eles tem são tão pouco sedutores. O que me
salvou foram os gibis. Meu tio era surdo e por isso não podia ver tv. Naquele
tempo ainda não existiam legendas na televisão, por isso ele comprava muitos
gibis, tinha um guarda roupa cheio. Eu me esbaldava. Ele morava nos fundos de
casa e lá foi onde eu passei a maior parte de minha infância. Lendo, lendo sem
parar. Histórias em quadrinhos. Era muito legal. Então eu sabia que ler não era
exatamente algo chato. Ler por obrigação livros como A moreninha é que era. Dos
gibis, eu passei para os clássicos de aventura, tipo Os três mosqueteiros, Moby
Dick ou Robin Hood até finalmente descobrir Homero que era tudo isso e mais um
pouco. Homero era aventura, era história em quadrinhos, era poesia, Homero era
Rock in roll. A Ilíada foi uma porrada. O que eu to querendo dizer é que com um
pouquinho mais de persuasão e sedução da parte de nossos heroicos educadores a
molecada bem que podia chapar num Homero, num Dostoiévski ou até num Céline.
Entrei num delírio maluco que um dia ainda conheceria uma garota que por vias
mais facilmente trafegáveis teria chegado à Ilíada. Alguém que cresceu num
ambiente sofisticado, ouvindo música clássica, tocando piano e lendo
Shakespeare. Não que eu ache Shakespeare grande coisa. Olha só a heresia. Eu
até acho ele meio pentelho também, mas é que eu sempre achei charmoso uma
mulher que gostasse de Shakespeare, ou Flaubert, ou Oscar Wilde. Sei lá, eu era
mais Dylan Thomas e achei que um encontro desses podia gerar um incêndio.
Angela era assim. Eu estava feliz por encontrá-la.
Mario
Bortolotto, do livro Bagana na Chuva




