“é um trunfo da vida que a memória
dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes
falhe para as que de verdade nos interessam. Cicero ilustrou isso de uma
penada: não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.”
“Nunca me deitei com mulher alguma
sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força
que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo.”
“e a vi por acaso inclinada no tanque
com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de
uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos
e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso
não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu
corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o
dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um
tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês,
sempre enquanto lavava a roupa e sempre pela retaguarda.”
“A quem me pergunta respondo sempre
com a verdade: as putas não me deram tempo pra casar.”
“Entenda de uma vez por todas, disse
eu, tive uma noite tão difícil que amanheci emburrecido.”
“Maldição, pensei, como o rubor é
desleal.”
“pensei que um dos encantos da velhice
são as provocações que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está
fora de jogo.”
“Tenho uma química ruim com os
animais, do mesmo jeito que com as crianças assim que começam a falar. Acho que
são mudos de alma. Não os odeio, mas não consigo suportá-los porque não aprendi
a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com
seu cão do que com sua esposa, que o ensine a comer e a descomer na hora certa,
a responder perguntas e a compartilhar suas penas.”
“... e senti na garganta o nó górdio
de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.”
“O chofer me preveniu: Cuidado,
sábio, nessa casa matam gente. Respondi: se for por amor, não importa.”
“Graças a ela enfrentei pela primeira
vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha
obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra
em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo
contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a
desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e
sim como reação contra minha negligencia; que pareço generoso para encontrar
minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou
desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às
minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco
me importa o tempo alheio. Descobri, enfim que o amor não é um estado de alma e
sim um signo do zodíaco.”
“Incrível: vendo-a e tocando-a em
carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças.”
“a fama é uma senhora muito gorda que
não dorme com a gente, mas quando a gente desperta ela está sempre olhando para
nós, aos pés da cama.”
“o sexo é o consolo que a gente tem
quando o amor não nos alcança.”
“se tem uma coisa que detesto nesse
mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres,
os fogos de artificio, as musiquinhas chochas, as grinaldas de papel de seda
que não tem nada a ver com um menino que nasceu há dois mil anos num estábulo
indigente.”
“eu sempre havia precisado do
silencio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita.”
“passei uma semana inteira sem tirar
o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a
barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente
se arruma pra alguém, se veste e se perfuma pra alguém, e eu nunca tinha tido
para quem.”
“havia achado, sempre, que morrer de
amor não era outra coisa além de uma licença poética.”





