“e uma das condições necessárias a
pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas.”
“Faz parte igualmente do pensar certo
a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. A pratica
preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser
humano e nega radicalmente a democracia.”
“Está errada a educação que não reconhece
na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a
deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel
altamente formador.”
“Só os seres que se tornaram éticos
podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham
assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado
os ‘familiares’ para levar-lhes solidariedade. Não se sabe de tigres africanos
que tenham jogado bombas em ‘cidades’ de tigres asiáticos.”
“Gosto de ser homem, de ser gente,
porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada,
preestabelecida. Que o meu ‘destino’ não é um dado mas algo que precisa ser
feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque
a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo
de possibilidades e não de determinismo.
Gosto der gente porque, inacabado,
sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso
ir mais além dele. Está é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser
determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado
que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto
de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha
presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das
forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo social,
cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo.”
“Não podemos nos pôr diante de um
aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. Quanto mais nos
sentamos diante da televisão – há situações de exceção – como quem, em férias,
se abre ao puro repouso e entretenimento, tanto mais riscos corremos de
tropeçar na compreensão de fatos e de acontecimentos. A postura crítica e
desperta nos momentos necessários não pode faltar.”
“Não importa com que faixa etária
trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda,
jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca. Gente formando-se,
mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas porque gente, capaz de
negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir. Não sendo
superior ou inferior a outra prática profissional, a minha, que é a prática
docente, exige de mim um alto nível de responsabilidade ética de que a minha
própria capacitação científica faz parte. É que lido com gente. Lido, por isso mesmo,
independentemente do discurso ideológico negador dos sonhos e das utopias, com
os sonhos, as esperanças tímidas, às vezes, mas às vezes, fortes, dos
educandos. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo,
de outro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Lido com gente e não com
coisas. E porque lido com gente, não posso, por mais que, inclusive, por mais
que me dê prazer entregar-me a reflexão teórica e crítica em torno da própria
prática docente e discente, recusar a minha
atenção dedicada e amorosa a problemática mais pessoal deste ou daquele aluno
ou aluna.”
Paulo Freire, no livro Pedagogia da
autonomia.





