sábado, 10 de maio de 2014

Citações Charles Bukowski



“esse então
será o meu destino:
contar os centavos em pequenas salas escuras
ler poemas de que já me cansei faz
tempo.

e eu que pensava que
quem dirigia ônibus
limpava privadas
ou matava gente nos becos
era idiota.”

Parte do poema O recital de poesia, no livro Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.



“nesse quarto
as horas do amor
ainda fazem sombras.”

Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“quando você partiu
você levou quase
tudo.”

Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“o que você foi
 não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não me importo mais.”
Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos.”

Parte do poema Uma definição, no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e muitas vezes
cedo demais.”

no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“os seus pés pequenos
as suas mãos pequenas
os seus dedos acariciando meus olhos e
minhas orelhas e o seu riso me
 consolando.”

no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“e eu queria me lembrar dela desse
jeito: em seu momento perfeito
antes que ela se cansasse do jogo e
 nós dois um do
outro.”


no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Citações Paulo Freire, no livro Pedagogia da autonomia.

“e uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas.”

“Faz parte igualmente do pensar certo a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. A pratica preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia.”

“Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador.”

“Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os ‘familiares’ para levar-lhes solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas em ‘cidades’ de tigres asiáticos.”

“Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu ‘destino’ não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.

Gosto der gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Está é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo.”


“Não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. Quanto mais nos sentamos diante da televisão – há situações de exceção – como quem, em férias, se abre ao puro repouso e entretenimento, tanto mais riscos corremos de tropeçar na compreensão de fatos e de acontecimentos. A postura crítica e desperta nos momentos necessários não pode faltar.”


“Não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca. Gente formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas porque gente, capaz de negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir. Não sendo superior ou inferior a outra prática profissional, a minha, que é a prática docente, exige de mim um alto nível de responsabilidade ética de que a minha própria capacitação científica faz parte. É que lido com gente. Lido, por isso mesmo, independentemente do discurso ideológico negador dos sonhos e das utopias, com os sonhos, as esperanças tímidas, às vezes, mas às vezes, fortes, dos educandos. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo, de outro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Lido com gente e não com coisas. E porque lido com gente, não posso, por mais que, inclusive, por mais que me dê prazer entregar-me a reflexão teórica e crítica em torno da própria prática docente  e discente, recusar a minha atenção dedicada e amorosa a problemática mais pessoal deste ou daquele aluno ou aluna.”


Paulo Freire, no livro Pedagogia da autonomia. 

sábado, 19 de abril de 2014

Citações - Memórias de minhas putas tristes - Gabriel García Márquez



“é um trunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cicero ilustrou isso de uma penada: não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.”

“Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo.”


“e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava a roupa e sempre pela retaguarda.”


“A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas não me deram tempo pra casar.”

“Entenda de uma vez por todas, disse eu, tive uma noite tão difícil que amanheci emburrecido.”

“Maldição, pensei, como o rubor é desleal.”

“pensei que um dos encantos da velhice são as provocações que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está fora de jogo.”

“Tenho uma química ruim com os animais, do mesmo jeito que com as crianças assim que começam a falar. Acho que são mudos de alma. Não os odeio, mas não consigo suportá-los porque não aprendi a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com seu cão do que com sua esposa, que o ensine a comer e a descomer na hora certa, a responder perguntas e a compartilhar suas penas.”

“... e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.”

“O chofer me preveniu: Cuidado, sábio, nessa casa matam gente. Respondi: se for por amor, não importa.”


“Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligencia; que pareço generoso para encontrar minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.”

“Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças.”

“a fama é uma senhora muito gorda que não dorme com a gente, mas quando a gente desperta ela está sempre olhando para nós, aos pés da cama.”

“o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”

“se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres, os fogos de artificio, as musiquinhas chochas, as grinaldas de papel de seda que não tem nada a ver com um menino que nasceu há dois mil anos num estábulo indigente.”

“eu sempre havia precisado do silencio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita.”

“passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma pra alguém, se veste e se perfuma pra alguém, e eu nunca tinha tido para quem.”

“havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética.”






Martelar as certezas - Rubem Alves


De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas.
Em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de desodorantes finos, me surpreende sempre pela lógica dos seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas, ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste.
Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi:
- Que é isto que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços…
A coisa que estava sobre a bigorna me parecia feita de louça, um bibelô delicado e frágil, e lamentei que o diabo fosse esmigalhá-la.
- Não tenho outra alternativa – ele me respondeu. – É parte de uma aposta que fiz com Deus. Este bibelô delicado é o casamento. E você pode estar certo: não resistirá ao ferro do meu martelo!
Fiquei indignado que ele estivesse maquinando coisa tão perversa e passei ao ataque.
- Não é à toa que os religiosos dizem que você é o anti-Deus. Deus junta. Você separa! A sua bigorna já destruiu muitos lares!
Ele não tinha pressa. Descansou o seu martelo e me falou com voz imperturbada:
- Já estou acostumado às calúnias. Mas não existe coisa alguma mais distante da verdade. Se há uma coisa que eu desejo é um casamento duradouro, até que a morte os separe. Se ponho o casamento na bigorna é justamente para provar que a receita do Criador não funciona. A minha é muito mais eficaz.
Como o meu silêncio indicasse minha disposição em ouvi-lo, ele continuou a falar:
- Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus. Estávamos de acordo em tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Até então trabalhávamos juntos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, e melhor seria que ele tivesse uma mulher, eu concordei. Quando Deus disse que esta união teria de ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas aí apareceu o pomo da discórdia. Para colar o homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei:
- Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com o amor logo se separa!
Citei o poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!” Amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. No começo, aquele entusiasmo. Mas logo se apaga. Chama de vela, fraquinha, que se vai com qualquer ventinho… Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, mesmo os mais apaixonados. E não é por isso que sentem ciúmes? Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse: ele pode voar a qualquer momento. Por isto o amor é doloroso, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. Como construir uma relação duradoura com cola tão fraquinha? Por isto os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de um outro amor. Qualquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca para produzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil bater asas. Um casamento duradouro é aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor.
- Foi aí que nos separamos – ele continuou.
- Não porque discordássemos que casamento deveria ser eterno. É isto que eu quero. Nos separamos porque não estávamos de acordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico. Eu sou um realista.
- Qual foi então a sua proposta? Que cola deveria ser usada?- perguntei, perplexo.
- O ódio. – respondeu ele. – Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa. A verdade é que o ódio junta as pessoas. Como disse um jagunço do Guimarães Rosa, quem odeia o outro, leva o outro para a cama. Diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão. Não se apaga nunca. Por fora pode parecer adormecido. No fundo, as chamas crepitam. A diferença entre os dois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir. No amor existe a permanente possibilidade de separação. Mas o ódio segura. Não tenha dúvidas. Os casamentos mais sólidos são baseados no ódio. E sabe por que o ódio não deixa ir? Porque ele não suporta a fantasia do outro, voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e ali dentro ficam os dois, moendo-se mutuamente numa máquina de moer carne que gira sem parar, cada um se nutrindo da infelicidade que pode causar no outro. As pessoas ficam juntas para se torturarem. Não menospreze o poder do sadismo. Ah! A suprema felicidade de fazer o outro infeliz!
Com estas palavras ele tomou do seu martelo e voltou ao seu trabalho:
- Tenho de provar que eu, e não Deus, sou quem sabe a receita do casamento que só a morte pode separar.

Eu me persignei três vezes e compreendi que o inferno está mais perto do que eu pensava.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Beleza Pura - Caetano Veloso


Não me amarra dinheiro não!
Mas formosura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...
Moça preta do Curuzu
Beleza Pura!
Federação
Beleza Pura!
Boca do rio
Beleza Pura!
Dinheiro não!...
Quando essa preta
Começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda trama da trança
Transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar
Prá botar no cabelo
Toda minúcia, toda delícia...
Não me amarra dinheiro não!
Mas elegância...
Não me amarra dinheiro não!
Mas a cultura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...
Moço lindo do Badauê
Beleza Pura!
Do Ilê-Aiê
Beleza Pura!
Dinheiro hié!
Beleza Pura!
Dinheiro não!...
Dentro daquele turbante
Do filho de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais
Tudo é muito elegante
Manda botar!
Fina palha da costa
E que tudo se trance
Todos os búzios
Todos os ócios...
Não me amarra dinheiro não!
Mas os mistérios...
Não me amarra dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro Hié!
Beleza Pura!
Ah! Ah! Ah! Ah!...(10x)

Bagana na chuva - Mario Bortolotto



Entre minhas ambições até então inconfessáveis figurava a de possuir em todos os sentidos imagináveis uma namoradinha do tipo intelectual dessas com os óculos deslizando graciosamente sobre o nariz. Angela era exatamente assim, só não tinha os óculos deslizando sobre o nariz. Citava Goethe com intimidade e me olhava demoradamente antes de me detonar com nova citação clássica. Eu, por outro lado, sempre bocejei pavorosamente  perante a grande maioria dos clássicos, jamais esperei me catedrar intelectual. Eu sou uma espécie de enciclopédia pop, mas cago solenemente para qualquer teórico posudo. Não que eu tenha orgulho disso. Na verdade eu acho esse negócio de mundinho pop uma canastrice sem limite e refúgio de idiotas sem talento e panacas moderninhos em geral. Mas fazer o quê, se eu, curtidor inveterado de cartoon, cresci vendo tv e cheguei a fatídica conclusão de que a vida seria insuportável se não tivessem inventado o controle remoto? Culpa de uma educação ordinária em bancos de escola estadual. Apesar de que também acho que a grande maioria desses teóricos punheteiros cagaregra tinham mais eram que levar uns tecos no saco pra deixarem de ser tão chatos. Na adolescência escolar o único poeta que me despertou foi o grande Augusto dos Anjos com seus poemas tétricos e nojentões. 90% do que se lê nas escolas é de uma chatice sem tamanho. Eu não quero dizer que seja exatamente um lixo. Eu reconheço o valor de um José de Alencar, de um Gonçalves Dias ou mesmo de um Aloísio de Azevedo, o que eu tô querendo dizer é que a literatura dos caras é de uma malice sem tamanho, então não é de se admirar que a molecada se torne avessa a qualquer tipo de literatura, se os parâmetros que eles tem são tão pouco sedutores. O que me salvou foram os gibis. Meu tio era surdo e por isso não podia ver tv. Naquele tempo ainda não existiam legendas na televisão, por isso ele comprava muitos gibis, tinha um guarda roupa cheio. Eu me esbaldava. Ele morava nos fundos de casa e lá foi onde eu passei a maior parte de minha infância. Lendo, lendo sem parar. Histórias em quadrinhos. Era muito legal. Então eu sabia que ler não era exatamente algo chato. Ler por obrigação livros como A moreninha é que era. Dos gibis, eu passei para os clássicos de aventura, tipo Os três mosqueteiros, Moby Dick ou Robin Hood até finalmente descobrir Homero que era tudo isso e mais um pouco. Homero era aventura, era história em quadrinhos, era poesia, Homero era Rock in roll. A Ilíada foi uma porrada. O que eu to querendo dizer é que com um pouquinho mais de persuasão e sedução da parte de nossos heroicos educadores a molecada bem que podia chapar num Homero, num Dostoiévski ou até num Céline. Entrei num delírio maluco que um dia ainda conheceria uma garota que por vias mais facilmente trafegáveis teria chegado à Ilíada. Alguém que cresceu num ambiente sofisticado, ouvindo música clássica, tocando piano e lendo Shakespeare. Não que eu ache Shakespeare grande coisa. Olha só a heresia. Eu até acho ele meio pentelho também, mas é que eu sempre achei charmoso uma mulher que gostasse de Shakespeare, ou Flaubert, ou Oscar Wilde. Sei lá, eu era mais Dylan Thomas e achei que um encontro desses podia gerar um incêndio. Angela era assim. Eu estava feliz por encontrá-la.


Mario Bortolotto, do livro Bagana na Chuva

sexta-feira, 11 de abril de 2014

No corpo

Tudo que a gente tem pra viver se encontra no corpo. Sei bem que sou mais que só ele, mas digamos que cem por cento do que sou, sei e sinto através dele, então não venha me dizer que é ser ‘minimalista’ reduzir as experiências que posso ter ou viver, ao corpo.
Odeio essa desvalorização do corpo que vem da igreja crista. Lá querem te ensinar que o ‘espirito’ é o que vale, que o corpo é balela, que ele passa. Muito tosco isso, mesmo pra quem acredita e está dentro da igreja cristã/protestante. Seguindo a lógica deles pensemos então em um Deus que te cria de carne e osso mas que faz questão de que você viva em ‘espirito.’ Se esse Deus te queria vivendo em espirito, por que será que ele não te fez só espirito?
Gosto de mais de tudo que é humano,
Das sensações, das experiências, das coisas que posso ver e sentir,
Gosto de observar e tentar entender as relações,
As coisas que acontecem nas diferentes famílias e amizades,
Gosto de ouvir as conversas, de observar as reações,
Gosto das diferenças entre os iguais,
Gosto de tentar entender a forma que as pessoas usam pra se organizar,
Amo minha carne, meu corpo, o lugar em que eu existo!
Não quero saber de vida além dessa,

Não quero saber de negação do que me é próprio, do que mora em mim.
O que eu tenho é pouco, mas é o que tenho. Isso é o que vale!