terça-feira, 24 de junho de 2014

Citações Oscar Wilde. In: O Retrato de Dorian Gray - Por Priscila Pinter


“Sinto um estranho prazer em lhe dizer coisas que depois me arrependerei de ter dito."

“A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder-lhe. Resistamo-lhe e nossa alma adoecerá de desejo do que proibimos a nós mesmos do que as suas leis monstruosas tornaram monstruosas e ilegítima .”

"... no mundo só existe uma coisa pior do que falarem de nós: é não falarem de nós."

"..., a verdadeira beleza acaba onde começa a expressão intelectual."

"A intelectualidade é em si mesma um exagero e destrói a harmonia de qualquer rosto."

"..., a consciência e a covardia são a mesma coisa..."

"O riso não é um mau começo de amizade, e está longe de ser um mau fim..."

"Escolho os meus amigos pela sua boa aparência, meus meros conhecidos pelo seu bom caráter e os meus inimigos pela sua inteligência."

"...o Gênio dura muito mais que a Beleza."

"Aqueles que são fiéis conhecem apenas o lado trivial do amor. O infiel é que conhece as tragédias do amor."

"As mulheres não apreciam a beleza física. Pelo menos as mulheres honestas."

"Não existe influência boa. Toda influência é imoral... Porque influenciar uma pessoa é transmitir-lhe a nossa própria alma."

"Pecando, o corpo se liberta do seu pecado, porque a ação é uma forma de purificação... O único meio de nos livrarmos de uma tentação é ceder a ela."

“Os homens se casam por cansaço, e as mulheres, por curiosidade. Ambos ficam decepcionados.”

“Uma grande paixão é privilégio dos que não tem nada para fazer.”

"Somente as coisas sagradas merecem ser tocadas."

"Todo mundo gosta de esbanjar aquilo de que mais necessita."

"A base do otimismo é o medo absoluto."

"O prazer é a única coisa digna de teoria."

"Quando somos felizes, somos sempre bons. Mas como somos bons, nem sempre somos felizes."

“Os homens se casam por cansaço, e as mulheres, por curiosidade. Ambos ficam decepcionados.”

“Uma grande paixão é privilégio dos que não tem nada para fazer.”

"Somente as coisas sagradas merecem ser tocadas."

"Todo mundo gosta de esbanjar aquilo de que mais necessita."


"Os maridos das mulheres belas pertencem à categoria dos criminosos."

"É inteiramente monstruoso o costume que tem as pessoas hoje em dia de falar mal dos outros às suas costas, afirmando coisas que são absoluta e completamente verdadeiras."

"Quando uma mulher se casa de novo é porque detestava seu primeiro marido. Quando um homem torna a se casar, é porque adorava sua primeira mulher. As mulheres tentam a sorte. Os homens arriscam a sua."

"Um homem pode ser feliz com qualquer mulher, contanto que não a ame."

"Gosto de homens que tem um futuro, e das mulheres que tem um passado."

"Para ser popular é necessário ser medíocre. Todas as boas reputações são feitas de nada."

“Nunca busquei a felicidade. Quem no mundo deseja a felicidade? Procurei apenas o prazer."


segunda-feira, 23 de junho de 2014

Charles Bukowski - no livro Ao sul de lugar nenhum

“Até mesmo os homens mais fortes podem ser pegos em armadilhas, como Deus, na vez em que caminhou sobre a terra.”

“Nunca tinha sido mimado por nenhuma de minhas mulheres. Gostava de ser paparicado assim; senti que merecia ser mimado dessa forma.”

“Homens se tornam intelectuais porque sentem medo.”

“Não queríamos muita coisa e não conseguíamos nada. Era tudo uma merda.”

“O segredo era manter quatro paredes ao redor da gente. Dentro de quatro paredes, tinha-se uma chance.”

“ - Você não é um bom sujeito. É o filho da puta mais malvado que já conheci. É por isso que gosto de você.”

“Que sonho bom: nunca mais olhar na cara de outro ser humano.”

“Deus é muito popular em lugares como esse.”

“ – Posso sentir a dor rastejando por todo meu corpo. É como uma segunda pele. Queria poder me livrar dessa pele como uma cobra.”

“- Quase gosto daqui, da prisão – eu disse.
- Sim, você parece estar se dando bem por aqui.
- Sem tensão – eu disse -, sem aluguel, sem contas, sem brigas com namoradas, sem impostos, sem placas de licença, sem despesas com comida, sem ressacas...”

“e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer . Parecia-me que essa era uma boa descoberta.”



Charles Bukowski, no livro Ao sul de lugar nenhum

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Efraim Medina Reyes, Citações no livro Técnicas de masturbação entre Batman e Robin



“Lembre-se de que a única razão pela qual ela está com você é porque acredita que não pode ter coisa melhor.”

“Um corpo de mulher é mais que a própria mulher, existe resplendor e abismo nele e tanta distancia quanto você quiser imaginar. Para penetrar seu próprio prazer você deve ser como ela. Deixe sair o duende incendiário que destampa poços e encontra fragrâncias malignas, libere a perversidade feminina que qualquer homem sadio contém, aprenda com ela que sabe mais do que ninguém.”

“A maioria dos caras acha que ser bom no sexo consiste em resistir até que ela tenha orgasmo e depois ejacular. Se não resistem, sentem-se frustrados, isso acontece porque eles se aferram à sua vara e esquecem que o sexo, assim como todas as coisas, está na mente. Uma vara, por especial que seja, não pode dar mais prazer a uma mulher do que uma banana-prata. Se você se aferrar à sua vara, vai afundar com ela e será tragado vagina após vagina sem entender nunca por que sempre o olham como se você fosse uma estúpida banana-prata.”

“Muitos aventureiros da sedução terminaram seus dias  delirando em bares.”

“Elas usam sexo para obter os mais diversos resultados: poder, celebridade, auto-estima, estabilidade, amor e até prazer.”

“O mais importante do sexo é o ritual, saber que existem duas pessoas que estão se procurando para além do imediato prazer. Gosto de pensar que ao fazer amor duas solidões se procuram, que temos o sangue de um felino e o coração de um pássaro e por isso existem as canções.”

“... todos entardeceres se juntam em meu coração e mal posso respirar.”

“... não era a verdade que me interessava, sabia há muito tempo que de todas as histórias a verdade é a pior.”

“Por que a maldita coca-cola não é também  a bebida mais saudável e nutritiva do mundo? Por que o espinafre não tem gosto de batata frita? No fundo a gente sabe, não é? Sabe, sim. Quando você ama uma mulher gostaria de tê-la para sempre na cama, ficar ali, enterrado nela. E se isso não é possível você preferiria visitar o seu tumulo a saber que esta com outro qualquer. A cama ou o tumulo são os únicos lugares que você sonha para quem ama, o resto é retórica.”

“... odiava que as pessoas, mesmo as que jamais havia visto, partissem.”

“Sinto-me perdido e, como sempre quando isso ocorre, desejaria estar no dia seguinte ou ter nascido urso polar...”

“Pretendia indagar o sentido da minha vida, devorar livros em busca do conhecimento, mas gastei minhas noites combatendo resfriados e ouvindo baladas no rádio, mais do que em qualquer outra coisa.”


“Manter a boca fechada é difícil, mas eficaz. Quando alguém mantém a boca fechada por um longo tempo cria em torno de si uma atmosfera de mistério e inclusive de temor. Se alguma vez pronuncia umas poucas palavras (quanto mais absurdas, melhor), estas serão levadas a sério. O silencio é confundido muitas vezes com inteligência (um sábio que fala demais está perdido).”







quinta-feira, 12 de junho de 2014

Citações -Reinaldo Moraes - No livro Pornopopéia



“Esguichar porra na cara da mulher é o que há. Na boca, no nariz, nos olhos, nas bochechas, no cabelo - é lindo. E fica mais lindo ainda quando elas lambem e sorvem a porra, que é pra você se sentir o governador-geral da putaria. As boas fêmeas gostam disso. Algumas das más também. E não é só em filme pornô, não. Bom, você deve saber disso tanto quanto eu.”

" "Gostou?", Lolla me perguntou, empertigando o tórax para realçar seus melões artificiais. " Fiz no hospital, com médico, anestesista, tudo direitinho. Botei silicone cirúrgico, não desses industrial que as biba rampeira se injeta por aí. Aqui foi tudo de prima. Torrei um dindim retado."
"Ficou bom mesmo", murmurei. Mas lembrar daquele maldito documentário fez desandar o rudimento de tesão que eu começava a experimentar pela criatura à minha frente. Acho que você desfruta melhor de peitos artificiais e embutidos de carne em geral se não souber como são feitos, como já mais ou menos disse alguém."

“Mulher gosta de ouvir seu nome evocado pelo macho fodedor, mesmo que seja só um freguês repetindo um nome de guerra com que ela se apresentou. Mas, quando se trata de gandaia, prefiro meter numa mulher sem nome, numa buceta sem história, carne penetrável, gozável e ponto final. Isso me faz sentir vazio de nome, identidade, livre do peso de ser o velho e gasto eu mesmo, como o rio que perde forma, essência e nome quando se entrega às águas do mar. Pra que nomes quando se está dentro de uma buceta? Tanto que só dão nome às pessoas quando elas saem de lá. ”

"Fazer uma mulher rir é fundamental. Mas tem que ter cuidado: se ela ficar rindo demais, o tempo todo, é sinal de que você virou um palhaço. E palhaço não dá tesão em mulher nenhuma. Palhaço só dá medo em criança."

"a vida cotidiana pode ser bem divertida e pornográfica se você tiver olhos atentos."

"Meninas bonitas deviam todas seguir o padrão DDD de qualidade: Doidas, Dadeiras, Divertidas."



"O velho desconforto patafísico de ser e estar em mim. Mas se eu fosse um outro qualquer tenho certeza que o filhadaputa seria ainda pior que o meu atual mim mesmo."


“(...) Fiquei pensando um monte também. Pensei, por exemplo, no meu finado casamento com a Lia. Parece que agora foi pro saco mesmo. Não por ela estar dando prum bostinha chamado Júlio, de intelecto brilhante e cuzão arrombado. Pra isso tô cagando. Buceta, lavô tá nova. Não se trata disso, de ciuminhos pequeno-burgueses, nem porra nenhuma do gênero. É que tá na cara que acabou. Simples assim. Cabo, finito.”

“A famosa depressão não cola em mim, sei lá por que motivo. Acho que a minha mioleira não dispõe dos neurorreceptores da melancolia. Fico deprimido pra valer meia hora por semestre, em média, se é que não se trata apenas de azia e má digestão. Já a ansiedade é um fungo que se espalha endêmico por todo o meu aparelho volitivo – a tal história de querer tudo ao mesmo tempo agora, em outro lugar. É o bicho a ansiedade. Às vezes o bicho sossega um pouco, mas de cá de dentro, da jaula do peito, não sai de jeito nenhum.”

Reinaldo Moraes, no livro Pornopopéia


segunda-feira, 9 de junho de 2014

'É muito raro encontrar almas livres, mas logo se vê quando são.'


Cansada dessa gente pretensiosa que rotula a tudo e a todos. Sou livre, pelo menos venho lutando pra que minha mente seja livre, ainda que por fora eu tenha que me submeter ao sistema e as regras sociais. Gosto do que eu quiser gostar e da forma que eu quiser gostar.

As pessoas que se acham as mais ‘mente aberta’ geralmente são as maiores coxinhas que você vai encontrar. Frases como essas não cabem na minha cabeça e na minha forma de ver a vida:
“Não vou mais a tal lugar porque virou modinha. ”
“Espero que Bukowski não fique muito conhecido, vai perder a graça. ”
“Uma pessoa como você vendo novela? ”
“Bukowski não combina com isso ou aquilo. ”

Puta que pariu! Perco a paciência. Gosto de Bukowski, tenho e li todos os seus livros traduzidos para o português, compactuo com a mesma forma de ver a vida que ele deixa transparecer em seus livros. Mas, não vejo relação em certas falas e comentários. Por que um bom autor vai deixar de ser bom só por ter ficado muito conhecido? As coisas que ele diz farão menos sentido se muita gente concordar? O que é ‘muita gente’ pra você? Uma página do facebook com 120 mil pessoas não é muita gente embora talvez você ache que é. Temos cerca de 67 milhões de brasileiros com perfil no facebook, diante disso, 120 mil pessoas não é quase nada.

Não sou fã de novelas e muito menos da rede globo, mas também não tenho aversão. Se eu estiver pela sala e as pessoas estiverem assistindo, eu dou uma olhada também, não morro por isso. Acho muitos atores e atrizes globais bonitos e bonitas e vou continuar achando mesmo que eles tenham contrato vitalício com a globo. Se passar algum programa e eu for com a cara dele, mesmo que seja na globo, vou ver sim. E daí?
Bukowski não é roupa pra ter que combinar com isso ou aquilo. Povo sem noção, achar que uma pessoa que gosta de Bukowski tem que ter letra feia, fumar, viver sendo mandado embora do trabalho, depressivo.

Digo mais uma vez: faço as coisas porque quero, não por ser moda ou por ser cool ou por você esperar que eu as faça. 

domingo, 8 de junho de 2014

Pergunte ao pó - John Fante

“A igreja precisa acabar, é o refúgio da burroguesia, de bobos e brutos e todos os baratos charlatões.”

“Uma prece. Certo, uma prece: por motivos sentimentais. Deus Todo-Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro! Deus todo poderoso, vou jogar limpo nessa questão. Vou lhe fazer uma proposta. Faça de mim um grande escritor e eu voltarei à igreja. E Lhe peço, caro Deus, mais um favor: faça minha mãe feliz. Não me importo com o Velho, ele tem seu vinho e sua saúde, mas minha mãe se preocupa tanto. Amém.”

"Meu conselho para todos os jovens escritores é bastante simples. Eu lhes recomendaria que nunca evitassem uma nova experiência. Eu os instaria a viver a vida em estado bruto, a atracar-se com ela bravamente, a golpeá-lá com os punhos nus."

“Quando voltei ao meu quarto, joguei-me na cama e chorei um choro sentido. Deixei que as lágrimas corressem de cada parte de mim, e quando não podia mais chorar, me senti bem de novo. Sentia-me verdadeiro e limpo.”

“Ela me viu quando eu entrava. Ficou contente ao me ver; eu soube pelo jeito como seus olhos se arregalaram. Seu rosto se iluminou e senti aquele aperto na garganta. Imediatamente fiquei tão feliz, seguro de mim mesmo, limpo e consciente da minha juventude.”

John Fante, no livro Pergunte ao pó.


sexta-feira, 30 de maio de 2014

Let Her Go



A deixou ir

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixou ir
E você a deixou ir

Olhando para o fundo do seu copo
Esperando que um dia faça um sonho durar
Mas sonhos chegam devagar e passam muito rápido
Você a vê quando fecha os olhos
Talvez um dia você entenda porquê
Tudo o que você toca, certamente, morre

Mas, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixou ir

Olhando para o teto no escuro
O mesmo velho sentimento de vazio em seu coração
O amor chega devagar e passa muito rápido
Bem, você a vê quando dorme
Mas para nunca tocar e nunca manter
Porque você a amava muito
E você mergulhou muito fundo

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixou ir
E você a deixou ir
OO oo oo
E você a deixou ir
OO oo oo
E você a deixou ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixou ir
E você a deixou ir

Pois você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que a ama quando a deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que a ama quando a deixou ir

E você a deixou ir

sábado, 10 de maio de 2014

Citações do livro Cem anos de Solidão - Gabriel García Marquéz




"Alguma coisa então aconteceu dentro dele: algo misterioso e definitivo que o desenraizou do tempo presente levou-o à deriva por uma região inexplorada de recordações."

"...e a gente não é de lugar nenhum enquanto não tem um morto debaixo da terra deste lugar."

"...na verdade estavam ligados até a morte por um vínculo mais sólido que o amor: um remorso comum de consciência."

“ - E o que é que a gente sente? o irmão deu uma resposta imediata:
- É que nem um terremoto.”

“- Quero ficar com você – dizia ele – Um dia desses conto tudo pra todo mundo e se acabam os segredos.
Ela não tentou apaziguá-lo.
- Seria muito bom –disse. – Se ficarmos sozinhos, deixaremos a lâmpada acesa para nos vermos direito, e eu vou poder gritar tudo que quiser sem que ninguém se meta e você vai me dizer ao pé do ouvido todas as bandalheiras que imaginar.”


“...arrastada pela família para separá-la do homem que a tinha violado aos catorze anos e continuou a amá-la até os vinte e dois, mas que nunca se decidiu a tornar pública a situação porque era um homem comprometido com outra. Prometeu a ela que a seguiria até o fim do mundo, só que mais tarde, quando resolvesse a sua situação, e ela tinha cansado de esperar por ele, reconhecendo-o sempre nos homens altos e baixos, louros e morenos que as cartas do baralho lhe prometiam pelos caminhos de terra e os caminhos de mar, para dali a três dias, três meses ou três anos. Na espera havia perdido a força das coxas, a dureza dos seios, o habito da ternura, mas conservava intacta a loucura do coração.”

“Os filhos herdam as loucuras dos pais.”

“A adolescência havia tirado a doçura da sua voz e feito com que ele se tornasse silencioso e definitivamente solitário, mas ao mesmo tempo havia restituído a expressão intensa que tinha nos olhos ao nascer.”

“É que ela também padecia do espinho de um amor solitário.”

“Aquela mulher o atordoava. O mormaço da sua pele, seu cheiro de fumaça, a desordem da sua risada no quarto escuro perturbavam sua atenção e faziam com que tropeçasse nas coisas.”

“Depois de tantos anos de morte, era tão intensa a saudade dos vivos, tão urgente a necessidade de companhia, tão aterradora a proximidade da outra morte que existia dentro da morte, que Prudêncio Aguilar havia terminado por gostar do pior de seus inimigos.”

“Assim, os dois alugaram uma casinha em frente ao cemitério e se instalaram nele sem outro móvel além da rede de José Arcádio. Na noite de núpcias um escorpião que tinha se metido na pantufa de Rebeca mordeu o seu pé. Ela ficou com a língua dormente, mas isso não impediu que passassem uma lua de mel escandalosa. Os vizinhos se assustavam com os gritos que acordavam o bairro inteiro até oito vezes numa noite, e até três vezes durante a sesta, e rogavam que uma paixão tão desaforada não fosse perturbar a paz dos mortos.”


“... mas fosse como fosse não entendia como se chegava ao extremo de fazer uma guerra por coisas que não podiam ser tocadas com as mãos.”

Citações Charles Bukowski



“esse então
será o meu destino:
contar os centavos em pequenas salas escuras
ler poemas de que já me cansei faz
tempo.

e eu que pensava que
quem dirigia ônibus
limpava privadas
ou matava gente nos becos
era idiota.”

Parte do poema O recital de poesia, no livro Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém.



“nesse quarto
as horas do amor
ainda fazem sombras.”

Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“quando você partiu
você levou quase
tudo.”

Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“o que você foi
 não vai acontecer de novo.
os tigres me encontraram
e eu não me importo mais.”
Parte do poema para Jane, No livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“amor é o que acontece
uma vez a cada dez anos.”

Parte do poema Uma definição, no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“e o amor é uma palavra usada
muitas vezes e muitas vezes
cedo demais.”

no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“os seus pés pequenos
as suas mãos pequenas
os seus dedos acariciando meus olhos e
minhas orelhas e o seu riso me
 consolando.”

no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

“e eu queria me lembrar dela desse
jeito: em seu momento perfeito
antes que ela se cansasse do jogo e
 nós dois um do
outro.”


no livro Amor é tudo que nós dissemos que não era.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Citações Paulo Freire, no livro Pedagogia da autonomia.

“e uma das condições necessárias a pensar certo é não estarmos demasiado certos de nossas certezas.”

“Faz parte igualmente do pensar certo a rejeição mais decidida a qualquer forma de discriminação. A pratica preconceituosa de raça, de classe, de gênero ofende a substantividade do ser humano e nega radicalmente a democracia.”

“Está errada a educação que não reconhece na justa raiva, na raiva que protesta contra as injustiças, contra a deslealdade, contra o desamor, contra a exploração e a violência um papel altamente formador.”

“Só os seres que se tornaram éticos podem romper com a ética. Não se sabe de leões que covardemente tenham assassinado leões do mesmo ou de outro grupo familiar e depois tenham visitado os ‘familiares’ para levar-lhes solidariedade. Não se sabe de tigres africanos que tenham jogado bombas em ‘cidades’ de tigres asiáticos.”

“Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que a minha passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida. Que o meu ‘destino’ não é um dado mas algo que precisa ser feito e de cuja responsabilidade não posso me eximir. Gosto de ser gente porque a História em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades e não de determinismo.

Gosto der gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Está é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. Gosto de ser gente porque, como tal, percebo afinal que a construção de minha presença no mundo, que não se faz no isolamento, isenta da influência das forças sociais, que não se compreende fora da tensão entre o que herdo social, cultural e historicamente, tem muito a ver comigo mesmo.”


“Não podemos nos pôr diante de um aparelho de televisão ‘entregues’ ou ‘disponíveis’ ao que vier. Quanto mais nos sentamos diante da televisão – há situações de exceção – como quem, em férias, se abre ao puro repouso e entretenimento, tanto mais riscos corremos de tropeçar na compreensão de fatos e de acontecimentos. A postura crítica e desperta nos momentos necessários não pode faltar.”


“Não importa com que faixa etária trabalhe o educador ou a educadora. O nosso é um trabalho realizado com gente, miúda, jovem ou adulta, mas gente em permanente processo de busca. Gente formando-se, mudando, crescendo, reorientando-se, melhorando, mas porque gente, capaz de negar os valores, de distorcer-se, de recuar, de transgredir. Não sendo superior ou inferior a outra prática profissional, a minha, que é a prática docente, exige de mim um alto nível de responsabilidade ética de que a minha própria capacitação científica faz parte. É que lido com gente. Lido, por isso mesmo, independentemente do discurso ideológico negador dos sonhos e das utopias, com os sonhos, as esperanças tímidas, às vezes, mas às vezes, fortes, dos educandos. Se não posso, de um lado, estimular os sonhos impossíveis, não devo, de outro, negar a quem sonha o direito de sonhar. Lido com gente e não com coisas. E porque lido com gente, não posso, por mais que, inclusive, por mais que me dê prazer entregar-me a reflexão teórica e crítica em torno da própria prática docente  e discente, recusar a minha atenção dedicada e amorosa a problemática mais pessoal deste ou daquele aluno ou aluna.”


Paulo Freire, no livro Pedagogia da autonomia. 

sábado, 19 de abril de 2014

Citações - Memórias de minhas putas tristes - Gabriel García Márquez



“é um trunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cicero ilustrou isso de uma penada: não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.”

“Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo.”


“e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava a roupa e sempre pela retaguarda.”


“A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas não me deram tempo pra casar.”

“Entenda de uma vez por todas, disse eu, tive uma noite tão difícil que amanheci emburrecido.”

“Maldição, pensei, como o rubor é desleal.”

“pensei que um dos encantos da velhice são as provocações que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está fora de jogo.”

“Tenho uma química ruim com os animais, do mesmo jeito que com as crianças assim que começam a falar. Acho que são mudos de alma. Não os odeio, mas não consigo suportá-los porque não aprendi a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com seu cão do que com sua esposa, que o ensine a comer e a descomer na hora certa, a responder perguntas e a compartilhar suas penas.”

“... e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.”

“O chofer me preveniu: Cuidado, sábio, nessa casa matam gente. Respondi: se for por amor, não importa.”


“Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligencia; que pareço generoso para encontrar minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.”

“Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças.”

“a fama é uma senhora muito gorda que não dorme com a gente, mas quando a gente desperta ela está sempre olhando para nós, aos pés da cama.”

“o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”

“se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres, os fogos de artificio, as musiquinhas chochas, as grinaldas de papel de seda que não tem nada a ver com um menino que nasceu há dois mil anos num estábulo indigente.”

“eu sempre havia precisado do silencio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita.”

“passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma pra alguém, se veste e se perfuma pra alguém, e eu nunca tinha tido para quem.”

“havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética.”






Martelar as certezas - Rubem Alves


De vez em quando o diabo me aparece e temos longas conversas.
Em nada se parece com o que dizem dele: rabo, chifres, patas de bode e cheiro de enxofre. Cavalheiro de voz mansa e racional, bem vestido, apreciador de desodorantes finos, me surpreende sempre pela lógica dos seus argumentos. Nada de futilidades. Só fala sobre o essencial, estilo que aprendeu com Deus, nos anos em que foi seu discípulo. Percebi que era ele quando notei que trazia na sua mão direita o martelo e, na esquerda, a bigorna. Pois esta é a sua missão: martelar as certezas, ferro contra ferro, para ver se sobrevivem ao teste.
Já se preparava para dar a primeira martelada quando o interrompi:
- Que é isto que você vai bater? Acho que vai se partir em mil pedaços…
A coisa que estava sobre a bigorna me parecia feita de louça, um bibelô delicado e frágil, e lamentei que o diabo fosse esmigalhá-la.
- Não tenho outra alternativa – ele me respondeu. – É parte de uma aposta que fiz com Deus. Este bibelô delicado é o casamento. E você pode estar certo: não resistirá ao ferro do meu martelo!
Fiquei indignado que ele estivesse maquinando coisa tão perversa e passei ao ataque.
- Não é à toa que os religiosos dizem que você é o anti-Deus. Deus junta. Você separa! A sua bigorna já destruiu muitos lares!
Ele não tinha pressa. Descansou o seu martelo e me falou com voz imperturbada:
- Já estou acostumado às calúnias. Mas não existe coisa alguma mais distante da verdade. Se há uma coisa que eu desejo é um casamento duradouro, até que a morte os separe. Se ponho o casamento na bigorna é justamente para provar que a receita do Criador não funciona. A minha é muito mais eficaz.
Como o meu silêncio indicasse minha disposição em ouvi-lo, ele continuou a falar:
- Todo mundo sabe que, no início, eu era a mão direita de Deus. Estávamos de acordo em tudo. Ele mandava, eu fazia. Foi por causa do casamento que nos separamos. Até então trabalhávamos juntos. Quando Deus disse que não era bom que o homem estivesse só, e melhor seria que ele tivesse uma mulher, eu concordei. Quando Deus disse que esta união teria de ser sem fim, até a morte, eu aplaudi. Mas aí apareceu o pomo da discórdia. Para colar o homem na mulher, Deus foi buscar uma bisnaguinha de amor. Protestei. Argumentei:
- Senhor! Amor é coisa muito fraca, de duração efêmera! Quem é colado com o amor logo se separa!
Citei o poeta: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure!” Amor é chama tênue, fogo de palha. Não pode ser imortal. No começo, aquele entusiasmo. Mas logo se apaga. Chama de vela, fraquinha, que se vai com qualquer ventinho… Amor é bibelô de louça. Todos os amantes sabem disso, mesmo os mais apaixonados. E não é por isso que sentem ciúmes? Ciúme é a consciência dolorosa de que o objeto amado não é posse: ele pode voar a qualquer momento. Por isto o amor é doloroso, está cheio de incertezas. Discreto tocar de dedos, suave encontro de olhares: coisa deliciosa, sem dúvida. E é por isso mesmo, por ser tão discreto, por ser tão suave, que o amor se recusa a segurar. Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar. Como construir uma relação duradoura com cola tão fraquinha? Por isto os casais se separam, por causa do amor, pela ilusão de um outro amor. Qualquer tolo sabe que o pássaro só fica se estiver na gaiola. O amor é cola fraca para produzir um casamento duradouro porque no amor vive o maior inimigo da estabilidade: a liberdade. É preciso que o pássaro aprenda que é inútil bater asas. Um casamento duradouro é aquele em que o homem e a mulher perderam as ilusões do amor.
- Foi aí que nos separamos – ele continuou.
- Não porque discordássemos que casamento deveria ser eterno. É isto que eu quero. Nos separamos porque não estávamos de acordo sobre o que é que junta um homem e uma mulher, eternamente. Deus é um romântico. Eu sou um realista.
- Qual foi então a sua proposta? Que cola deveria ser usada?- perguntei, perplexo.
- O ódio. – respondeu ele. – Enganam-se aqueles que dizem que o ódio separa. A verdade é que o ódio junta as pessoas. Como disse um jagunço do Guimarães Rosa, quem odeia o outro, leva o outro para a cama. Diferente do fogo da vela, o fogo do ódio é como um vulcão. Não se apaga nunca. Por fora pode parecer adormecido. No fundo, as chamas crepitam. A diferença entre os dois? O amor, por causa da liberdade, abre a mão e deixa o outro ir. No amor existe a permanente possibilidade de separação. Mas o ódio segura. Não tenha dúvidas. Os casamentos mais sólidos são baseados no ódio. E sabe por que o ódio não deixa ir? Porque ele não suporta a fantasia do outro, voando livre, feliz. O ódio constrói gaiolas, e ali dentro ficam os dois, moendo-se mutuamente numa máquina de moer carne que gira sem parar, cada um se nutrindo da infelicidade que pode causar no outro. As pessoas ficam juntas para se torturarem. Não menospreze o poder do sadismo. Ah! A suprema felicidade de fazer o outro infeliz!
Com estas palavras ele tomou do seu martelo e voltou ao seu trabalho:
- Tenho de provar que eu, e não Deus, sou quem sabe a receita do casamento que só a morte pode separar.

Eu me persignei três vezes e compreendi que o inferno está mais perto do que eu pensava.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Beleza Pura - Caetano Veloso


Não me amarra dinheiro não!
Mas formosura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...
Moça preta do Curuzu
Beleza Pura!
Federação
Beleza Pura!
Boca do rio
Beleza Pura!
Dinheiro não!...
Quando essa preta
Começa a tratar do cabelo
É de se olhar
Toda trama da trança
Transa do cabelo
Conchas do mar
Ela manda buscar
Prá botar no cabelo
Toda minúcia, toda delícia...
Não me amarra dinheiro não!
Mas elegância...
Não me amarra dinheiro não!
Mas a cultura
Dinheiro não!
A pele escura
Dinheiro não!
A carne dura
Dinheiro não!...
Moço lindo do Badauê
Beleza Pura!
Do Ilê-Aiê
Beleza Pura!
Dinheiro hié!
Beleza Pura!
Dinheiro não!...
Dentro daquele turbante
Do filho de Gandhi
É o que há
Tudo é chique demais
Tudo é muito elegante
Manda botar!
Fina palha da costa
E que tudo se trance
Todos os búzios
Todos os ócios...
Não me amarra dinheiro não!
Mas os mistérios...
Não me amarra dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro não!
Beleza Pura!
Dinheiro Hié!
Beleza Pura!
Ah! Ah! Ah! Ah!...(10x)

Bagana na chuva - Mario Bortolotto



Entre minhas ambições até então inconfessáveis figurava a de possuir em todos os sentidos imagináveis uma namoradinha do tipo intelectual dessas com os óculos deslizando graciosamente sobre o nariz. Angela era exatamente assim, só não tinha os óculos deslizando sobre o nariz. Citava Goethe com intimidade e me olhava demoradamente antes de me detonar com nova citação clássica. Eu, por outro lado, sempre bocejei pavorosamente  perante a grande maioria dos clássicos, jamais esperei me catedrar intelectual. Eu sou uma espécie de enciclopédia pop, mas cago solenemente para qualquer teórico posudo. Não que eu tenha orgulho disso. Na verdade eu acho esse negócio de mundinho pop uma canastrice sem limite e refúgio de idiotas sem talento e panacas moderninhos em geral. Mas fazer o quê, se eu, curtidor inveterado de cartoon, cresci vendo tv e cheguei a fatídica conclusão de que a vida seria insuportável se não tivessem inventado o controle remoto? Culpa de uma educação ordinária em bancos de escola estadual. Apesar de que também acho que a grande maioria desses teóricos punheteiros cagaregra tinham mais eram que levar uns tecos no saco pra deixarem de ser tão chatos. Na adolescência escolar o único poeta que me despertou foi o grande Augusto dos Anjos com seus poemas tétricos e nojentões. 90% do que se lê nas escolas é de uma chatice sem tamanho. Eu não quero dizer que seja exatamente um lixo. Eu reconheço o valor de um José de Alencar, de um Gonçalves Dias ou mesmo de um Aloísio de Azevedo, o que eu tô querendo dizer é que a literatura dos caras é de uma malice sem tamanho, então não é de se admirar que a molecada se torne avessa a qualquer tipo de literatura, se os parâmetros que eles tem são tão pouco sedutores. O que me salvou foram os gibis. Meu tio era surdo e por isso não podia ver tv. Naquele tempo ainda não existiam legendas na televisão, por isso ele comprava muitos gibis, tinha um guarda roupa cheio. Eu me esbaldava. Ele morava nos fundos de casa e lá foi onde eu passei a maior parte de minha infância. Lendo, lendo sem parar. Histórias em quadrinhos. Era muito legal. Então eu sabia que ler não era exatamente algo chato. Ler por obrigação livros como A moreninha é que era. Dos gibis, eu passei para os clássicos de aventura, tipo Os três mosqueteiros, Moby Dick ou Robin Hood até finalmente descobrir Homero que era tudo isso e mais um pouco. Homero era aventura, era história em quadrinhos, era poesia, Homero era Rock in roll. A Ilíada foi uma porrada. O que eu to querendo dizer é que com um pouquinho mais de persuasão e sedução da parte de nossos heroicos educadores a molecada bem que podia chapar num Homero, num Dostoiévski ou até num Céline. Entrei num delírio maluco que um dia ainda conheceria uma garota que por vias mais facilmente trafegáveis teria chegado à Ilíada. Alguém que cresceu num ambiente sofisticado, ouvindo música clássica, tocando piano e lendo Shakespeare. Não que eu ache Shakespeare grande coisa. Olha só a heresia. Eu até acho ele meio pentelho também, mas é que eu sempre achei charmoso uma mulher que gostasse de Shakespeare, ou Flaubert, ou Oscar Wilde. Sei lá, eu era mais Dylan Thomas e achei que um encontro desses podia gerar um incêndio. Angela era assim. Eu estava feliz por encontrá-la.


Mario Bortolotto, do livro Bagana na Chuva