quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Por André Camargo

1. Clube da Luta - Chuck Palluhnick ( apenas após o desastre nós podemos ser ressuscitados. É apenas após você perder todas as coisas que você é livre para fazer qualquer coisa. Nada é estático, tudo está em evolução, tudo está caindo em pedaços)
2. O estrangeiro - Albert Camus (Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.)
3. Crime e Castigo - Dostóievski (os homens são divididos em ordinários e extraordinários. Os primeiros devem viver na obediência e não têm o direito de desrespeitar a lei, porque são ordinários; os segundos têm o direito de praticar todos os crimes e de violar todas as leis, pela simples razão de que são criaturas extraordinárias.)
4. Notas do Subsolo - Dostóievski (A vida toda algo me arrastava a fazer esses trejeitos, a tal ponto que acabei perdendo poder sobre mim mesmo. De outra feita quis por força apaixonar-me; isto me aconteceu duas vezes. E realmente sofri, meus senhores, assseguro-vos. No fundo da alma, não acreditamos estar sofrendo, há uma zombaria que desponta, mas, assim mesmo, sofria de verdade; tinha ciúmes, ficava fora de mim… E tudo isso por enfado, senhores, unicamente por enfado; a inércia me esmagara.)
5. Ecce Hommo - nietzsche ( Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: 'cada qual é o mais distante de si mesmo' - para nós mesmos somos 'homens do desconhecimento)
6. O Homem revoltado - Albert Camus (Quando os dandis não se matam uns aos outros ou ficam loucos, fazem carreira e posam para a posteridade. Mesmo quando gritam que vão calar-se, seu silêncio é estrondoso.)
7. À insustentável leveza do ser - Milan Kundera (“Porque a vida humana também é assim que é composta. É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo. (...). Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.)
8. Coisas frágeis - Neil Gaiman (ela parecia tão fria, tão focada, tão quieta e, ainda assim, seus olhos permaneciam fixos no horizonte. Você pensa que sabe tudo o que há para saber sobre ela imediatamente, mas tudo o que você pensa que sabe está errado. Paixão flui através dela como um rio de sangue. Então, por um momento, ela desvia o olhar e perde sua máscara e você cai. Todos os teus amanhãs começam aqui.)
9. Don quixote - Miguel de Cervantes (tudo o que sei é que enquanto durmo, eu não sinto medo, não tenho esperanças, conflitos ou glórias. (...) há apenas uma coisa ruim sobre o sono, ao menos que eu tenha ouvido, é que este relembra a morte, havendo pouca diferença entre um homem adormecido é um cadáver)
10. As Crônicas do Rei Arthur - Bernard Cornwell (“Only a fool wants war, but once a war starts then it cannot be fought half-heartedly. It cannot even be fought with regret, but must be waged with a savage joy in defeating the enemy, and it is that savage joy that inspires our bards to write their greatest songs about love and War")

sábado, 13 de setembro de 2014

Cesare Pavese, no livro O oficio de viver



"A gente deixa de ser jovem quando entende que falar de um sofrimento é perda de tempo."

"Gostas de coisas absolutas? Não podes construir um amor totalitário: constrói uma bondade totalitária. Mas não faças besteiras: excluí o sexo."

“Eu passava a noite sentado diante do espelho para fazer companhia a mim mesmo.”

“E sobre tudo lembrar-se de que fazer poesia é como fazer amor: a gente nunca há de saber se a alegria que sente está sendo compartilhada.”

“Será concebível matar uma pessoa para ter importância na vida dela? Nesse caso é concebível que a gente se mate para ter importância em nossa própria vida.”

“Uma ridícula lei da vida é a seguinte: não é quem dá, mas quem cobra, que é amado. Ou seja, amado é quem não ama, porque quem ama, dá. E, é claro: dar é um prazer mais profundo do que receber; a quem damos, tornamos necessário, isto é, nós o amamos.


Dar é paixão, quase vício. A pessoa a quem damos transforma-se em necessidade nossa.”

"A força da indiferença! - é a mesma que permitiu às pedras que permanecessem imutáveis por milhões de anos."

"Quem não salva a si mesmo, não pode por ninguém ser salvo."

"Só nos apiedamos das pessoas que de si não tem piedade alguma."

"A força da indiferença! - é a mesma que permitiu às pedras que permanecessem imutáveis por milhões de anos."



"somente sabemos adotar estratagemas amorosos quando não estamos apaixonados."

"Em caso de amores, só os próprios são tolerados."


domingo, 7 de setembro de 2014

bocejo... Buk




creio que adoro dormir
mais do que qualquer pessoa que já tenha
conhecido.

sou capaz de dormir por
2 ou 3 dias e noites
seguidos.

posso ir para a cama a qualquer
momento.

muitas vezes deixei minhas namoradas confusas
por causa disso-

digamos que fosse por volta de uma
e meia da tarde:

“bem, vou para cama agora, vou
dormir...”

e a maior parte delas não dava bola, iam
para a cama comigo
pensando que eu estava atrás de
sexo

mas logo eu lhes dava as costas
e começava a roncar.

isso, claro, poderia explicar
por que tantas entre as minhas namoradas
me deixaram.

dos doutores, nunca obtive qualquer
ajuda:
“escute, sinto esse desejo de
ir para a cama e dormir, quase todo o
tempo.
o que há de errado
comigo?”

“pratica exercícios regularmente?”
“sim...”
“tem se alimentado
corretamente?”
“sim...”

sempre me passavam uma
receita
que eu jogava fora
no caminho entre o consultório e o
estacionamento.

é um mal curioso
porque não consigo dormir entre
as seis da tarde e a meia noite.
precisa ocorrer depois
da meia noite
e quando me levanto
nunca pode ser
antes do meio dia

e caso o telefone toque
vamos dizer às dez e meia da manhã
tenho um surto de raiva

não pergunto sequer quem está
chamando
grito no telefone:
“POR QUE ESTÁ LIGANDO
PARA MIM NUMA HORA
DESSAS?!”

fone no
gancho...

cada pessoa, suponho, tem
suas excentricidades
das em um esforço para parecer
normal
aos olhos do
mundo
elas se superam
e desse modo
destroem seu
algo a mais.

mantive o meu
e acredito que
ele serviu à minha existência
com generosidade.

penso que foi a principal razão
por que decidi me tornar um
escritor: posso bater à máquina
a qualquer hora e
dormir
na hora em que vier a porra da
vontade.


Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária 

sábado, 30 de agosto de 2014

citações - Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária

“e você pode dizer o que quiser sobre os malefícios da bebida, mas sem ela jamais poderia encarar aqueles capatazes com seus olhos de roedores e suas testas incapazes. aqueles trabalhadores satisfeitos com feriados e com o seguro de vida. a verdadeira escravidão humana de homens que não sabiam que eram escravos que realmente achavam que eles eram os escolhidos. era a garrafa e somente a garrafa e todas as garrafas que me resguardaram de tudo aquilo. a cada dia sonhando com a noite quando estaria de volta em meu quarto, de pés descalços estendidos na cama, no escuro, abrindo a tampinha da garrafa tomando o primeiro e bom gole deixando a podridão, a decadência lentamente desaparecerem. acendendo um cigarro enlevado pelas paredes e pela luz da lua, através da janela eu inalava o jogo sujo e então exalava-o por completo desse jeito, então buscava outra vez a garrafa não por fraqueza mas por força: tomando aquele grande gole voltando a garrafa para seu lugar: cada homem vence a adversidade de um modo diferente.”

"... as bebidas estavam no comando e o mundo quase parecia um lugar aceitável." 

"Não brinque com a loucura, a loucura não brinca."

"Ninguém ronca como um vagabundo
exceto alguém que é casado com você."


"estava deprimido, bem, deprimido não, mas estava desanimado com a estrutura toda, o jogo todo, a vida toda."

"é comum, ele disse, depois e uma separação,
ficar ali sentado sentindo como se a alma tivesse sido
decapitada"


Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carpinejar - Me ajude a chorar

“Prefiro estar acompanhado numa estrada real, ainda que penosa, a viver sozinho em minha idealização.”

“Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?”

“Quando amamos platonicamente, o amor pode durar muito tempo. Pois não tem ninguém para estragar nossa idealização. Não há convivência para nos desafiar. É uma paixão estanque, feita de sonho e névoa. É uma vontade desligada da realidade. Temos a expectativa intacta, longe de contratempos. Acordamos e dormimos com o mesmo sentimento longe de interrupção em nossa fantasia.”

“Ninguém entra numa escolha sem fechar a porta.”

"Liberdade vem com o tempo, liberdade vem devagar, liberdade é esforço. Não ser do tamanho de nossa prisão, mas ser do tamanho de nossa vontade."

"E não adianta ensinar alguém a amar a tormenta - ela deve estar no sangue." 

"Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta." 

"Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar."

“Não amará outro alguém sem abandonar algumas horas de alívio em motéis.”

“Espera herança, não sai para trabalhar ternuras.”

“É trabalho em vão soterrar o precipício.”

“A vida é simples, milagrosamente simples.”

“Não há como acalmar o coração senão vivendo.”

“As relâmpagos iluminam os loucos.”


A você que a vê passar

Invejo quem pode vê-la. Eu não posso mais, eu que estou distante, eu que estou separado dela.
Invejo o cobrador de ônibus. Invejo o motorista. Invejo quem tem a chance de conhecê-la.
Invejo quem pode enxergá-la sem taquicardia, sem sobressalto, sem temer a reação.
Invejo seus amigos que podem encontrá-la para um almoço e conversar à toa.
Invejo a família que tem sempre preferência. Invejo os balconistas das farmácias e das lojas, mesmo que só falem crédito ou débito, invejo porque ela dará uma resposta.
Invejo seus colegas de trabalho que podem gritar pelo seu nome com entusiasmo.
Invejo a moça do cafezinho, o moço da limpeza. Eles têm todo direito de se aproximar – ela é real e acessível.
Invejo desconhecidos com a fortuna de rápidas palavras. Invejo o flanelinha que lhe chama de linda. Invejo o carteiro que se engana de número e pede uma informação.
Invejo quem tem a possibilidade de telefonar ou mandar mensagem. Invejo os esbarrões de seus dias. Qualquer contato, qualquer cumprimento, invejo.
Eu me invento na inveja


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quintas feiras

Muita gente não gosta da segunda feira. Outros não gostam do domingo. Outros esperam ansiosos pela sexta feira. O dia em que eu tenho uma relação especial   de ‘amor e ódio’  é a quinta feira, não me pergunte porquê, pois eu não saberia te explicar.  Mas as quintas feiras me deixam meio estranha, um pouco  mais melancolicamente feliz. É sempre na quinta feira que eu sinto mais prazer em sofrer, é sempre na quinta feira  que eu  me permito alguma loucura fora do normal, é sempre na quinta feira que sinto saudade de mim, que gosto e preciso ficar só, que tenho mais vontade de beber, que gosto de escrever. É sempre numa quinta feira que penso na  vida e na morte. Se eu fosse me matar seria numa quinta feira. E nem preciso estar de tpm...

MANIFESTO HOMENS LIBERTEM-SE! - Puig Nico

- Quero o fim da obrigatoriedade ao Serviço Militar.
- Posso broxar. O tamanho do meu pau também não importa.
- Posso falir. Quero ser amado por quem eu sou e não pelo que eu tenho.
- Posso ser frágil, sentir medo, pedir socorro, chorar e gritar quando a situação for difícil.
- Posso me cuidar, fazer o que eu quiser com a minha aparência e minha postura, cuidar da minha saúde, do meu bem estar e fazer exame de próstata.
- Posso ser sensível e expressar minha sensibilidade como quiser.
- Posso ser cabeleireiro, decorador, artista, ator, bailarino; posso me maravilhar diante da beleza de uma flor ou do voo dos pássaros.
- Posso recusar me embebedar e me drogar.
- Posso recusar brigar, ser violento, fazer parte de gangues ou de qualquer grupo segregador.
- Posso não gostar de futebol ou de qualquer outro esporte.
- Posso manifestar carinho e dizer que amo meu amigo. Quero viver em uma sociedade em que homens se amem sem que isso seja um tabu.
- Posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata; posso usar saia se eu me sentir mais confortável.
- Posso trocar fraldas, dar a mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças.
- Posso deixar meu filho se vestir e se expressar ludicamente como quiser e farei tudo para incentivá-lo a demonstrar seus sentimentos, permitindo que ele chore quando sentir vontade.
- Posso tratar minha filha com o mesmo grau de respeito, liberdade e incentivo com que apoio meu filho.
- Posso admirar uma mulher que eu ache bela com respeito, sem gritaria na rua e me aproximar dela com gentileza, sem forçá-la a nada.
- Eu sei que uma mulher está de saia - ou qualquer outra roupa - porque ela quer e não porque está me convidando para nada.
- Eu sei que uma mulher que transa com quem quiser ou transa no primeiro encontro não é uma vadia, bem como o homem que o faz não é um garanhão; são só pessoas que sentiram desejo.
- Eu nunca comi uma mulher; todas as vezes nós nos comemos.
- Eu não tenho medo de que tanto homens como mulheres tenham poder e ajo de modo que nenhum poder anule o outro.
- Eu sei que o feminismo é uma luta pela igualdade entre todos os indivíduos.
- Eu nunca vou bater numa mulher, não aceito que nenhuma mulher me bata e me posiciono para que nenhum homem ou mulher ache que tem o direito de fazer isso.
- Eu vou me libertar, não para oprimir mais as mulheres, mas para que todos possamos ser livres juntos.
- Eu fui ensinado pela sociedade a ser machista e preciso de ajuda para enxergar caso eu esteja oprimindo alguém com as minhas atitudes.
- Eu não quero mais ouvir a frase “seja homem!”, como se houvesse um modelo fechado de homem a ser seguido. Não sou um rótulo qualquer.
- Quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso. E me amarem e aceitarem, não por quem acham que eu deva ser, mas por quem eu sou. E por tudo isso, não sou mais ou menos homem.
- Quero ser mais que um homem, quero ser humano!
- O machismo também me oprime e quero ser um homem livre!

sábado, 26 de julho de 2014

Citações - Efraim Medina Reyes, no livro Era uma vez o amor mas tive que matá-lo


“Ser cruel e grosseiro com as pessoas não é bom mas acalma os nervos. Também sacaneiam com a gente e assim é a vida.”

“Ser presa dos fracassos é um traço típico dos cancerianos.”

“A inteligência e o amor não dão liga. O amor é burro. O amor só é inteligente no abstrato. Se um homem quer ser elegante e lúcido ao amar uma mulher deve fazê-lo no abstrato.”

“Eu gosto de correr todas as manhãs porque aplaca a tristeza. Sei quando sonho com uma certa garota mesmo que não me lembre do sonho. A sensação de ausência no peito me diz isso. Correr ajuda, por isso tem tanta gente correndo ao amanhecer.”

“Nunca amei uma mulher antes, só me interessaram sexualmente. Ela também me excita, mas alguma coisa, uma estranha sensação nos nervos ameaça me sufocar se não voltar a vê-la. Será que estou ficando babaca?”

 “A minha alma está estragada.”

“Todas as nossas invenções são verdade, pode ter certeza disso.”

“Quando a gente está com alguém da mesma espécie se sente à vontade, não é preciso representar.”

“Quando um avião perde a rota basta uma manobra para recuperar as coordenadas, mas quando um trem descarrila não há muito o que fazer.”

“Os primeiros dias no apartamento de Mônica foram um inferno. Se eu demorava no chuveiro ela ficava gritando que lhe deixasse água quente. Se eu lia um livro, ela queria lê-lo comigo. Se eu assistia futebol na televisão, ela dizia que não suportava futebol e me lembrava que Borges escreveu contra o futebol. Se eu queria dormir no sofá (porque não suportava dormir acompanhado), ela dizia que eu tinha nojo dela. Por fim me acostumei a tomar banho mais rápido e a compartilhar o sono. Ela começou a assistir jogos na televisão (eu disse q ela que Borges era cego e impotente e por isso era o único argentino para quem ficava bem odiar futebol) e ela aceitou que a leitura era um prazer individual.”

“A gente se mete a escrever porque não foi capaz de bater num motorista que nos afrontou na rua, porque não quebrou pratos num restaurante, porque não enfrentou um policial louco que xingou sua namorada, porque não disse à mãe o muito que a amava e detestava, porque não cuspiu num professor que dizia que a Terra é redonda, porque deixou que pagassem seu lugar na fila do cinema, porque não tem oficio nem benefício, porque pensa que é uma forma fácil de fazer fama e dinheiro, porque se paspalhos como García Marquéz e Mutis fazem isso, a gente também pode fazer, porque não é bom em matemática, porque não quer ser médico nem advogado, porque está irado, porque odeia as pessoas e quer insultá-las.”

“A gente se mete a escrever porque não sabe lutar boxe nem tem colhões pra isso, porque tem os dentes tortos e não pode sorrir como gostaria, porque para os impotentes de todo tipo não há outro caminho, porque todos os feios ou escrevem ou assassinam e a gente não é capaz de matar uma mosca.”

“Kurt não era bom para conversar, não gostava de contar suas coisas nem de ouvir as dos outros, considerava seus pensamentos um tesouro.”

“Os professores são a coisa mais boba e indiferente que existe, é fácil enganá-los porque não dão a mínima se partirem a sua alma, só querem que chegue o fim de mês para receber seu salário miserável, só desejam que uma garota carnuda lhes de chance para trocar o óleo.”

“Sonho que uma certa garota não foi embora, que posso encontrá-la quando quiser, que não se casou com um inseto, que o tempo não aconteceu, que não tenho vinte e poucos anos e as mãos vazias, que ela continua lá, na mesma esquina de sempre.”

“Quando estou apaixonado por uma mulher, tento vê-la o menos possível; eu não me apaixono com facilidade, de maneira que quando acontece tento fazer durar.”

“Queria amar outra vez, dar o melhor de mim para uma garota. O ruim é que não sei o que é o melhor de mim, não estou certo de que haja alguma coisa melhor em mim.”

“Quando um avião perde a rota basta uma manobra para recuperar as coordenadas, mas quando um trem descarrila não há muito o que fazer.”


“Todas as nossas invenções são verdade, pode ter certeza disso.”

“Os primeiros dias no apartamento de Mônica foram um inferno. Se eu demorava no chuveiro ela ficava gritando que lhe deixasse água quente. Se eu lia um livro, ela queria lê-lo comigo. Se eu assistia futebol na televisão, ela dizia que não suportava futebol e me lembrava que Borges escreveu contra o futebol. Se eu queria dormir no sofá (porque não suportava dormir acompanhado), ela dizia que eu tinha nojo dela. Por fim me acostumei a tomar banho mais rápido e a compartilhar o sono. Ela começou a assistir jogos na televisão (eu disse q ela que Borges era cego e impotente e por isso era o único argentino para quem ficava bem odiar futebol) e ela aceitou que a leitura era um prazer individual.”

“Eu gosto de correr todas as manhãs porque aplaca a tristeza. Sei quando sonho com uma certa garota mesmo que não me lembre do sonho. A sensação de ausência no peito me diz isso. Correr ajuda, por isso tem tanta gente correndo ao amanhecer.”

"todo o mundo pode fingir o amor mas o ódio é muito real."

"Saber que só eu e aquele que agora é o marido dela comemos uma certa garota não me tranquiliza, talvez fosse melhor pensar num número indefinido de amantes, assim não haveria uma única e feia cara nos meus pesadelos. Às vezes penso que já não amo uma certa garota, que este amor morreu, mas todo amanhecer pequenas e vorazes criaturas chupam o meu coração. Se ela tivesse tido muitos casos seria mais fácil esquecê - la, mas ela teima em ser a mulher ideal, o meu amor perfeito. Como não encontro jeito de manchar sua lembrança, sua lembrança me mancha. Este é o axioma : entre dois há sempre um que fede. "


“Mônica sabia chupar melhor do que ninguém e sempre engolia o sêmen. Uma certa garota não era ruim mas tinha certos resquícios da sua breve militância feminista. Chupar, segundo ela, era sinal de submissão. Pensar que só fazia isso pra me agradar me tirava o tesão e decidi eliminar essa parte do nosso repertório sexual. Para me compensar, deixou-me meter por trás três vezes por mês. Isso dois muito e me parecia um sinal pior de submissão. Ela alegou que a metida por trás era um autêntico impulso selvagem e portanto aceitável. Mônica não tinha teorias nem limites, aceitava tudo mas devolvia cada golpe. Se eu metia por trás ela pegava uma banana (ainda verde) e escondia aquilo bem dentro de mim. se me chupava eu tinha que chupá-la, se eu fazia o salto do anjo ela fazia a chave do diabo e assim por diante. A Mônica quando chupava parecia não ter dentes. Eu gostava mais da sua boca que da sua boceta.”

“Na minha opinião, amar uma pessoa talvez seja mais fácil que entende-la mas muito mais perigoso porque o amor sempre dói. A gente pode tentar entender alguém mas não pode tentar amá-lo. O amor surge involuntariamente. O amor pode aumentar ou diminuir até se diluir mas não pode ser imposto. Às vezes gostaríamos de amar determinada pessoa, e até podemos comprovar que a pessoa tem todos os atributos para que a amemos, mas isso não acontece. A gente se acostuma a qualquer um com maior ou menor esforço, mas acostumar-se não é amar. Não sei se tenho razão ou se minhas ideias são absurdas mas tendo a acreditar que o amor existe, que é uma invenção do homem e agora está fora de controle. O amor mais estupido e delirante é o da mãe pelo filho, mas pelo menos tem um fundamento biológico. Mas pensar que você encontra uma desconhecida e em pouco tempo daria a vida por ela me parece inexplicável.”


Efraim Medina Reyes, no livro Era uma vez o amor mas tive que matá-lo

domingo, 20 de julho de 2014

Xico Sá

"Somente as pessoas que não acreditam no amor brigam por ele: os que acreditam dão uma choradinha, limpam o nariz, passam mertiolate no peito e esperam que o treco aconteça de novo."
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Hora de retrospectiva da gramática amorosa no apagar das luzes deste 2012.

Repitam comigo, esses moços, pobres moços: sim, homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto final.

Sim, o amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos: “Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar…”

Acaba, mas só as mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto. Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente ou no samba de Roberto Silva: SANGUE, SANGUE, SANGUE!!!

Sem reticências…

Mesmo, em algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido a prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.

O homem até cria motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!

O macho pode até sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando baforadas aflitas no king-size do abandono, no cigarro sem filtro da covardia e do desamor.

Mulher se acaba, mas diz na lata, sem mané-metáfora.

Melhor mesmo para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável, celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações mútuas, o diabo-a-quatro.

O amor, se é amor, não se acaba de forma civilizada.

Nem aqui nem Suécia.

Se ama de verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem pelo menos uma discussão calorosa.

Fim de amor sem baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de que o amor ali não mais estava.

O mais frio, o mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim, demasiadamente humano esse barraco sem fim.

O que não pode é sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.

O fim do amor exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o primeiro traste que aparece pela frente


sábado, 12 de julho de 2014

O Último Dia - Paulinho Moska


Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia
Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria
Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha
Meu amor
O que você faria?
O que você faria?
Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...




quinta-feira, 26 de junho de 2014

citações do livro: "O amor é fodido" , do Miguel Esteves Cardoso.


"Tudo o que é dos outros é melhor. O carro, o sofrimento, o trabalho, o amor. Os outros são muito melhores que nós. Prefiro sempre os sentimentos e as coisas dos outros aos meus. Se alguém me ama, isso basta-me perfeitamente, não preciso de amar também. Se tenho algum interesse é para os outros, porque esses, coitados, não me conhecem."

"Afastem-se das mulheres que vos atraem e aproximem-se daquelas que vos repugnam. Mas não se habituem. A repugnância também pode tornar-se um vício. Mal por mal, mais vale não correrem o risco de ficarem apanhados por uma mulher má e repugnante, quando há para aí tanta rapariga bonita..."

"Um homem desapaixonado é um verdadeiro homem. Como nos filmes. É duro, honesto, corajoso, insensível. Em contrapartida, os homens apaixonados ficam moles e tornam-se meninas. Mudam de voz. Fazem olhos de perdigueiro. Começam a gostar de doces. Têm ciúmes. Têm filhos."

"Não percebemos que há mulheres más. Muitas mulheres más. Muitas muito más. Mais mulheres más que boas. Aí dez más para cada boa. Atenção: boas geralmente feias e desinteressantes."

"O fim não tem tempo. Ê fácil morrer quando está tudo acabado. E deixar de ver as árvores. E deixar de tocar os muros. Quando os há. O fim não tem pressa. Nem significado. Se ao menos fosse uma surpresa. Ou um alívio. Ou uma inevitabilidade. Poderíamos rir. Poderíamos concluir. Poderíamos conversar. Mas o fim não tem carácter. Só há uma maneira de dizer isto. Só damos por ele quando já é tarde."


"Abri os olhos e não gostei do que vi. Esperei uma eternidade. Ainda não tinha aprendido a adormecer. Quanto mais viver."
"Apaixonei-me num momento desprevenido. Estava a ver um jogo de futebol, ela meteu-se à frente do televisor e, em vez de lhe dar um grito, não reparei, pela minha saúde, fiquei ali especado a olhar para ela. Um minuto de exposição foi quanto bastou. Não se pode olhar muito tempo para raparigas bonitas sem este gênero de merdas acontecer."
"A semana passada dei a minha última foda. Há uma semana, ó caralho. Há uns quinze dias. Gostei. Sempre gostei. Agora tanto se me dá como se me deu. A Teresa também não pode foder. Ela até muito menos que eu. Ela que fodia tão bem. Com quem eu fodia tão bem. Durante aqueles anos todos em que nos demos tão mal. Em que nos íamos matando. Em que decidimos morrer. Teresa. Lembras-te de quando nos matámos? Eu lembro-me perfeitamente. Foda-se — já perdi."

"Dávamo-nos mal. Fodíamos bem e fodíamos mal, mas nunca nos demos bem."

"O amor é fodido. Hei-de acreditar sempre nisto. Onde quer que haja amor, ele acabará, mais tarde ou mais cedo, por ser fodido."

“Mesmo assim eu preferia tomar os comprimidos a aturar as raparigas que eram contra os comprimidos. A salvação pode ser muito bonita mas é preciso levar em conta o tempo infinito que demora.”

“É preciso cair num poço de água gelada para me sacudir de ti. Deixaste em destroços a minha vida, antes e depois de ti. Destruíste a velha alegria que eu tinha guardado tão cuidadosamente.”

“O que custa mais não é tanto lembrar — é não esquecer.
O que é que se faz com o que nos fica na cabeça,
quando já não há nada para fazer?”

“A certa altura decidi que mais valia estar sozinho. Nunca na minha vida arranjei tantas namoradas.”

“Não se pode ficar sozinho e bem disposto neste mundo.”


“Foder uma amiga duma amiga é chato, como sair um cromo* repetido. Então quando elas se fartam de nos imaginar com outras mulheres, como é do seu feitio, é sempre de temer que nos estejam a imaginar na cama com as amigas. Tira um bocado o tesão, esta familiaridade.” (*figurinha)

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Citações

“Para mim era trabalhoso aceitar a solidão. Era difícil aprender a me auto abastecer. Eu continuava achando que era impossível. Ou que era desumano. “O homem é um ser social”, tinha me repetido muitas vezes. Isso, mais o calor do tropico, o sangue latino, minha mestiçagem fabulosa, tudo conspirava a meu redor, como uma rede, me incapacitando para a solidão. Esse era o meu problema e o meu desafio: aprender a viver e a desfrutar dentro de mim.”

“Tomara que eu chegue aos oitenta e três anos com alguma ilusão. Nem que seja a ilusão boba de arranjar namorada e casar pensando que o amor é possível e que a miséria e a fome vão passar.”

“Às vezes, quase sempre, é bom se deixar levar pela intuição e não pensar. Os preconceitos fodem com muita coisa na vida. ”

“E, ao mesmo tempo, vou envelhecendo. E constato que estou perdendo a capacidade de cinismo. Estou perdendo a energia e a alegria e o poder de multiplicação. Já não consigo levar as coisas com o cinismo da juventude, e queria me dar sempre bem, custasse o que custasse.”

“Sempre acontece isso com os bobos. O que lhes falta de cérebro, lhes sobra de pau.”

Pedro Juan Gutiérrez, no livro Trilogia suja de Havana


“Cortei relações com o tempo, e venho tentando cortá-las com o mundo também, o que nem sempre é possível, já que o mundo se move e acaba te implicando no movimento dele, o que é, no mínimo, uma puta arbitrariedade por parte do mundo. ”

“Ô destino filho da puta, reclamei pros céus.”

“Eu conseguiria viver sem poesia. Aliás, eu vivo sem poesia. Não conseguiria é viver sem buceta.”

“Você sempre levou a vida nessa flauta Zé Carlos?”
“Na flauta, no cavaquinho e no pandeiro. Vida de artista Terezinha, vida de artista. Baudelaire vivia assim. Você não sabe quem é Baudelaire, mas era assim mesmo que ele vivia em Paris, e se deu bem. Fora a sífilis, a miséria e a facada que levou da amante.”


Reinaldo Moraes, no livro Pornopopéia 

terça-feira, 24 de junho de 2014

Guilherme Antunes - Por Priscila Pinter

“Foram os teus olhos. Apaixonei-me por ti através dos teus olhos. Não tuas pernas, não teus quadris, não o teu sexo. Foram os teus olhos a dissolver meus tempos tristes, vingar um passado inteiro em que não te amei. O teu olhar anunciou-me os dias bons, contou-me dos até então distantes milagres que nos permite o silêncio dos amantes. Por isso, calo-me para ver-te e amar-te. E pois quando me vês, chama-me a boca ao beijo e não mais aos verbos, chama-me o toque ao corpo e não mais aos gestos. O teu olhar me deu o amor, e existência. Cumprindo previstos encantos dos sonhos que guardei, devolvendo-me ao mundo e ao tempo para ser feliz. Não apenas tua boca, não apenas tuas mãos, não somente o teu ventre; teu olhar acendeu-me para incendiar-me nos desejos todos por saber-te minha. Foram os teus olhos a despir-me dos medos de mergulhar nas tuas profundidades que o amar nos concede. Foram os teus olhos.  Apaixonei-me por ti através dos teus olhos, porque são teus.”


“Sintonia acontece quando a gente põe coração um na frente do outro fantasiados de espelho. Quando primavera e outono se apaixonam. Quando impressão é certeza. Quando se sabe dois; ou quando se sabe o mesmo. Sincronia, sorte, dois patinhos na lagoa. Insight, dejà vu, andorinhas que juntas fazem verão. Acontece nos olhos que falam o mesmo silêncio, nos sorrisos que confessam os mesmos desejos, nas vidas que costuram o mesmo momento. Sintonia é mergulho e vôo que se abraçam. Verdade em par daqueles que se arrepiam juntos, sentem o mesmo e bebem do mesmo poço. Sudito e rei como amantes; reino e nobreza como amados; ressoando amores em qualquer direção, e que se encontram em qualquer lugar. Sintonia é também doer junto, amar junto, ser inteiros, ser um: são. Comunhão. Sintonia é canção que canto mas que só teu coração escuta. Identidade dos suspiros, harmonia das almas, afinidade dos passos. É o jeito manso que a vida dá para aproximar bocas que se aguardam. Sintonia é Amor confesso nas entrelinhas do óbvio. E o óbvio se torna bem mais claro quando olhos e coração afinados se sintonizam.”
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“Milagre: A dimensão do impossível que sabe o nosso nome e nos visita quando à Vida nos entregamos. Ver também: merecimento.

Merecimento: A primavera após inverno. O dia depois da noite depois do dia. Destino que se consegue carregar nos bolsos; o inevitável diante de quem somos. O resultado das nossas ações despido dos acessórios da contrariedade e da reclamação. As exatas matemáticas da Alma.”


“Sou habitante de adiados sonhos, e sou uma precariedade; um adiamento constante para ser melhor. Sofro para me despedir até do que não me serve mais, mantendo minha quota de liberdade viva com a ajuda de ilusões. Renunciei a esperança de ser inteiro. Eu queria um Amor que nunca mais soube sentir. Queria qualquer coragem que me livrasse de ser esta metade que me anestesia e me consome inteiro. Eu só tenho morrido exatamente por não viver. Passei a achar normal não ser feliz.”


“Sabe doutor, depois que o amor se vai, o que nos mata mesmo é não termos mais acertados destinos. Hoje sou uma angustiosa ausência de mim, um intervalo entre o amor e o nada a que me permiti. Sou mulher sem pressas nem vontades, não carrego mais pecados, não possuo mais virtudes. Para quê? O que quer que cultive não florescerá. Sou a agonia de um parto que se estende pelas madrugadas. A questão é que me tornei uma inexatidão pois, como caminhar com estes imprecisos passos para lugares de um futuro que meu coração dispensa?! Qual direção sabe minha própria alma? Sinto-me um incômodo para o porvir, uma pendência para os amanhãs. Se os homens são escravos de suas direções, disto doutor, eu estou livre. Eu me tornei apenas uma aparência, presa a si mesma e que continua sendo. Um eco que frustrado não se realizou. Nada mais espero das esperanças doutor, e meus sintomas são as únicas coisas que sinto. Ausente isto e não sentiria mais nada. Talvez fosse melhor. O meu sorrir é a minha mais sincera farsa; padeço de mentirosas possibilidades. Sofrer é o único sincero oficio que aprendi quando amor se despediu. Vivo por uma ingerência do tempo, um descuido da vida que se esqueceu de me esquecer. Queria um vício qualquer para me ocupar sabe? A me dar preocupações que me prendessem em algo e evitar que eu me perca diluído em mim. Acontece doutor, que o cigarro nem pra ter a decência de acender. O álcool nem pra derrubar minha atarantada lucidez. Ando bebendo a vida a conta-gotas para ao final derramar o que restou. Nem vocações para fantasma ando tendo. Salve-me doutor, pois nem o espelho reflete mais o que me tornei...”

“Há em nós a lucidez dos loucos, mas não daqueles loucos tão comuns que habitam este mundo em cada esquina. Somos da quota de loucos que não aceitaram suas prisões e que não entraram por liberalidade em suas gaiolas. Que não se amarraram ao outro com suas correntes. Somos da fração da loucura que abriu mão do dia-a-dia, do seu mais do mesmo. Há em nós a rebeldia dos que não se contentaram com o peso da realidade e abriram as novas portas -e as ideias- em busca de alcançar o horizonte...”
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 “Enraizados no ontem das nossas escolhas, custa-nos mover o mundo para habitarmos outro mais feliz, abandonando o que não nos serve mais. Enquanto a vida nos aponta repetidas razões para escolhermos o novo e com ele o risco de sermos felizes, preferimos nos apegar às justificativas e pretextos que criamos para nos mantermos no mais do mesmo e não sairmos do lugar. Vivemos presos à mesma ideia de que ainda poderemos ser felizes com o que não dá mais certo. Custa-nos tempo, energia e até equilíbrio para perceber que certas relações são hábitos e costumes, e o "amor", palavra oca na boca dos que repetem para anestesiar infelicidades e acreditar que mantém suas escolhas porque deliberadamente querem, não pelo medo dos vazios, carências e milhares de boas desculpas com que nos convencemos a ficar onde estamos, não arriscando nossos empoeirados confortos, nossa felicidade bem arrumada, nosso planejado fim de semana. Queremos a felicidade tendo medo de ser feliz. Um dia, medi os pesos e pesei as vantagens de ser feliz. Hoje sinto o gosto da liberdade.”


“Deveria ser proibido versarmos sobre liberdades e levezas enquanto não praticássemos os nossos perfumados e arrumadinhos verbos e quase sinceras frases de efeito. Deveríamos viver presos às nossas verdades sem chance nenhuma de qualquer fuga parcial, adiamento ou distração. Quem sabe, imersos e sufocados por inteiro e de uma só vez, sairíamos correndo das nossas prisões como quem desesperado busca o ar pra respirar. Quem sabe doer inteiro e não em doses homeopáticas seja a lembrança de que a felicidade não pode ser um placebo, tampouco parcelada. Por ora e enquanto não encaramos o espelho, o medo e o outro, pagamos os nossos pecados por sermos menos, ao mesmo tempo em que criamos outros pecados mais para pagar.”


“Amor, tenho urgências para dormir contigo. Sim, dormir para ganhar verdadeiras intimidades com teu corpo, com tua alma e com a tua despretensiosa e entregue horizontalidade. Preciso dormir contigo para despertar outras dimensões e vontades de ser teu. Quero dormir contigo para daqui em diante não mais te procurar no meu sonhar; desejo o descanso daquele que encontrou. Suplico para que durmamos juntos para ser contigo versão de mim que desconheces, a de que sou Amor mesmo em repouso; que embora inconsciente, sou resoluto e lúcido Amor. Logo eu, versado na arte dos descansos, contigo ainda não fiz dueto. Preciso dormir contigo para que esta seja minha incondicional rendição, quando desnudo dos medos e de mim próprio, permanecer tão-somente Amor para tuas presenças. Se fazer amor contigo é declaração de intensas sonoridades, quero agora me declarar para ti deitada sobre os silêncios. Preciso dormir contigo para, na verdade, adormecer as despedidas e, do outro lado da noite, saber você comigo nos dois lados de mim.”

“Você vem até aqui buscar por palavras que te aliviem das inevitáveis e acumuladas tristezas da vida. Você quer palavras que interpretem teus sonhos e revelem os propósitos da tua existência. Você procura por palavras que definam os indefinidos e indefiníveis dentro de ti. Você quer palavras em que identifiques o mapa dos teus interiores labirintos. Você anseia por palavras e previsões do teu próximo Amor ou o segredo e chave das tuas prisões. Palavras que serenem marés, tenham tons de milagre ou inovadoras percepções sobre os teus amanhãs. Você precisa de palavras como distração das ansiedades. Palavras que te salvem e que te curem. Que te confessem sem você precisar dizer nada. Você quer a sabedoria que em si mesma nunca encontrou. Por isso escrevo, para tentar salvarmos a todos nós, dissolvidos nos romances e nas entrelinhas. Você quer uma poesia além das páginas, no contorno dos teus caminhos. Eu também; eu busco o mesmo que você. Quem sabe um dia eu encontre entre tantas linhas, aquelas que saibam o nosso nome.”


“Como não sabemos o valor do que mora dentro; como não nos ensinaram a enxergar o que somos e quem realmente somos, através dos olhos dos outros nos reconhecemos. O nosso valor então, deixa de ser intrínseco e se torna fluído numa precária verdade, por aquilo que vestimos, pelo carro que compramos e pelo que demais ostentamos. A nossa medida é dita pelo que temos e não pelo que somos; coisa que ninguém, além de nós mesmos, podemos saber. A riqueza é mero reflexo da superfície; frágil por sinal. Assim, um sopro, um elogio ou uma crítica sempre nos atingirá e nos balançará, sejam elas sinceras ou não. Bem aventurados aqueles que fecharam os olhos e então souberam quem realmente são, para além das coisas do mundo.”


“Sou meus cigarros à sua espera; sou meu café e mais dezenas de canais sem nada demais e que não me distraem. O que me resta hoje é uma madrugada infinita, insone e triste; em que vou preenchendo meus vazios e cultivando minha desmedida aflição, sem tuas palavras a me falar sobre a vida, sem tuas cores a brilhar os meus olhos, sem tua música para os meus ouvidos. Pois era você quem tanto se fazia presente aqui dentro a me distrair da vida lá fora. Tantos anos contigo e desde o começo você me encantou. Não te namorei porque isso era impossível, você bem sabe. O tempo passou e incontáveis foram os meus sorrisos, minha inteira entrega e fiel devoção. Os muitos problemas que tivemos nunca diminuíram minha admiração ou minha atração por você. És sedutora como jamais pensei que pudesses ser. E entre altos e baixos, agora era demais. O teu silêncio tornou minha casa insuportável. Tua ausência denunciou que eu não sei mais o que fazer longe de ti. Se você não retornar até amanhã, não saberei dizer o que será de mim, ou dos meus dias seguintes. Vou ligar para quem deva ouvir meu desespero. Gritar minhas ruínas. Exigir o tempo que não volta mais. A minha internet sem conexão. O atendimento ao cliente é péssimo.”


“Pois bem! Paremos então de ser movidos por romances como se na vida nós só nos movêssemos por eles. Paremos de ser romanticóides! A vida na sua própria realidade já contém a quota de poesia necessária aos olhos e à própria vida. Não precisamos viver de livros de banca de jornal, novela das oito ou de escritoras-pop pra consumir e ter aquilo que não temos. Não precisamos acreditar na ideia de que só seremos inteiros dizendo sim no altar ou num cavalo branco a nos levar em direção a ideia de um amor-eterno. O mundo está recheado de amor-eterno que no dia seguinte se torna outra coisa. E não, não há erro nem pecado em desfazer os laços e escolher com outro a versão mais nobre de si. As nossas escolhas diariamente nos definem; ainda que sejam as mesmas. Não precisamos aceitar que a nossa vida é cinza porque não se sente borboletas no estômago ou porque não somos correspondidos. A angústia e o vazio nascem por acreditarmos em histórias pra boi dormir e idealizar a vida como pano de fundo para nossos romances com finais felizes de príncipes encantados. A vida não é isso, a vida não é só isso. Ela vai bem além. E o Amor,  o Amor é outra coisa.”

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