E se eu te disser
que não quero que a brincadeira acabe mais
você me perdoa?
Não quero sentir aquele
estúpido silêncio de elevador
de hoje cedo
não quero suas perguntas inconsequentes,
suas dúvidas infantis.
não quero que você me entenda,
nem eu te entendo mais.
não é amor.
eu te juro que não é paixão.
apenas não gosto de dormir sozinha
e nosso sexo nunca foi
fundamental.
ironia,
destino?
vamos ser amigos
até onde pudermos ser.
só me deixe dormir mais um pouco
antes de irmos pro bar…"
"todos os poemas que eu escrevi
- Quase todos-
Eu fiz pra um homem.
Uma paixão.
Às vezes num mesmo poema, misturo dois ou três
Numa espécie de coquetel de detalhes e recordações.
Engraçado é que alguns se identificam
Se enxergam naquele poema maltrapilho,
naquele poema
adolescente, inconsequente,
quase pueril,
que faço à noite
quando todos já foram dormir
Tem os poemas pros homens inalcançáveis,
Aqueles que admiramos,
na surdina,
Com medo que alguém perceba
E assim o encanto se acabe.
Por isso, os chamo de poemas platônicos.
Muitas vezes esses ficam até bons,
Pena que quase sempre
seja impossível uma dedicatória.
Tem os dos rápidos affaires,
que idealizei, e que, logo depois
o mistério se dissipou
E aí só restaram os poemas - ruins –
Que usei pra conquistá-los.
As grandes paixões estão espalhadas
Em todos eles
Um relance, um olhar
Uma fisgada de dor
Do amor que se acabou.
Tem também as conquistas
Sim, poemas também podem ser feitos pra um objetivo banal
Como dormir com um homem
E esperar jamais ouvir falar dele depois.
No meio desses poemas fajutos,
uma amosfera fake
de fingir que sou alguém
que se interessa por ele
A ponto de, na madrugada, unir palavras
aleatórias,
em busca de um sentido exato.
Mas meus poemas mancos talvez sejam
A minha verdadeira e inalcançável
Redenção."
"
Fale de mim.
Da minha poesia, não.
Fale das minhas atitudes impensadas,
que meu penteado é ridículo.
Da minha poesia, não.
Fale de minhas bebedeiras homéricas, meus vexames públicos.
Dos cheques devolvidos, do meu guarda-roupa revirado,
diga que sou inconsequente, tacanha, piranha…
Fale da minha roupa indecente, meus casos mal resolvidos,
meu ataques de nervos, de risos,
lágrimas mal colocadas.
só não quero que você mexa com a minha poesia.
Minha poesia é seu Vietnã
Minha poesia está no limite
de onde você possa ou não estar
Intransponível. Inatingível. Soberana.
Eu.
Minha poesia é a Amazônia, e você não sai daqui.
Jamais toque na minha poesia,
mesmo ela sendo
ruim,
infantil, repetitiva
ou idiota.
Minha poesia é meu consolo,
salvação,
meu karma
Minha poesia me basta.
Não você."
"Currículo
Posso te dizer
que não sou chegada a luxos,
garanto não ser ligada a compras e futilidades,
passeios em shoppings,
e jamais me verá num vestido branco,
ao som da marcha nupcial.
Pode, sim, me ver por aí,
no boteco,
na rua, pensativa,
falando besteiras e teorias conspiratórias,
bebendo algum destilado,
suspeito.
Não me interprete mal:
gosto do que é bom,
mas me acostumo com o que posso,
me acostumei com ter e não ter,
-claro que a idade já pede um whisky bom-
mas se faltar, dá-se um jeito…
Posso falar demais -
recitar sempre a mesma poesia,
ser persona non grata,
ou a rainha da festa,
endeusar Clapton,
chorar ouvindo blues,
mas, mesmo cansada de tudo,
sempre sorrio pros amigos -
ainda que escondido.
Gosto mais de ficar só,
do que em multidões,
embora sempre cercada,
vou comigo
onde quer que eu vá.
Há tempos deixei de sonhar,
sempre curti o bandido e
mandei o mocinho se danar.
Acho que ler é o melhor remédio pra ressaca,
e transar nunca teve muito a ver com amor.
Claro que minto a idade,
claro que finjo ser
normal, feliz, educada
Mas tenho minhas razões
pra disfarçar
A poesia expõe demais
feridas abertas,
que não cicatrizam
e algumas que a gente nem sabia
que estavam lá.
Dizem que meus olhos tem vida,
que não sou dublê, figurante
da puta da vida
Só sei que sou viva,
embora alguns dias,
nem queira estar.