domingo, 26 de abril de 2015

Todo Errado - Mario Bortolotto

Não tem essa de ficar esquisito. Vc já nasce assim. Na sua inocência infantil você não percebe, mas já tá tudo lá. E seus pobres pais não estavam preparados para orientar o filho errado. Mesmo pq o que os pais mais desejam é que o filho trilhe o caminho certo (?) Mas quando vc vai crescendo, percebe que tem algo errado. Que algo não se encaixa. E aos poucos vc descobre que quem não se encaixa é você. Então vc começa a andar com as pessoas erradas (?), a ler os livros errados (?) e ouvir a música errada (?) e frequentar os lugares errados (bares vazios, bibliotecas, cinemas no fim da tarde). E tudo vai se clareando. Então é só contar os minutos pra dar o estalo em sua cabeça. Vc descobre que não há saída. Que vc está condenado. A ser errado. Alguns até tentam fugir. E buscar caminhos certos. E até conseguem. Ou pelo menos se enganam que sim. E conseguem os empregos certos, o cônjuge certo, os filhos certos, o deus que orienta sua vida certa. Então à noite, ele levanta da cama, olha pela janela e sente um frio na barriga e um desespero que ele não consegue diagnosticar. Pq sua vida parece que está toda certa. Mas na verdade ele sabe que foi um erro. Um erro que não vai dar mais tempo de corrigir. Pq a vida dando certa (?) ou errada (?) vai ter um fim. E essa é a única certeza em nossas vidas erradas (?)

domingo, 29 de março de 2015

Reinaldo Moraes, no livro Tanto faz & Abacaxi



“Um exilado amigo meu comparou a angustia a um urso negro que chega de mansinho por trás do freguês e lhe toca o ombro com a pata felpuda. De leve. Se o sujeito bobear, o urso lhe pula em cima, faz o maior estrago. Um perigo.

Pra mim, a angustia é um gato vira-lata com patas de pluma e corpo de chumbo. Sinto suas andanças dentro da caixa do peito, mas nunca sei onde ele está exatamente.”

“A gente se gosta sem alarde, sem futuro.”

“Ontem o sassarico rendeu que foi uma beleza. Tem horas que esse negócio de sexo até que dá certo. Acho que perdi a obsessão da penetração. Estou pondo em prática as teorias antimachistas que ajudo o Chico a desenvolver nas mesas de bar. Não estou mais dando muita bola pro meu pau. Quer subir, sobe; não quer, foda-se. Penso em outra coisa. Chega de fissura na cama, adiar meu gozo pra companheira gozar duzentas vezes, dar logo a segundinha, a terceira, a quarta... a milésima. Mostrar serviço. Never more, major. Não sou cowboy nem cangaceiro. Quero ser um dândi suave, feminino, distraído. Mulher entre as mulheres. O lésbico de que falava Baudelaire.”

“- Os amantes? Ora, os amantes... os amantes são aqueles canalhas adoráveis em quem o homem e a mulher pensam quando estão trepando com os respectivos cônjuges.”

“ – Mas é justamente esse o grande dilema da puta da vida, Marisa: ser cônjuge ou ser amante? Ter marido pode até ser muito confortável pra uma mulher, e vice versa. Alguém devia pesquisar os casamentos ditos felizes para saber como é que funciona esse troço. Porque eu conheço muitos casamentos que se seguram nos ganchos mais loucos. O Chico mesmo tem uma prima casada que recebe uma mesada especial do marido adivinha pra fazer o quê?
- Menor ideia.
- Pra coçar o saco do cidadão antes de dormir. Verdade; a fulana faz-lhe um cafuné no saco e o cara dorme de perna aberta, feliz como um buda depois de uma feijoada. E, como esse, deve ter porradas de casamentos que se seguram nessas artes, numa bela chave de buceta, no tamanho privilegiado de um cacete. Cê não acha?”

“- Me recuso a dar pro carinha, de manhã, se ele já acordar de pau ready-made. Tesão de mijo não vale. Tem que começar do zero.”


“Meu coração vai explodir qualquer dia desses e abrir um buraco no meu peito, como esses que se abrem no meio da rua quando se rompe um duto de águas públicas no subsolo.”



domingo, 15 de fevereiro de 2015

Efraim Medina Reyes, no livro Pistoleiros, putas e dementes


“Uma mulher feia tem duas opções: se matar ou criar um estilo. A pior coisa que uma mulher feia pode fazer é fingir que não é feia, isto é quase tão ruim quanto não ter um pingo de beleza. É o tipo de coisa que desarcoçoa os caras simpáticos.
Não que uma mulher feia seja incapaz de ficar bonita um dia. Mas não lhe convém. Uma vez adquirido, o estilo a acompanha para sempre. Planejar a beleza e complicado e mantê-la, um verdadeiro imbróglio. Não é por acaso que as bonitas se suicidam mais frequentemente.
A beleza não é um estilo, mas o supre bastante bem, até que apodrece. A feia, no pior dos casos, só pode ficar mais feia, e isto em certo sentido é uma melhora. A beleza corre todos os riscos e não tem álibi.”



sábado, 24 de janeiro de 2015

Diego Moraes

Não sou eu que vai abraçar orelhões quando as fichas acabarem
Não sou eu que vai pedir para o tatuador apagar as iniciais do teu nome
Não sou eu que vai recair
Não sou eu que vai entupir o nariz de pó na tentativa de tapar o buraco da saudade
Não sou eu que vai chorar no canto mais escuro do bar escutando Belchior
Não sou eu que vai ligar para um amigo falando que o peito está pesando demais
Não sou eu que vai amarrar a corda no pescoço
A poesia já me defendeu do desespero que é viver longe do teu amor.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Mario Bortolotto, no livro Bagana na chuva

“A noite não perdoa quem não está preparado para ela. Às vezes eu penso o quanto nossos heróis podem nos fazer mal se estivermos mal preparados. E no quanto somos responsáveis pelas coisas que escrevemos. Uma vez, li em algum lugar que os livros podem mudar a vida das pessoas. Sempre penso nisso quando escrevo, embora acredite sinceramente que eu não tenha tanto poder assim, mas como é que eu vou saber o que pode passar pela cabeça de um garoto belicoso ao ler o que escrevo? Será que ele está realmente entendendo aonde quero chegar? Não quero fazer apologia de nada. Apenas passo minha visão vagabunda do mundo em que vivo. E se não vejo o mundo com olhos puros de quem acredita nele, não tenho que pagar por isso, e nem quero que algum leitor inocente um dia venha a fazer isso. As coisas que vejo me deixam muito triste, às vezes furioso, e realmente tenho vontade de sair distribuindo pancadas em pessoas, em orelhões, em muros de concreto. Mas ninguém deve fazer o mesmo. Há livros de certos autores que deviam vir com a oportuna advertência: “manter fora do alcance das crianças. Material altamente nocivo à juventude inocente que um dia ainda pode se dar bem”. Ninguém pode fazer mais nada por sujeitos como nós. Alguém ainda pode fazer algo por eles.”


“Há algo de profundamente triste em não sentir falta de alguém que não vai voltar.”

“Tinha uma garota que era afim de dar pra mim, é engraçado, pernóstico até dizer isso assim, dessa maneira, mas é que ela era mesmo afim de dar pra mim. quer dizer, ela nunca chegou pra mim e disse isso assim, na lata, mas era a fim. Eu também era a fim de mandar ver por ali. Às vezes acontece da mulher ser a fim de dar pra você e você não querer comer, é raro, mas acontece, mas no caso dela, eu era a fim, e agora pensando nisso, por que não rolou? O nome dela era Paula. Eu tava com a Angela em algum boteco e ela chegava, sentava com a gente e falava, falava – sabe como é – ai ela ia embora. Angela me olhava e detonava.
‘Essa vaca é a fim de dar pra você’.
‘Ah, que ideia.’
‘Vai ter coragem de dizer que você não sacou?’
‘Não creio que este seja um assunto estimulante a ponto da gente levar adiante.’

E assim eu ia enrolando, mas ela a fim mesmo.”


“Não é necessário uma doença terminal para descobrir a urgência da descoberta. As pessoas esperam tempo demais.”


“Não suporto neguinho tocando violão em bares. Quem contratou esses sujeitos para me encher o saco?”


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

série Sons of Anarchy











“Tem um velho ditado que diz que o que não te mata te faz mais forte. Eu não acredito nisso. Eu acho que as coisas que tentam matá-lo o fazem ficar irritado e triste. A força vem de coisas boas: sua família, seus amigos... da satisfação de um dia duro de trabalho. Essas são as coisas que te mantem inteiro, são nessas coisas que você se agarra quando está destruído.”
Jax Teller, na série Sons of Anarchy (T5, E1)

Sylvia Plath, no livro A redoma de vidro

“Imagino que eu deveria estar entusiasmada como a maioria das outras garotas, mas eu não conseguia me comover com nada. Me sentia muito calma e muito vazia, do jeito que um olho de um tornado deve se sentir, movendo-se pacatamente em meio ao turbilhão que o rodeia.”

“Se tem uma coisa que eu desprezo é homem vestido de azul. Preto ou cinza tudo bem, marrom até vai. Azul me dá vontade de cair na gargalhada.”                             


“Comecei a pensar que talvez vodca fosse meu tipo de bebida. Não tinha gosto de nada, mas descia para meu estomago como a espada de um engolidor, fazendo com que me sentisse poderosa feito uma deusa.”


Sylvia Plath, no livro A redoma de vidro