sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Rubem Alves


Exame de admissão ao doutoramento

Quando eu ainda era professor universitário, fui nomeado presidente de uma comissão que iria examinar os candidatos ao doutoramento. Uma longa lista de livros havia sido preparada com antecedência, livros que os candidatos deveriam estudar. Ai no dia do exame eu tive uma ideia que submeti aos meus colegas e eles concordaram. Em vez de inquirir os candidatos sobre ideias de outros escritas nos livros, ideias que nós já conhecíamos, por que não pedir que eles nos falassem sobre suas próprias ideias? Falando sobre suas ideias teríamos condições de conhece-los melhor. Assim, quando o candidato passava pela porta da sala, trêmulo, esperando as perguntas terríveis sobre a bibliografia, eu lhe pedia: “por favor, fale-nos sobre aquilo que você gostaria de falar...”. Pensei que isso seria uma felicidade: falar sobre aquilo que pensavam! Foi não. Foi um choque. De tanto ler o que os outros pensavam, eles se haviam esquecido daquilo que eles mesmos pensavam. Uma jovem entrou em surto, achando que se tratava de um truque. Poucos tiveram ideias sobre o que falar. O que nos levou a pensar que talvez seja isso que acontece: de tanto ler as ideias de outros, os alunos se esquecem de que eles também podem pensar e que o seu pensamento é importante. Excesso de leitura pode fazer mal à inteligência. Com o que concorda Schopenhauer: “É o caso de muitos eruditos: leram até ficar estúpidos. Porque a leitura contínua, retomada a todo instante, paralisa o espírito...”. E em oposição àqueles que ensinam leitura dinâmica, Schopenhauer afirma que a leitura só é boa quando é bovina, quando leva à ruminação.
(No livro Ostra feliz não faz pérola.)

“Um conselho: se você amou muito um lugar, não faça a besteira de ir visita-lo. Porque você vai visitar pensando que vai encontrar o tempo, mas o tempo não está mais lá. É melhor você ficar com a imagem na sua cabeça.”

“O Guimarães Rosa tem uma frase verdadeira: ‘Alegria, só em raros momentos de distração’. Agora, a felicidade aqui da minha varanda é ver os ipês, que teimam em florescer. Para florescer eles têm que perder todas as folhas.”

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