Talvez eu tenha sido mordida pelo bicho que faz dar vontade de escrever
textão no dia da virada do ano. 2016 foi um ano do caralho. Tive dias de
tristeza extrema, chorei como nunca pensei que iria chorar, senti
aquele tipo de dor que parece ser inconsolável e tive vontade de trocar
de lugar com uma amiga pra ver o sofrimento dela amenizado nem que fosse
por algumas horas. Tentei imaginar minha vida sem uma pessoa, e passei
três dias com o coração apertado e desconcertado, e só
de pensar quase fiquei doente. Aprendi a arte de conviver e extrair
coisas positivas de situações que em dias passados teria chutado o pau
da barraca. Ao mesmo tempo em que fiquei mais sem paciência pra certas
coisas, aprendi a tolerar outras com a paciência de um monge. Aprendi a
dar mais valor a pequenos momentos com pessoas queridas, e enquanto
esperava por novos momentos, aprendi também a valorizar essa espera e
fazer dela um momento produtivo.
Não só nesse ano, diria eu que nos
últimos anos, tenho aprendido cada dia a julgar menos e a me colocar no
lugar do outro cada dia mais. As pessoas carregam histórias, alegrias,
dores, sentimentos que a gente nem pode imaginar, e a gente não perde
nada por ser simpático e amável com as pessoas.
Tive uma boa relação
com dinheiro esse ano. Estabilidade no emprego te traz pontos
negativos, mas no modelo de sociedade em que vivemos, traz muito mais
pontos positivos. Mas como diria Bukowski “os anos de pobreza me
tornaram cauteloso”. Não que eu não seja pobre hoje, sou sim, mas diria
que sou pobre com uma certa “fartura” se é que me entendem rs. Não tem
mérito nenhum em ajudar quem a gente gosta, mas poder ajudar a esses já é
de grande valia em tempos de crise.
O que esperar em 2017? Que a vida sorria pra gente, ou que ao menos a gente aprenda a sorrir pra ela.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2017
DOIS MINUTOS DE SILÊNCIO - Mário Bortolotto
Ele
aguentou ela falando de ioga, krav magá e tratamentos terapêuticos
Ela
aguentou ele falando com pavor de exames de toque retal
e tentando forçar um elogio para o tamanho do seu pau
Ele
aguentou as suas amigas histéricas nos piores bares hipsters falando de regenerador celular com pepino e lifting
Ela
aguentou ele e seus amigos estridentes em bares execráveis com telão gritando em jogos da porra do seu time
Ele
aguentou ela falando coisas como “a vida não pode ser só isso”
Ela
aguentou ele trocando ideia (e em muitos momentos até concordando) com um motorista de táxi reaça
Ele
aguentou ela falando em abdução por alienígenas super desenvolvidos
Ela
aguentou ele falando da urgência de comprar um Knight XV
Ele
raspou a cabeça
e aguentou ela dizendo que assim ele parecia o Ben Kingsley interpretando o Ghandi
Ela
aguentou ele falando sobre o que ele chamava de “sortilégios do coração”
Ele
aguentou ela falando sobre réveillon em Cabo Frio
Ela
aguentou ele falando sobre montar presépio na noite de Natal
Ele
aguentou ela falando sobre Iemanjá e banhos de mar a fim de lavar as impurezas do ano que passou (foi assim mesmo que ela falou)
Ela
Aguentou a sogra falando os amigos dele falando e contando bravatas e todos os fogos de artifício e os bilhetes de corrida e as multas de trânsito
Ele
aguentou a sogra falando os amigos dela falando
e aquele Shih Tzu tarado escalando libidinosamente a sua perna
Eles aguentaram tanto ruído desnecessário
só pra que pudessem depois de tudo
ficarem simplesmente abraçados
no fim da noite, no fim do sexo
olhando para o teto que não lhes dizia porra nenhuma
naqueles inegociáveis dois minutos de silencio.
só pra que pudessem depois de tudo
ficarem simplesmente abraçados
no fim da noite, no fim do sexo
olhando para o teto que não lhes dizia porra nenhuma
naqueles inegociáveis dois minutos de silencio.
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