sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Sobre urubus e beija-flores – Rubem Alves


Eu estava terminando a leitura de um artigo científico. De vez em quando é bom ler ciência. A gente fica mais sabido. Tudo explicadinho. No final das contas, tudo se deve a esse gigantesco infinitamente pequeno disquete que existe dentro das células do corpo chamado DNA. Nele está gravado o nosso destino. Antes de existir, eu já estava “programado” inteiro: a cor dos meus olhos, as linhas do meu rosto, a minha altura, os cabelos brancos precoces, o seu adeus que nada consegue evitar, o sexo. Dizem alguns que lá está até um relógio que marca quantos anos eu vou viver. E é implacável: o que a natureza põe, não há homem que disponha.

Programa mais complicado que o DNA não existe. Tudo tem de acontecer direitinho, na ordem certa. E quase sempre acontece. Quase sempre… Vez por outra uma coisinha não acontece segundo o programado. E o resultado é uma coisa diferente. Assim aparecem os daltônicos, que não vêem as cores do jeito como a maioria vê. Ou o canhoto, que tem de tocar violão ao contrário. De vez em quando, uma criança com síndrome de Down. E quem não me garante que Mozart não foi também um equívoco do DNA? Pelo que sei, a receita não se repetiu até hoje…

O artigo prosseguia para mostrar que é assim que, vez por outra, aparecem pessoas com uma sensibilidade sexual diferente: os homossexuais. Tudo aconteceu lá no DNA: um relezinho que funcionou de maneira não programada. Primeiro, caiu o relê que determina o sexo, se vai ser homem ou mulher. Depois, o relê que determina os caracteres secundários, que fazem a “imagem” do homem e da mulher. Por fim, o relê que determina o objeto que vai disparar as reações químicas e hidráulicas necessárias para o ato sexual. Esse objeto é uma imagem. Nos heterossexuais, é a imagem de uma mulher. Nas mulheres heterossexuais, é a imagem de um homem que faz o seu corpo estremecer.

Acontece, entretanto, que por vezes esse último relê não funciona e a pessoa fica ligada à imagem do seu próprio sexo. A imagem que vai como­ver seu corpo é uma imagem semelhante à sua. E isso que é ser homossexual. O homossexualismo é uma condição estética.
Tudo por obra do DNA. Nada tem a ver com educação, com a mãe ou com o pai. Ninguém é culpado, pois culpa só pode existir quando existe uma escolha. Mas ninguém escolheu. Foi o DNA que fez. E nem pode ser pecado. Pois pecado só existe onde existe culpa. E nem pode ser curado, pois o que a natureza fez não pode ser desfeito.

E foi nesse momento eu estava meditando sobre essas coisas que fogem à compreensão dos homens, como a origem do DNA, o processo pelo qual ele foi estabelecido, se por acidente, se por tentativa e erro, se por obra de algum programador invisível — que uma coisa estranha aconteceu: um barulho como eu nunca ouvira, no meu jardim. Tirei os olhos do artigo, olhei através do vidro da janela e o que vi — inacreditável — um urubu, sim um urubu, batendo furiosamente as asas como s fosse um beija-flor, diante de uma flor de alamanda sugando o melzinho. Achei que estava tendo alucinação, mas não. Era verdade. O urubu, ao ver meu espanto, pousou no galho de uma árvore de sândalo e começou a se explicar, do jeito mesmo que acontecia.
“Sofro muito. Nasci diferente. Urubu, todo mundo sabe, gosta de carniça. Basta que se anuncie carcaça de algum cavalo morto, os olhos dos urubus ficam brilhando, a saliva escorre pelos cantos do bicos, a língua fica de fora — e lá vão eles churrasquear. Urubu acha carniça coisa fina, manjar divino! Eles não a trocariam por uma flor de alamanda por nada nesse mundo! Mas eu nasci diferente. Meus pais, coitados, morreram de vergonha quando ficaram sabendo que eu, às escondidas, sugava o mel das flores. Compreensível. O sonho de todo pai é ter um filho normal, isto é, igual a todos. Urubu normal gosta de carniça. Eu não gostava. Era anormal. Fiquei sendo objeto de zombaria. Na escola, logo descobriram minhas preferências alimentares. E impossível esconder. Se todo o mundo está comendo carniça e você não come, que explicação você pode dar?

Aí meus pais começaram a sofrer, pensando que eu era assim por causa de alguma coisa errada que tinham feito na minha educação.
Me mandaram para o padre. Severo, ele abriu um livro sagrado e disse que Deus, o Grande Urubu, estabelecera que carniça é o manjar divino. Urubu, por natureza e por vontade divina, tem de comer carniça. Chupar mel é contra a natureza. Urubu que chupa mel de flor está em pecado mortal. Ter­minou dizendo que eu iria para o inferno se não mudasse meus hábitos alimentares. E me deu, como penitência, participar de cinco churrascos.

Saí de lá me sentindo o mais miserável dos pecadores. Mas o medo não foi capaz de mudar o meu amor pelas flores. Não cumpri a penitência. Meus pais me mandaram, então, para um psicanalista que cobrava R$120,00 por sessão. Todos os sacrifícios são válidos para fazer o filho ficar normal. A análise durou vários anos. Ao final, fui informado que eu gostava de mel porque odiava meu pai, a quem eu queria matar, para ficar sozinho com a minha mãe. Aí, além de pecador, passei a sofrer a maldição de Édipo. Continuei a gostar do mel da flores. Por isso estou aqui, no seu jardim”.

Houve um momento de silêncio e eu vi o que nunca havia visto: um urubu chorando. Notei que suas lágrimas não eram diferentes das minhas.

Aí ele continuou:
“Gosto das flores. Não quero gostar de carniça. Não quero ficar igual aos outros. Só tenho um desejo: gostaria de não ter vergonha, gostaria que não zombassem de mim, chamando-me de ‘beija flor’, eu não sou beija-flor. Sou um urubu. Eu gostaria de ter amigos…

O que me dói não é a minha preferência alimentar, pois não fui eu quem me fiz assim. O que me dói é minha solidão. Gosto de flores por culpa do DNA. Mas a minha solidão é por culpa dos outros urubus, que poderiam ser meus amigos”. Ditas essas palavras, ele se despediu e voou par uma alamanda do jardim vizinho.


E eu fiquei a pensar que o mundo seria mais feliz se todos pudessem se alimentar do que gostam, sem ter de se esconder ou se explicar. Afinal ninguém é culpado por aquilo que a natureza faz ou deixou de fazer.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Não deixe - Charles Bukowski (Tradução Jao)


Não deixe as pessoas serem
seu alicerce.
nem as garotas jovens
nem as garotas velhas
nem os homens jovens
nem os homens velhos
nem aqueles no meio-termo
nenhum deles,
não deixe as pessoas serem
seu alicerce.

Ao invés disso
construa na areia
construa no lixão
construa na fossa
construa nos túmulos
construa na água,
mas não construa nas
pessoas.

Elas são uma aposta ruim,
a pior aposta que você pode fazer.

Construa em outro lugar,
qualquer outro,
qualquer
mas não nas pessoas,
massas
sem cabeça, sem coração
emporcalhando os
séculos,
os dias,
as noites,
as cidades, os municípios,
as nações,
a Terra,
a estratosfera,
emporcalhando a
luz,
emporcalhando todas
as chances,
aqui,
emporcalhando completamente
tudo
agora
e amanhã.

Qualquer coisa
comparada às pessoas,
é um alicerce melhor a se procurar.

Qualquer coisa.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Onde enfiar - Charles Bukowski

Não me culpe se seu carro quebra na rodovia.
Não me culpe se sua mulher vai embora.
Não me culpe se você foi pra guerra e descobriu que pessoas matam.

Não me cupê por você ter assassinado 4 anos votando no cara errado.
Não me culpe por a transa às vezes falhar.

Não me culpe se eu não atendo o telefone e não consigo assistir tv.

Não me culpe pelo seu pai.
Não me culpe pela igreja da esquina.
Não me culpe pela bomba de hidrogênio.

Me culpe se você estiver lendo isso.
Não me culpe se você não entender.

Não me culpe pelo mundo fervilhando de assassinos.
Não me culpe se você é um deles.
Culpe seu pai.
Culpe a igreja da esquina.

Não me culpe pelo natal ou o feriado da independência.
Culpe qualquer fudido que você quiser mas não me culpe.

Não me culpe pelos sem-teto.
Não me culpe por 162 jogos de beisebol todo ano.
Não me culpe pelo basquete.

Não me culpe por não querer entrar em elevadores cheios de gente.
Não me culpe por não ter um herói.
Não me culpe por não criar um.

Não me culpe por ficar aturdido com a risada das massas.
Não me culpe por rir sozinho.

Não me culpe pelo enjaulamento do tigre.
Não me culpe por que minha morte não será temível,


Mas não culpe a si mesmo.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Por quê? - Rubem Alves

As religiões, todas elas, na medida em que as conheço, possuem respostas para a pergunta por quê. A resposta que todas dão é a mesma. Diferenças? Nada mais que variações sobre um mesmo tema. E o que todas dizem é que Deus é a causa da dor (não importa como elas pensam que Deus é). É Deus que nos faz sofrer. Sofremos porque Deus quer. Se ele não quisesse, não sofreríamos. Lembro-me de um hino que eu cantava (ainda canto, de vez em quando, a música é bonita. Na beleza da música, freqüentemente navegam palavras absurdas!) e que dizia: “Não há dor que seja sem divino fim”. Se assim é, a dor é meio para os propósitos divinos. A dor é ferramenta de Deus. Artífice terrível ele é! E se a dor é dada por Deus, temos de ser gratos por ela. Deveria haver celebrações litúrgicas em seu louvor. O sofrimento é o avesso horrendo de uma tapeçaria cujo lado direito, maravilhoso, só Deus conhece.
Tem de ser assim? Tem de ser assim. É uma exigência da lógica. Os teólogos todos concordam em que Deus tem de ser onipotente. Se não for onipotente, ele não é Deus. Um Deus fraco é impensável. Assim, tudo o que acontece no universo acontece pela sua vontade. Se coisa houvesse que acontecesse à revelia da vontade de Deus, ele não seria onipotente. A lógica exige que para que Deus continue a ser Deus, a dor seja produzida por ele.
Por que Deus nos faz sofrer? A resposta mais comum é que a dor é um castigo divino por nossa desobediência. Deus é como Papai Noel: dá presentes para os meninos bonzinhos. Fosse verdadeira essa explicação os maus deveriam viver em desertos tórridos e os bons, em oásis verdejantes. E seria uma vantagem enorme fazer o que Deus manda: garantia de que o nenezinho jamais nasceria com Síndrome de Down, nossos filhos pequenos jamais teriam câncer, nossos filhos adolescentes jamais morreriam em acidentes, os negócios sempre iriam bem, o casamento seria feliz, a velhice seria tranqüila. E o sofrimento, além da dor, seria motivo de vergonha. Pois somente são castigados os pecadores pelos seus pecados. E assim, o mundo se dividiria entre os que não sofrem, evidência da sua inocência, e os que sofrem, evidência da sua culpa. Pobres viúvas desamparadas, pobres enfermos nos leitos de dor, pobres crianças famintas: todos sofrendo pelo justo dedo de Deus que dá prêmios aos justos e castigos aos injustos. Pascal fez uma curta anotação num dos seus cadernos: “Deus de Jesus Cristo, não o Deus dos filósofos”. Esse Deus que dá prêmios aos bons e castigos aos maus é, com certeza, o Deus dos filósofos, nascido das exigências lógicas. Deus de Jesus Cristo – é certo que ele não é. Pois ele, absurdamente, faz o seu sol nascer sobre bons e maus, e a sua chuva descer sobre justos e injustos. O Pai não soma créditos. O Pai não soma débitos. Está lá dito, na parábola chamada O filho pródigo.
Por que Deus nos faz sofrer? Respondem outros que é por razões pedagógicas. O sofrimento nos torna melhores. O sofrimento nos faz evoluir. É a pedagogia da palmatória: as crianças aprendendo não pelo amor ao saber mas pela dor. É a filosofia das penitenciárias: pelo sofrimento os homens maus ficam bons. E assim poderíamos contemplar o maravilhoso espetáculo: pela porta de entrada das prisões, entrando, os criminosos de rosto duro e cruel. E muitos anos depois, após sofrimentos sem medida, pela porta de saída, saindo, os rostos angelicais dos que haviam entrado como criminosos, transformados pelo poder da dor.
Não, não é verdade que o sofrimento torna melhores as pessoas. O sofrimento freqüentemente embrutece, tira a sensibilidade, tira a esperança, torna cruéis as pessoas. Um Deus – ou força cósmica – que usasse o sofrimento para a evolução seria muito curto de inteligência – não saberia aquilo que os homens aprenderam: que a única força capaz de fazer as pessoas ficarem melhores é o amor. E que sentido haveria em falar de evolução em relação à criancinha que sofre e morre sem ter tempo de viver? E chegaríamos então à ridícula conclusão de que os que não estão sofrendo são espíritos evoluídos, que não precisam da pedagogia da tortura, enquanto os que estão sofrendo são espíritos atrasados.
E aí eu me horrorizo com um universo assim, que seja movido pela dor dos homens. Me horrorizo com um Deus – ou força cósmica – onipotente. É impossível amá-lo! Somente um demônio seria capaz de imaginar um universo movido a dor! (Prefiro imaginar que o universo seja movido pelo poder do amor e da alegria!).
Estou olhando um pôster, pendurado na minha parede, de um vitral da catedral gótica de Chartres: a Nossa Senhora Azul, com o Menino Jesus. É de grande beleza! Na minha fantasia, de repente, uma pedra vinda do vazio parte o vitral. Os cacos coloridos se espalham pelo chão. Foi-se a beleza! Foram-se o rosto da Madona e o da criança. Gritam as pessoas: “Por quê?” Respondem as explicações religiosas: “Foi Deus que jogou a pedra.” Seria possível amar um Deus assim?
Mas, do vazio – voz de herege – se ouve outra resposta:
Não há resposta. Não há um “porque” que responda ao “por quê?” Não há razões. Ninguém lançou a pedra. Deus não lançou. Deus não queria. Ele amava o vitral. Está triste. Foi acidente. Um meteoro. Nem tudo é Deus que faz. Poderia ter caído em outro lugar. A dor é simplesmente dor, sem sentido, sem um divino fim.
E aí, olhando para os cacos do vitral espalhados pelo chão, sem sentido, vê-se um vulto, catando os cacos, um a um, e pacientemente os arranjando de novo, como um quebra-cabeça.
Num Deus assim eu gostaria de acreditar. Um Deus assim eu poderia
amar. E até me juntaria a ele, ajudando-o a catar os cacos.

citações - Charles Bukowski

Quando me penso morto 
penso em alguém fazendo amor com você
quando não estou por perto.
(quando me penso morto - O Amor é um cão dos diabos.)

E você me inventou
e eu inventei você 
e é por isso que nós não 
damos
mais certo
nesta cama.
você era a maior invenção
do mundo 
até que resolveu me mandar descarga 
abaixo.
(camas, banheiros, você e eu...- O Amor é um cão dos diabos.) 

às vezes, quando uma mulher corre assim de você 
é de perguntar se não faz isso por questões 
econômicas, bem, não se pode culpá-las-
se eu tivesse que ser comido, preferia que fosse 
por alguém com grana.
(táxi - O Amor é um cão dos diabos.)

e assim que ela o salva
está pronta para 
destruí-lo.
(ruiva de cima a baixo - O Amor é um cão dos diabos.)

estou tão acostumado à melancolia 
que 
a cumprimento como uma velha 
amiga.
(melancolia - O Amor é um cão dos diabos.)

cerveja
rios e mares de cerveja 
cerveja cerveja cerveja
o rádio toca canções de amor
enquanto o telefone permanece mudo
e as paredes seguem 
paradas e estáticas
e a cerveja é tudo o que há.
(cerveja - O Amor é um cão dos diabos.)


Ás vezes o cara tem que lutar tanto pela vida que nem dá tempo pra viver.
(Fabulário geral do delírio cotidiano)

"as pessoas não precisam de amor. Precisam é de sucesso, de uma forma ou de outra. Pode ser que seja no amor, mas não necessariamente."
(Factótum)


"Ficamos ali, olhando uns para os outros sem olhar um para os outros. Mascavamos chicletes, bebíamos café, íamos ao banheiro, mijávamos, dormíamos. Ficávamos ali sentados naqueles bancos, fumando cigarros sem querer fuma-los. Olhávamo-nos e não gostávamos do que víamos."
(Factótum)


Role os dados - Charles Bukowski

Se você vai tentar, vá com tudo
Senão, nem comece.
Se você vai tentar, vá com tudo
Isso pode significar perder namoradas,
esposas, parentes, empregos
e talvez a cabeça.
Vá com tudo.
Isso pode significar ficar sem comer por 3 ou 4 dias
Pode significar passar frio num banco de praça
Pode significar cadeia, menosprezo, insultos, isolamento.
Isolamento é o presente
todos os outros são um teste da sua resistência
de quanto você realmente quer fazer isso.
E você vai fazer
Apesar da rejeição e dos piores infortúnios
E isso será melhor do que qualquer coisa
que você possa imaginar.
Se você vai tentar, vá com tudo.
Não há outro sentimento como esse.
Você ficará sozinho com os deuses
e as noites irão flamejar como fogo.
Faça, Faça, Faça
Vá com tudo, por todos os caminhos
Você cavalgará a vida direto até a gargalhada perfeita


essa é a única boa luta que existe.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

2 - O Ninho da Serpente - Pedro Juan Gutiérrez


“_ Nós éramos um mistério para elas. A melhor coisa para conquistar uma mulher é a intriga, o mistério. As mulheres gostam dos homens desconhecidos.
_ Você acha?
_ Está comprovado cientificamente. As mulheres amadurecem antes de nós e são mais espertas. Além disso, são muito pragmáticas e não amam. Se apaixonam um pouquinho. O único truque para controlar as mulheres é inventar um mistério. Para elas ficarem ocupadas com a investigação. Quem é esse sujeito? De onde ele saiu? O que quer comigo? E por ai vai. Elas que se perguntem muitas coisas. A mulher é curiosa por natureza. E se além disso você come ela, pronto, está feito. Você é o ídolo preferido.
_ E depois? Quando o tempo passa?
_ Ah, você se fode. Ela já tem todas as respostas para o mistério  e sabe que você é só mais um homenzinho. Comum e normal. Cheio de problemas e defeitos. O encanto se rompe.
_É fácil.
_ Por isso o casamento não funciona. É um negócio. Quem inventou o casamento foi um comerciante. O que funciona é o mistério, Pedrito, o mistério. Viver novelão romântico. Um descobrir o outro. E depois acaba, porque nenhuma novela é eterna. Depois do mistério tem um grande deserto. Rotina, tédio. Carga pesada.
_ Mas mulher gosta de casamento.
_ Não gosta mas aguenta porque lhe convém. Elas são sedentárias. Nós somos caçadores. Temos de ir de um vale para o outro atrás dos mamutes.
Bebemos em silêncio um momento. Assimilei o que ele havia dito.
_ Por isso você é marinheiro, Gustavo. Não acredita no casamento.
_ Não acredito em nada. Nós, seres humanos, somos canibais. A dor nasce com a pessoa e fica com ela pra sempre.
Para mim era abstrato de mais.
_ Que dor, Gustavo?
_ Você ainda é jovem. Vai saber quando passarem os anos. O que quero lhe dizer é que somos seres individuais. Não acredito nunca em nenhum tipo de organização e de grupo. Nem mesmo na família. É tudo mentira. Sempre tem alguém pra controlar em causa própria.
_ Você aparece um lobo.
_ Dentro de mim vive um tigre. E o difícil é manter esse tigre sobre controle.

Depois daquela não voltamos a nos ver. Ele foi embora sem se despedir. Já estava com quarenta e poucos anos. Acho que morreu em Nova York, em algum asilo, ou talvez na rua, em algum pardieiro miserável. Sujo, bêbado, sozinho. Absolutamente sozinho e sorridente.”

sábado, 11 de janeiro de 2014

Do Livro Quarto de Badulaques - Rubem Alves


Num dos meus momentos de vagabundagem, um pensamento me apareceu que fez uma ligação metafórica entre lâmpadas e inteligências que nunca me havia passado pela cabeça. Tratei, então, de seguir a trilha.

As lâmpadas servem para iluminar. Para isso são dotadas de potências de iluminação diferentes. Há lâmpadas de 60 watts, de 100 watts, de 150 watts etc. Qual é a melhor lâmpada? Parece que as de 150 watts são as melhores porque iluminam mais. Também as inteligências servem para iluminar. Tanto assim que se diz "tive uma ideia luminosa!". E nos gibis, para dizer que um personagem teve uma boa ideia, o desenhista desenha uma lâmpada acesa sobre a sua cabeça. E também as inteligências, à semelhança das lâmpadas, têm potências diferentes. Os psicólogos inventaram testes para atribuir números às inteligências. A esses números deram o nome de QI, coeficiente de inteligência. Segundo as mensurações dos psicólogos, há QIs de 100, de 150, de 200... Ah! Uma pessoa com QI200 deve ser maravilhosa! Porque, como todo mundo sabe, inteligência é coisa muito boa! Porque, como todo mundo sabe, inteligência é coisa muito boa. Todo pai quer ter filho inteligente. Mas as lâmpadas não são objetos de contemplação. Não se fica olhando para elas. Olhamos para aquilo que elas iluminam.


 Uma lâmpada de 150 watts pode iluminar o rosto contorcido de um homem numa câmara de torturas. E uma lâmpada de 60 watts pode iluminar uma mãe dando de mamar ao filhinho. As lâmpadas valem pelas cenas que iluminam. As inteligências valem pelas cenas que iluminam. Há inteligências de QI 200 que só iluminam esgotos e cemitérios. E há inteligências modestas, como se fossem nada mais que a chama de uma vela, que iluminam o rosto de crianças e jardins. A inteligência pode estar a serviço da morte ou da vida. A inteligência, pobrezinha, não tem o poder para decidir o que iluminar. Ela é mandada. Só lhe compete obedecer. As ordens vêm de outro lugar. Do coração. Se o coração tem gostos suínos, a inteligência iluminará chiqueiros, porcos e lavagem. Se o coração gosta de crianças e jardins, a inteligência iluminará crianças e jardins. Por isso é mais importante educar o coração que fazer musculação na inteligência. Eu prefiro as inteligências que iluminam a vida, por modestas que sejam.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

O flautista - Rubem Alves


FORTALEZA. Eu ia fazer uma fala. Aí me disseram que antes haveria um pequeno concerto de uma orquestra de flautas de crianças pobres: sorriso no rosto, camiseta abóbora, flautinhas na mão. O regente era um mocinho magro. Ao final, o Marcelo -esse era o seu nome- me convidou a visitar a orquestrinha na cidade de Aquiraz, bairro Tapera, a uma hora de Fortaleza.

O concerto seria numa chácara, à noite. Mangueiras enormes, céu estrelado. Tocaram a sua alegria. Aí o Marcelo se juntou conosco. Pedimos que contasse sua história.

Família muito pobre. Pai bravo e batedor. Comiam os peixes que tarrafeavam num rio. E era preciso trabalhar para ajudar. Marcelo trabalhava numa padaria. Ganhava R$ 10 por mês. E ainda tarrafeava, depois de terminado o trabalho na padaria.

O seu grande sonho era ser músico, baterista. Pois um dia correu a notícia de que iriam formar uma banda. Quem quisesse que se candidatasse. O Marcelo se candidatou. Mas o homem que fez a apresentação do projeto nada falou sobre baterias. Ao invés disso tocou uma flautinha. O Marcelo se esqueceu da bateria e se apaixonou pela flauta.

O pai disse um "não" grosso e definitivo quando soube das intenções do filho. "Flauta é coisa de vagabundo. Filho meu não toca flauta..." Marcelo soube então que seu namoro com a flauta teria de ser como os namoros antigos, escondido.
A inscrição pra valer acabava às cinco da tarde. Marcelo, nessa hora, estava na padaria. Só pôde sair muito mais tarde, de bicicleta. No caminho, por aflição, caiu da bicicleta. Os peixes se espalharam, e ele ficou todo escalavrado.

E foi assim que chegou ao lugar da inscrição com duas horas de atraso. Mas o homem da inscrição ficou com dó dele e o inscreveu. Ele tinha 11 anos. Acontecia que a flauta custava R$ 10, o salário de todo um mês. Precisava ajuntar dinheiro. Passou a caminhar olhando para o chão, em busca de moedas perdidas. Por um ano juntou moedas de um centavo. Juntou os R$ 10. Comprou a flauta de plástico. Como não podia estudar em casa, pela braveza do pai, passou a estudar no alto de um cajueiro, de noite, longe da casa. No cajueiro guardava a flauta. Mas, num dia de chuva, ficou com medo de que a flauta se estragasse com a água. Escondeu-a em casa. Ao final do dia, voltando do trabalho, o pai o esperava. Havia encontrado a flauta. O pai acendeu uma fogueira e a queimou, aplicando-lhe a seguir uma surra. Mas ele não desistiu.

Mais um ano juntando centavos até comprar nova flauta. Aí ele arranjou uma aluna. E ganhava R$ 10 por mês! Uma fortuna. Outra aluna, e mais outra. Nove alunas! R$ 90. O pai passou a gostar de flauta.

Foi então que o Marcelo teve a ideia de ensinar flauta para as crianças sem nada ganhar. E assim surgiu a orquestra de flautas. Naquela noite, debaixo da mangueira, ele tinha 18 anos. "Eu tenho um sonho", ele disse. "Gostaria de ter uma flauta de verdade, transversal. Mas ela custa muito caro. Vai levar muito tempo para ajuntar o dinheiro..."

Aí uma professora que estava na roda abriu-se num sorriso e disse: "Marcelo, eu tenho uma flauta guardada numa caixa de veludo. Flauta que ninguém toca... A flauta é sua!"


Isso aconteceu faz tempo. O Marcelo entrou para a universidade, tornou-se flautista e regente. E continua ensinando música para as crianças por puro prazer, sem ganhar dinheiro. E não sei por que, o fato é que me elegeu seu padrinho...Tanta gente bonita e esforçada por esse Brasil imenso. Dá esperança.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

seja gentil - Charles Bukowski



sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vistas das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.

exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
o desperdício de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.

mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a enxergar.

e não por culpa deles?

então de quem é a culpa?
minha?

pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.

envelhecer não é nenhum crime.

mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas

é.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Partes - Charles Bukowski


“coisas bonitas podem ser terríveis e coisas terríveis podem ser
bonitas.”
Parte do poema Da escuridão

“mulheres têm todos os problemas de uma vez”
Parte do poema Bar alemão

“mas amanhã eu vou ganhar, então
pegue essa sua calcinha do chão
dele
e volte pra
mim.”
Parte do poema Você sabe quem é melhor

“A melhor coisa a respeito das mulheres velhas é
que tudo o que elas querem de você são
as coisas simples.”
Parte do poema a teoria da classe ociosa


“O preço da criação
nunca é alto demais.

O de se conviver
com outras pessoas
sempre é.”
Parte do poema A estória final

“Minha mãe, pobre peixinha,
querendo ser feliz, apanhando duas ou três vezes
por semana, me dizendo para ser feliz:
"Henry, sorria! Porque você nunca sorri?"

E então ela sorria, para me mostrar como se fazia, e era o
sorriso mais triste que eu jamais vira.”
Parte do poema Um sorriso para lembrar


O melhor amigo do homem

Eu disse pro cara - ele estava regando o gramado -
se você molhar meu cachorro
de novo, vai se ver comigo.
Ele continuou regando, olhando para frente,
e então disse, não estou nem aí, vocês vagabundos
dizem que vão fazer, mas nunca fazem.

Ele era um velho grisalho, meio burro. Eu conseguia
sentir a burrice irradiando de dentro dele.
Tomei a mangueira da mão dele, o virei dei uma
violenta chicotada na sua barriga.
Ele caiu como uma pedra e ficou deitado de costas
no gramado, com a mão na barriga e respirando com
dificuldade.
Ele dava dó.
Peguei a mangueira e o molhei pra valer.
Encharquei suas roupas, e então lhe dei uma
boa dose na cara e fui embora.

Fui até à loja e comprei uma garrafinha de scotch
e um pacotinho de 6 cervejas.

Quando eu voltei ele já tinha sumido.
Entrei no meu apartamento e contei pra Marie que
eu tinha resolvido o assunto com o cara que molhava
nosso cachorro.
Ele me perguntou, o que você fez, matou ele?
E eu lhe disse, não, apenas expliquei algumas
coisas pra ele.
E ela quis saber, o que você quer dizer com
expliquei algumas coisas pra ele?

E eu lhe disse, deixa pra lá, onde tem copos limpos?

E então o cachorro entrou.
Koko.

Você tem que entender que eu gostava bastante
dele.





sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Volkswagen Kombi 1966 - Charles Bukowski



E lá se vai Bach novamente, mas
alguém se pergunta o quão mais nós conseguimos aguentar?
É boa música
ótima música,
mas o eu quero dizer e pergunto:
quão mais nós seremos capazes de ouvir
o que ele nos tem a dizer?
pontos de interrogação às vezes
são desencorajadores.
à medida que nos tornamos mais e mais
desapegados
gigantes como Bach desaparecerão
de nossos pensamentos e vidas e
o sabor e toque de sua música
será como encontrar o meu amor morto
apenas morto
olhos fechados
seu corpo ainda macio
ainda quente
seu cabelo escorrendo pelo meu antebraço.

Eu ouço Bach sempre que posso
e meu amor está vindo pra cá essa noite
dirigindo sua Volkswagem Kombi 1966
enquanto eu tomo vinho e espero.

Seu cabelo tem a cor mais estranha:
vermelho misturado com dourado
que como exércitos conquistadores
esmagam caramujos
esmagam narcisos.

Ela tem mãos pequenas
pés pequenos.

Nós brigamos.
Às vezes rimos.

Estou ouvindo Bach agora.
A música pára.

Ela dirige aquela maldita Kombi como um
barco a remos contra a correnteza.

Se ela ouvisse o meu coração
ela iria mais devagar
muito mais devagar.

Por favor me deixe morrer
primeiro porque
eu sou mais velho
muito mais velho.

Ouça Bach, meu deus e seu deus
são reais, mas
apenas úteis aos jorros.
Eu quero que você me
diga que tudo está
bem
e que seus cabelos vermelho e dourado estarão
espalhados
sobre o meu travesseiro de novo.

Seus pés pequenos
suas mãos pequenas
seus dedos acariciando meus olhos e
orelhas e seu sorriso me confortando.

Tradução: Jão - O Homem que não tem Facebook