domingo, 21 de dezembro de 2014

Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária

“Olhou para o sol. Tinha escapado da jornada de trabalho de oito horas havia apenas treze anos. Agora, todo o TEMPO era dele. Cada segundo, cada minuto, cada hora, cada dia. Cada noite. Ele era escritor. Escritor. Escritor profissional. Havia doze milhões de pessoas na América que queriam ser escritores. Ele era escritor.”

“ Escrever levava alguém para lugares rarefeitos, tornava-o estranho, um desajustado. Não foi por acaso que Hemingway explodiu os miolos sobre o suco de laranja. Não foi por acaso que Hart Crane se jogou sobre um propulsor, não foi por acaso que Chatterton tomou veneno de rato. Os únicos que continuavam eram os que escreviam best-sellers e eles não estavam escrevendo de verdade, já estavam mortos. E talvez ele também estivesse morto: tinha casa própria com sistema de segurança, uma máquina de escrever elétrica da IBM, tinha um Porsche e uma BMW na garagem. Mas até então havia resistido à piscina, à jacuzzi e à quadra de tênis. Talvez estivesse apenas meio morto?”


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Citações - Pedro Juan Gutiérrez, no livro O insaciável homem-aranha

" Olho em silêncio para ela. Mantenho a norma de não discutir com mulheres. São muito ardilosas e perco sempre. Eu sou racional, lógico e paciente quando discuto. Elas são irracionais, ilógicas e impacientes. Me confundem rapidamente e não sei o que dizer."

"Quando Julia apareceu, achei que podia serenar meu espírito para toda vida. E nos casamos. Erro. Ao meu lado, em quatro anos, se transformou de uma mulher doce e lenta em uma mulher vertiginosa e corrosiva. O casamento destrói tudo. Ou eu destruo tudo. Não sei. "


"dizem que escrever ajuda a compreender os problemas. Comigo funciona ao contrário : cada dia estou mais confuso." 

“Quando alguém tem o poder, cresce muito o filho da puta que todos temos dentro de nós.”


“Tomei um banho. Bebi um litro de água gelada e olhei o relógio: uma e quarenta e cinco. Que bom. Fiz muitas coisas em pouco tempo. Bebi mais água e deitei ao lado de Julia. Ela roncava. Fiquei ouvindo um pouco. Abri os olhos. Pelas persianas abertas entrava a luz da lua. Olho o teto. Não estou com sono. Estou excitado talvez. O bom agora seria se Julia gostasse muito de mim e me deixasse de pau duro ao cheiras suas axilas. Uma boa trepada é sedativa. A gente se descarrega e pronto. Dorme como um urso. Ah, mas não. Ouço enquanto ronca grosseiramente. Parece um caminhoneiro, porra! E fico de mau humor. Vim todo feliz com meu pargo, me deito junto dessa mulher e já estou irritado e com vontade de lhe dar um empurrão e jogá-la para fora da cama.”

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Mario Bortolotto, no livro Bagana na chuva

“Veio pra cima de mim com tudo. Eu falei.
‘Ei, calma ai, tô meio destreinado.’
Mentira, vinha transando com frequência. Mas eu sempre gostava de dizer que tava de molho e tal. As garotas se julgam especiais. Não há nada de mal em fazer uma garota se sentir especial, mesmo que você não a ame, ou sequer goste dela tanto assim. Aquela eu amava pra caralho. Resolvi gastar tudo o que tinha com ela. o problema é que ela fez um troço que na época eu achava inaceitável. Ela veio por cima. Bosta. Ela subiu em cima do meu pau e tudo ficou esquisito. Ela mexia furiosamente. Fiquei apavorado.
‘Porra, Angela, manera ai.’
‘Por quê? Tá ótimo.’
Ela mexia e eu sentia que a precoce ia emplacar. Puxei de uma vez de dentro dela antes que a porra desse as caras.
‘Merda, Cardan, por que você fez isso?’
‘Eu ia gozar.’
‘E daí? Eu também.’
Ela não aceitou minhas desculpas. Eu não aceitei o fato de ela ter ficado puta comigo e nada mais deu certo naquela noite.“


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

poemas - Carla Marti

"tenho pensado:
ainda bem que nunca morri,
ainda bem que não morri antes de nós.
porque eu não ia perdoar a Deus
se eu não tivesse
te conhecido."

"

Atenção: Desvio


Se eu um dia achei
sua bebedeira natural,
foi engano.
se um dia me pareceu
que nossos caminhos se cruzariam naturalmente,
enquanto olhava, absorta, o gelo explodir no copo,
perdi.
se pensei em tanta coisa pra dizer
e sigo muda
o tempo ente nós
acabou,
se dissolveu,
como o gelo do meu copo imaginário,
explodiu.
E qual de nós dois se manteve intacto?"

"

Outra noite


E se eu te disser
que não quero que a brincadeira acabe mais
você me perdoa?
Não quero sentir aquele
estúpido silêncio de elevador
de hoje cedo
não quero suas perguntas inconsequentes,
suas dúvidas infantis.
não quero que você me entenda,
nem eu te entendo mais.
não é amor.
eu te juro que não é paixão.
apenas não gosto de dormir sozinha
e nosso sexo nunca foi
fundamental.
ironia,
destino?
vamos ser amigos
até onde pudermos ser.
só me deixe dormir mais um pouco
antes de irmos pro bar…"

"todos os poemas que eu escrevi
- Quase todos-
Eu fiz pra um homem.
Uma paixão.
Às vezes num mesmo poema, misturo dois ou três
Numa espécie de coquetel de detalhes e recordações.
Engraçado é que alguns se identificam
Se enxergam naquele poema maltrapilho,
naquele poema
adolescente, inconsequente,
quase pueril,
que faço à noite
quando todos já foram dormir
Tem os poemas pros homens inalcançáveis,
Aqueles que admiramos,
 na surdina,
Com medo que alguém perceba
E assim o encanto se acabe.
Por isso, os chamo de poemas platônicos.
Muitas vezes esses ficam até bons,
Pena que quase sempre
seja impossível uma dedicatória.
Tem os dos rápidos affaires,
que idealizei, e que, logo depois
o mistério se dissipou
E aí só restaram os poemas - ruins –
Que usei pra conquistá-los.
As grandes paixões estão espalhadas
Em todos eles
Um relance, um olhar
Uma fisgada de dor
Do amor que se acabou.
Tem também as conquistas
Sim, poemas também podem ser feitos pra um objetivo banal
Como dormir com um homem
E esperar jamais ouvir falar dele depois.
No meio desses poemas fajutos,
uma amosfera fake
de fingir que sou alguém
que se interessa por ele
A ponto de, na madrugada, unir palavras
aleatórias,
 em busca de um sentido exato.
Mas meus poemas mancos talvez sejam
A minha verdadeira e inalcançável
Redenção."

"

IDÍLIO


Fale de mim.
Da minha poesia, não.
Fale das minhas atitudes impensadas,
que meu penteado é ridículo.
Da minha poesia, não.
Fale de minhas bebedeiras homéricas, meus vexames públicos.
Dos cheques devolvidos, do meu guarda-roupa revirado,
diga que sou inconsequente, tacanha, piranha…
Fale da minha roupa indecente, meus casos mal resolvidos,
meu ataques de nervos, de risos,
lágrimas mal colocadas.
só não quero que você mexa com a minha poesia.
Minha poesia é seu Vietnã
Minha poesia está no limite
de onde você possa ou não estar
Intransponível. Inatingível. Soberana.
Eu.
Minha poesia é a Amazônia, e você não sai daqui.
Jamais toque na minha poesia,
mesmo ela sendo
ruim,
infantil, repetitiva
ou idiota.
Minha poesia é meu consolo,
salvação,
meu karma
Minha poesia me basta.
Não você."

"Currículo
Posso te dizer
que não sou chegada a luxos,
garanto não ser ligada a compras e futilidades,
passeios em shoppings,
e jamais me verá num vestido branco,
ao som da marcha nupcial.
Pode, sim, me ver por aí,
no boteco,
na rua, pensativa,
falando besteiras e teorias conspiratórias,
bebendo algum destilado,
suspeito.
Não me interprete mal:
gosto do que é bom,
mas me acostumo com o que posso,
me acostumei com ter e não ter,
-claro que a idade já pede um whisky bom-
mas se faltar, dá-se um jeito…
Posso falar demais -
recitar sempre a mesma poesia,
ser persona non grata,
ou a rainha da festa,
endeusar Clapton,
chorar ouvindo blues,
mas, mesmo cansada de tudo,
sempre sorrio pros amigos -
ainda que escondido.
Gosto mais de ficar só,
do que em multidões,
embora sempre cercada,
vou comigo
onde quer que eu vá.
Há tempos deixei de sonhar,
sempre curti o bandido e
mandei o mocinho se danar.
Acho que ler é o melhor remédio pra ressaca,
e transar nunca teve muito a ver com amor.
Claro que minto a idade,
claro que finjo ser
normal, feliz, educada
Mas tenho minhas razões
pra disfarçar
A poesia expõe demais
feridas abertas,
que não cicatrizam
e algumas que a gente nem sabia
que estavam lá.
Dizem que meus olhos tem vida,
que não sou dublê, figurante
da puta da vida
Só sei que sou viva,
embora alguns dias,
nem queira estar.


Carla Marti


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Chuck Palahniuk, no livro O Clube da luta


“O que Tylor fala sobre sermos o lixo e os escravos da história é como me sinto. Queria destruir as coisas bonitas que nunca tive. Queimar a floresta tropical amazônica. Bombear CFC direto para a camada de ozônio. Abrir as válvulas de descarga dos tanques dos superpetroleiros e destampar as plataformas de petróleo em alto-mar. Queria matar todos os peixes que não consigo comprar para comer e sujar as praias francesas que nunca verei.
Queria que o mundo todo chegasse ao fundo do poço.
Enquanto batia naquele garoto, o que queria mesmo era atirar entre os olhos de cada panda ameaçado de extinção que não trepava para salvar sua espécie e de cada baleia ou golfinho que desistiu e se deixou encalhar na praia.
Não pense nisso como extinção pense como diminuição de pessoal.
Durante milhares de anos os humanos foderam, sujaram e fizeram merda com este planeta e agora a história espera que eu limpe tudo.
(...)
Queria queimar o Louvre. Quebraria os mármores do Panteão com uma marreta e limparia a bunda com a Mona Lisa. Esse é o meu mundo agora.
Este é o meu mundo, o meu mundo, e as pessoas antigas estão mortas.”

“- Em que tipo de confusão você se mete todo fim de semana?
Respondo que simplesmente não quero morrer sem ter algumas cicatrizes.”

“Que eu nunca me sinta completo.
Que eu nunca me sinta satisfeito.
Que eu nunca seja perfeito.”

“Você compra móveis. E pensa, este é o último sofá que vou precisar na vida. Você compra o sofá e fica satisfeito durante uns dois anos porque, aconteça o que acontecer, ao menos a parte de ter um sofá já foi resolvida. Depois precisa do aparelho de jantar certo. Depois da cama perfeita. De cortinas. E do tapete.
            Então você fica preso em seu belo ninho e as coisas que costumavam ser suas agora mandam em você.”

"_ insônia é apenas um sintoma de algo maior.- meu médico falou. - Descubra o que está errado de verdade, ouça o seu corpo."


Chuck Palahniuk, no livro O Clube da luta

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Citações do livro Zonas úmidas, de Charlotte Roche

“Sempre penso sobre essa lenda urbana: duas garotas encomendam uma pizza para ser entregue em casa. Elas esperam e esperam, mas a pizza não chega. Elas ligam algumas vezes para o restaurante e reclamam. A pizza acaba chegando.
Ela está com a aparência meio estranha e o gosto, esquisito. Uma das meninas por acaso é filha de um funcionário da vigilância sanitária e antes de elas jogarem tudo no lixo, guardam os restos num saco e entregam para o papai.
Todos imaginam que a pizza está velha ou coisa aparecida. Mas a análise do laboratório mostra que a cinco tipos de esperma na cobertura da pizza. Acho que foi assim:  os caras do delivery estão de saco cheio dos telefonemas. Como são garotas que estão reclamando, fantasiam um estupro. Normal. Eles conversam a respeito, maquinam um plano e, em seguida, todos pegam os pintos para esguichar sobre a pizza. Os pizzaiolos veem uns os pintos dos outros. Não no estado normal, mas eretos. E ejaculando. Por isso eu invejo os homens. Eu também gostaria tanto de ver as xoxotas das minhas amigas e colegas da escola. E também os pintos dos meus amigos. Eu gostaria de ver todos eles tendo orgasmo também. Mas uma oportunidade dessas é tão rara. E não tenho as manhas de perguntar.
Vejo somente os pintos dos homens com quem transo, e as xoxotas das mulheres que pago.
Quero ver mais nessa vida!”


“Acho que se os homens querem mulheres raspadas, eles têm de assumir a raspagem. E não deixar todo o trabalho para elas. Se não fosse pelos homens, as mulheres nem se preocupariam com os próprios pelos. Para mim, a melhor das preliminares é ambos se rasparem um ao outro da maneira como gostam mais. E cada um faz no outro o penteado que acha mais excitante. É melhor do que um pedir as coisas para o outro e ficarem se explicando. Só dá encrenca.”

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Efraim Medina Reyes, no livro Era uma vez o amor mas tive que matá-lo

“Eu fazia e desfazia mundos para ela. Ela aceitava minhas palavras e atos sem opor resistência. Era dócil e ingênua como um bichinho de estimação. Pensei que podia fazer o que quisesse, que ela nunca iria reagir. ENGANO. Enquanto estava ao seu lado nada aconteceu. Eu matava suas dúvidas como se fossem moscas. Assim que dei espaço ela descobriu o tipo de escória que amava.”

“O que me incomoda não é o frio, não é a chuva, não é o céu cinzento. Sou feito de uma madeira rara. O calor também não me incomoda mas me parece uma desgraça. O calor é bom quando se tem iate e hotel cinco estrelas. Se você tiver que dar aula numa escola de subúrbio e atravessar a cidade ao meio dia num ônibus lotado, não vai gostar do calor.”

“Eu e ela tivemos bons momentos, tivemos diálogos e sonhos, tivemos encontros e canções, tivemos sexo com amor, sexo com magia, sexo com sangue e loucura. É provável que ela queira negar aquele tempo mas eu vou estar aqui lembrando que a ensinei a mover estrelas, a ler escritores do caralho, a entender aquilo que os nossos olhos não veem, o que não faz barulho, as criaturas do ar escuro. Ela me ensinou a saber e isso pelo menos é verdade. Ela é esquiva, silenciosa, com feridas antigas. Você tem que amá-la com cuidado, ela pode ficar fria e dura como um sapo de gesso, pode fechar-se em si mesma como um caracol ressentido.”

“(...) Mônica, era argentina, tinha um doutorado em literatura inglesa e não exigiu camisinha.”

“Você não sabe que o diabo não existe? É só Deus quando está bêbado.”


“Não sei se tenho razão ou se as minhas ideias são absurdas mas tendo a acreditar que o amor existe, que é uma invenção do homem e agora está fora de controle.”

sábado, 11 de outubro de 2014

Diálogo entre Ernest Hemingway e Gil, no filme Meia noite em Paris

“ (...)
 - Estava com medo?
- Do quê?
- De ser morto.
- Nunca escreverá bem se tiver medo de morrer. Você tem?
- Eu tenho. Diria que esse é um dos meus maiores medos na verdade.
- É algo que todos fizeram antes de você e todos farão
- Eu sei, eu sei, mas...
- Já fez amor com uma grande mulher?
- Na verdade minha noiva é uma mulher bem sexy.
- Quando faz amor com ela sente uma paixão verdadeira, bela, e ao menos naquele momento, perde o medo de morrer?
- Não. Isso não acontece mesmo.
- Acredito que um amor verdadeiro e real cria uma trégua da morte. Toda covardia vem de não amar ou não amar bem, o que dá no mesmo. Quando um homem corajoso e verdadeiro olha a morte de frente como caçadores de rinocerontes, ou como Belmont que é muito corajoso, é por que ele ama com paixão suficiente para esquecer a morte, até ela retornar como faz com todos os homens. Você deve fazer amor bem feito. Pense nisso.”


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Por André Camargo

1. Clube da Luta - Chuck Palluhnick ( apenas após o desastre nós podemos ser ressuscitados. É apenas após você perder todas as coisas que você é livre para fazer qualquer coisa. Nada é estático, tudo está em evolução, tudo está caindo em pedaços)
2. O estrangeiro - Albert Camus (Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio.)
3. Crime e Castigo - Dostóievski (os homens são divididos em ordinários e extraordinários. Os primeiros devem viver na obediência e não têm o direito de desrespeitar a lei, porque são ordinários; os segundos têm o direito de praticar todos os crimes e de violar todas as leis, pela simples razão de que são criaturas extraordinárias.)
4. Notas do Subsolo - Dostóievski (A vida toda algo me arrastava a fazer esses trejeitos, a tal ponto que acabei perdendo poder sobre mim mesmo. De outra feita quis por força apaixonar-me; isto me aconteceu duas vezes. E realmente sofri, meus senhores, assseguro-vos. No fundo da alma, não acreditamos estar sofrendo, há uma zombaria que desponta, mas, assim mesmo, sofria de verdade; tinha ciúmes, ficava fora de mim… E tudo isso por enfado, senhores, unicamente por enfado; a inércia me esmagara.)
5. Ecce Hommo - nietzsche ( Pois continuamos necessariamente estranhos a nós mesmos, não nos compreendemos, temos que nos mal-entender, a nós se aplicará para sempre a frase: 'cada qual é o mais distante de si mesmo' - para nós mesmos somos 'homens do desconhecimento)
6. O Homem revoltado - Albert Camus (Quando os dandis não se matam uns aos outros ou ficam loucos, fazem carreira e posam para a posteridade. Mesmo quando gritam que vão calar-se, seu silêncio é estrondoso.)
7. À insustentável leveza do ser - Milan Kundera (“Porque a vida humana também é assim que é composta. É composta como uma partitura musical. O ser humano, guiado pelo sentido da beleza, transpõe o acontecimento fortuito (uma música de Beethoven, uma morte numa estação) e faz dele um tema que, em seguida, inscreverá na partitura da sua vida. Como o compositor faz com os temas de uma sonata, está sempre a voltar a ele, a repeti-lo, a modificá-lo, a desenvolvê-lo, a transpô-lo. (...). Mesmo nos momentos da mais profunda desordem, é segundo as leis da beleza que, secretamente, o homem vai compondo a sua vida.)
8. Coisas frágeis - Neil Gaiman (ela parecia tão fria, tão focada, tão quieta e, ainda assim, seus olhos permaneciam fixos no horizonte. Você pensa que sabe tudo o que há para saber sobre ela imediatamente, mas tudo o que você pensa que sabe está errado. Paixão flui através dela como um rio de sangue. Então, por um momento, ela desvia o olhar e perde sua máscara e você cai. Todos os teus amanhãs começam aqui.)
9. Don quixote - Miguel de Cervantes (tudo o que sei é que enquanto durmo, eu não sinto medo, não tenho esperanças, conflitos ou glórias. (...) há apenas uma coisa ruim sobre o sono, ao menos que eu tenha ouvido, é que este relembra a morte, havendo pouca diferença entre um homem adormecido é um cadáver)
10. As Crônicas do Rei Arthur - Bernard Cornwell (“Only a fool wants war, but once a war starts then it cannot be fought half-heartedly. It cannot even be fought with regret, but must be waged with a savage joy in defeating the enemy, and it is that savage joy that inspires our bards to write their greatest songs about love and War")

sábado, 13 de setembro de 2014

Cesare Pavese, no livro O oficio de viver



"A gente deixa de ser jovem quando entende que falar de um sofrimento é perda de tempo."

"Gostas de coisas absolutas? Não podes construir um amor totalitário: constrói uma bondade totalitária. Mas não faças besteiras: excluí o sexo."

“Eu passava a noite sentado diante do espelho para fazer companhia a mim mesmo.”

“E sobre tudo lembrar-se de que fazer poesia é como fazer amor: a gente nunca há de saber se a alegria que sente está sendo compartilhada.”

“Será concebível matar uma pessoa para ter importância na vida dela? Nesse caso é concebível que a gente se mate para ter importância em nossa própria vida.”

“Uma ridícula lei da vida é a seguinte: não é quem dá, mas quem cobra, que é amado. Ou seja, amado é quem não ama, porque quem ama, dá. E, é claro: dar é um prazer mais profundo do que receber; a quem damos, tornamos necessário, isto é, nós o amamos.


Dar é paixão, quase vício. A pessoa a quem damos transforma-se em necessidade nossa.”

"A força da indiferença! - é a mesma que permitiu às pedras que permanecessem imutáveis por milhões de anos."

"Quem não salva a si mesmo, não pode por ninguém ser salvo."

"Só nos apiedamos das pessoas que de si não tem piedade alguma."

"A força da indiferença! - é a mesma que permitiu às pedras que permanecessem imutáveis por milhões de anos."



"somente sabemos adotar estratagemas amorosos quando não estamos apaixonados."

"Em caso de amores, só os próprios são tolerados."


domingo, 7 de setembro de 2014

bocejo... Buk




creio que adoro dormir
mais do que qualquer pessoa que já tenha
conhecido.

sou capaz de dormir por
2 ou 3 dias e noites
seguidos.

posso ir para a cama a qualquer
momento.

muitas vezes deixei minhas namoradas confusas
por causa disso-

digamos que fosse por volta de uma
e meia da tarde:

“bem, vou para cama agora, vou
dormir...”

e a maior parte delas não dava bola, iam
para a cama comigo
pensando que eu estava atrás de
sexo

mas logo eu lhes dava as costas
e começava a roncar.

isso, claro, poderia explicar
por que tantas entre as minhas namoradas
me deixaram.

dos doutores, nunca obtive qualquer
ajuda:
“escute, sinto esse desejo de
ir para a cama e dormir, quase todo o
tempo.
o que há de errado
comigo?”

“pratica exercícios regularmente?”
“sim...”
“tem se alimentado
corretamente?”
“sim...”

sempre me passavam uma
receita
que eu jogava fora
no caminho entre o consultório e o
estacionamento.

é um mal curioso
porque não consigo dormir entre
as seis da tarde e a meia noite.
precisa ocorrer depois
da meia noite
e quando me levanto
nunca pode ser
antes do meio dia

e caso o telefone toque
vamos dizer às dez e meia da manhã
tenho um surto de raiva

não pergunto sequer quem está
chamando
grito no telefone:
“POR QUE ESTÁ LIGANDO
PARA MIM NUMA HORA
DESSAS?!”

fone no
gancho...

cada pessoa, suponho, tem
suas excentricidades
das em um esforço para parecer
normal
aos olhos do
mundo
elas se superam
e desse modo
destroem seu
algo a mais.

mantive o meu
e acredito que
ele serviu à minha existência
com generosidade.

penso que foi a principal razão
por que decidi me tornar um
escritor: posso bater à máquina
a qualquer hora e
dormir
na hora em que vier a porra da
vontade.


Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária 

sábado, 30 de agosto de 2014

citações - Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária

“e você pode dizer o que quiser sobre os malefícios da bebida, mas sem ela jamais poderia encarar aqueles capatazes com seus olhos de roedores e suas testas incapazes. aqueles trabalhadores satisfeitos com feriados e com o seguro de vida. a verdadeira escravidão humana de homens que não sabiam que eram escravos que realmente achavam que eles eram os escolhidos. era a garrafa e somente a garrafa e todas as garrafas que me resguardaram de tudo aquilo. a cada dia sonhando com a noite quando estaria de volta em meu quarto, de pés descalços estendidos na cama, no escuro, abrindo a tampinha da garrafa tomando o primeiro e bom gole deixando a podridão, a decadência lentamente desaparecerem. acendendo um cigarro enlevado pelas paredes e pela luz da lua, através da janela eu inalava o jogo sujo e então exalava-o por completo desse jeito, então buscava outra vez a garrafa não por fraqueza mas por força: tomando aquele grande gole voltando a garrafa para seu lugar: cada homem vence a adversidade de um modo diferente.”

"... as bebidas estavam no comando e o mundo quase parecia um lugar aceitável." 

"Não brinque com a loucura, a loucura não brinca."

"Ninguém ronca como um vagabundo
exceto alguém que é casado com você."


"estava deprimido, bem, deprimido não, mas estava desanimado com a estrutura toda, o jogo todo, a vida toda."

"é comum, ele disse, depois e uma separação,
ficar ali sentado sentindo como se a alma tivesse sido
decapitada"


Charles Bukowski, no livro Miscelânea Septuagenária 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Carpinejar - Me ajude a chorar

“Prefiro estar acompanhado numa estrada real, ainda que penosa, a viver sozinho em minha idealização.”

“Quer um maior mendigo do que aquele que dorme no sofá em sua residência? Com um cobertorzinho emprestado e com a claridade das janelas violentando os segredos?”

“Quando amamos platonicamente, o amor pode durar muito tempo. Pois não tem ninguém para estragar nossa idealização. Não há convivência para nos desafiar. É uma paixão estanque, feita de sonho e névoa. É uma vontade desligada da realidade. Temos a expectativa intacta, longe de contratempos. Acordamos e dormimos com o mesmo sentimento longe de interrupção em nossa fantasia.”

“Ninguém entra numa escolha sem fechar a porta.”

"Liberdade vem com o tempo, liberdade vem devagar, liberdade é esforço. Não ser do tamanho de nossa prisão, mas ser do tamanho de nossa vontade."

"E não adianta ensinar alguém a amar a tormenta - ela deve estar no sangue." 

"Você acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta." 

"Eu garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar."

“Não amará outro alguém sem abandonar algumas horas de alívio em motéis.”

“Espera herança, não sai para trabalhar ternuras.”

“É trabalho em vão soterrar o precipício.”

“A vida é simples, milagrosamente simples.”

“Não há como acalmar o coração senão vivendo.”

“As relâmpagos iluminam os loucos.”


A você que a vê passar

Invejo quem pode vê-la. Eu não posso mais, eu que estou distante, eu que estou separado dela.
Invejo o cobrador de ônibus. Invejo o motorista. Invejo quem tem a chance de conhecê-la.
Invejo quem pode enxergá-la sem taquicardia, sem sobressalto, sem temer a reação.
Invejo seus amigos que podem encontrá-la para um almoço e conversar à toa.
Invejo a família que tem sempre preferência. Invejo os balconistas das farmácias e das lojas, mesmo que só falem crédito ou débito, invejo porque ela dará uma resposta.
Invejo seus colegas de trabalho que podem gritar pelo seu nome com entusiasmo.
Invejo a moça do cafezinho, o moço da limpeza. Eles têm todo direito de se aproximar – ela é real e acessível.
Invejo desconhecidos com a fortuna de rápidas palavras. Invejo o flanelinha que lhe chama de linda. Invejo o carteiro que se engana de número e pede uma informação.
Invejo quem tem a possibilidade de telefonar ou mandar mensagem. Invejo os esbarrões de seus dias. Qualquer contato, qualquer cumprimento, invejo.
Eu me invento na inveja


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

quintas feiras

Muita gente não gosta da segunda feira. Outros não gostam do domingo. Outros esperam ansiosos pela sexta feira. O dia em que eu tenho uma relação especial   de ‘amor e ódio’  é a quinta feira, não me pergunte porquê, pois eu não saberia te explicar.  Mas as quintas feiras me deixam meio estranha, um pouco  mais melancolicamente feliz. É sempre na quinta feira que eu sinto mais prazer em sofrer, é sempre na quinta feira  que eu  me permito alguma loucura fora do normal, é sempre na quinta feira que sinto saudade de mim, que gosto e preciso ficar só, que tenho mais vontade de beber, que gosto de escrever. É sempre numa quinta feira que penso na  vida e na morte. Se eu fosse me matar seria numa quinta feira. E nem preciso estar de tpm...

MANIFESTO HOMENS LIBERTEM-SE! - Puig Nico

- Quero o fim da obrigatoriedade ao Serviço Militar.
- Posso broxar. O tamanho do meu pau também não importa.
- Posso falir. Quero ser amado por quem eu sou e não pelo que eu tenho.
- Posso ser frágil, sentir medo, pedir socorro, chorar e gritar quando a situação for difícil.
- Posso me cuidar, fazer o que eu quiser com a minha aparência e minha postura, cuidar da minha saúde, do meu bem estar e fazer exame de próstata.
- Posso ser sensível e expressar minha sensibilidade como quiser.
- Posso ser cabeleireiro, decorador, artista, ator, bailarino; posso me maravilhar diante da beleza de uma flor ou do voo dos pássaros.
- Posso recusar me embebedar e me drogar.
- Posso recusar brigar, ser violento, fazer parte de gangues ou de qualquer grupo segregador.
- Posso não gostar de futebol ou de qualquer outro esporte.
- Posso manifestar carinho e dizer que amo meu amigo. Quero viver em uma sociedade em que homens se amem sem que isso seja um tabu.
- Posso ser levado a sério sem ter que usar uma gravata; posso usar saia se eu me sentir mais confortável.
- Posso trocar fraldas, dar a mamadeira e ficar em casa cuidando das crianças.
- Posso deixar meu filho se vestir e se expressar ludicamente como quiser e farei tudo para incentivá-lo a demonstrar seus sentimentos, permitindo que ele chore quando sentir vontade.
- Posso tratar minha filha com o mesmo grau de respeito, liberdade e incentivo com que apoio meu filho.
- Posso admirar uma mulher que eu ache bela com respeito, sem gritaria na rua e me aproximar dela com gentileza, sem forçá-la a nada.
- Eu sei que uma mulher está de saia - ou qualquer outra roupa - porque ela quer e não porque está me convidando para nada.
- Eu sei que uma mulher que transa com quem quiser ou transa no primeiro encontro não é uma vadia, bem como o homem que o faz não é um garanhão; são só pessoas que sentiram desejo.
- Eu nunca comi uma mulher; todas as vezes nós nos comemos.
- Eu não tenho medo de que tanto homens como mulheres tenham poder e ajo de modo que nenhum poder anule o outro.
- Eu sei que o feminismo é uma luta pela igualdade entre todos os indivíduos.
- Eu nunca vou bater numa mulher, não aceito que nenhuma mulher me bata e me posiciono para que nenhum homem ou mulher ache que tem o direito de fazer isso.
- Eu vou me libertar, não para oprimir mais as mulheres, mas para que todos possamos ser livres juntos.
- Eu fui ensinado pela sociedade a ser machista e preciso de ajuda para enxergar caso eu esteja oprimindo alguém com as minhas atitudes.
- Eu não quero mais ouvir a frase “seja homem!”, como se houvesse um modelo fechado de homem a ser seguido. Não sou um rótulo qualquer.
- Quero poder ser eu mesmo, masculino, feminino, louco, são, frágil, forte, tudo e nada disso. E me amarem e aceitarem, não por quem acham que eu deva ser, mas por quem eu sou. E por tudo isso, não sou mais ou menos homem.
- Quero ser mais que um homem, quero ser humano!
- O machismo também me oprime e quero ser um homem livre!