domingo, 31 de janeiro de 2016

Diego Moraes

Agora não adianta ofender
arranhar a pele
quebrar os discos do beck
agora não adianta escrever
pregar bilhetes na porta da geladeira
agora não adianta pegar leve na cocaína
agora não adianta falar em rehab
agora não adianta chorar
sentado na sarjeta do meu bar predileto
agora não adianta dedicar poemas
agora não adianta jogar as cinzas do Marbolro no ralo da pia
agora não adianta comprar a obra completa de Walt Whitman para ler nas férias abraçado contigo no sítio dos meus pais
agora não adianta obturar os dentes
agora não adianta prometer coisas que só o amor promete.

Diego Moraes

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Cecília Marazano, no livro Se eu acredito, existe."


“o abraço

Você pode mentir e omitir sobre o que quiser, mas tem uma coisa sobre a qual você não pode falar nada: você falou um monte de asneira, a gente nem se beijou naquela noite, mas caso você não se lembre, te lembro eu aqui , que enquanto você  dormia, me abraçou na madrugada. Pode ter sido mil coisas aquele abraço na madrugada enquanto você dormia meio bêbado: pode ter sido pura carência, e pode ser que você abraçaria até um cachorro que estivesse dormindo ao seu lado. Só que é ai que a história fica legal, por que até ali nunca ninguém havia me abraçado no meio do sono na madrugada, e acho que foi ali que a minha carência bateu com a sua, pois justo naquela hora em que você procurava por alguém por abraçar enquanto dormia, eu também buscava alguém que me abraçasse até mesmo dormindo. É provável que você nem se lembre desse abraço (na verdade, abraços). Mas eu lembro bem e independente do andar da carruagem, e do rumo que a vida tome pra cada um de nós, é certo que é desse abraço que eu vou lembrar, mas do que de todos os outros.

 São coisas bem pequenas que revelam a pessoa. Eu sempre peço a Deus (ou ao diabo), que abra meus olhos para as pequenas coisas, para os detalhes. Que eles me tragam as ‘manhas’. E acho que eles me atendem, ou ao menos me atendem quando me interessa. Eu vejo cada detalhe, e me demoro neles por longos dias...

Aquela noite tá me martelando, há mais de um mês. E me lembro daquela citação de Bukowski em que ele diz “Depois me abracei a Cass e dormimos encostados um no outro durante quase uma hora. Não sei por quê, mas foi melhor do que se tivéssemos transado." Foi mais ou menos isso que senti. O seu abraço meio ‘inconsciente’ naquela madrugada foi melhor do que se tivéssemos transado.”

"O negócio é que você tem as palavras certas. Falando assim, até parece que ter as palavras certas é uma coisa simples, mas não é. Faz tempo que busco por elas e pra te ser sincera, acho que eu ainda não as tinha ouvido, eu procurava por elas no escuro e sabia que quando eu as ouvisse, iria reconhecê-las. Quando você as diz, por um breve momento, tudo parece ter sentido e todo o resto some. Fico diante de você e de suas palavras e isso basta."