domingo, 1 de dezembro de 2013

O medo - Rubem Alves, no livro O sapo que queria ser príncipe.




José Castello, nos livros que escreveu sobre o Vinicius, referiu-se “a religião daqueles padres cinzentos, jesuítas, que só se impõe pela intimidação”. Intimidar é provocar medo. Essa tem sido a técnica favorita da igreja para ganhar conversos: ou a intimidação do Inferno ou a intimidação da fogueira.
            Dos meses que passou na prisão aguardando ser enforcado, Dietrich Bonhoeffer, um protestante que participou de um atentado frustrado para assassinar Hitler, pensou sobre o assunto. Ele observou que o cristianismo não tem mensagens para as pessoas saudáveis, fortes e felizes. Gente forte e feliz não se converte. É preciso primeiro destruir a sua força e felicidade por meio da intimidação. É somente então que as igrejas tem o que dizer.
            O poeta inglês William Blake detestava padres e pastores e lhes dedicou esse aforismo: “A lagarta escolhe as folhas mais bonitas para nelas botar os seus ovos; como o sacerdote que bota a sua maldição nas alegrias mais bonitas.”
            A imagem é grosseira mas não é minha, é do apostolo Paulo: as coisas que somos e que julgamos boas não passam de excrementos. Na igreja Presbiteriana, os adultos que se candidatam ao batismo devem responder de forma afirmativa à seguinte pergunta que o pastor lhes faz diante da congregação: “confessais que sois nascidos em pecado e incapazes de fazer o bem?”. O candidato responde: “sim, confesso.” Cá entre nós, eu não acredito que eles acreditem no que confessam...
            Pesquisas empíricas já demonstraram que igrejas liberais, sem casuísmos e ameaças, não crescem. Crescem aquelas que pregam o medo do inferno. Hobbes observou que há um único poder que comanda o comportamento das pessoas: o medo. É o medo, e não o amor, que torna a sociedade possível. As igrejas que mais crescem não são aquelas que pregam o amor, são aquelas que ameaçam com o medo. Os evangelistas que se tornaram famosos pelo seu poder de converter eram aqueles que pregavam horrores. Finney foi um famoso pregador avivalista norte-americano que arrastava multidões. Relata-se que as descrições que do Inferno eram tão vívidas que os ouvintes se agarravam aos bancos da igreja para não cair dentro dele.
            Hoje as coisas mudaram. Parece que as pessoas não se preocupam muito com a vida futura, Céu e Inferno. Essa vida futura é coisa tão incerta... As igrejas “evangélicas” descobriram que não é mais o medo que impulsiona as conversões: é a esperança do milagre. E milagre não é coisa do outro mundo. No outro mundo não há milagres. Milagres são coisas desse mundo. Dostoievski já observava que não é Deus que os homens procuram. São os milagres que ele pode fazer. Um Deus que não faz milagres está condenado à solidão.
            Todo o edifício do pensamento cristão é construído sobre a ideia do Inferno. Retire-se a ideia do Inferno do cristianismo e o cristianismo acaba. Sem o inferno, todas as doutrinas e dogmas perdem o seu sentido: a encarnação, a morte de Cristo na cruz, a Igreja, os sacramentos. Sem o perigo do Inferno por que haveria alguém de se converter? Converter-se ao cristianismo é colocar o Inferno no centro da alma e no centro do universo.

3 comentários:

  1. Apesar de católica , concordo com o que disse .Querem nos fazer crer que as pessoas não conseguem ser boas sem o medo da punição .

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. pois é. Gosto muito das coisas que o Rubem escreve. Concordo também com isso.

      Excluir
  2. Perfeito!
    E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará... A verdade está na fuça de quem prescrutar!

    ResponderExcluir