sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Volkswagen Kombi 1966 - Charles Bukowski



E lá se vai Bach novamente, mas
alguém se pergunta o quão mais nós conseguimos aguentar?
É boa música
ótima música,
mas o eu quero dizer e pergunto:
quão mais nós seremos capazes de ouvir
o que ele nos tem a dizer?
pontos de interrogação às vezes
são desencorajadores.
à medida que nos tornamos mais e mais
desapegados
gigantes como Bach desaparecerão
de nossos pensamentos e vidas e
o sabor e toque de sua música
será como encontrar o meu amor morto
apenas morto
olhos fechados
seu corpo ainda macio
ainda quente
seu cabelo escorrendo pelo meu antebraço.

Eu ouço Bach sempre que posso
e meu amor está vindo pra cá essa noite
dirigindo sua Volkswagem Kombi 1966
enquanto eu tomo vinho e espero.

Seu cabelo tem a cor mais estranha:
vermelho misturado com dourado
que como exércitos conquistadores
esmagam caramujos
esmagam narcisos.

Ela tem mãos pequenas
pés pequenos.

Nós brigamos.
Às vezes rimos.

Estou ouvindo Bach agora.
A música pára.

Ela dirige aquela maldita Kombi como um
barco a remos contra a correnteza.

Se ela ouvisse o meu coração
ela iria mais devagar
muito mais devagar.

Por favor me deixe morrer
primeiro porque
eu sou mais velho
muito mais velho.

Ouça Bach, meu deus e seu deus
são reais, mas
apenas úteis aos jorros.
Eu quero que você me
diga que tudo está
bem
e que seus cabelos vermelho e dourado estarão
espalhados
sobre o meu travesseiro de novo.

Seus pés pequenos
suas mãos pequenas
seus dedos acariciando meus olhos e
orelhas e seu sorriso me confortando.

Tradução: Jão - O Homem que não tem Facebook

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