sábado, 19 de abril de 2014

Citações - Memórias de minhas putas tristes - Gabriel García Márquez



“é um trunfo da vida que a memória dos velhos se perca para as coisas que não são essenciais, mas raras vezes falhe para as que de verdade nos interessam. Cicero ilustrou isso de uma penada: não há ancião que esqueça onde escondeu seu tesouro.”

“Nunca me deitei com mulher alguma sem pagar, e as poucas que não eram do ofício convenci pela razão ou pela força que recebessem o dinheiro nem que fosse para jogar no lixo.”


“e a vi por acaso inclinada no tanque com uma saia tão curta que deixava a descoberto suas coxas suculentas. Presa de uma febre irresistível levantei-a por trás, baixei suas prendas até os joelhos e avancei pelos fundos. Ai, senhor, disse ela, com um queixume lúgubre, isso não foi feito para entrar, mas para sair. Um tremor profundo percorreu seu corpo, mas se manteve firme. Humilhado por tê-la humilhado quis pagar a ela o dobro do que custavam as mais caras daquele tempo, mas não aceitou nem um tostão, e tive que aumentar seu salário com o cálculo de uma montada por mês, sempre enquanto lavava a roupa e sempre pela retaguarda.”


“A quem me pergunta respondo sempre com a verdade: as putas não me deram tempo pra casar.”

“Entenda de uma vez por todas, disse eu, tive uma noite tão difícil que amanheci emburrecido.”

“Maldição, pensei, como o rubor é desleal.”

“pensei que um dos encantos da velhice são as provocações que as amigas jovens se permitem, achando que a gente está fora de jogo.”

“Tenho uma química ruim com os animais, do mesmo jeito que com as crianças assim que começam a falar. Acho que são mudos de alma. Não os odeio, mas não consigo suportá-los porque não aprendi a negociar com eles. Acho contra a natureza que um homem se entenda melhor com seu cão do que com sua esposa, que o ensine a comer e a descomer na hora certa, a responder perguntas e a compartilhar suas penas.”

“... e senti na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram.”

“O chofer me preveniu: Cuidado, sábio, nessa casa matam gente. Respondi: se for por amor, não importa.”


“Graças a ela enfrentei pela primeira vez meu ser natural enquanto transcorriam meus noventa anos. Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligencia; que pareço generoso para encontrar minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim que o amor não é um estado de alma e sim um signo do zodíaco.”

“Incrível: vendo-a e tocando-a em carne e osso, me parecia menos real que em minhas lembranças.”

“a fama é uma senhora muito gorda que não dorme com a gente, mas quando a gente desperta ela está sempre olhando para nós, aos pés da cama.”

“o sexo é o consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança.”

“se tem uma coisa que detesto nesse mundo são as festas obrigatórias em que as pessoas choram porque estão alegres, os fogos de artificio, as musiquinhas chochas, as grinaldas de papel de seda que não tem nada a ver com um menino que nasceu há dois mil anos num estábulo indigente.”

“eu sempre havia precisado do silencio para escrever porque minha mente atendia mais à música que à escrita.”

“passei uma semana inteira sem tirar o macacão de mecânico nem de dia nem de noite, sem tomar banho, sem fazer a barba, sem escovar os dentes, porque o amor me mostrou tarde demais que a gente se arruma pra alguém, se veste e se perfuma pra alguém, e eu nunca tinha tido para quem.”

“havia achado, sempre, que morrer de amor não era outra coisa além de uma licença poética.”






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