domingo, 29 de março de 2015

Reinaldo Moraes, no livro Tanto faz & Abacaxi



“Um exilado amigo meu comparou a angustia a um urso negro que chega de mansinho por trás do freguês e lhe toca o ombro com a pata felpuda. De leve. Se o sujeito bobear, o urso lhe pula em cima, faz o maior estrago. Um perigo.

Pra mim, a angustia é um gato vira-lata com patas de pluma e corpo de chumbo. Sinto suas andanças dentro da caixa do peito, mas nunca sei onde ele está exatamente.”

“A gente se gosta sem alarde, sem futuro.”

“Ontem o sassarico rendeu que foi uma beleza. Tem horas que esse negócio de sexo até que dá certo. Acho que perdi a obsessão da penetração. Estou pondo em prática as teorias antimachistas que ajudo o Chico a desenvolver nas mesas de bar. Não estou mais dando muita bola pro meu pau. Quer subir, sobe; não quer, foda-se. Penso em outra coisa. Chega de fissura na cama, adiar meu gozo pra companheira gozar duzentas vezes, dar logo a segundinha, a terceira, a quarta... a milésima. Mostrar serviço. Never more, major. Não sou cowboy nem cangaceiro. Quero ser um dândi suave, feminino, distraído. Mulher entre as mulheres. O lésbico de que falava Baudelaire.”

“- Os amantes? Ora, os amantes... os amantes são aqueles canalhas adoráveis em quem o homem e a mulher pensam quando estão trepando com os respectivos cônjuges.”

“ – Mas é justamente esse o grande dilema da puta da vida, Marisa: ser cônjuge ou ser amante? Ter marido pode até ser muito confortável pra uma mulher, e vice versa. Alguém devia pesquisar os casamentos ditos felizes para saber como é que funciona esse troço. Porque eu conheço muitos casamentos que se seguram nos ganchos mais loucos. O Chico mesmo tem uma prima casada que recebe uma mesada especial do marido adivinha pra fazer o quê?
- Menor ideia.
- Pra coçar o saco do cidadão antes de dormir. Verdade; a fulana faz-lhe um cafuné no saco e o cara dorme de perna aberta, feliz como um buda depois de uma feijoada. E, como esse, deve ter porradas de casamentos que se seguram nessas artes, numa bela chave de buceta, no tamanho privilegiado de um cacete. Cê não acha?”

“- Me recuso a dar pro carinha, de manhã, se ele já acordar de pau ready-made. Tesão de mijo não vale. Tem que começar do zero.”


“Meu coração vai explodir qualquer dia desses e abrir um buraco no meu peito, como esses que se abrem no meio da rua quando se rompe um duto de águas públicas no subsolo.”



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