“Sartre deixara claro desde o início que a monogamia não o
interessava. Gostava de mulheres (muito mais que de homens, sempre dizia) e não
pretendia parar de ter casos aos 23 anos. Nem Beauvoir deveria fazê-lo, disse. O
amor que tinham um pelo outro era ‘essencial’ e fundamental. Eles eram ‘dois da
mesma espécie’, um o duplo do outro, e seu relacionamento seguramente duraria a
vida inteira. Mas não deveriam privar-se do que chamavam ‘casos contingentes’,
ou seja, secundários e mais arbitrários.
Sartre estava convencido de que o amor não era possessão. Para
ele, um tipo mais generoso de amor significava amar a outra pessoa como um ser
livre. Quando Beauvoir levantou a espinhosa questão do ciúme, Sartre disse que,
se contassem tudo um ao outro, um nunca se sentiria excluído da vida do outro. Não
deveriam ter segredos. Em casos amorosos, dúvidas, inseguranças e obsessões,
deveriam ter como objetivo a abertura total. Ele chamava isso de ‘transparência’.
Beauvoir achou a ideia tão assustadora quanto estimulante. Valorizava
a verdade e a sinceridade, mas também dava muito valor a sua vida interior. Na adolescência,
aprendera a guardar os pensamentos para si mesma. Há muito tempo deixara de
contar seus pecados ao padre confessor. Contudo, lá estava Sartre querendo que
ela compartilhasse seus pensamentos – todos – com ele.”
Simone de Beauvoir e Jean Paul Sartre Tête-a-tête, de Hazel
Rowley

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