Como recolher o leite derramado?
“Tinha a impressão de que
todo mundo estava me vendo e, também, uma sensação esquisita de vergonha. De
ser culpado, uma bosta, a quem faltava qualquer coisa, feito formiga mijada ou
bala de metralhadora que não acerta o alvo.”
Buk fala isso depois de uma situação em que estando bêbado, é levado por
dois policiais para a delegacia e seus
vizinhos ficam olhando da janela.
Sempre que penso na “igreja” tenho essa mesma sensação. Não posso nunca
negar o tanto que fizeram por mim. Se não fosse por eles hoje eu provavelmente não
estaria aqui. É quase certo que minha vida teria tomado outro rumo. Estaria eu
ainda lá na minha cidadezinha, casada, com dois filhos e talvez pensando em
fazer faculdade agora, ou talvez já tivesse feito com muito esforço a alguns
anos atrás. As coisas pra mim nunca acontecem de uma forma esperada e fácil. Sigo
os mesmos caminhos que a maioria mas parece que chego a outros lugares. Quem
poderia imaginar que vindo pro Rio fazer faculdade em um seminário pago por uma
igreja, eu iria tomar outro rumo na vida e usar o que aprendi lá pra me
distanciar da própria igreja? Me sinto como quem cospe no prato que comeu.
Não que alguém me cobre com palavras e na verdade nem com olhares, pois
tenho me mantido tão covarde que não os tenho encarado ha tempos. Acho que isso
que sinto é reflexo do que eu mesma pensaria de alguém que estudou uma
faculdade paga por uma igreja e depois voou pra longe. Mas acho bom eu já estar
numa fase de decisões, mesmo que elas possam mudar com o tempo e que elas não
tenham sido as melhores possíveis. Fiquei anos tentando acreditar que eu ainda
fazia parte, dando murro em ponta de faca, me forçando a acreditar nas velhas
coisas. Mas tem coisa que não volta mais. Por mais que você se esforce e que
tente, é em vão. O leite derramado, tá derramado. Peguei um pano enxuguei,
espremi de volta dentro do balde, mas o leite não era mais o mesmo. Não dava
nem pra beber. Ainda não joguei o leite fora. Tá lá. Mas o que fazer com ele eu
ainda não sei.
Engraçado e trágico é que o seminário me libertou de uma prisão que tinha
sido criada pela própria igreja. Talvez se eu nunca tivesse ido pra igreja,
nunca teria entrado nessa prisão. A igreja me fez muito bem, mas também me fez
muito mal. Me trouxe amigos que amo até hoje e que se não fosse por ela talvez
não os teria conhecido, provei amor, carinho, encontrei apoio em momentos de
fraquezas. Mas essa mesma igreja também me privou de muitos amigos que poderia
ter tido, me privou de muitas experiências que eu poderia ter vivido e delas
sinto uma falta que não pode ser preenchida tardiamente. Mas o pior mesmo e
mais triste é que sinto que ela me privou de pensar, perdi anos sem pensar. Várias
questões internas, pensamentos, já poderiam estar resolvidos e não estão. Deixei
de ler tanta coisa, deixei de provar tanta coisa. Espero que dê tempo ainda de
recuperar algumas coisas.
Algumas coisas simplesmente são como são, acontece sem se quer percebemos, logico que temos nossa parcela de culpa...Mas o leite foi derramado e só percebemos quando saímos de nossa aconchegante zona de conforto...E nunca é tarde de mais...http://www.youtube.com/watch?v=8pQ4Bu700Bw
ResponderExcluirUm bom texto o seu!