Tem
uma parte de mim que queria ficar. Sempre teve uma parte de mim que
quis ficar. Mas eu não nego que tinha uma parte que queria ir embora.
Tinha uma parte que tava cumprindo tabela. Que se arrastava de bar em
bar e que não queria voltar pra casa. Porque não
tinha mais nada lá. Então eu entendo guitarristas que tocam baladas à
beira do abismo. Entendo sujeitos que entregam os pontos, que blefam
porque sabem que vão perder. Tem uma parte de mim que não julga ninguém.
Mas tem uma parte de mim que me condena todas as noites quando repouso
os olhos numa gravura de Hopper, como se eu não fosse merecedor de tal
visão. A verdade é que eu não tava gostando da minha vida e do jeito que
eu a conduzia. Não tinha nenhum orgulho do sujeito que eu tinha me
transformado. E naquela noite eu só tava procurando um motivo. E ele
veio. Quatro caras entraram no bar e armados tocaram o terror. Todo
mundo tinha que deitar no chão. Eu tava com uma garrafa de Jack na
cabeça, quatro fantasmas suicidas ancorados no meu ombro e meia dúzia de
sentenças irrevogáveis que eu mesmo me havia impingido. Então eu não
era o cara que ia deitar no chão. O sujeito com a arma na mão não gostou
do fato de não ser prontamente obedecido e me desferiu uma violenta
coronhada na cabeça. Tem um lugar na minha cabeça que não nasce cabelo
nunca mais. Muitos me acusam de ser um puta miolo mole. Outros me acham
um tremendo cabeça dura. Depois dessa noite, creio que a segunda
acusação faz muito mais sentido. Levei a coronhada, assimilei, levantei e
parti pra cima do cara. Foi assim, simples. Então não quero e nem
mereço a fama de herói que alguns tentaram me imputar. E nem a fama de
irresponsável que outros resolveram me atribuir. Eu simplesmente reagi
humanamente e instintivamente à uma agressão. Nada além disso. Levei
três tiros e mesmo assim não apaguei. Eu tenho dificuldade pra dormir,
deve ser isso. Só durmo fácil em mesa de bar. Em vez dos caras me
agredirem, deviam ter me dado logo mais uma dose de Jack. Eu teria
capotado na mesa e nada disso teria acontecido. Passei três dias em coma
e só quando acordei, foi que percebi que Deus adiou minha passagem.
Acho que Ele acha que eu ainda tenho algumas contas a pagar por aqui. E
ali na cama do hospital, derrotado, sozinho e olhando pro teto do quarto
de madrugada, sem conseguir dormir, percebi que nada é tão importante
assim. Tem gente que escreve um livro e acha que fez algo muito
importante. Tem gente que faz um gol no final de um campeonato e acha
que fez algo muito importante. Tem gente que se elege presidente da
república e acha que conseguiu algo muito importante. Eu vou dizer, não
há nada muito importante. A vida é só uma vinheta, um haikai perto da
eternidade. Então talvez o que valha mesmo no fim das contas são os
segundos que você passa apreciando uma gravura do Hopper ou aquela gota
de suor que escorre pro umbigo da mulher que você ama. O que vale são os
pequenos detalhes. O que vale não é o poema, é o verso que resume todo o
poema. O que vale não é a peça de teatro que escrevi. É ficar esperando
a peça inteira pra dizer aquela fala. A fala exata, aquela que eu
sempre quis dizer, e por isso acabei escrevendo uma peça inteira só pra
poder dizer. O que vale ainda é a dose de whisky que eu vou beber
sozinho ouvindo Tom Waits. Quando todos já tiverem ido pra um bar mais
movimentado onde possam se socializar com mais e mais pessoas porque os
nosso semelhantes tem essa estranha necessidade de estarem sempre
juntos. Não me dou bem com alcatéias ou manadas. No fim, a certeza é de
que o cavalo branco vai avançar na pradaria e é providencial que você
esteja preparado com um bule de café, algumas canções do John Lee Hooker
e meia dúzia de cervejas no isopor. Não espere que ninguém esteja perto
de você. No fim, você sabe que vai sozinho. Então é melhor você se
acostumar a viver sozinho. Há um vagão vazio no trem de carga que vai te
levar. Seu nome está gravado nas paredes. Você só tem que pegar a vida
que ainda tem pela mão como se fosse uma criança desamparada e leva-la
pra um lugar com mais luminosidade. Se você teve uma vida, é bom que
tenha orgulho dela. E se teve duas, a responsabilidade é ainda maior. Já
pensou nisso?
Mário Bortolotto
Verão de 2.013.
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